quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

Ainda o malfadado AO


No Brasil, tratava-se fundamentalmente de sacrificar o trema e o acento agudo em meia dúzia de casos. (...) Com isso, bastou o abaixo-assinado de uns 20 mil cidadãos para se adiar a aplicação de uma coisa trapalhona denominada Acordo Ortográfico (AO). Os políticos ouviram a reclamação, estudaram-na e assumiram-na, e a sr.ª Rousseff decidiu.
Em Portugal, o número de pessoas que tomaram posição contra o AO já ultrapassava as 120 mil em Maio de 2009. Hoje, e considerando tanto o Movimento contra o AO de então como a actual Iniciativa Legislativa de Cidadãos (ILC) com a mesma finalidade, esse número é incomparavelmente mais elevado.
Portugal bem pode propor a todos os quadrantes ideológicos e parlamentares da sua classe política que se assoem agora a este cruel guardanapo.
Faltou-lhes a coragem de respeitar as opiniões autorizadas, a capacidade de reflectir com lucidez sobre o assunto, a vontade cívica de se informarem em condições.
Acabaram a produzir este lindo serviço, com a notável excepção do relatório Barreiras Duarte, aprovado por unanimidade na Comissão Parlamentar de Ética, Sociedade e Cultura (Abril de 2009), (...)
A CPLP, ao engendrar o torpe segundo protocolo modificativo do AO, violou sem escrúpulos o direito internacional e traiu a língua portuguesa. Não serve. Mostrou total inconsciência, incompetência, incapacidade e oportunismo na matéria.
Agora, é evidente que, de três, uma: ou o Brasil vai propor uma revisão do AO, ou tratará de a empreender pro domo sua sem ouvir os outros países de língua portuguesa, ou fará como em 1945, deixando-o tornar-se letra morta por inércia pura e simples.
No primeiro caso, mostra-se a razão que tínhamos ao insistir na suspensão do AO, a tempo, para revisão e correcção. A iniciativa deveria ter sido portuguesa e muitos problemas teriam sido evitados.
No segundo caso, mostra-se além disso que continuamos a ser considerados um país pronto a agachar-se à mercê das conveniências alheias. Com a desculpa, a raiar um imperialismo enjoativo, da "unidade" da língua, em Portugal haverá sempre umas baratas tontas disponíveis para se sujeitarem ao que quer que o Brasil venha a resolver quanto à sua própria ortografia. Foi o que se passou em 1986 e 1990.
No terceiro caso, mostra-se ainda que ficaremos reduzidos a uma insignificância internacional que foi criada por nós mesmos.
Mas, em qualquer dos casos, a situação será muito diferente da actual. O Acordo Ortográfico não ficará incólume e as suas regras serão revistas e modificadas. Ninguém esconde no Brasil esta necessidade de revisão e correcção, tão cultural, social e politicamente sentida que está na base do adiamento decretado.
Se as regras vão ser modificadas, e quanto a este ponto não pode subsistir qualquer espécie de dúvida, será um absurdo absoluto que se mantenha a veleidade de as aplicar em Portugal na sua forma presente.
(...)
Torna-se imperativo o reconhecimento oficial de que a única ortografia que está em vigor em Portugal é a que já vigorava antes das desastrosas pantominas que foram empreendidas pelo Governo Sócrates.
No meio desta vergonha, o mais simples é:
a) reconhecer-se que o AO nunca entrou em vigor por falta de ratificação de todos os estados signatários;
pressuposto essencial da sua aplicação que é o vocabulário ortográfico comum que nem sequer foi iniciado;
c) suspender-se tudo o que se dispôs em Portugal quanto à aplicação do AO, nomeadamente no plano das escolas, dos livros escolares e dos serviços do Estado;
d) tomar-se a iniciativa de negociações internacionais com vista a uma revisão e correcção do AO por especialistas dignos desse nome.
O Acordo Ortográfico é tão mal feito que nem o Brasil o aceita... Logo à nascença, já era um cadáver adiado. Com vénia de Fernando Pessoa, agora não se pode deixar que, sem a necessária revisão, ele procrie seja o que for.


Vasco Graça Moura

Queria tomar o teu corpo no meu



























Queria...

Queria que fosses a árvore alta e frondosa
Que vive em frente à minha casa
Para te ver logo ao abrir a porta.

Queria que fosses o sol cálido e radioso
Que brilha lá alto, no céu infinito
Para aqueceres e iluminares o meu dia.

Queria que fosses as flores coloridas
Que embelezam e tingem os meus canteiros
Para enfeitares e pintares a minha vida.

