quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Os Lusíadas - Reflexões do poeta



Considerações do Poeta - críticas e conselhos aos Portugueses

Os Lusíadas são uma epopeia na qual se reflecte o optimismo do Renascimento, crente nas capacidades do Homem. Por isso, o herói liberta-se da sua pequenez humana de "bicho da Terra" e, através da ousadia e da coragem, ascende a um estádio superior, digno dos deuses.
No entanto, não é apenas esta visão optimista do Homem  aquela que está patente na obra. A verdade é que, a par da glorificação dos heróis que fizeram grande a Pátria e o Homem e devem , por isso, servir de exemplo, está presente um desencanto e um pessimismo do poeta que olha para o Portugal seu contemporâneo com tristeza, nostalgia e desalento. Não podemos esquecer que Camões publicou Os Lusíadas, 74 anos depois da viagem de Vasco da Gama, num momento em que o império português estava já em decadência e um futuro negro se pressentia.
Esse pessimismo está patente sobretudo nas reflexões do final dos Cantos.
O poeta apresenta-se, nas suas reflexões, como guerreiro e poeta a quem não "falta na vida honesto estudo; com longa experiência misturado" (C. X, 154). Um poeta que, ainda que perseguido pela sorte e desprezado pelos seus contemporâneos, assume o papel humanista de intervir, de forma pedagógica, na vida contemporânea. Por isso:
  • critica a ignorância e o desprezo pela cultura revelados pelos homens de armas (C. V);
  • denuncia o desprezo pelo bem comum, a ambição desmedida, o poder exercido com tirania, a hipocrisia dos aduladores do Rei, a exploração do povo (C. VII);
  • denuncia o poder corruptor do ouro (C. VIII);
  • propõe um modelo humano ideal de "Heróis esclarecidos" que terão ganhado o direito de ser na "Ilha de Vénus recebidos" (C. IX, 95);
  • ergue-se contra o adormecimento da Pátria, metida "No gosto da cobiça e na rudeza / Duma austera, apagada e vil tristeza". (C. X, 145).
Mas, o poema, acima de tudo, evidencia a grandeza do passado de Portugal: um pequeno povo que cumpriu, ao longo da sua História, a missão de dilatar a Cristandade, que abriu novos rumos ao conhecimento, que mostrou a capacidade do Homem de concretizar o sonho.
Ao cantar o heroísmo do passado, o poeta pretende mostrar aos seus contemporâneos a falta de grandeza do Portugal presente, e incentivar o Rei a conduzir os Portugueses para um futuro de novo glorioso, para uma nova era de orgulho nacional.


Canto I - Reflexão sobre a fragilidade da condição humana

As traições e perigos a que os navegadores estão sujeitos justificam o desabafo do poeta sobre a fragilidade da condição humana, que submete o Homem a inúmeros e permanentes perigos.
Não será por acaso que esta reflexão surge no final do Canto I, quando o herói ainda tem um longo e penoso caminho a percorrer. Ver-se-á, no Canto X, até onde a ousadia, a coragem e o desejo de ir sempre mais além podem levar o "bicho da terra tão pequeno", tão dependente da fragilidade da sua condição humana.


Canto V - Crítica à falta de cultura e de apreço pelos poetas que os Portugueses revelam

O poeta começa por mostrar como o canto e o louvor incitam à realização dos feitos heróicos; dá em seguida exemplos do apreço que os antigos heróis gregos e romanos tinham pelos seus poetas e da importância que davam ao conhecimento e à cultura, conciliando as armas com o saber.
Não é, infelizmente, o que se passa com os portugueses, que não dão valor aos seus poetas, porque não têm cultura para os conhecer. Ora, não se pode amar o que não se conhece, e a falta de cultura dos heróis nacionais é responsável pela indiferença que manifestam pela divulgação dos seus feitos, e, se não tiverem poetas que os cantem, serão esquecidos. Apesar disso, o poeta, movido pelo amor da Pátria, reitera o seu propósito de continuar a engrandecer, com os seus versos, as "grandes obras" realizadas.
Manifesta, desta forma, a vertente crítica e pedagógica da sua epopeia, na defesa da realização plena do Homem, em todas as suas capacidades.


