quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Alunos contra o AO


Transcrição das intervenções de estudantes da Escola Secundária da Amadora na audiência de 21.02.13 no Grupo de Trabalho parlamentar sobre o AO90.


«Sou a Carina Moutinho e sou aluna também do secundário do 11º ano.

Basicamente, o nosso objectivo é mostrar-vos o nosso profundo desagrado com a implementação do novo acordo ortográfico. Há um grande descontentamento. Passamos assim a um conjunto de problemas mais concretos:

Na leitura, palavras que antes eram banais e que nós utilizávamos normalmente começaram a tornar-se confusas com outras e, ao mesmo tempo, eram palavras completamente novas, palavras novas que nós antes, afinal, utilizávamos sempre na nossa rotina e isso agora já não acontece.»



«Sou a Inês Valdoleiros, 11º ano, ESA

Acerca desta leitura que nós temos que fazer constantemente nas aulas, falamos então de uma simples apresentação de um livro numa aula de Português ou até na simples leitura de um texto pedido pela professora. Há certas frases com que nos temos vindo a deparar, como por exemplo, “o comboio pára em todas as estações” – esta frase pode ser igual lida assim, mas fora do contexto, este “pára” pode-nos levar para o “comboio para”. E como podemos ver então, um simples acento, muda o sentido da frase.»



[Provavelmente, de novo Carina Moutinho]

«Sendo assim, já que falamos nos acentos, passamos assim a outro âmbito, ao âmbito da escrita, em que chegámos à conclusão que não sabemos o que fazer, é uma grande confusão. Não sabemos se havemos de tirar letras, de pôr, se tirar os acentos ou não, e é muito triste chegarmos a esta altura e nós não sabermos como havemos de escrever a nossa própria língua, e acho que isso não está a favorecer grande coisa.

Também nos deparamos com textos nos nossos manuais em que alguns adoptam o novo AO e outros não, e ficamos confusos, porque afinal em que é que ficamos?

Esta dúvida constante acerca de como havemos de escrever as nossas simples composições da escola, digamos que não nos está a deixar muito contentes com esta presente situação, e era isso que nós vínhamos aqui também dizer que para nós não é muito bom mudarmos a nossa língua, e a língua que aprendemos no primeiro ciclo e que temos vindo a aprender para apenas facilitar a comunicação com países como o Brasil e os Palops e a nossa opinião é que, mudarmos a nossa língua agora, a meio da nossa vida, é como mudarmos as nossas origens.
Sinceramente nós duvidamos que com todas essas mudanças haja alguém que consiga escrever realmente com todas as regras do novo AO sem ter o novo corrector, sem ter o corrector, pronto, no computador ou sem estar sistematicamente a ver quais é que são essas regras. Para além do mais nós também não conseguimos compreender que com tantas coisas para mudar, porque razão mudar a nossa língua? Penso que não havia necessidade para tal.
Concluímos assim que não queremos que seja apenas, que pensem apenas que somos só nós os quatro que temos essa opinião, mas sim toda a escola e todas as outras escolas, porque sempre que falamos sobre este assunto há sinceramente um grande descontentamento entre todos.
Portanto, a gente pedia que vocês reflictam sinceramente sobre este assunto, porque se pensam que esta mudança vai provocar um melhor aproveitamento para os alunos e tudo mais, não está realmente a resultar.»



«Sou o Pedro Silva, sou também aluno da ESA.

Em termos mesmo do acordo, portanto, o acordo, como já foi dito pelas minhas colegas, serve também para facilitar as comunicações e uniformizar o português globalmente, portanto, termos uma língua mais semelhante. Mas penso que tal não seja necessário. Como também já a minha professora disse, cada cultura, dependendo das outras com que contacta, vai absorvendo características diferentes. E à medida que uma cultura evolui, ela pode mudar. E mudando a cultura, não precisamos de estar constantemente a uniformizar tudo. Temos por exemplo o Latim. Hoje em dia, sabem, há várias línguas que são línguas latinas, todas baseadas na mesma original. Mas, à medida que essas culturas foram evoluindo entre si, as línguas foram-se cada vez mais separando e se, talvez, daqui a muitos anos, se se vir que as línguas, o português de Portugal e o português brasileiro, são diferentes o suficiente para se [ininteligível] uma à outra, uma língua diferente, que seja, que falemos outra. Mas não é preciso estarmos a mudar as nossas culturas só para termos algo mais em comum com a outra, quando já não existe nada assim.»