Queria que fosses o mar revolto, as ondas
Que vislumbro daqui, da minha janela
Para me deitar a afogar em ti.

Queria-te aqui, sorrindo, ao meu lado
Queria enrolar-me dentro dos teus braços
Queria beber dos teus lábios o doce mel
Queria tomar o teu corpo no meu
E ficar para sempre em ti e contigo...


Mena

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

Obrigado, professores!


1. O ano que terminou foi apontado como o da viragem. Nada virou e muito piorou. Este será de continuidade: mais desemprego, mais falências, tribunais entupidos com cobranças fiscais coercivas, mais economia paralela, menos direitos, menos democracia e exponencial crescimento da pobreza. Perante o inevitável descambar do orçamento logo no primeiro trimestre, seguir-se-á mais austeridade. A chamada refundação trará miséria aos funcionários do Estado e novo golpe contra os serviços públicos, com a educação, a saúde e a segurança social na linha da frente. Apesar dos sacrifícios, a dívida continuará a aumentar. A “troika”, ela própria “entroikada” com o seu falhanço, terá tendência cúmplice para proteger Gaspar e Passos, apesar destes terem falhado em tudo, designadamente no combate ao défice, eixo fulcral do “programa”. Os arranjos entre a elite no poder terão em 2013 um ano venturoso. Tudo se conjugará para que os negócios floresçam, a coberto do diáfano manto de opacidade das privatizações, sob o qual se movimentam os consultores e os advogados da órbita do poder. Para esses não haverá crise nem Gaspar. É ela e ele que existem para eles. Mas a sobrevivência do país imporá a queda do Governo. A dúvida reside em quem a provocará proximamente. Pode Paulo Portas, com considerável grau de probabilidade, bater com a porta. Dificilmente os que conspiram dentro do PSD terão a coragem de atirar Passos borda fora. Mas é uma possibilidade a admitir no plano teórico, tão remota como a da iniciativa pertencer a Cavaco Silva. Resta a pressão da rua e a moleza do PS. 

2. Quem revisite o anterior discurso do ora ministro da Educação facilmente acreditaria que, uma vez no posto, dele só se poderiam esperar políticas que conduzissem ao crescente interesse dos professores pelo ensino. Mas o engano foi colossal. Tão-só seguiu e ampliou à dimensão do desumano a estratégia de proletarização dos docentes: desinvestiu na sua formação; reduziu-lhes os salários e aumentou-lhe os horários de trabalho; manteve exigências burocráticas que roçam o sadismo; fixou-lhes vários locais de trabalho, obrigando-os a deslocarem-se de uns para os outros em períodos não remunerados e a expensas próprias; desafiou os tribunais não cumprindo as sentenças favoráveis aos despedidos; com um volume de despedimentos nunca visto em alguma classe profissional em Portugal (30 mil, segundo os critérios mais generosos), criou um exército de mão-de-obra barata, na reserva, miserável, chantageado e sem horizontes de futuro. Poderá o país aceitar este desperdício de gente formada à custa de muitos milhões? A fome das crianças já não está encapotada. Diminuiu drasticamente o apoio aos alunos deficientes e aos grupos social e culturalmente mais debilitados. Ampliou-se e prossegue o hediondo agrupamento de escolas, contra tudo e contra todos, sobretudo contra os alunos. Quando o resultado deste crime político for visível, daqui a anos, acontecerá aos protagonistas responsáveis o mesmo que aconteceu aos que trouxeram o país às catacumbas em que se encontra: nada. 

3. A International Association for the Evaluation of Educational Achievementrealiza, cada quatro anos, dois estudos conceituados internacionalmente: o TIMMS (Trends in International Mathematics and Science Study) e o PIRLS (Progress in International Reading Literacy Study). Portugal participou na edição de ambos de 1995, tendo ficado nos últimos lugares do ranking. Ausente dos estudos de 1999, 2003 e 2007, voltou a ser cotado em 2011. Entre 50 países ficou no 15º lugar em matemática e 19º em ciências. Entre 45 países, foi 19º no PIRLS. Em valor absoluto, os resultados são positivamente relevantes. Mas em valor relativo ainda são mais: de 1995 para 2011 foi Portugal o país que mais progrediu em matemática e o segundo que mais avançou no ensino das ciências; se reduzirmos o universo aos países da união europeia, estamos na 12ª posição em ciências, sétima em matemática e oitava em leitura; se ponderarmos estes resultados face ao estatuto económico e financeiro das famílias e dos estados com que nos comparamos, o seu significado aumenta exponencialmente e deita por terra o discurso dos que odeiam os professores. Há bem pouco, Gaspar, arauto da econometria e vuvuzela dos indicadores internacionais, rotulava de ineficiente o sistema de ensino. O seu amanuense Crato, outrora impante de PIMMS e PIRLS na mão, ficou mudo agora. Relativizo os resultados e discuto os critérios e os objectivos destes estudos. Não os valorizo como eles os valorizam. Mas é por isso que denuncio o silêncio oficial. Porque estes resultados, valham o que valerem, são, inequivocamente, fruto do trabalho dos professores portugueses. Apesar de tudo, quantas vezes apesar das políticas. Obrigado, professores! 