Canto VI - Reflexão sobre o verdadeiro e árduo caminho da fama e da glória

Continuando a exercer a sua função pedagógica, o poeta defende um novo conceito de nobreza, espelho do modelo da virtude renascentista. Segundo este modelo, a fama e a imortalidade, o prestígio e o poder adquirem-se pelo esforço - na batalha ou enfrentando os elementos, sacrificando o corpo e sofrendo pela perda dos companheiros. Não se é nobre por herança, permanecendo no luxo e na ociosidade, nem pela concessão de favores se deve alcançar lugar de relevo.


Canto VII - Elogio ao espírito de cruzada dos portugueses / crítica aos outros povos

Percorrido tão longo e difícil caminho, é momento para que, na chegada a Calecut (est. 3-7), o poeta faça novo louvor aos portugueses. Exalta então o seu espírito de cruzada, a incansável divulgação da fé, por África, Ásia, América, "E, se mais mundos houvera, lá chegara", assim inserindo a viagem à Índia na missão transcendente que assumiram, e que é marca da sua identidade nacional.
Por oposição, critica duramente as outras nações europeias - os "Alemães, soberbo gado", o "duro inglês, o "Galo indigno", os italianos que, "em delícias, / Que o vil ócio no mundo traz consigo, / Gastam as vidas" - por não seguirem o seu exemplo, no combate aos infiéis...


Canto VII - Crítica aos contemporâneos ambiciosos que exploram e oprimem o povo

Numa reflexão de tom marcadamente autobiográfico, o poeta exprime um estado de espírito bem diferente do que caracterizava, no Canto I, a Invocação às Tágides. Agora percorre um caminho - "árduo, longo e vário", e precisa de auxílio, porque teme não chegar a bom porto. De uma vida cheia de adversidades, enumera a pobreza, a desilusão, os perigos do mar e da guerra, "Nua mão sempre a espada e noutra a pena".
Denuncia que, como paga do seu labor, recebe novas contrariedades, e desta forma apresenta, uma vez mais, a crítica aos contemporâneos, deixando o alerta: em consequência de tais maus exemplos de ingratidão deixarão de aparecer outros poetas que cantem a pátria. E a crítica aumenta de tom na parte final, quando enumera aqueles que nunca cantará e que, implicitamente, denuncia abundarem no seu tempo: os ambiciosos que sobrepõem os seus interesses aos do "bem comum e do seu Rei", os dissimulados, os exploradores do povo, que não defendem "que se pague o suor da servil gente".
No final, retoma a definição do seu herói - o que arrisca a vida "por seu Deus, por seu Rei".


Canto VIII - Crítica ao poder do dinheiro

O poeta enumera os efeitos perniciosos do ouro que provoca derrotas, faz dos amigos traidores, mancha o que há de mais puro, deturpa o conhecimento e a consciência, condiciona as leis, dá origem a difamações e à tirania dos reis, corrompe até os sacerdotes, sob a aparência da virtude. Retomando a função pedagógica do seu canto, o poeta aponta o dedo à sociedade sua contemporânea, orientada por valores materialistas.


Canto IX - Reflexões sobre o caminho para merecer a fama

Na sequência da cerimónia simbólica de entrega das coroas de louros aos marinheiros e a Vasco da Gama, o poeta dirige-se àqueles que desejam ser famosos, aconselhando-os sobre o caminho a seguir. Na verdade, é também aos seus contemporâneos que Camões se dirige, exortando-os a despertar do adormecimento e do ócio, a pôr de lado a cobiça e a tirania, a serem justos e a lutarem pela Pátria e pelo rei. Só assim serão eternizados como os marinheiros, e serão também "nesta ilha de Vénus recebidos."


