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quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

O Gato Malhado e a Andorinha Sinhá



O Gato Malhado e a Andorinha Sinhá

Esta obra de Jorge Amado é baseada na trova de Estêvão da Escuna, poeta popular baiano:


«O mundo só vai prestar
Para nele se viver
No dia em que a gente ver
Um gato maltês casar
Com uma alegre andorinha
Saindo os dois a voar
O noivo e sua noivinha
Dom Gato e Dona Andorinha»


Esta fábula dos tempos modernos conta a história de amor entre um gato, uma criatura feia, egoísta e solitária, e uma bela e gentil andorinha.
Com a duração de três estações, o improvável romance entre as duas criaturas das «profundas do passado quando os bichos falavam» sobrevive às críticas sociais, à diferença de idades e às diferenças de carácter de cada um, mas… «uma andorinha não pode, jamais, casar com um gato».

A paixão entre os dois animais é uma narrativa que a Manhã contou ao Tempo. Este prometera-lhe uma rosa azul se a história que ela lhe contasse fosse boa. A Manhã narrou-lhe uma história que ouviu ao Vento que andava perdido de amores por ela.

Assim, a história de amor do Gato Malhado e da Andorinha é contada pelo Vento, chegando, entretanto, aos ouvidos do narrador. Este último narra-nos o desenrolar dessa paixão através da intensidade das conversas entre estas personagens e dos seus longos passeios.

O Gato Malhado era um gato já velho, mal-humorado e muito mau. Um dia, todos os animais do parque fugiram do gato, mas uma jovem e bela andorinha permaneceu num ramo de uma árvore. Discutiram, mas, a partir daí, só pensavam um no outro. Uma manhã, depois de muito esperar que a andorinha viesse pousar num galho da árvore por cima dele, desiludido pela ausência da amada, decidiu ir-se embora. Foi caminhando pelo parque e, quase sem dar por isso, chegou a casa da Andorinha. Passaram, então, a encontrar-se todos os dias para passear e conversar.

Foi-se a Primavera e já no fim do Verão, o Gato disse à Andorinha que, se não fosse um gato, a pediria em casamento. A andorinha ficou calada, voou rente ao gato e tocou-lhe de leve com a asa esquerda, depois ganhou altura e olhou-o de longe. No parque, corria o rumor que a Andorinha namorava com o Gato e todos os animais os criticavam.

Foi no terceiro dia de Outono que o Gato recebeu uma carta triste da Andorinha que dizia “Uma andorinha não pode jamais casar com um gato”. E no último dia de Outono, depois de terem percorrido “todos os lugares que haviam aprendido a amar na Primavera e no Verão”, quando a noite chegou, a andorinha disse ao gato que ia casar-se com o Rouxinol e partiu sem olhar para trás. Desde então, o Gato Malhado passou a andar triste e sozinho.

No Inverno, o Rouxinol e a Andorinha Sinhá casaram-se e foi tanta a tristeza do Gato Malhado, que ele decidiu caminhar até ao Fim do Mundo. Foi a última vez que se viram. A Andorinha deixou cair uma pétala de rosa sobre o Gato e ele colocou-a no peito, parecia uma gota de sangue.

A história tem um desfecho triste, mas termina com a Manhã a ganhar a rosa azul prometida no início da história pelo Tempo.



Elementos da narrativa

Tempo

A história principal é narrada seguindo um tempo cronológico: as estações do ano. Simbolicamente, elas estão de acordo com os sentimentos das personagens principais. Na Primavera, o Gato e a Andorinha conhecem-se. No Verão, o Gato apercebe-se que está apaixonado pela Andorinha e fica com ciúmes, porque ela sai com o Rouxinol. No Outono, o Gato é discriminado pelas outras personagens, devido à má fama que tivera no passado (era mau, rabugento, perigoso, temido). Foi também durante esta estação que ele escreveu poemas apaixonados e nostálgicos, para a sua amada andorinha. O Inverno é caracterizado pela separação dos amantes e a tristeza, de certo modo, acompanha-os.