Santana Castilho

terça-feira, 1 de janeiro de 2013

Vem, Noite - Álvaro de Campos




Ode à noite (excerto)

Vem, Noite antiquíssima e idêntica,
Noite Rainha nascida destronada,
Noite igual por dentro ao silêncio, Noite
Com as estrelas lantejoulas rápidas
No teu vestido franjado de Infinito.

Vem, vagamente,
Vem, levemente,
Vem sozinha, solene, com as mãos caídas
Ao teu lado, vem
E traz os montes longínquos para o pé das árvores próximas,
Funde num campo teu todos os campos que vejo,
Faz da montanha um bloco só do teu corpo,
Apaga-lhe todas as diferenças que de longe vejo,
Todas as estradas que a sobem,
Todas as várias árvores que a fazem verde-escuro ao longe.
Todas as casas brancas e com fumo entre as árvores,
E deixa só uma luz e outra luz e mais outra,
Na distância imprecisa e vagamente perturbadora,
Na distância subitamente impossível de percorrer.

Nossa Senhora
Das coisas impossíveis que procuramos em vão,
Dos sonhos que vêm ter connosco ao crepúsculo, à janela,
Dos propósitos que nos acariciam
Nos grandes terraços dos hotéis cosmopolitas
Ao som europeu das músicas e das vozes longe e perto,
E que doem por sabermos que nunca os realizaremos...
Vem, e embala-nos,
Vem e afaga-nos.
Beija-nos silenciosamente na fronte,
Tão levemente na fronte que não saibamos que nos beijam
Senão por uma diferença na alma.
E um vago soluço partindo melodiosamente
Do antiquíssimo de nós
Onde têm raiz todas essas árvores de maravilha
Cujos frutos são os sonhos que afagamos e amamos
Porque os sabemos fora de relação com o que há na vida.

Vem soleníssima,
Soleníssima e cheia
De uma oculta vontade de soluçar,
Talvez porque a alma é grande e a vida pequena,
E todos os gestos não saem do nosso corpo
E só alcançamos onde o nosso braço chega,
E só vemos até onde chega o nosso olhar.

Vem, dolorosa,
Mater-Dolorosa das Angústias dos Tímidos,
Turris-Eburnea das Tristezas dos Desprezados,
Mão fresca sobre a testa em febre dos humildes,
Sabor de água sobre os lábios secos dos Cansados.
Vem, lá do fundo
Do horizonte lívido,
Vem e arranca-me
Do solo de angústia e de inutilidade
Onde vicejo.
Apanha-me do meu solo, malmequer esquecido,
Folha a folha lê em mim não sei que sina
E desfolha-me para teu agrado,
Para teu agrado silencioso e fresco.
Uma folha de mim lança para o Norte,
Onde estão as cidades de Hoje que eu tanto amei;
Outra folha de mim lança para o Sul,
Onde estão os mares que os Navegadores abriram;
Outra folha minha atira ao Ocidente,
Onde arde ao rubro tudo o que talvez seja o Futuro,
Que eu sem conhecer adoro;
E a outra, as outras, o resto de mim
Atira ao Oriente,
Ao Oriente donde vem tudo, o dia e a fé,
Ao Oriente pomposo e fanático e quente,
Ao Oriente excessivo que eu nunca verei,
Ao Oriente budista, bramânico, sintoísta,
Ao Oriente que tudo o que nós não temos,
Que tudo o que nós não somos,
Ao Oriente onde — quem sabe? — Cristo talvez ainda hoje viva,
Onde Deus talvez exista realmente e mandando tudo...

Vem sobre os mares,
Sobre os mares maiores,
Sobre os mares sem horizontes precisos,
Vem e passa a mão pelo dorso da fera,
E acalma-o misteriosamente,
Ó domadora hipnótica das coisas que se agitam muito!