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

Grândola e a democracia formal


Coelho e Gaspar são seres ocos de alma. Actuam como robots, insensíveis às pessoas que abalroam. Quando se espetam na realidade, ficam ali, obcecados, empurrando o que não se move, moendo carretos, como os bonecos de corda da minha infância. Só mudam quando os senhores do dinheiro os reprogramam. Trocados os chips moídos, voltam à sugagem solipsista para que foram preparados. A obra-prima de Relvas foi levá-los ao Governo. Imagino-o produzindo-a, ora de avental, no secretismo da organização, ora de iphone à boca, injectando no tutano da fibra óptica a baba com que foi tecendo a conveniente teia partidária. Visto, cola-se-lhe à figura a falsidade e a falta de ética. “Ouvisto”, sobram as banalidades. Mas confrontá-lo com a “Grândola, Vila Morena” inquietou os defensores da democracia. Que democracia? A formal. A do “da” e do “de”, agora destrinçados pela fina porfia presidencial, em tempo certo, oito anos passados. Ao apreciarem os factos, esqueceram que há outra democracia: a que a alma imensa de Zeca Afonso cantou. 

No Clube dos Pensadores, primeiro, no ISCTE, depois, Relvas foi interpelado pela canção de Abril. No primeiro caso reagiu, cantando-a alarvemente. No segundo, foi, por uma vez, autêntico: fugiu, cobardemente. Quem disse que Relvas foi impedido de falar? Ao fim de dois minutos e 27 segundos de protesto, bateu em retirada. Na Assembleia da República, Passos ouviu e falou. Em Vila Nova de Gaia, o próprio Relvas ouviu e falou. No Porto, Paulo Macedo ouviu e falou. No ISCTE, Relvas ouviu e fugiu. Estes são os factos. O mesmo discurso que incensou a paciente resiliência da polícia, que guardava a Assembleia da República a 14 de Novembro de 2012, regressou agora, perene de hipocrisia. Então, justificou-se hora e meia de apedrejamento da polícia, por delinquentes comuns, com a tolerância democrática. Agora, dois minutos e 27 segundos de ruidoso mas pacífico protesto chegaram para decretar um inaceitável “atentado à liberdade de expressão”. Então, lavou-se uma carga policial bruta e desproporcionada. Agora, os moralistas do bloco central transformaram o algoz em mártir. Quem veio em socorro de Relvas talvez preferisse um país em coma induzido, que passasse pelas suas diatribes sem sobressalto cívico. Por isso criticaram os estudantes do ISCTE. Entendamo-nos, sem paixão. 

Naquela plateia estavam filhos de famílias endividadas e espoliadas por gente que, para ganhar as eleições, mentiu sem pudor, jurando publica e repetidamente que nunca faria o que, com frieza de arrepiar, está a fazer. Naquele palco estava uma figura grotesca, alma gémea e lídima representante do primeiro-mentiroso de um Governo que semeia desigualdade, fome e desemprego. 

Naquela plateia estavam estudantes que pagam as mais altas propinas da Europa a um Estado que lhes reserva o desemprego e a emigração como futuro. Naquele palco estava um licenciado que não precisou de ser estudante. 

Naquela plateia estavam estudantes que, uma vez na vida, tinham a hipótese de exercer publicamente a sua liberdade de expressão. Naquele palco estava o homem que tem os microfones que quer, sempre que quer, e que teve o poder de calar o jornalista Pedro Rosa Mendes, porque disse o que não lhe agradou, e o desplante de ameaçar a jornalista Maria José Oliveira, porque ia dizer o que não lhe convinha. 

Naquela plateia estiveram os novos pobres, de raiva a crescer nos dentes. Daquele palco fugiu um novo-rico, de medo a crescer no rabo. 

Esta foi a cena que Santos Silva e Assis, vivendo cá, leram mal. Esta foi a cena que a objectiva da vice-presidente da comissão Europeia, Viviane Reding, passando por cá, fixou assim: “Feliz é o país que protesta com uma canção”. 