Entretanto, o narrador altera a ordem cronológica ao utilizar algumas analepses e prolepses, narrações abreviadas e explicativas. É o caso do “Capítulo inicial, atrasado e fora do lugar”. O próprio narrador informa que foi “por um erro de estrutura ou por moderna sabedoria literária”.

Espaço


Há três tipos de espaço: físico, social e psicológico.

Espaço físico - O parque, onde as personagens se movem e vivem.

Espaço social - O Gato é um vagabundo que vive no parque, onde todos o temem. A Andorinha é uma jovem muito protegida pelos pais e pertence a uma classe social alta. Daí, tratar-se também de um amor impossível devido às suas diferenças sociais.

Espaço psicológico - O Gato Malhado vive uma experiência que lhe abre as portas para “um mundo de recordações, de doces momentos vividos, de lembranças alegres.” O gato sofre muito com a perda da sua andorinha amada, mas esse sofrimento fá-lo crescer interiormente.

Narrador

Presença - O narrador não participa da história, narrador heterodiegético, a sua narração é feita na 3ª pessoa:

“A história que a Manhã contou ao Tempo para ganhar a rosa azul foi a do Gato Malhado e a Andorinha Sinhá; [...] Eu a transcrevo aqui por tê-la ouvido do ilustre Sapo Cururu [que contou o caso] para provar a irresponsabilidade do amigo [...].”

Personagens

A caracterização das personagens é feita pelo narrador e pelas outras personagens – caracterização directa. Há também caracterização indirecta – o narrador põe a personagem em acção, cabendo ao leitor, através do seu comportamento e das suas falas, traçar o seu retrato.


Personagens principais

Gato Malhado - Olhos pardos, feios e maus, riso malvado, corpanzil forte e ágil, de riscas amarelas e negras. Gato de meia-idade, egoísta e orgulhoso, solitário, mal-humorado, ingrato, calado e bastante convencido. Era muito mal visto, porque quase não conversava com ninguém. Sentia falta de afecto e de carinho.


Andorinha Sinhá – Muito jovem e bela, risonha, alegre, aventureira, curiosa. “Livre de todas as preocupações, inocente”, gentil e conversadora, mantinha boas relações com todos. Era “terna e obediente, amava os pais (…) bem comportada, amável e bondosa.” A Andorinha, quando conheceu o Gato, viu-o como um desafio: ouvira falar muito mal dele, fora até proibida de chegar perto dele, mas “o fruto proibido é o mais apetecido”. O narrador acha-a “louquinha” por ela se dar com o inimigo.


Personagens secundárias

Rouxinol – “É belo e gentil, sabe cantar, é de raça volátil.” É o professor de canto da Andorinha e seu pretendente. É com ele que a Andorinha casa. O Gato tem ciúmes dele.

Reverendo Papagaio - Tinha passado algum tempo “no seminário onde aprendera a rezar e decorara frases em latim, o que lhe dava valiosa reputação de erudito”. Dava aulas de religião à andorinha. É um hipócrita, covarde e devasso, que fazia propostas indecentes ao público feminino.

Galo Don Juan de Rhode Island – “inveterado e invejado polígamo, maometano”, “vida devassa” (reparem no seu nome!). Foi o juiz do casamento da Andorinha e do Rouxinol.

Sapo Cururu - Companheiro do Vento, o Sapo é quem relata a história do gato e da andorinha ao narrador. “O sapo Cururu é Doutor em Filosofia, Catedrático de Linguística e Expressão Corporal, cultor de rock, membro de direito, correspondente e benemérito de Academias nacionais e estrangeiras, famoso em várias línguas mortas.” É ele que nos conta que o Gato plagiou os sonetos.

Pombo-Correio – “vivia em longas viagens, levando a correspondências do parque”. Tinha boa índole, mas era visto como um tolo, porque a sua companheira andava a traí-lo com o Papagaio.

Vaca Mocha - Figura com muito prestígio, respeitada por todos, pois era descendente de um touro argentino. É tranquila, prudente, um pouco solene e irónica. “Possuía um temperamento vingativo, humor variável”. Falava uma mistura de português com espanhol para impressionar as outras personagens (“dava-lhe status”), mas a sua língua é o português.


