segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Cesário Verde - Linguagem e estilo


A poesia de Cesário Verde distingue-se pela exactidão do vocabulário, pelas imagens extremamente visuais, ai ponto de se considerar este poeta um pintor, e ele próprio afirmar "pinto quadros com letras, por sinais."
À semelhança de Eça de Queirós, Cesário Verde mistura o físico e o moral, combina sensações, usa sinestesias, apresenta primeiro a sensação e só depois se refere ao objecto ("Amareladamente, os cães parecem lobos"), emprega dois ou mais adjectivos a qualificar o mesmo substantivo. Mas a linguagem de Cesário Verde é ainda mais pitoresca e realista que a de Eça de Queirós, usando mesmo termos desprovidos de conteúdo poético, pertencentes a um nível familiar ou técnico, como por exemplo: martelo, batatal, quintalório, navalhas de volta, etc.
É notória a predilecção de Cesário pelas quadras, em versos decassilábicos ou alexandrinos, usando frequentemente o transporte ou encavalgamento.
Se o rigor da forma aproxima Cesário dos parnasianos, já a subjectividade de que aparecem eivados muitos dos seus poemas o afasta destes e do lirismo tradicional.
É o seu estilo próprio que torna problemática a classificação dos seus versos.


Lirismo ou versos prosaicos?

Se o lirismo se associa à expressão que o sujeito poético faz do seu mundo íntimo, a prosa surge voltada para o mundo exterior, usando um vocabulário mais concreto, mais objectivo.
São vários os poemas de Cesário Verde onde o vocabulário objectivo é utilizado, onde a realidade exterior é descrita, mas também, e frequentemente no mesmo poema, essa realidade objectiva é revestida de formas poéticas. Se isto acontece, estamos perante aquilo que se designa por versos prosaicos. Contudo, a expressão da realidade objectiva, tal como aparece em Cesário Verde, é profundamente conotativa e mesmo que o discurso não fosse entrecortado por frases exclamativas, ricas de subjectivismo, não seria difícil descobrir-se uma outra linguagem a relatar as impressões íntimas das realidades objectivas e observadas.
Em Cesário Verde assiste-se constantemente à passagem do objectivo para o subjectivo. Logo, pode afirmar-se que, se a poesia de Cesário é a expressão do mundo real, exterior, também o é de um mundo psíquico, interior, e daí poder afirmar-se que na poesia de Cesário, tal como na de outros parnasianos, não há lirismo puro. Há preferencialmente versos prosaicos, isto é, prosa em forma de verso, ou verso em forma de prosa.


O estilo

É bem visível nos poemas de Cesário Verde esta definição de poesia: um modo especial de ver o mundo e a vida. De facto, o olhar penetrante deste poeta vê, nos seus passeios, a cidade e todo o seu drama, vibra em simpatia ou em repugnância à vista de uma vida urbana que ao mesmo tempo o fascina e o sufoca. Cesário, no dizer de Alberto Caeiro, "era um camponês / que andava preso em liberdade pela cidade". Esta afirmação paradoxal sintetiza admiravelmente os dois polos que antiteticamente atraem o poeta: o campo e a cidade. Ele é chamado por isso "o poeta da cidade e do campo". A cidade enjoa-o; temos a impressão de que ela lhe interessa apenas para a devassar artisticamente. Pelo contrário, o campo deleita-o, como se vê, por exemplo, no poema De Tarde.. De notar que, mesmo nos poemas que focam a cidade, surgem frequentemente evocações saudosistas do campo. A cidade provoca no poeta "melancolia", "enjoo", "desejo absurdo de sofrer". Ora é nesta náusea citadina que o poeta sente por vezes a necessidade de abrir as suas janelas sobre o campo. Assim, no poema Cristalizações, o poeta faz frequentemente surgir evocações campestres: "quintalórios com parreiras", "não se ouvem aves nem o choro duma nora", "sabe-me a campo, a lenha, a agricultura". E o mesmo sucede em outros dos seus melhores poemas citadinos: O Sentimento dum Ocidental, Num Bairro Moderno, etc..
O estilo impressionista, visualista, de Cesário Verde tem origens precisamente no seu jeito especial de ver o mundo e a vida.

