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quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Da mais alta janela da minha casa - Alberto Caeiro



Da mais alta janela da minha casa
Com um lenço branco digo adeus
Aos meus versos que partem para a Humanidade.


E não estou alegre nem triste.
Esse é o destino dos versos.
Escrevi-os e devo mostrá-los a todos
Porque não posso fazer o contrário
Como a flor não pode esconder a cor,
Nem o rio esconder que corre,
Nem a árvore esconder que dá fruto.


Ei-los que vão já longe como que na diligência
E eu sem querer sinto pena
Como uma dor no corpo.


Quem sabe quem os terá?
Quem sabe a que mãos irão?


Flor, colheu-me o meu destino para os olhos.
Árvore, arrancaram-me os frutos para as bocas.
Rio, o destino da minha água era não ficar em mim.
Submeto-me e sinto-me quase alegre,
Quase alegre como quem se cansa de estar triste.


Ide, ide de mim!
Passa a árvore e fica dispersa pela Natureza.
Murcha a flor e o seu pó dura sempre.
Corre o rio e entra no mar e a sua água é sempre a que foi sua.


Passo e fico, como o Universo.


Alberto Caeiro


O tema deste poema é a criação poética.
A "casa", no primeiro verso, é metáfora do universo, do Todo e pressupõe a ligação do Homem à Terra.
A altura funciona como a sugestão de ausência de um referente espacial concreto.
A janela sugere a dicotomia interior/exterior, ou seja, através da janela é estabelecido o contacto entre a interioridade do poeta e o exterior, antecipando-se a ideia de que os versos, apesar de terem sido escritos pelo sujeito poético, pertencem à Humanidade.
A imagem apresentada no verso remete para o contrário - o poeta não se situa num plano superior em relação à realidade que o circunda; a sua casa é, antes, a Natureza, o que implica a sua ligação à terra e a ideia de criação poética como um acto natural.
O Homem é um elemento que se insere no Universo; os versos pertencem, pois, à Humanidade - a comunhão do ser humano com o lado cosmogónico significa a recusa do individualismo e da criação poética como um produto do sujeito lírico.

"Com um lenço branco digo adeus
Aos meus versos (...)"

"Ei-los que vão já longe como que na diligência"

O facto de os versos do sujeito poético serem lidos por outros significa que cada leitor os interiorizará, por sua vez, de acordo com a sua própria subjectividade, pelo que o acto de leitura é um acto de recriação poética - os versos já não pertencem ao seu autor, mas a todos aqueles que os lerem, interiorizando-os.

"Quem sabe quem os terá?
Quem sabe a que mãos irão?"

A produção poética é caracterizada pela mesma incerteza que marca o destino da flor ou do fruto, ou seja, tal como os outros elementos naturais, também o homem participa de um destino, que se liga ao simples facto de existir.

"Flor, colheu-me o meu destino para os olhos."

O homem, o rio, as árvores ou as flores são elementos de uma mesma totalidade e situam-se ao mesmo nível, na escala da existência.

"Rio, o destino da minha água era não ficar em mim."

A produção poética é encarada como um acto natural, orgânico. A perda da subjectividade é aquilo que é anunciado nos versos:

"Submeto-me e sinto-me quase alegre,
Quase alegre como quem se cansa de estar triste."

Alegria e tristeza não significam nada - tudo se situa no mesmo nível; Alberto Caeiro nega a emoção e propõe que o ser humano sinta as coisas de acordo com as leis naturais - e na natureza, o significado dos dias de sol é o mesmo que o dos dias de chuva - tudo faz parte da existência e a relativização daquilo que se experimenta enquanto emoção liga-se à aceitação de uma realidade em que a diferença ou a antítese são elementos integrantes dessa mesma realidade.
Encontramos, no poema, um paralelismo semântico, a que subjaz a ideia da perda da subjectividade e da comunhão cosmogónica (este estabelece-se entre a primeira e a terceira estrofes).

flor => fruto => versos => elementos naturais
olhos => bocas => mãos/olhos => órgãos de percepção

Alberto Caeiro faz a apologia do fenómeno, daquilo que se vê, que nos é revelado e coloca a criação poética no plano do fenómeno natural (tal como a árvore dá frutos, o homem cria versos...).
Os espaços abstractos que surgem no poema por um processo de encaixe traduzem, assim, a ausência da conquista de um espaço, o que se prende à perda da identidade, à inserção do "eu" no Todo.

Casa/Natureza

Humanidade

Versos


A perda da individualidade remete para uma visão pagã da realidade, segundo a qual o ser humano participa integralmente das leis da Natureza. A simbiose entre o sujeito lírico e o universo pressupõe a concepção mítica do eterno retorno - vida e morte são um processo dialéctico - a renovação implica que algo acabe e que algo comece - esta é, por excelência, a lei da Natureza.

"Murcha a flor e o seu pó dura sempre.
Corre o rio e entra no mar e a sua água é sempre a que foi sua."

"Passo e fico, como o Universo."

