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quinta-feira, 16 de agosto de 2018

Gosto de flores e de poesia




Dai-me rosas e lírios,

Dai-me rosas e lírios,
Dai-me flores, muitas flores
Quaisquer flores, logo que sejam muitas...
Não, nem sequer muitas flores, falai-me apenas
Em me dardes muitas flores,
Nem isso... Escutai-me apenas pacientemente quando vos peço 
Que me deis flores...
Sejam essas as flores que me deis...
Ah, a minha tristeza dos barcos que passam no rio, 
Sob o céu cheio de sol!
A minha agonia da realidade lúcida!
Desejo de chorar absolutamente como uma criança
Com a cabeça encostada aos braços cruzados em cima da mesa,
E a vida sentida como uma brisa que me roçasse o pescoço,
Estando eu a chorar naquela posição.
O homem que apara o lápis à janela do escritório 
Chama pela minha atenção com as mãos do seu gesto banal.
Haver lápis e aparar lápis e gente que os apara à janela, é tão estranho!
É tão fantástico que estas coisas sejam reais! 
Olho para ele até esquecer o sol e o céu.
E a realidade do mundo faz-me dor de cabeça.
A flor caída no chão.
A flor murcha (rosa branca amarelecendo)
Caída no chão...
Qual é o sentido da vida?
Fernando Pessoa























quarta-feira, 18 de julho de 2018

Padre António Vieira



Neste poema, o sujeito poético afirma que António Vieira é o maior orador do seu tempo, notável estilista da prosa portuguesa “imperador da língua portuguesa”.
Quando o sujeito lírico diz “surge, prenúncio claro do luar, El-rei D. Sebastião", refere-se aos escritos do Padre António Vieira em relação às esperanças dos portugueses: um grande rei conduziria Portugal a um futuro Quinto Império do Mundo. As profecias de Bandarra também anunciavam o regresso do rei D. Sebastião.
O sujeito poético, em “foi-nos um céu também”, designa António Vieira como um céu estrelado dos portugueses, um céu grandioso, trazendo, assim, grandiosidade à Língua Portuguesa.
No verso “Mas não, não é luar: é luz do etéreo”, o sujeito lírico diz que não é o luar, ou seja, o final do dia, referindo-se ao Império Material das Índias, mas a luz celeste, o começo de um novo dia, um Império Espiritual, o Quinto Império.

quinta-feira, 8 de março de 2018

Dia Internacional da Mulher


Clara Zetkin e Rosa Luxemburgo, 1910 

"Por um Mundo onde sejamos socialmente iguais, humanamente diferentes e totalmente livres"
(Rosa Luxemburgo)

Dia Internacional da Mulher



A 8 de Março de 1857, operárias de uma fábrica de tecidos, de Nova Iorque, fizeram greve. Ocuparam a fábrica e começaram a reivindicar melhores condições de trabalho, tais como, redução na carga diária de trabalho para dez horas (as fábricas exigiam 16 horas de trabalho diário), equiparação de salários com os homens (as mulheres chegavam a receber até um terço do salário de um homem, para executar o mesmo tipo de trabalho) e tratamento digno dentro do ambiente de trabalho.

A manifestação foi reprimida com total violência. As mulheres foram trancadas dentro da fábrica e esta foi incendiada. 129 tecelãs morreram carbonizadas.  

Em 1910, durante uma conferência na Dinamarca, ficou decidido que o 8 de Março passaria a ser o “Dia Internacional da Mulher”, em homenagem as mulheres assassinadas em 1857. Em 1975, através de um decreto, a data foi oficializada pela ONU.  






Fotografia de algumas das operárias assassinadas



O Dia Internacional da Mulher é comemorado anualmente a 8 de Março.
A data surgiu pela primeira vez a 19 de Março de 1911 na Áustria, Dinamarca, Alemanha e Suíça.
Desde esse ano, o dia tem vindo a ser comemorado em vários países do mundo, de forma a reconhecer a importância e contributo da mulher na sociedade.
Outro dos objectivos por detrás da origem do Dia Internacional da Mulher é recordar as conquistas das mulheres e a luta contra o preconceito, seja racial, sexual, político, cultural, linguístico ou económico.
Em 1975, as Nações Unidas promoveram o Ano Internacional da Mulher e em 1977 proclamaram o dia 8 de Março como o Dia Internacional da Mulher.