(Des)Acordo ortográfico


Os bicos-de-papagaio do Acordo Ortográfico


1. Das duas uma: ou Pinto Ribeiro falou de cor ou realmente não há punição para quem não cumprir o AO90

Todos favorecei em seus ofícios,Segundo têm das vidas o talentoCamões, Os Lusíadas (X, 150)1. No passado dia 28 de Fevereiro, Margarita Correia, responsável pela coordenação do Vocabulário Ortográfico do Português do ILTEC, apresentou uma comunicação (“Como usar a nova ortografia?”) na sala Ursa Maior do Madeira Tecnopólo. Na altura, recebi ecos dessa intervenção. Recentemente, pude verificar a fiabilidade dos ecos, após a Secretaria Regional de Educação e Cultura do Governo Regional da Madeira ter disponibilizado os vídeos da sessão.
Explicou M. Correia que o texto do Acordo Ortográfico de 1990 (AO90) é constituído por bases, vacilando contudo na quantidade: “Trinta e uma ou 32, nunca sei ao certo”. Acontece que, das duas, nenhuma: nem 31, nem 32, apenas e tão-somente 21. A primeira base é a base I e a última a XXI. Com todo o respeito, se um camoniano dissesse publicamente que Os Lusíadas eram compostos por “21 ou 22 cantos, nunca sei ao certo”, a conversa ficaria certamente por aí, não tanto pelo engano, mas por desinteresse pelo rigor. Já agora e para que não restem dúvidas, Os Lusíadas têm tão-somente dez cantos. Não há décimo segundo nem vigésimo primeiro. E as bases do AO90 são 21.


Quanto à hifenização, M. Correia perguntou aos presentes quantos destes sabiam usar efectivamente o hífen “em português”. Solicitando uma resposta mental da assistência (i.e., sem prolação), M. Correia continuou no seu solilóquio e rematou: “Não há maneira de se aprenderem as regras todas de uma vez”. Pelo meio, confessou que “é um dos aspectos menos conseguidos do acordo”, terminando com um penoso “mas, pronto, era preciso aplicar”. O efeito retórico fora criado logo à partida: não havendo motivo para se mudar o presente, lança-se um anátema sobre a regra actual, para se justificar a mudança, apesar de a mudança ser atreita a excepções do arco-da-velha (com hífenes).

Como o “bico-de-papagaio”, esse genuíno bico-de-obra. Disse M. Correia que, na acepção de flor, se escreve com hífenes, enquanto na acepção de espondilose se redige sem hífenes. M. Correia antecipou: “Isto é muito estranho, mas eu pergunto às pessoas que estão na sala quantas vezes escreveram a expressão “bico-de-papagaio”". Esta lógica da retracção no momento da crítica, tendo em conta a frequência pessoal de uso, é perniciosa: a) pode querer dizer que possíveis mudanças em formas como “prendam-me”, “coitadas”, “tê-lo-íamos” ou “tê-lo-ão” não poderiam ser objecto de crítica, apesar de terem o mesmo número de ocorrências de “bicos-de-papagaio” num corpus que M. Correia conhecerá, se não melhor, pelo menos há mais tempo do que eu; b) pode querer dizer o contrário, ou seja, considerando a elevada ocorrência da palavra “Egipto” em textos redigidos por egiptólogos, só nesta área específica se poderia criticar a supressão de P (“Egito”) e, em última análise, atribuir-se-lhe uma derrogação. Validar uma crítica pela frequência do objecto e não pela pertinência do argumento aduzido é prática simultaneamente arenosa e movediça.

Por exemplo, eu estaria impossibilitado de contestar esta regra, dado que, graças a esta crónica, me estreio na redacção de “bico-de-papagaio”. Após M. Correia referir “bico-de-papagaio”, verifiquei no seu VOP que a responsável pela sua elaboração não considerou que o singular de “bicos-de-papagaio” sem hífenes é “bicos de papagaio”. Exactamente igual: no plural e no singular. Com “esse”depois do “o” final de “bico”. Mas sem hífenes. Para distinguir da flor. Presume-se. Se M. Correia tivesse consultado o seu próprio VOP, teria verificado ser o singular da flor “bico-de-papagaio”e o da doença “bicos de papagaio”, sem hífenes a separar os elementos e com “esse” final no primeiro elemento.