Canto X - Crítica aos Portugueses seus contemporâneos / Apelo ao Rei

Os últimos versos de Os Lusíadas revelam sentimentos contraditórios: desalento, orgulho, esperança. "No mais, Musa, no mais..." pede o poeta, recusando continuar o seu canto, não por cansaço, mas por desânimo. O seu desalento advém de constatar que canta para "gente surda e endurecida", mergulhada "no gosto da cobiça e na rudeza / duma austera, apagada e vil tristeza". É a imagem do Portugal do seu tempo.
Por contraste, o poeta tem orgulho nos que estão dispostos a reavivar a grandeza do passado, evidenciando ainda a esperança de que o Rei os estimule para dar continuidade à glorificação do "peito ilustre lusitano" e dar matéria a novo canto. O poema encerra, pois, com uma mensagem que abarca o passado, o presente e o futuro. A glória do passado deverá ser encarada como exemplo presente para construir um futuro grandioso.


Velho do Restelo - um episódio em final de canto
(Canto IV, est. 94-104)

Situado no final do Canto IV, este episódio insere-se na narrativa feita por Vasco da Gama ao rei de Melinde. De certa forma, estabelece a ponte entre o plano da História de Portugal e o plano da Viagem.
No momento em que a armada está prestes a partir, uma figura destaca-se da multidão e levanta a voz, condenando a viagem. A caracterização sublinha a idade )"velho"), o aspecto respeitável ("aspeito venerando"), a atitude de descontentamento ("meneando / três vezes a cabeça, descontente"). a voz solene e audível ("A voz pesada um pouco alevantando"), e a sabedoria resultante da experiência de vida ("Cum saber só de experiências feito"; "experto peito"). De facto, a figura do Velho do Restelo impõe uma autoridade  e respeitabilidade que lhe permitem falar e ser ouvido sem contestação. As suas palavras têm o peso da idade e da experiência que daí resulta e a autoridade provém, exactamente, dessa vivida e longa experiência.
Naturalmente, o "Velho do Restelo" não é uma personagem histórica, mas uma criação de Camões com um profundo significado simbólico.
Numa análise superficial e meramente historicista, o Velho representa a corrente de opinião que via com desagrado a expansão para o Oriente, preferindo as conquistas militares no Norte de África.
Mas o Velho do Restelo representa muito mais. Ele é a representação daqueles que condenam a ousadia do Homem, o impulso do ser para transcender tudo o que o limita, o sonho de ir mais além.
Opositor de toda a forma de ambição humana, vê no progresso a fonte de todos os males. Nesse sentido, o Velho do Restelo é um conservador que se opõe ao juvenil impulso criador r transformador daqueles que não se contentam nem conformam com o já adquirido e já vivido.
Por outro lado ainda, podemos ver o Velho como símbolo dos que, em nome do bom senso, recusam a aventura, defendendo que é preferível a tranquilidade duma vida mediana à promessa de riquezas que, frequentemente, se traduzem em desgraças. Encontramos aqui um eco de uma ideia humanista: a nostalgia da Idade do Ouro, tempo de paz e tranquilidade de que o Homem se viu afastado e a que pode voltar, reduzindo a sua ambição a uma sábia mediania ("aurea mediocritas"), já que foi a ambição que lançou o ser humano na Idade do Ferro, em que vive (est. 98). Neste sentido, o episódio pode ser entendido como a manifestação do espírito humanista, favorável à paz e tranquilidade, contrário ao espírito guerreiro da Idade Média.