Vem, cuidadosa,
Vem, maternal,
Pé ante pé enfermeira antiquíssima, que te sentaste
À cabeceira dos deuses das fés já perdidas,
E que viste nascer Jeová e Júpiter,
E sorriste porque tudo te é falso é inútil.

Vem, Noite silenciosa e extática,
Vem envolver na noite manto branco
O meu coração...
Serenamente como uma brisa na tarde leve,
Tranquilamente com um gesto materno afagando.
Com as estrelas luzindo nas tuas mãos
E a lua máscara misteriosa sobre a tua face.
Todos os sons soam de outra maneira
Quando tu vens.
Quando tu entras baixam todas as vozes,
Ninguém te vê entrar.
Ninguém sabe quando entraste,
Senão de repente, vendo que tudo se recolhe,
Que tudo perde as arestas e as cores,
E que no alto céu ainda claramente azul
Já crescente nítido, ou círculo branco, ou mera luz nova que vem.

A lua começa a ser real.



Álvaro de Campos


Caracterização da Noite: “Noite antiquíssima e idêntica, / Noite Rainha nascida destronada, / Noite igual por dentro ao silêncio, Noite / Com as estrelas lantejoulas rápidas / No teu vestido franjado de Infinito.”, “(...) soleníssima, / Soleníssima e cheia /  De uma oculta vontade de soluçar,”, (...) Noite silenciosa e extática, / manto branco”.
A noite aparece, assim, como uma entidade eterna, solene e mágica, como algo que seduz e encanta o sujeito poético.

O sujeito poético sente-se triste, desencantado “oculta vontade de soluçar, / Talvez porque a alma é grande e a vida é pequena”, insatisfeito perante as limitações do homem “E só alcançamos onde o nosso braço chega, / E só vemos onde chega o nosso olhar”. Este estado de alma angustiado em face da “inutilidade / Onde vicejo”, condu-lo ao desejo futurista / sensacionista de ser “desfolhado” pela Noite e lançado em todas as direcções (Norte, Sul, Oriente, Ocidente). No entanto, este frenesim emocional redunda num desejo de repouso tranquilo no seio da noite “Vem envolver na noite manto branco / o meu coração...”
Estes sentimentos do sujeito poético face à Noite levam a que esta noite maternal seja também uma imagem da morte, a “cósmica maternidade da morte”.

O poema é um apelo à noite, apostrofada logo de início – “Vem, Noite, antiquíssima e idêntica” – e personificada também – “Vem, sozinha, solene, com as mãos caídas”. Mas este apelo acaba por se transformar num longo diálogo a uma voz. Assim as sucessivas apóstrofes à Noite, o emprego reiterativo do imperativo “vem”, “funde”, “faz”, “apaga”, “desfolha”..., além do predomínio do discurso de primeira pessoa “vejo”, “alcançamos”, nosso”, “vemos”, “nosso”, “me”, “vicejo”, “meu”, “mim”, “eu”... e de segunda pessoa “vem”, “teu”, “vem”, “teu”... revelam a presença da função apelativa.
O sujeito poético considera a Noite “Rainha nascida destronada”. De salientar  as imagens belíssimas: “Noite / Com as estrelas lantejoulas rápidas / No teu vestido franjado de infinito.”