2. Proença de Carvalho e Salazar Casanova (Boletim da Ordem dos Advogados n.º 73, Dezembro de 2010, p. 35) afirmam não haver “sanções directas” para quem não cumprir as regras do AO90. Contudo, acrescentam: “Sem prejuízo de o desrespeito voluntário pelo AO poder ser considerado, por exemplo, um “ilícito disciplinar” no âmbito de uma relação laboral ou da função pública”. Ilícito disciplinar. José António Pinto Ribeiro, segundo ministro da Cultura do XVII Governo Constitucional, afirmou o seguinte à Lusa, em 16.8.2008: “Ninguém será abatido, preso ou punido se não aderir às novas normas”. Se eu fosse deputado à Assembleia da República, convocaria Pinto Ribeiro, Proença de Carvalho e Salazar Casanova, com carácter de urgência, para responderem em sede de comissão parlamentar a este imbróglio: uns mencionam “ilícito disciplinar”, outro disse que ninguém seria “punido”. Quid juris?Enquanto jurista, Pinto Ribeiro sabe melhor do que eu que se é “punido” por “ilícito disciplinar”.

Enquanto jurista, as palavras “preso” e punido” têm um peso importante quando as pronuncia. Terá havido quem no sector público ficasse descansado perante a prometida inexistência de punição por incumprimento do AO90. O parecer de Proença de Carvalho e de Salazar Casanova contradiz a promessa de um ministro de Portugal, cuja acção foi determinante para o desastre ortográfico que se nos apresenta. Aqui, das duas uma: ou Pinto Ribeiro falou de cor e deve por isso responder perante os portugueses, ou realmente não há punição para quem não cumprir e os interessados devem ser informados. Tertium non datur.


Francisco Miguel Valada



[O acordo ortográfico é...]

…uma obra de destruição da Cultura.
…a Língua tornar-se impossível de ensinar.
…entropia, perda de informação.
…total perda do senso histórico.
…total perda da unidade da Cultura.
…um dialecto para cada bairro.
…total perda da capacidade de raciocinar sobre o que quer que seja.
…uma palhaçada.
…impossível!

Olavo de Carvalho

domingo, 4 de setembro de 2011

Para rir!


A GESTÃO POR OBJECTIVOS


Era uma vez uma aldeia onde viviam dois homens que tinham o mesmo nome: Joaquim Gonçalves. Um era sacerdote e o outro taxista.
Quis o destino que morressem no mesmo dia.
Quando chegaram ao céu, São Pedro esperava-os.
- O teu nome?
- Joaquim Gonçalves.
- És o sacerdote?
- Não, sou o taxista.
São Pedro consulta as suas notas e diz:
- Bom, ganhaste o paraíso. Levas esta túnica com fios de ouro e este ceptro de platina com incrustações de rubis. Podes entrar.

- O teu nome?
- Joaquim Gonçalves.
- És o sacerdote?
- Sim, sou eu mesmo.
- Muito bem, meu filho, ganhaste o paraíso. Levas esta bata de linho e este ceptro de ferro.
O sacerdote diz:
- Desculpe, mas deve haver engano. Eu sou o Joaquim Gonçalves, o sacerdote!
- Sim, meu filho, ganhaste o paraíso. Levas esta bata de linho e...
- Não pode ser! Eu conheço o outro senhor. Era taxista, vivia na minha aldeia e era um desastre! Subia os passeios, batia com o carro todos os dias, conduzia pessimamente e assustava as pessoas. Nunca mudou, apesar das multas e repreensões policiais. E quanto a mim, passei 75 anos pregando todos os Domingos na paróquia. Como é que ele recebe a túnica com fios de ouro e eu... eu… isto?
- Não é nenhum engano - diz São Pedro. - Aqui no céu, estamos a fazer uma gestão mais profissional, como a que vocês fazem lá na Terra.
- Não entendo!
- Eu explico. Agora orientamo-nos por objectivos. É assim: durante os últimos anos, cada vez que tu pregavas, as pessoas dormiam. E cada vez que ele conduzia o táxi, as pessoas começavam a rezar.

Resultados! Percebeste? Gestão por Objectivos! O que interessa são os resultados; a forma de lá chegar, é completamente secundária!

Recebi por email!



A Mena na cozinha

Pescada com molho vermelho

4 postas de pescada
4 colheres de sopa de massa de pimentão
1 cebola
50 ml de vinho branco
50 ml de caldo de peixe
2 dentes de alho
azeite
salsa
1/2 malagueta grande
sal
pimenta
1 colher de farinha (facultativo)

Pique os alhos e a cebola e introduza na sua MasterChef. Por cima, disponha os restantes ingredientes. Feche a panela.
Seleccione a função Chef, programe para 25 minutos.