A regeneração cósmica significa, então, vida, mesmo após a morte de elementos singulares, pois o universo perpetua-se indefinidamente.
O sujeito lírico propõe, assim, a ruptura com a tradição cultural ocidental através da negação da individualidade (princípio enraizado na moral cristã), da recusa da subjectividade e da defesa do reencontro com a Natureza, de acordo com a perspectiva preconizada pelo paganismo.


Estrutura externa

Os três primeiros versos revelam a influência da poesia japonesa - o "haiku" é um poema japonês, geralmente composto por três versos, num total aproximado de dezassete sílabas, cuja finalidade é "mostrar" - não se defendem argumentos, constata-se uma determinada realidade (Zen afirma que " Mostrar uma vez vale mais do que dizer cem vezes").
O poema é composto por sete estrofes: terceto, sétima, terceto, dístico, quintilha, quadra e monóstico.


Características estilísticas
  • Os adjectivos
A antonímia, ao nível dos adjectivos, traduz a recusa dos sentimentos sociais, convencionais. O poeta não sente como a maioria dos homens; para ele, o acto de sentir é substituído pelo acto de existir.

"E não estou alegre nem triste."

As cargas conotativas positiva e negativa destes adjectivos são neutralizadas; o poeta insere-se no meio natural, recusando integrar-se numa sociedade humana.

  • Os nomes / As formas verbais
Os nomes apontam para uma escala de valor, a escala da existência, em que todas as coisas têm o mesmo sentido e a mesma importância - os versos são, também, um produto da Natureza, uma manifestação natural da vida humana.

versos = fruto / rio / flor

versos => verbo mostrar => "Escrevi-os e devo mostrá-los a todos"

flor => verbo esconder (forma negativa) => "Como a flor não pode esconder a cor"

"Escrevi-os e devo mostrá-los a todos" <=> "Como a flor não pode esconder a cor"

O verbo esconder, na forma negativa, aparece três vezes no infinitivo - a utilização do modo infinitivo aponta para a perda da identidade, para a ausência do sujeito lírico no processo de criação poética, associada à criação da Natureza, que é algo que se manifesta como processo que faz parte de uma unidade, em que o elemento singular não tem qualquer expressão.

  • O deíctico (advérbio de designação) / Os advérbios adjuntos
"Ei-los que já vão longe"

Ei-los - deíctico - indicação de proximidade - acção de escrita

versus

- advérbio adjunto de tempo - perda do "eu" na linguagem - a imediatez do advérbio remete para a ideia de que, após o acto de escrita, o poema deixa de pertencer ao seu criador - perda da individualidade, aquando da conclusão do poema

longe - advérbio adjunto de lugar - negação da proximidade apontada pelo deíctico - o poema já não pertence ao seu autor; é recriado pelo leitor

  • A comparação
A comparação estabelece a união entre os sentimentos e os sentidos, conferindo uma dimensão física aos primeiros (o sentimento de pena é comparado a uma "dor no corpo").
"E eu sem querer sinto pena
Como uma dor no corpo."

Pena é dor, porque é sensação - o sentimento é captado como a cor da flor .

  • A pontuação
A pontuação, no final do verso, evidencia a consciência da inutilidade da explicação, enfatizando o valor da constatação, enunciada pelo verso "Porque não posso fazer o contrário", o que implica a negação da subjectividade, aliada ao acto de constatar.


Sonoridades

Nalguns versos, a repetição de sons nasais sugere o prolongamento do som no espaço, estabelecendo a relação entre o possessivo ("minha" / "meus"), a forma verbal ("partem") e o grupo nominal ("lenço branco"), tornando óbvia a ideia da despedida, isto é, a recusa da aliança entre subjectividade e o poema.

"Com um lenço branco digo adeus
Aos meus versos (...)

(...)

Ei-los que vão já longe como que na diligência"

Os sons aberto e semiaberto servem a constatação e o didactismo: alta, partem, humanidade, já (aberto); janela, versos (semiaberto).

domingo, 19 de fevereiro de 2012

Principais características da poesia de Alberto Caeiro


Linhas de sentido
  • Defesa da objectividade - visão do real centrada no fenómeno - nada existe para além daquilo que, de facto, é perceptível para o ser humano, para além daquilo que captamos através dos órgãos dos sentidos.
  • Predomínio da sensação sobre o pensamento (o Homem deve renunciar ao pensamento, pois este implica que se deturpe o significado das coisas que existem).
  • Comunhão total entre o Homem e a Natureza - o ser humano deve submeter-se às leis naturais e não deve racionalizar processos que existem naturalmente (por exemplo, as ideias de vida ou de morte, que existem enquanto verdades absolutas).
  • Neopaganismo - da ideia de comunhão absoluta com a Natureza resulta uma visão pagã da existência, que consiste na descrença total na transcendência; a única verdade é a sensação.
  • Ruptura com os cânones estéticos tradicionais (temáticos e formais).
  • Revolução de valores - amoralidade - a realidade não é vista à luz das ideias de moral ou imoral.
  • "Desculturalização" - pensar nas coisas é não as compreender.
  • Estoicismo - aceitação passiva de tudo - a vida humana deve ser encarada como a vida dos outros seres que existem no universo (há dias de sol e dias de chuva - esta é a verdade suprema e só a sua aceitação conduzirá à tranquilidade - o Homem não deverá integrar-se numa determinada sociedade, mas no todo cosmogónico).