Francisco Assis era bebé em 1969, e Augusto Santos Silva saía da puberdade na mesma altura. Mas são homens cultos, que conhecem, pela história, o movimento académico iniciado em Coimbra, em 17 de Abril desse ano. As diferenças abissais entre a ditadura real daquele tempo e a democracia formal de agora, justificarão que sejam generosos para com o colega de partido, Alberto Martins, que interrompeu o Presidente da República, durante a inauguração do Edifício da Matemática. Um e outro não podem ignorar, também, que a dinâmica de toda a academia se sobrepôs, então, às vanguardas mais activas e organizadas. Pode, pois, ser essa consciência que justifica a severidade com que julgaram a atitude dos estudantes do ISCTE. É que ambos sabem que a alternância de primeiros-ministros, em 38 anos de democracia, resultou do querer de escassos 83 mil militantes do PS, 113 mil do PSD e 30 mil do CDS, num país com quase nove milhões de eleitores. Reverenciar a reverência a funções, que podem vir, ou voltar, a desempenhar, fruto desta lógica, afigurou-se-lhes prudente. 

Santana Castilho

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

De tarde



Urbano Tavares Rodrigues considera o poema "De Tarde" um "exemplo de arte parnasiana, narrativa e plástica, desejosa de naturalidade e de plena consecução formal".
A primeira quadra é a introdução do poema. Nos dois primeiros versos, o determinante demonstrativo "Naquele" (em + aquele = contracção da preposição “em” com o determinante demonstrativo “aquele”) e a forma verbal no Pretérito Perfeito o Indicativo "Houve" remetem para o passado, instaurando a memória como meio de representação poética. Nesta quadra introduzem-se ainda dois motivos que percorrem o texto: a simplicidade "uma coisa simplesmente bela / E que, sem ter história nem grandezas" e o carácter plástico da cena descrita "bela", "dava uma aguarela"; a simplicidade e o prazer estético aliam-se para justificar a descrição desta experiência vivida pelo sujeito poético, como se confirmará na última estrofe.
O poema esboça uma narrativa. É possível verificar a existência de categorias próprias do discurso narrativo, tais como: espaço (campestre) - "um granzoal" (v. 7), "em cima duns penhascos" (v. 9); tempo - "De tarde" (título), "Pouco depois... /...inda o sol se via" (vv. 9-10); personagens -"burguesas" (v. 1), "tu" (v. 5), "Nós" (v. 10); acção - um "pic-nic" (v. 1), "descendo do burrico, / Foste colher... (...) / Um ramalhete rubro de papoulas" (vv. 5 a 8), "Nós acampámos (...) / E houve talhadas de ..." (vv. 9 a 12)
A utilização destes elementos narrativos permite a criação de dois quadros: 1.º quadro (2.ª estrofe) - a burguesa, que desceu do burrico, colhendo papoulas; 2.º quadro (3.ª e 4.ª estrofes) - o "pic-nic", em cima dos penhascos, destacando-se a imagem do ramalhete de papoulas saindo do decote da "burguesa".
sugestões pictóricas relativas a: linhas - horizontal - o "granzoal" / vertical - os "penhascos"; volumes - "o ramalhete", "talhadas de melão", "damascos", "seios"; cor - "granzoal azul", "ramalhete rubro", "talhadas de melão" / "damascos" (sugestão de tons amarelados), "todo púrpuro", "a sair da renda / Dos teus dois seios" (sugestão de branco). A descrição é feita com base em sensações, sobretudo visuais: percepção visual explícita - cores, elementos do cenário (melão, damascos), "inda o sol se via"; percepção gustativa implícita - referência aos alimentos ( "E pão-de-ló molhado em malvasia" ).
A musicalidade do poema é obtida através das rimas (cruzadas), do ritmo dos versos e do recurso à aliteração: " A um granzoal azul de grão-de-bico", "Um ramalhete rubro de papoulas", "E houve talhadas de melão, de damascos, / E pão-de-ló molhado em malvasia"

sábado, 23 de fevereiro de 2013

Segredos de céu



Trouxe este poema daqui! Dêem uma espreitadela ao blogue do Nilson que vale a pena!


Ondulante e insinuante

[mesmo recortada de sombras],

posso ver-te como um violino

a encantar a minha noite.

Ou como folhas vivas e perenes

de uma planta que cresce em nós

a cada passagem do sol.



Em qualquer caso,

beijo os teus seios

[de mulher nada e criada com uma tez

que não estranho]

com o poder escorregadio da boca,

pronta a esquecê-los

em troca de outros segredos de céu.



Mas é com o instinto desperto na luz

que me doas,

transposto pelo meu brado marujo

às ondas do teu corpo,

que te deito numa cama

onde te vejo

semeada de folhas e sons de violino.