Edições Sebenta

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

domingo, 20 de janeiro de 2013

O DESASTRE ORTOGRÁFICO


Em 1990, quando oito países da CPLP assinaram o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, eu era director da revista “Grande Reportagem” e assinei, conjuntamente com Vicente Jorge Silva, então director do “Público“, e Miguel Esteves Cardoso, então director de “O Independente”, uma declaração, publicada nos respectivos meios, comprometendo-nos a não aplicar o dito acordo nas nossas páginas. Passados vinte e três anos, não mudei de opinião relativamente ao AO: fundamentalmente, continuo a não aceitar o facto consumado de um acordo saído do nada, a pedido de ninguém, não negociado nem explicado aos principais utilizadores da língua — autores, professores, editores, jornalistas — e imposto a dez milhões de portugueses por uma comissão de sábios da Academia das Letras do Brasil e da Academia das Ciências de Portugal.
Sempre temi a ociosidade dos sábios e a tendência leviana dos governantes para legislarem a pedido das modas intelectuais. Mas nunca pensei que uma nação que tinha levado a sua língua às cinco partidas do mundo, chegando a ser a língua franca nos mares do sudoeste asiático até ao dealbar do século XIX, fosse capaz de voluntariamente, e invocando vagos interesses geocomerciais, propor a sua submissão às regras em uso num país onde levámos a língua que o unificou. Por outro lado, não fui sensível ao argumento de que as grafias mudam (sem ser naturalmente) e ao exemplo, tantas vezes esgrimido, do ‘ph’ reduzido a ‘f’ pelo AO de 1945 (que o Brasil nunca aplicou, como também não aplicou o anterior, de 1931…). Não alcanço que extraordinário progresso se consumou ao deixar de se escrever “pharmácia”, a troco da “farmácia”, e acho seguramente intrigante que idêntico progresso não tenha contagiado, por exemplo, franceses e ingleses. que continuam a escrever a mesma palavra com ph. Também nunca me convenceu o argumento de que o AO facilitaria a penetração da literatura portuguesa nos PALOP e no Brasil, impossível de alcançar sem ele.
Quanto aos PALOP, basta o facto da recusa de Angola e Moçambique de, até hoje, ratificarem o AO, preferindo escrever no português que lhes levámos, para desmentir essa pretensa vantagem; e, quanto ao Brasil, perdoem-me a imodéstia de invocar o meu testemunho pessoal de quatro livros lá editados, todos com a referência de que “por vontade do autor, manteve-se a grafia usada em Portugal” — e sem que isso tenha prejudicado de alguma forma a sua edição, divulgação e venda.