Sirva com batatas fritas às rodelas na Actifry e salada de alface e cenoura.
Bom apetite!

sábado, 3 de setembro de 2011

A vida a cores

Este porta-chaves é da Belita, fi-lo e ofereci-lho pelo seu aniversário.

É colorido e grande para ela o encontrar facilmente na mala!

Que amores: o meu filho, a minha filhota e a minha sobrinha. Que saudades deste tempo tão colorido!

Reciclar é o que está a dar e fazem-se coisas espantosas com tão pouco. Reparem neste tear, feito com caixas de cartão. É fácil de fazer, não é? Já fiz o meu! Depois é só usar a imaginação e pegar em fios de lã, linhas, trapilho, fechos... E sai um cachecol ou uma mala ou... ou... ou..

Esta túnica faz-me lembrar os mil e um quadradinhos coloridos que a minha avó paterna fazia pacientemente para aproveitar os restos de lã . Depois combinava os quadradinhos e conjugava-os para fazer colchas para os netos. Não me coube nenhuma e que saiba aos meus irmãos também não! Que pena!

Com os rolos de papel higiénico e do papel absorvente de cozinha e ainda com as caixas dos ovos fazem-se trabalhinhos como estes!

Depois de pintadinhos, os trabalhinhos parecem verdadeiras flores do campo!

Mais uma ideia muito gira para aproveitar os lápis dos nossos filhotes que ficam rapidamente pequeninos, pequeninos! Uma gargantilha bem colorida!

A vida dos ricos também poderia ser bem mais colorida se ajudassem mais na resolução desta crise. Valem-nos as pessoas de mente colorida que, apesar da crise, nos conseguem fazer sorrir.



quinta-feira, 1 de setembro de 2011

O desemprego dos professores



É assim que CR responde à questão seguinte:

- Como se resolveria o grave problema do desemprego que atinge os professores portugueses?

Será dando-lhes subsídio de desemprego? Penso que não. Penso mesmo que é asneira e da grossa. Seja que subsídio for, é sempre, e em toda a parte, um gasto improdutivo de dinheiros públicos. Estamos a falar de professores, não estamos? Ora, visto que é de professores que falamos e não de taberneiros, de agricultores ou de artistas de telenovela, acho que seria tolice não lhes proporcionar o desenvolvimento da actividade em que o país investiu para a sua formação, o sítio em que ela é desenvolvida, ou seja, nas escolas deste país.

Objectam: Não há alunos para tantos professores.

É mentira, caro leitor. O que há é poucas turmas para os professores que temos. Mas alunos há muitos, graças a Deus. É que as turmas têm muitos alunos. Muitos, não, demais! E todos deverão perceber que o rendimento de um professor numa turma de trinta alunos é muito menor que numa de quinze.

Ora, muito provavelmente pode dispensar-se a ajuda de um especialista em lógica, para chegarmos à seguinte conclusão:

A solução para os números dramáticos do desemprego que atinge os professores está justamente em aumentar o número de turmas, diminuindo o número de alunos por cada uma.

Esta é a única forma de diminuir o desemprego, mantendo praticamente a mesma despesa, e melhorando o ensino no nosso país, que, como é sabido, anda pelas ruas da amargura.

Francisco Cunha Ribeiro

A Mena na cozinha


Frango com alhinho

1 frango
10 dentes de alho
azeite
sal
salsa
cebola
pimenta
1 dl de vinho branco
1 colher de farinha

Prepare o frango, corte-o aos pedaços e tempere com sal e pimenta. Descasque os alhos e a cebola.

Prepare a sua MasterChef para cozinhar com a tampa aberta, seleccione o Menu 1 e carregue na tecla Início. Em seguida, deite um pouco de azeite e aloure metade dos alhos. Deite o frango e deixe-o dourar.
Quando estiver lourinho, acrescente a cebola, os restantes alhos e a salsa picados e refresque com o vinho branco. Salpique com a farinha. Rectifique os temperos. Misture bem.
Feche a panela, seleccione a função Chef para 30 minutos e carregue na tecla Início.

Sirva com batatas fritas e esparregado.
Bom apetite!