Os recursos expressivos mais marcantes são a utilização anafórica de “Vem”, modo imperativo e função apelativa da linguagem, presentes ao longo de toda a ode, reforçam toda uma série de pedidos que o sujeito poético faz à noite – “Funde num campo teu todos os campos que vejo / Faz da montanha um bloco só do teu corpo, / Apaga-lhe todas as diferenças que de longe lhe vejo / Todas as estradas... / Todas as várias árvores... / Todas as casas...”, como se ela pudesse anular toda a variedade de sensações e sentimentos que experimentou. Finaliza, pedindo-lhe “só uma luz e outra luz e mais outra”, porque uma só luz não lhe chega, ele sente necessidade de diversos estímulos e sensações. A luz funciona como ponto de referência para percorrer a sua vida, uma distância imprecisa e vagamente perturbadora, uma distância subitamente impossível de percorrer.
Neste momento, notam-se já uns laivos de desespero e angústia, criados, possivelmente, por um sentimento de impotência e perplexidade face à sua vida presente. Estes indícios são confirmados na terceira estrofe, que é iniciada com nova apóstrofe à Noite, encarada como a padroeira dos sonhos impossíveis e das esperanças não concretizáveis: “Nossa Senhora / Das coisas impossíveis que procuramos em vão” (vv. 20/21 e seguintes.).
A salientar também a adjectivação expressiva “antiquíssima”, idêntica”, “sozinha”, “solenessima”.
A musicalidade, outra característica deste poema, é conseguida através do recurso à aliteração de sons nasais e fricativos (v), nos versos 6 e 7: “Vem, vagamente, / Vem lentamente...”. Os advérbios de modo (vagamente, lentamente, levemente, serenamente, tranquilamente) deixam adivinhar a necessidade de tranquilidade que a Noite poderá trazer ao sujeito lírico, em oposição aos seus sentimentos sempre em ebulição.
Só a Noite o poderá então aliviar da dor que lhe provoca a sensação de fracasso da sua vida, que não é mais do que uma sucessão de sonhos perdidos: “Dos sonhos que vêm ter connosco ao crepúsculo / E que doem por sabermos que nunca os realizaremos”; que a Noite lhe traga o alívio e o repouso de que necessita: “Beija-nos silenciosamente na fronte / Tão levemente que não saibamos que nos beijam (...)” (vv. 29-30).
Volta a referir esses sonhos nos versos seguintes, considerando-os frutos de árvores de maravilha que têm raiz no antiquíssimo de nós, ou seja, no mais íntimo do ser. O sujeito lírico estima e encoraja esses sonhos – única coisa que lhe resta, afinal.
Mas talvez a serenidade da Noite não seja suficiente para dissipar toda a sua angústia e desespero, o que lhe traz uma oculta vontade de chorar. O sujeito lírico é certamente invadido por uma onda de sentimentos disfóricos, talvez devido à constatação de que a vida e o corpo impõem limites à grandeza de alma que ele sabe possuir e à realização de todos os sonhos que ele agora sabe serem impossíveis de concretizar – “A alma é grande e a vida é pequena” (...).
A invocação seguinte está já imbuída de toda a negatividade – Vem Dolorosa , / Mater Dolorosa das Angústias dos Tímidos / ...das Tristezas dos Desesperados” (v. 44 e seguintes.). A Noite apresenta-se como solução – “Mão fresca sobre a testa em febre dos humildes” – e o poeta entrega-se a ela numa atitude de renúncia, bem marcada pela expressividade da imagem utilizada – “Vem e arranca-me / do solo de angústia e inutilidade onde vicejo...”. Esta leve insinuação de ideia da Morte é reforçada nos versos seguintes – “Apanha-me do meu solo... / E desfolha-me para teu agrado” – concretizando essa renúncia. O sujeito poético pede então à Noite que o torne múltiplo e o leve para junto dos locais que sempre amou – o Norte, “onde estão as cidades de Hoje”, o Sul “onde estão os mares”, o Ocidente, símbolo do futuro e, finalmente, o Oriente, “a origem de tudo, donde vem o dia e a fé”. Após este pedido, segue-se uma grande construção anafórica, criando um clima de exaltação do Oriente (vv. 67-71), “onde – quem sabe? – Cristo talvez ainda hoje viva”.
Na estrofe seguinte, através da metáfora – “Vem e passa a mão pelo dorso da fera / E acalma-o misteriosamente” – e da estranha apóstrofe “Ó domadora hipnótica das coisas que se agitam muito”, somos levados a pensar que só a Noite conseguirá acalmar até os sentimentos mais exaltados e violentos do sujeito poético. Ela é, então, um bálsamo, a “enfermeira antiquíssima” das chagas provocadas por todas as fés já perdidas e por tudo o que é falso e inútil.
Novamente uma alusão à morte, desta vez mais explícita – “Vem envolver na noite manto branco / O meu coração” – pedindo o sujeito lírico para ela o levar, já que a morte é encarada como uma saída plausível e até agradável – como se poderá depreender das comparações: “Como uma brisa na tarde leve, como um gesto materno afagando” e dos advérbios de modo serenamente, tranquilamente.
E a noite/morte virá, por fim, mesmo que ninguém a veja entrar ou saiba quando entrou, quando “a lua começa a ser real”.
Resumindo, o conjunto destes recursos expressivos confere ao poema um ritmo embalatório, dormente, um ritmo que envolve o sujeito poético, arrastando-o serena e tranquilamente para o “manto branco e materno da Noite”.

Esta “Ode à Noite” é quase um hino à morte, se a encararmos como metáfora e prefiguração da morte. O sujeito poético está neste poema, “cansado”, sonolento, é alguém que chega ao fim de um percurso de desistência e que se abandona ao “império”, ao domínio da Noite. Esta ode aproxima-se mais da fase abúlica.