Poema: Nilson Barcelli © Fevereiro 2013
Fotografia: Alexander Kharlamov 

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

Para Português Ler


Para Português Ler é uma página do Facebook que trata a nossa língua por tu! 


O que pretendem os dinamizadores desta página, além de falarem e escreverem em Português para portugueses lerem e aprenderem? Falam da História da nossa língua, da origem das palavras, dos provérbios e das muitas expressões idiomáticas que enriquecem o nosso grande património linguístico e cultural... Apresentam desafios que vão corrigindo, deixando sempre a respectiva explicação... 
As pessoas vão aderindo e manifestam o seu agrado. Ainda só houve uma pessoa que escreveu: "Esta pájina naun tem intresse, despenço, não sô muinto de dare errus e porissu não vou fasere gósto, mas axo muinto beim que ezista porque á muinta jente que pressiza de aprendere a falare e a iscrevere".

Pelo que foi transcrito acima, considero que esta página faz todo o sentido! Não acham?





Eis a descrição da página: 

Sobre

Ter dúvidas é saber! / O saber não ocupa lugar. / Quem não sabe, procura! / Quem não sabe é como quem não vê. / Para saber mal, antes não saber./ Quanto sabes, quanto vales! / Do saber nascem cuidados.

Descrição
Grassam por aí muitos erros, bastantes dúvidas... que proliferam como cogumelos depois de chuva, transformando-se numa terrível epidemia. Com esta página pretendemos ajudar a pôr cobro aos muitos pontapés que se dão na nossa pobre gramática! Juntaremos também uma mão-cheia de reflexões, algumas curiosidades, esclarecimentos, correcções, desafios e sugestões em quantidade generosa. Tentaremos polvilhar tudo muito bem com uma boa dose de bom humor. Queremos sobretudo que aprendam a saborear e a gostar da nossa língua!


Poderão ver alguns exemplos do que podem encontrar em Para Português Ler:



No interior, o meio de transporte mais utilizado era o cavalo. Além de não "avariar" nem parar por falta de combustível, o cavalo tinha a vantagem de deixar clara a intenção do visitante na chegada. Se ele amarrava o animal à frente da casa, era sinal que ia ficar por pouco tempo; se ele o levava para um lugar protegido da chuva e do sol, significava que ia demorar. Na primeira hipótese, acontecia, por vezes, o anfitrião estar a gostar da conversa e, quando a visita se preparava para partir, o dono da casa dizia: “Pode tirar o cavalo da chuva”, ou seja, pode levar o animal para um local abrigado, porque você ainda vai demorar. Depois, o sentido da expressão evoluiu, significando desistir de um propósito qualquer, e para muita gente o cavalo ganhou um diminutivo irónico, cavalinho. 

Ilustração cortesia de Portuguese Sayings.












Mas, há muito, muito mais, dêem um pulinho até e vejam!

800 000




Obrigada, obrigada, obrigada pelas visitas! Beijinhos e continuem a passar por aqui!

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Carta a minha mãe sobre o SNS e outras coisas em Portugal




TERESA PIZARRO BELEZA

10/01/2013 - 00:00


Aqui vai o meu texto para ela:
"Mãe, sabes que agora em Portugal mandam uns senhores que estão a dar cabo do Serviço Nacional de Saúde? E que dizem que é por causa de uma tal de troika, que agora manda neles? Lembras-te da "Lei Arnault", que, segundo ele mesmo diz, tu redigiste, depois de muito pensares e estudares sobre o assunto, com a seriedade e o empenho que punhas em tudo o que fazias?

Lembras-te das nossas conversas sobre a necessidade de toda a gente em Portugal ter acesso a cuidados de saúde básicos de boa qualidade e de como essa possibilidade fizera em poucos anos baixar drasticamente a mortalidade materna e infantil, flagelos nacionais antigos, como uma das coisas boas que se tornaram realidade depois de 1974 e com a restauração da democracia?

Lembras-te de quando eu te dizia que eras tão mais socialista do que "eles", os do Partido Socialista, e tu te zangavas porque não era essa a tua imagem e a tua crença?
E quando eu te dizia que o ministro António Arnault era maçon e tu não acreditavas, porque ele era (e é) um homem bom - e para ti a Maçonaria era a encarnação do Diabo...