Oito países falantes de português assinaram o AO de 1990, mas como, após anos de espera em vão, apenas quatro o tinham ratificado, esses quatro decidiram, em 2008, que eram suficientes para o fazer entrar em vigor. O AO, que entre nós começou a vigorar aos bochechos em 2009, é, assim, e antes de mais, inválido, resultante de uma golpada jurídica não prevista no tratado inicial, que apenas confirmou o voluntarismo idiota e o abuso político com que todo o processo foi conduzido. Porque nunca conseguiu convencer quem devia, o AO foi imposto manu militari, por governantes saloios, desprovidos de coragem para enfrentar os lóbis da “cultura” e convencidos de que a força da lei há-de sempre acabar por triunfar sobre a fraqueza da sem-razão. Surdos a todos os argumentos dos oponentes (entre os quais o país deve uma homenagem de gratidão a Vasco Graça Moura), desdenhosos perante o abaixo-assinado com 130.000 subscritores contra o AO, sem um estremecimento de vergonha perante o editorial do “Jornal de Angola” do Verão passado (que aqui citei na altura), onde se escrevia que, se Portugal não defendia a sua língua, defendê-la-iam eles, os governantes acharam que o mais importante de tudo era não desagradar ao Brasil, a cuja presumida vontade fora dedicado o AO.
Mas eis que na iminência de entrar em vigor plenamente no Brasil, em 1 de Janeiro passado, uma petição com 30.000 assinaturas levou o Congresso a pedir e Dilma Rousseff a aceitar a suspensão da sua entrada em vigor por três anos, para que melhor se medite no diktat dos sábios. E chegámos assim à situação actual, verdadeira parábola sobre o destino da sobranceria: neste momento, há três grafias oficiais da língua portuguesa — a que vigora em Angola, Moçambique, Timor, e que é a anterior ao AO; a grafia brasileira que é a mesma de sempre, resultante do não acatamento de nenhum dos três acordos ortográficos assinados connosco, ao longo de 60 anos; e a de Portugal, que, com excepções ainda autorizadas, é resultante do AO de 1990 — feito, segundo diziam, para “unificar a língua”, agradar aos brasileiros e não perder influência em África! É notável, é brilhante, é mais do que prometia a estupidez humana! Perante este facccccccccto, seria de esperar que os nossos sábios e os arautos dos amanhãs que cantariam no português por eles unificado pintassem a cara de preto e viessem pedir desculpas públicas. Eu dar-lhes-ia como castigo a conversão ao AO do “Grande Sertão, Veredas”, de Guimarães Rosa.
Porque agora, digam-me lá, o que faremos nós, depois de termos obrigado, e quase arruinado, os nossos editores a converterem em português do AO todos os livros editados? Depois de termos tornado obrigatórias no ensino as regras do AO, desde a época passada? Depois de termos convencido prestigiadas instituições, como este jornal, a submeterem-se ao Conselho de Ministros? Vamos, como legalmente previsto, tornar o AO universalmente obrigatório para todos a partir de 2015, vergando de vez os lusitanos que ainda resistem, sem saber se os brasileiros farão o mesmo no ano seguinte? Vamos correr o risco de ficar a escrever numa grafia em que mais nenhum país falante da nossa língua escreverá? Vamos oferecer um banco aos angolanos e a TAP aos brasileiros, em troca de eles se renderem e terem pena da nossa solidão? Vamos acolher a Guiné Equatorial na CPLP contra a jura de ratificarem o AO? Vamos exigir aos ilustres embaixadores aposentados da CPLP o mesmo destemor a defender o AO de que deram mostras a enfrentar o governo de narcotraficantes da Guiné-Bissau? Ou vamos conformarmo-nos a ter uma geração de pais que escreve de uma maneira e uma de filhos que escreve de outra maneira?
Porque uma coisa é garantida: a arrogância dos poderosos não conhece arrependimento. Eles jamais voltarão atrás, reconhecendo que se enganaram, que se precipitaram, que foram atrás de vozes de sereias, que se esqueceram de que há coisas que nenhum país independente cede sem estremecer: o território, o património, a paisagem, a língua. Trataram isto como coisa menor, como facto herdado e consumado, de ministro em ministro, de governo em governo, de parlamento em parlamento, de Presidente em Presidente. Partiram do princípio de que os portugueses comem tudo, desde que bem embrulhado em frases grandiloquentes, com a assinatura dos influentes e a cumplicidade dos prudentes. Mas, dêem agora as voltas que quiserem dar aos acordos que assinaram e à língua que lhes cabia defender e não trair, cobriram-se de ridículo. Está escrito nos livros de História: um pais que se humilha para agradar a terceiros, arrisca-se a nada recolher em troca, nem a gratidão dos outros nem o respeito dos seus. Apenas lhe resta o ridículo. Oxalá ele chegasse para matar de vez o triste Acordo Ortográfico!


Miguel Sousa Tavares

E o AO serve para unificar a Língua Portuguesa! Deixem-me rir...



... e arranjem outra desculpa, que esta não cola nem com super cola 3!

[...] ESTÁ A LER BEM: COM O ACORDO ORTOGRÁFICO, AUMENTA O NÚMERO DE PALAVRAS QUE SE ESCREVEM DE FORMA DIFERENTE!!!

Isto é, havia 1235 palavras que se escreviam da mesma forma em Portugal e no Brasil que, com o Acordo, mudam, a saber: 190 ficam com dupla grafia em ambos os países (por exemplo, circunspecto e circunspeto); 57 ficam com dupla grafia mas só em Portugal (por exemplo, conceptual e concetual, que no Brasil se escreve conceptual, mantendo a consoante "p"); 788 mudam para uma das variantes que existem no Brasil, por vezes a menos utilizada ou a considerada mais afastada da norma padrão (por exemplo, perspetiva: em Portugal, só se admite esta forma - sem "c" -, mas no Brasil admitem-se duas, perspetiva e perspectiva, sendo esta última a preferencial); finalmente, 200 mudam para uma até ao momento inexistente e que passa a existir apenas em Portugal (por exemplo, receção, que no Brasil só admite a forma recepção, que passa a não ser possível em Portugal).