Dá a Surpresa de Ser

Dá a surpresa de ser. 
É alta, de um louro escuro. 
Faz bem só pensar em ver 
Seu corpo meio maduro. 

Seus seios altos parecem 
(Se ela tivesse deitada) 
Dois montinhos que amanhecem 
Sem Ter que haver madrugada. 

E a mão do seu braço branco 
Assenta em palmo espalhado 
Sobre a saliência do flanco 
Do seu relevo tapado. 

Apetece como um barco. 
Tem qualquer coisa de gomo. 
Meu Deus, quando é que eu embarco? 
Ó fome, quando é que eu como ? 


Fernando Pessoa, in "Cancioneiro" 






A Mulher

Ó Mulher! Como és fraca e como és forte!
Como sabes ser doce e desgraçada!
Como sabes fingir quando em teu peito
A tua alma se estorce amargurada!

Quantas morrem saudosa duma imagem.
Adorada que amaram doidamente!
Quantas e quantas almas endoidecem
Enquanto a boca rir alegremente!

Quanta paixão e amor às vezes têm
Sem nunca o confessarem a ninguém
Doce alma de dor e sofrimento!

Paixão que faria a felicidade.
Dum rei; amor de sonho e de saudade,
Que se esvai e que foge num lamento!
Florbela Espanca

sábado, 3 de fevereiro de 2018

Bartolomeu Dias - O Capitão do Fim



A 3 de Fevereiro de 1488, Bartolomeu Dias dobra o Cabo das Tormentas, depois chamado da Boa Esperança
Bartolomeu Dias terá nascido cerca de 1450 e faleceu a 29 de Maio de 1500. 
O navegador português, ao serviço de D. João II, dobrou o Cabo Tormentoso ou das Tormentas, local que a partir de então passaria a ser conhecido por Cabo da Boa Esperança numa clara alusão ao facto de este ser o ponto de partida para se alcançar o oceano Índico a partir do oceano Atlântico e a todas as possibilidades, económicas e expansionistas, que isto encerrava na época.

A Bartolomeu Dias foi-lhe encomendada esta importante missão acima de tudo porque era um homem com um nível de formação que garantiam ao monarca uma percentagem bastante grande de possível êxito.
Assim, em finais de Agosto de 1487, Bartolomeu Dias larga de Lisboa ao mando de três embarcações, com rumo traçado em direcção ao Tormentoso com o objectivo de encontrar a tão ansiada passagem marítima para a Índia, afinal o propósito último que leva dom João II a empreender esta empresa.
A viagem, tal como Bartolomeu Dias teria oportunidade de relatar na primeira pessoa ao seu soberano, estaria cheia de sobressaltos e dificuldades, tornando a tarefa mais complicada do que se julgaria a princípio.
Finalmente, em 3 de Fevereiro de 1488, passados quase 6 meses desde a partida de Lisboa, a expedição alcança o seu objectivo.
Conta-se que, antes do regresso a casa, Bartolomeu Dias, observando por última vez o famoso cabo que tinha conseguido “dobrar”, terá dito “Tormentoso, mas porquê, se a tormenta já lá vai? Assinalas o caminho para a Índia, por isso vou chamar-te da Boa Esperança…”.
Em 1495 D. João II viria a morrer e subiria ao trono D. Manuel I, monarca que em 1497 empreende a busca pela Índia e entrega o comando da expedição a Vasco da Gama.
Bartolomeu Dias sai de Lisboa integrado na armada de Vasco da Gama, mas o seu destino não é a Índia, antes será São Jorge da Mina, local para onde D. Manuel I o destacara. Mais tarde regressará a Lisboa e em Março de 1500 está à frente de uma das naus da segunda armada portuguesa com rumo à Índia, liderada desta feita por Pedro Álvares Cabral.
Bartolomeu Dias iria, finalmente, cumprir o seu grande sonho: navegar até ao oriente através do caminho que ele próprio ajudara a abrir. A expedição de Pedro Álvares Cabral viria, nesta viagem e de forma acidental, a descobrir as primeiras terras a que mais tarde dariam o nome de Brasil. Outro marco significativo da história portuguesa no qual Bartolomeu Dias esteve envolvido.
Depois dos primeiros contactos com os nativos das novas terras descobertas, os portugueses rumam novamente para a Índia, o seu destino original, no início de Maio de 1500. No dia 23 do mesmo mês avistariam o Cabo da Boa Esperança e por essa altura uma tempestade de proporções gigantescas destrói e afunda 4 naus da armada, entre elas a de Bartolomeu Dias. Ironia do destino, o navegador encontra a morte no mesmo local que anos antes o tinha levado à glória.