Setembro, mês de amor




Os meus meses preferidos são Maio e Setembro. Tenho também um carinho muito especial por outros: Janeiro e Outubro (os meses em que nasceram os meus filhos), Novembro (o mês em que casei), Dezembro (um mês mágico, em que o Natal nos deixa cheios de amor e esperança...). Maio (além de ser o mês do aniversário do meu amor) é um mês poético e idílico, alegre e colorido; das flores (símbolo da renovação da vida), das noivas, das mães, de Nossa Senhora; é um mês feminino, por excelência. Mês de sorrir e de ser feliz.
Setembro é o Maio do Outono, logo muitas das características do mês de Maio se aplicam a este belíssimo mês em que nasci. É o mês das colheitas, das vindimas, de encher os celeiros; mês de aulas, de conhecer novos amigos, de encontros, de recomeços, de saudade e, sobretudo, de amor.


Então, neste início de Setembro não posso deixar de falar de AMOR:

O amor é difícil para os indecisos. É assustador para os medrosos.
Avassalador para os apaixonados! Mas, os vencedores no amor são os fortes.
Os que sabem o que querem e querem o que têm! Sonhar um sonho a dois, e nunca desistir da busca de ser feliz, é para poucos."

Cecília Meireles


ARTE DE AMAR

Se queres sentir a felicidade de amar, esquece a tua alma.
A alma é que estraga o amor.
Só em Deus ela pode encontrar satisfação.
Não noutra alma.
Só em Deus - ou fora do mundo.

As almas são incomunicáveis.

Deixa o teu corpo entender-se com outro corpo.

Porque os corpos se entendem, mas as almas não.

Manuel Bandeira



Antes de amar-te, amor, nada era meu
Vacilei pelas ruas e as coisas:
Nada contava nem tinha nome:
O mundo era do ar que esperava.
E conheci salões cinzentos,
Túneis habitados pela lua,
Hangares cruéis que se despediam,
Perguntas que insistiam na areia.
Tudo estava vazio, morto e mudo,
Caído, abandonado e decaído,
Tudo era inalienavelmente alheio,
Tudo era dos outros e de ninguém,
Até que tua beleza e tua pobreza
De dádivas encheram o outono.

Pablo Neruda


Aprendi que não posso exigir o amor de ninguém...
Posso apenas dar boas razões para que gostem de mim...
E ter paciência para que a vida faça o resto...

William Shakespeare


Saudade

Saudade é solidão acompanhada,
é quando o amor ainda não foi embora,
mas o amado já...

Saudade é amar um passado que ainda não passou,
é recusar um presente que nos machuca,
é não ver o futuro que nos convida...

Saudade é sentir que existe o que não existe mais...

Saudade é o inferno dos que perderam,
é a dor dos que ficaram para trás,
é o gosto de morte na boca dos que continuam...

Só uma pessoa no mundo deseja sentir saudade:
aquela que nunca amou.

E esse é o maior dos sofrimentos:
não ter por quem sentir saudades,
passar pela vida e não viver.

O maior dos sofrimentos é nunca ter sofrido.


Pablo Neruda


Porque sou fã de Santana Castilho



Uma oportunidade perdida

Que temos, dois meses depois? Pensões e salários violentamente tributados, dividendos e transferências para os offshores isentadas. Dez por cento do PIB nas mãos dos 25 mais ricos, cujo património aumentou 17,8 por cento. Impostos e mais impostos, que juraram não subir e de que se serviram para correr com o outro. Aumentos brutais do que é básico, da saúde aos transportes, passando pela electricidade e gás. Venda em saldo do BPN, sem direito sequer a saber os critérios da escolha da proposta mais barata, depois de todos nós termos subsidiado com 2.400 milhões de euros, pelo menos, vigaristas, donos e falsos depositantes. Afã para vender a água que beberemos no futuro. Quinhentas nomeações para a máquina do Estado, cuja obesidade reprovavam. Abolição da gravata. Espionagem barata com muito, mesmo muito, por esclarecer. Descoberta de um caixote de facturas não contabilizadas no esconso de um instituto em vias de fusão. Início da recuperação do TGV, antes esconjurado. Promessa de bandeirinhas nacionais em tudo o que se exporte. Um presidente que se entretém no Facebook, cobardia colectiva e mais uma peregrinação reverencial à Europa, que o primeiro-ministro inicia hoje. A tesouraria do Estado necessitou da troika. Mas o país dispensava o repetido discurso de gratidão subserviente de Pedro Passos Coelho. Aquilo a que ele chama ajuda é um negócio atípico. Atípico pelos juros invulgarmente altíssimos e atípico por o prestamista se imiscuir violentamente na vida do devedor, a ponto de ter tornado o Governo de um país com mais de 800 anos de história, outrora independente, num grémio administrativo de aplicação do acordo com a troika.