ESTA ÚLTIMA SITUAÇÃO É A MAIS ABERRANTE: são 200 as palavras inventadas, que não existiam e passam a ser exclusivas da norma ortográfica em Portugal. Alguns exemplos: em Portugal, com o Acordo, passa obrigatoriamente a escrever-se aceção, anticoncetivo, conceção, confeção, contraceção, deceção, deteção, impercetível, enquanto no Brasil se escreve obrigatoriamente acepção, anticonceptivo, concepção, confecção, contracepção, decepção, detecção, imperceptível.[..]


sábado, 19 de janeiro de 2013

Eu quero. Sim, quero que cresças dentro de mim





Eu quero. Sim, quero que cresças dentro de mim,
Como o fermento... E lêvedo, crescido,
Em mim permaneças... eternamente.

Adormeço contigo todas as noites
Embalada pelo arfar do teu corpo...
Mas, sonho-nos deitados sobre o verde da relva...
E vejo as folhas, caindo na noite
Uma a uma ao sabor da leve brisa.
Espero que nos tapem
Que nos cinjam o nosso enlaço
Que nos abriguem e defendam
Dos múltiplos ruídos da noite.
E ficamos a ouvir ao longe o bramir do mar...

Sim, quero. Quero-te em mim, crescente, vasto...
Como o mar na maré-cheia, imenso...
São saudades de ti, saudades de nós!

Mena


sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

Today's Look!


Casaco - René Derhi




Caneleiras - mym


Gatinha - Violeta (eheheheheh!)


Camisa - Chez Chemise


Botas - Tapadas






 Brincos (argolas) - Ourivesaria Fernandes


quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

A Reforma Adiada: a vitória do bom senso

Meu prezado José Horta Manzano, agradeço o email, que transcrevo, e o facto de me ter dado a conhecer o artigo abaixo citado. Publico-o com muito gosto! Ficarei atenta a tudo o que for publicado por vós...



Prezada Blogueira,



Antes de mais nada, quero dizer-lhe que me sinto honrado em ver reproduzido em seu espaço meu artigo ‘O remendo’, publicado pelo Correio Braziliense de 6 de janeiro.

Gostaria de sugerir-lhe transcrever também o artigo do professor Claudio Moreno, colunista do jornal Zero Hora, de Porto Alegre (Rio Grande do Sul). Seu escrito ― A Reforma adiada: a vitória do bom senso ― vai pelo mesmo caminho preconizado pela prezada blogueira.

Pode encontrá-lo aqui:


Parabéns e boa continuação.

Cordialmente,

José Horta Manzano



A Reforma adiada: a vitória do bom senso



Ao aceitar um grande número de grafias diferentes entre os vários países lusófonos, os membros da Comissão que elaborou o novo Acordo Ortográfico deveriam ter voltado para suas casas, admitindo a impossibilidade dessa utopia unificadora. Infelizmente, numa constrangedora demonstração de falta de espírito cívico, terminaram por aprovar uma Reforma que trai o seu objetivo principal.

Um dos fatos mais importantes de 2012 para nós, brasileiros, praticamente passou em branco nas indefectíveis retrospectivas de final de ano: atendendo ao clamor de vários setores, a presidente Dilma determinou o adiamento do início da obrigatoriedade da "nova ortografia", que ocorreria na noite do Ano-Novo, no exato momento em que, concluída a contagem regressiva da Globo, os fogos de artifício da baía da Guanabara espocassem em todos os telões e telinhas desta pobre mas valorosa Pindorama. O decreto presidencial, publicado do Diário Oficial no dia 28 de dezembro, estipula que o uso das novas regras só passará a ser obrigatório em 2016 — o que significa, prezado leitor, que, até lá, você poderá escolher entre dois sistemas ortográficos diferentes mas igualmente válidos.