"Epitáfio"- inscrição tumular.

"Jaz aqui na praia extrema o Capitão do Fim"- refere-se a Bartolomeu Dias, que descobriu o fim do Continente Africano (e limite austral do Mundo de então) e acabou por desaparecer num naufrágio ao largo do Cabo da Boa Esperança em 1500. Pessoa supõe o seu corpo dado à costa na praia extrema (mais a sul) de África.

"Dobrado o Assombro"- passado o cabo do medo; 

vencido o terror (aqui: dobrado o Cabo da Boa Esperança).

Atlas - um dos titãs, condenado por Zeus a carregar no ombro a esfera do firmamento. Aqui Pessoa põe o titã a mostrar, não a esfera celeste, mas a Terra redonda, de cuja esfericidade ainda se duvidava nos séculos XV e XVI.

segunda-feira, 17 de abril de 2017

Os Colombos





Os Colombos



Outros haverão de ter 
O que houvermos de perder. 
Outros poderão achar 
O que, no nosso encontrar, 
Foi achado, ou não achado, 
Segundo o destino dado. 

Mas o que a eles não toca 
É a Magia que evoca 
O Longe e faz dele história. 
E por isso a sua glória 
É justa auréola dada 

Por uma luz emprestada.


Fernando Pessoa

Colombo, que tentara durante anos o apoio do rei de Portugal, acabaria por descobrir o Novo mundo sob a égide dos reis católicos de Espanha; significa aqui as oportunidades perdidas, mas também que a missão de Portugal vai mais além da dos “Colombos”.
“Outros haverão de ter / O que houvermos de perder”
“Mas o que a eles não toca / É a magia que evoca / O longe e faz dele história”
Este poema, que se situa na segunda parte da obra a “ Mensagem” intitulada de Mar Português, substitui um outro chamado “Ironia” que constava nas primeiras versões dessa obra.
O poema refere-se a Cristóvão Colombo que foi o descobridor da América ao serviço dos reis de Espanha. Por isso mesmo sabemos que há todo um contencioso entre Portugal e Espanha a propósito de Colombo, que deveria ter descoberto a América em nome do rei de Portugal se este, D. João II, não o tivesse rejeitado.
Não se referindo apenas a Cristóvão Colombo, este poema fala ainda de todos os navegadores estrangeiros (chamados aqui “Colombos”) cuja glória, diz, é apenas um reflexo da luz das descobertas portuguesas. Neste poema, na minha opinião, existe um certo exagero quanto ao nacionalismo, porque, como podemos ver na primeira estrofe, o poeta diz que os outros navegadores só vão ter o que Portugal não quis, pois Portugal não podia conquistar tudo. 
Quanto à análise formal do poema é de referir o uso de rima emparelhada, cujo esquema é aabb, esta rima pobre acentua os feitos menores dos navegadores que não eram portugueses. Em relação ao estilo, é de salientar o discurso na primeira pessoa do plural, como se fosse Portugal a falar, e ainda o uso da metonímia, pois Colombo aparece em representação de todas as potências estrangeiras que tentam apoderar-se do que é português. 




Diogo Soares 12.º ano