Mãe, tu, que te dizias e julgavas convictamente monárquica, católica, miguelista, jurista cartesiana (isso era o que eu te dizia e que penso que eras, também), que conhecias a Bíblia e Teilhard de Chardin como ninguém e me ensinaste que Deus criara o homem e a mulher à Sua imagem, quando pronunciou o fiat, porque assim se diz no Génesis...
Tu que dizias que o problema dos economistas era que não tinham aprendido latim... e me tiravas as dúvidas de português e outras coisas, quando me não mandavas ir ao dicionário, como agora eu mando o meu Filho...
Tu que foste o meu "Google", às vezes renitente, quando este ainda não existia... Sabes que agora manda em Portugal gente ignorante e pacóvia, que nem se lembra já de como se vivia na pobreza e na doença,
que julga que o Estado se deve retirar de tudo, incluindo da Saúde, e confunde a absoluta e premente necessidade de controlar e conter o imenso desperdício com a ideia de fechar portas, urgências claramente
úteis social e geograficamente...

Sabes que fecharam o Serviço de Urgência e o excelente Serviço de Cardiologia do Hospital Curry Cabral
sem sequer prevenirem ou consultarem o seu chefe? Onde irão agora todas aquelas pessoas tão claramente pobres, vulneráveis e humildes que tantas vezes lá encontrei e que não pareciam capazes de aprenderem
outro caminho, outro destino, de encontrarem outros dedicados e pacientes "ouvidores"?

Sabes que um ministro qualquer disse que o edifício da Maternidade Alfredo da Costa não tinha qualquer interesse urbanístico ou arquitectónico, para além de condenar ao abate essa unidade de saúde, com limitações já evidentes, mas que tão importante foi para tanta gente humilde ter os seus filhos em segurança? Será mesmo que não a poderiam "refundar", como agora se diz? Ou quererão construir um condomínio fechado, luxuoso e kitsch, no meio de uma das minhas, das nossas cidades?
Lembras-te de me ires buscar à MAC quando nasceu o meu Filho e de como te contei da imensa dedicação do pessoal médico e de enfermagem e da clara sobre-representação de parturientes de origem social modesta, imigrantes, ciganas, ou simplesmente pobres?

Sabes que há muita gente que pensa que a iniciativa privada, incontrolada e à solta, é que vai salvar Portugal da bancarrota, e que ignora o sentido das palavras solidariedade, justiça, igualdade, compaixão?

Sabes, Mãe, eu lembro-me de ver pessoas que partiram de Portugal para o mundo em busca de trabalho e rendimento a viver em "casas" feitas de bocados de camioneta, de restos de madeira, de cartão e outros
improváveis e etéreos materiais, emigrantes portugueses que foram parar ao bidonville em St Denis, nos arredores de Paris, num Inverno em que a temperatura desceu a 20 graus Celsius abaixo de zero (1970).
Nas "paredes", havia toda a sorte de inscrições contra a guerra colonial e contra o regime que então reinava em Portugal.
O padre Zé, o nosso amigo da Mission Catholique Portugaise que me acompanhava e me quis mostrar o bairro, proibiu-me de falar português e de sair do carro enquanto ali passávamos... e aqui em Portugal eu vi tanta miséria envergonhada, homens de chapéu na mão a pedir emprego, mulheres e crianças a pedir esmola, apesar de todas as leis e medidas que o Estado Novo produziu para as esconder, como já fizera a Primeira República.

A pobreza e a vadiagem não se eliminam com Mitras e medidas de segurança, mas com produção e distribuição de riqueza e de justiça social. Com a promoção da igualdade e da solidariedade, como manda a
Constituição.
E a Saúde, Mãe, que vão fazer dela? Da saúde dos pobres, dos velhos, das crianças, dos que não têm nem podem ter seguros de saúde de luxo, porque não têm dinheiro, porque já não têm idade, ou porque não têm
saúde?
E as crianças, Mãe? Vão de novo morrer antes do tempo porque o partofoi solitário ou mal assistido, porque a saúde materno-infantil passou a ser de novo um bem reservado a alguns privilegiados, ou porque a
"selecção natural" voltará a equilibrar a demografia em Portugal, recolhidas as mulheres a suas casas, desempregadas e de novo domesticadas, e perdida de novo a possibilidade de controlo sobre a
sua própria fertilidade?
O planeamento familiar, que tu tão bem explicaste que deveria segundo a lei seguir a autonomia que o Código Civil reconhece na capacidade natural dos adolescentes - tu, católica, jurista, supostamente conservadora (assim te pensavas, às vezes?)...