Este providencial (e inesperado) ataque de bom senso foi, a meu ver, o melhor presente que o bom Pai Noel poderia nos trazer. O Brasil, que tinha se atirado de ponta-cabeça no abismo das novas regras (num açodamento, aliás, que surpreendeu e assustou os demais países lusófonos, bem mais prudentes do que nós), ganha assim tempo para amadurecer suas decisões, avaliar as tropelias que cometeu em todo esse processo e mudar o que for possível para minimizar os prejuízos que esta Reforma nos trouxe. O imbróglio em que estamos metidos é tão grande que acho indispensável lembrar quem foram os responsáveis — tanto os externos quanto os internos.

Os responsáveis externos são os participantes da Comissão que elaborou o Acordo, que não tiveram a honestidade de abandonar este projeto digno de um Nabucodonosor enlouquecido. Explico melhor: esta Reforma passou a perder seu prestígio e respeitabilidade no momento em que os usuários se deram conta de que ela se baseia numa falsa promessa. Como uma comerciante desonesta, vende o que ela própria não se dispõe a entregar. Espantado, caro leitor? Mas então me diga: o principal fundamento apresentado para abandonar o modelo que tínhamos não era a adoção de um sistema unificado, em que todos os falantes do Português  grafariam as palavras de uma mesma e única forma? Não era este estado quase edênico, do lobo e do cordeiro vivendo juntos e usando os mesmos acentos e letras, a grande justificativa para o esforço e o custo exigidos para implantar esta nova sociedade de igualdade ortográfica? Pois deveria ser, leitor, mas não é — e não sou eu quem diz, e sim a própria Comissão que redigiu o Acordo, ao aceitar e oficializar uma série de diferenças entre o modo de escrever deste e do outro lado do Atlântico, que continuarão intocadas. Aponto alguns exemplos:

1) Os que falam aqui usam certas pronúncias distintas dos que falam no além-mar? Não há problema; a Comissão dá um jeito: o Acordo oficializa centenas de formas duplas como sinônimo e sinónimo, acadêmico e académico;  gênio e géniopênis e pénisfêmur fémur; bebê e bebéjudo e judô.

2) Portugal distingue foneticamente a 1.ª pessoa do plural do presente do indicativo da mesma pessoa do pretério perfeito? Não há problema; a Comissão "unificadora" ajeita, autorizando que esta última seja acentuada por todo aquele que quiser: "Ontem trabalhámos até tarde".

3) Há divergências na pronúncia de consoantes em fechamento de sílaba? O Acordo abraça ambas as formas de escrever: cetro e ceptro,corrupto e corrutoconcepção e conceção. E por aí vai a valsa (ou o samba... ou o fado...).

Ora, aqui está, a meu ver, a grande desonestidade das pessoas que elaboraram este Acordo: ao se ver compelida a institucionalizar tantas duplicidades ortográficas (justificadas, é óbvio, por diferenças reais na pronúncia), a Comissão elaboradora deveria ter admitido a inexequibilidade do projeto e enterrado definitivamente esta proposta de unificação no cemitério das utopias (o qual, aliás, anda muito concorrido, ultimamente...). Que tivesse a hombridade de se definir: se a unificação não é possível, então não se fale mais nisso... No entanto, por vaidade, onipotência ou simplesmente para não perder a viagem, como se diz, ela acabou fazendo aquilo que, no tempo dos sapateiros, era chamado de "meia-sola": alterou algumas coisas aqui e ali, "ao menos diminuindo um pouco mais a distância do sonho de uma grafia unificada", como declarou, sem a menor vergonha na cara, um destacado membro da Comissão — como se fosse coisa pouca mexer na ortografia de tantos países para obter resultado tão pífio.

(continua)

Veja AQUI o que já publicámos sobre o Acordo