A marca mais impressiva de um Governo que fala de mudança sem a saber operar está na Educação. Quem gere hoje o ensino só se distingue do Governo anterior no estilo. Na essência da política não diverge. O desejo de implodir o ministério sucumbiu à evidente falta de ideias reformistas e à ditadura das circunstâncias e da inércia de sempre. Dois meses volvidos, a oportunidade perdida é irreversível.

Sobre a avaliação do desempenho dos professores, está tudo dito, seja no plano técnico, seja no político. Os resultados de 4 anos de teimosia são evidentes e resumem-se à destruição da coesão docente e do espírito cooperativo, que marca a essência de uma Escola. Passos Coelho chamou-lhe monstruosa e kafkiana e jurou que a suspenderia de imediato, se fosse Governo. Mas, afinal, a liturgia voltou. Os resultados serão desastrosos. Certo teria sido suspender o processo, como prometido, e condicioná-lo ao que de seguida abordo. Não o ter feito foi uma oportunidade perdida.

A Educação não é uma actividade mercantil. Mas a tarefa de lhe medir os resultados começou a ser contaminada pelo mercantilismo a que econometristas de sucesso e organizações internacionais preponderantes a passaram a submeter, a partir da década de 80. Uns foram na onda, outros não. Uns reflectiram, outros engoliram. Nós tragámos sofregamente. Era altura de arrepiar caminho. Um Governo preparado teria tomado três medidas imediatas: alterar o modelo de gestão das escolas, responsabilizando todos, pela via eleitoral, pelas escolhas feitas; assumir que a avaliação do desempenho dos professores é parte da avaliação do desempenho das escolas, dela indissociável, e que estes processos não são compagináveis com modelos universais, outrossim instrumentos de gestão de cada escola; reformar drasticamente a Inspecção-Geral da Educação, reorganizando-a por áreas científicas e alocando equipas de inspecção a grupos fixos de escolas. Não ter feito isto, imediatamente, foi uma tremenda oportunidade perdida.

Um Governo preparado, com estudo produzido durante seis anos de oposição, saberia como limpar o lixo administrativo e legislativo, que transformou os professores em escravizados burocratas de serviço. Nada ter acontecido neste campo, nestes dois meses, foi outra oportunidade perdida.

Um Governo competente teria anunciado imediatamente um concurso nacional de professores, para ser lançado no próximo ano, visando a correcção possível das injustiças gritantes dos últimos tempos, e teria apresentado já uma revisão do estatuto da carreira docente, que devolvesse aos professores a autonomia, a dignidade profissional e a independência científica e intelectual perdidas. Não o ter feito foi uma grande oportunidade perdida.

Um Governo seguro e com contas feitas já teria proposto a extinção da Parque Escolar, Empresa Pública, já teria decretado a suspensão de todo e qualquer tipo de novas iniciativas do Programa Novas Oportunidades e já teria tornado público o plano de corte na Educação dos 370 milhões de euros previstos no acordo com a troika. Não o ter feito foi uma grave oportunidade perdida.

Um Governo com alternativas teria já divulgado um exigente estatuto do Aluno, um coerente plano de outorga de verdadeira autonomia às escolas, incluindo a gestão de um currículo local, e teria, naturalmente, suspendido o inadequado processo de junção forçada de escolas. Não o ter feito foi uma irrecuperável oportunidade perdida.

Um Governo corajoso, tanto mais que tem o ensino não superior e o superior sob tutela do mesmo ministro, teria já anunciado uma intervenção séria e exigente no processo de formação inicial dos professores. Não o ter feito foi, ainda, uma oportunidade perdida.

O que citei é apenas parte do que seria necessário fazer. Não salvaria o Governo. Mas já o condena pela oportunidade perdida.


Santana Castilho

Fiz para mim!

Lembram-se disto! Pois cá está o que fiz com as minhas bolinhas de Fimo e prata!

Um colar e uma pulseirinha!

Gostam?