Sabes que aqui há tempos ouvi uma jurista ignorante dizer em público que só aos 18 anos os jovens poderiam ir sozinhos a uma consulta de planeamento familiar, quando atingissem a maioridade, sem autorização de pai ou mãe?
Ai, minha Mãe, como a ignorância é perigosa... Será que nos espera um qualquer Ceausescu ou equivalente, dado o progressivo estrangulamento político e social a que a necessidade económica e a
cegueira política nos estão levando?

Os traços fascizantes que são visíveis na repressão da liberdade de expressão e de manifestação, em
tudo tão contrários à Constituição da República, serão só impressão de uns "maníacos de esquerda", como dizem umas pessoas que há tão pouco tempo garantiam que essa coisa de esquerda e direita era coisa do
passado?
Mas as crianças são o futuro, Mãe, que será deste país sem elas, sem a sua saúde e sem a sua educação, sem o seu bem-estar, sem a sua alegria?
Eu lembro-me tão bem dos miúdos descalços e ranhosos nas ruas da minha infância... e da luta legal, tão recente ainda, quem sabe se perdida, contra o trabalho clandestino, ilegal e infame das crianças a coserem sapatos em casa, a faltarem à escola, a ajudarem as famílias, ainda há tão pouco tempo, ou dos miuditos com carregos e encargos maiores que eles, à semelhança das mulheres da carqueja a subirem aquela rampa infame que Helder Pacheco, o poeta-guia do nosso Porto, tão bem descreve...

"Que quem já é pecador sofra tormentos, enfim! Mas as crianças, Senhor, porque lhes dais tanta dor?!... Porque padecem assim?!..."

Mãe, se agora cá voltasses, ao mundo dos vivos, acho que terias uma desilusão terrível.
Melhor que não vejas o que estão fazendo do nosso pobre país.

Da tua Filha, com muita saudade,

Maria Teresa"

Ericeira, Portugal, Europa, dia 31 de Dezembro de 2012

* Professora de Direito Penal, directora da Faculdade de Direito da Universidade Nova de Lisboa. 

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

O AO é absurdo


O Acordo Ortográfico que se pretende administrativamente impôr é absurdo sob qualquer dos pontos de vista que se aborde. Seria uma aberração linguística: a etimologia latina do vocabulário português é ofuscada, e deixa de haver normas claras para o que é um erro ortográfico (quem tem crianças em idade escolar pode verificá-lo nos manuais, em que chega a haver duas grafias para o mesmo termo). Seria um atentado cultural: naturalmente a língua evoluiu de formas diferentes no espaço da lusofonia. Negar essa evolução quase darwiniana é anti-natural; tentar anulá-la por decreto um atentado cultural. Chega a ser provinciano: quem, como eu, viveu anos em Inglaterra sabe bem como no espaço da Anglofonia as diferenças gráficas são um não-problema quase risível. Ninguém sente necessidade de que nos E.U.A., no Reino Unido ou na Austrália a grafia, ou mesmo a terminologia, sejam idênticas. Pelo contrário: a diferença é respeitada e até apreciada, por vezes com muito bom humor.
Por vezes é brandido o argumento “científico”: os linguistas são as únicas pessoas cientificamente qualificadas para se pronunciar sobre a discussão. Enquanto físico, cientista, e também escritor e cidadão, este argumento de autoridade deixa-me extraordinariamente incomodado. Seria como se, na discussão sobre se Portugal deve ou não adoptar a energia nuclear, se viesse defender que só os físicos têm direito a pronunciar-se. Não achariam os linguistas ter o direito de se pronunciar se estivesse em causa viver perto de uma central nuclear? Pois enquanto utilizador da língua portuguesa é exactamente o que sinto com este AO90.
E finalmente, o facto que me parece definitivo sobre esta questão. O AO90, longe de unificar grafias, provoca exactamente o oposto. A pulverização de grafias admissíveis, dentro do mesmo país ou cidade, gera o caos e contraria qualquer veleidade a uma intenção unificadora, actual ou futura, no espaço da Lusofonia.
Por estas razões, nunca como autor adoptarei esta grafia. Pelo que verifico, estou felizmente muito longe de ser o único.
Jorge Buescu