Figurantes

Manhã - É uma “funcionária relapsa”, preguiçosa, “fanática por uma boa história”, distraída, sonhadora, delicada. Risonha e inconsequente, "jovem e aloucada (…) distraída, pensativa”. Ela apaga as estrelas e acende o Sol.

Tempo - É o “senhor de todos eles”. Tinha um fraquinho pela Manhã.

Vento - É “velhaco e atrevido”, irresponsável. “Um tanto quanto louco”, “alegre, ágil, dançarino de fama, pé-de-valsa celebrado, amigueiro, sempre disposto a ajudar os demais, sobretudo em se tratando de senhoras e donzelas”.”Bisbilhoteiro e audacioso, rei dos andarilhos”. “Livre e inconstante, solteirão profissional”. “Um saudosista”. Aventureiro, foi através das suas aventuras que ele aprendeu esta história de amor e resolveu contá-la à Manhã para cortejá-la.

Cobra Cascavel - É o animal mais temido de todos. Morava fora do parque, porque foi expulsa pelo Gato Malhado.

Velha Coruja – Tinha muito prestígio, “conhecia a dedo a vida de todos os habitantes do parque” e é com ela que o Gato falava mais.

Cães - Ajudam a compor o ambiente do parque.

Pata Pepita e o Pato Pernóstico - Ajudam a compor o ambiente no que diz respeito à vida social do parque. A pata condena o amor do Gato e da Andorinha: “pata com pato, [...] andorinha com ave, gata com gato”, influenciando as outras personagens.




Algumas passagens do conto

“Desejo dizer que há gente que não acredita em amor à primeira vista. Outros ao contrário, além de acreditar afirmam que este é o único amor verdadeiro. Uns e outros têm razão. É que o amor está no coração das criaturas, adormecido, e um dia qualquer ele desperta, com a chegada da Primavera ou mesmo no rigor do Inverno. [...].
De repente, o amor desperta de seu sono à inesperada visão de um outro ser. Mesmo se já o conhecemos, é como se o víssemos pela primeira vez e por isso se diz que foi amor à primeira vista. Assim o amor do Gato Malhado pela Andorinha Sinhá.”


“Ou bem a alegria estava presente em todas as coisas e eles não a viam antes. Porque – temos olhos de ver e olhos de não ver, depende do estado do coração de cada um.”


“A poesia não está somente nos versos, por vezes ela está no coração, e é tamanha, a ponto de não caber nas palavras.”


“... a felicidade não pode se alimentar apenas das recordações do passado, necessita também dos sonhos do futuro.”



Prémio


Recebi este prémio desta menina.
Agora, vou passá-lo a todas as meninas e meninos que me visitam e que me deixam o seu comentário.



A Mena na cozinha

Sonhos


200 g de farinha
2 dl de água
75 g de manteiga
2 cascas de limão
1 colher de café de sal
5 ovos
açúcar
canela em pó


Leve a água ao lume com a manteiga cortada em bocados, as cascas de limão e o sal. Deixe levantar fervura e derreter a manteiga completamente.
Retire o tacho do lume, adicione a farinha peneirada de uma só vez e mexa fortemente.
A massa deve formar uma bola em volta da colher, separando-se do tacho. Se aparecerem pontos de farinha por absorver, misture-a até a massa ficar bem homogénea.
Leve a massa novamente a lume brando para secar um pouco mais e depois deite-a no recipiente em que será batido (à mão ou à máquina eléctrica). Deixe arrefecer um pouco.

Abra os ovos para um recipiente e bata-os muito ligeiramente.
Junte-os à massa, batendo sem parar.
Aqueça o azeite , mergulhe duas colheres de sopa neste azeite, escorra-as e com elas tire bocadinhos de massa.
Deite esta massa na gordura e deixe cozer até alourar.

Durante a cozedura, que é lenta, os sonhos viram-se sozinhos.

Escorrem-se sobre papel absorvente e comem-se polvilhados com açúcar e canela.


Bom apetite!



Trabalhinho: Caixa de bombons