destinadas a um Deus claro ou incerto.
Enquanto, mecânicos, damos voltas ao rosário,
chegamos a acreditar, por definição,
que Ele nos ensina a respirar o norte.
Numa paciente espera da Ordem,
onde queremos que a beleza do luar se confronte
com a vida que há no sol,
perdemo-nos, por vezes, de ventre rasgado
num horizonte despido de luz.
Quando os meus gritos, nesse horizonte,
não forem audíveis de tão submersos,
sei que posso cair na tentação de Lhe dirigir
palavras tão vivas de fé como mortas de pânico.
Só não sei se quero a surdez e a cegueira
para não perceber os manguitos nas respostas.
O sujeito poético dirige-se, neste poema, “A um Deus claro”, mas ao mesmo tempo “incerto” (antítese). Logo no título, o sujeito lírico mostra uma certa insegurança, um certo afastamento da figura de Deus, pois este Ser Divino afigura-se-lhe, por um lado “Claro”, como se existisse na realidade e estivesse sempre presente, mas, por outro, trata-se de um Deus “incerto”, ausente, como se, na realidade, não existisse. De notar a conjunção coordenativa disjuntiva “ou” que nos leva a pensar que Deus é ou parece ser, para o sujeito poético, umas vezes “claro”, outras “incerto”, ou seja, o eu lírico não tem a certeza da existência de um Deus que deveria ser fé, certeza, luz, amor... (“claro”), porque lhe atribui uma segunda característica alternativa (antitética) “incerto”, um Deus ausente, longínquo, mudo, desinteressado...
Na primeira quintilha, o sujeito poético diz-nos que as ideias crescem em nós (metáfora), em forma de preces - “como preces” - (comparação). São pedidos dirigidos ao tal Deus “claro ou incerto”, mas de forma inconsciente, pois estamos acostumados a dirigir preces a Deus, desfiando as contas de um rosário mecanicamente, sem pensar, mas acreditando que as nossas rezas, os nossos pedidos serão ouvidos por Deus e que Ele nos orientará na vida, nos ensinará o caminho certo, “nos ensina a respirar o norte” (metáfora).
Na segunda estrofe (quintilha), o sujeito lírico afirma que esperamos pacientemente que tudo na nossa vida se conserte, pois as preces, rezas, súplicas... parecem não ser ouvidas por Deus: “Numa paciente espera da Ordem”.
E que queremos nós então de Deus? Que pedidos fazemos, afinal?
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“queremos que a beleza do luar se confronte / com a vida que há no sol” – aspiramos à beleza da noite iluminada pela lua e à vida que emana do sol, ou seja, queremos uma vida iluminada, sem trevas, sem escuridão. Da noite, queremos só a luz do luar; do dia, queremos “a vida que há no sol”. É que do sol não queremos apenas a sua luz, almejamos à vida que o sol tem em si. O sol é fonte de luz e de vida. Mas na “paciente espera” acabamos por nos perder, “por vezes, de ventre rasgado num horizonte despido de luz”: nessa longa espera, desesperamos, sentimo-nos perdidos e pressentimos que não mais alcançaremos a luz, ficando de ventre rasgado (metáfora), sem ânimo nem força para alcançar a luz, vendo apenas escuridão à nossa frente, um “horizonte despido de luz”.
Na última estofe, o sujeito poético que antes se incluía em “nós”, surge agora só, utilizando a primeira pessoa “eu”, destacando-se dos outros, como se se revoltasse e precisasse de agir sozinho ou porque não acredita que Deus tenha uma resposta para dar. E “quando os meus gritos (...) não forem audíveis de tão submersos”: as preces mecânicas transformam-se agora em gritos, pois não foram ouvidas por Deus, mas mesmo gritando, o sujeito lírico sente que não será ouvido, os seus gritos não são “audíveis”, pois estão sufocados, “de tão submersos” (hipérbole). O sujeito poético sente que, perante aquele silêncio de Deus, pode ele mesmo “cair na tentação de lhe dirigir palavras tão vivas de fé como mortas de pânico”, isto é, o sujeito lírico crê e não crê. Ele crê ser capaz, em situações de desespero, (“num horizonte despido de luz”), de dirigir a Deus palavras “tão vivas de fé” ou palavras “mortas de pânico”, e não crê, pois não acredita que poderá obter uma resposta. Esta sextilha termina com um desabafo sentido do sujeito poético, ele conclui, dizendo que não sabe se quer “a surdez e a cegueira / para não perceber os manguitos nas respostas”. Para ele, só há duas hipóteses: não haver qualquer resposta de Deus, silêncio total, ou então, a resposta será negativa “manguitos nas respostas” (metáfora). O sujeito poético pretende, então, dizer-nos que todas as preces feitas a Deus ficam sem resposta, e mesmo que essas preces sejam gritos sentidos, palavras cheias de fé ou mesmo “mortas de pânico” não obterão qualquer resposta.





