Características estilísticas
  • Linguagem simples
  • Léxico objectivo (termos que remetem directamente para o objecto)
  • Adjectivação quase ausente
  • Quase ausência de metáforas, metonímias ou sinestesias
  • Paralelismos
  • Assíndetos
  • Predominância das formas verbais no presente do indicativo

Sonoridades
  • Ritmo lento (remetendo para a calma aceitação das coisas)
  • Alternância entre sons nasais e vogais abertas e semiabertas
  • Ausência de rima

sábado, 11 de fevereiro de 2012

Alberto Caeiro


Alberto Caeiro - "o Mestre", "o pastor por metáfora"

  • Nasce em Lisboa, a 16 de Abril de 1899.
  • Órfão de pai e mãe, herda uma pequena quantia de uma tia, o que lhe permite mudar-se para o campo, onde vive até morrer.
  • De estatura média e frágil, louro, de olhos azuis, tem apenas a quarta classe, nunca tendo exercido nenhuma profissão.
  • Morre em 1915, tuberculoso.
Caeiro representa a antítese de Fernando Pessoa ortónimo, o "remédio" par a sua ansiedade e para a sua angústia perante o mistério da existência, inacessível ao Homem. Para este heterónimo, a única via para atingir a felicidade é não pensar, é recusar a essência, para acreditar que apenas existe a aparência. Ele nega a dicotomia platónica, herdada pela cultura ocidental, segundo a qual o fenómeno (aquilo que os seres humanos podem percepcionar através dos sentidos) é uma cópia de um mundo que o Homem não pode captar (o mundo da Essência). Alberto Caeiro propõe uma "desculturalização", na medida em que nega a visão da realidade, sujeita à anaálise do pensamento, defendendo que existir é, afinal, estar de acordo com as leis naturais. Assim, afirma que "Há metafísica bastante em não pensar em nada" e que "Pensar no sentido íntimo das cousas / é como (...) pensar na saúde / Ou levar um copo à água das fontes".
Ele é um estóico e um epicurista, porque não deseja nada, a não ser inserir-se no todo cosmogónico, aquilo que, efectivamente, lhe dará felicidade.

"Bendito seja o mesmo sol de outras terras
Que faz meus irmãos todos os homens
Porque todos os homens, um momento no dia, o olham como eu,
E nesse puro momento
Todo limpo e sensível
Regressam lacrimosamente
E com um suspiro que mal sentem
Ao homem verdadeiro e primitivo
Que via o Sol nascer e ainda o não adorava.
Porque isso é natural – mais natural
Que adorar o ouro e Deus
E a arte e a moral..."

Alberto Caeiro representa a tranquilidade que o seu criador nunca conseguiu encontrar e que
exprimiu ao constatar o paradoxo do universo:

(...) O Universo não concorda consigo próprio porque
passa. A vida não concorda consigo própria, porque
morre. O paradoxo é a forma típica da Natureza.
Por isso, toda a verdade tem uma forma (...) paradoxal (...)

Caeiro, o mestre reconhecido pelo seu próprio criador, responde:

"O que é preciso é ser-se natural e calmo
Na felicidade ou na infelicidade,
Sentir como quem olha,
pensar como quem anda,
E quando se vai morrer, lembrar-se de que o dia morre,
E que o poente é belo e é bela a noite que fica...
Assim é e assim seja..."

Fernando Pessoa afirma que a originalidade de Caeiro, " a sua objectividade quase inconcebível" consiste no facto de este heterónimo percepcionar a realidade através do olhar, sem proceder à intelectualização dessa percepção. A poesia de Caeiro é, assim, uma poesia sensacionista, na medida em que o poeta substitui pensamento (que associa a uma doença) e sentimento (subjectivo ou convencional) por sensação. A subjectividade não existe para este heterónimo pessoano. As suas sensações são colhidas no exterior objectivo. É o seu sensacionismo que, segundo Pessoa, faz dele um poeta pagão e lhe proporciona o reencontro com a Natureza.


Como quem num dia de Verão abre a porta de casa
E espreita para o calor dos campos com a cara toda,
Às vezes, de repente, bate-me a Natureza de chapa
Na cara dos meus sentidos,
E eu fico confuso, perturbado, querendo perceber
Não sei bem como nem o quê...

Mas quem me mandou a mim querer perceber?
Quem me disse que havia que perceber?

Quando o Verão me passa pela cara
A mão leve e quente da sua brisa,
Só tenho que sentir agrado porque é brisa
Ou que sentir desagrado porque é quente,
E de qualquer maneira que eu o sinta,
Assim, porque assim o sinto, é que é meu dever senti-lo...

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Fernando Pessoa e os heterónimos


Fernando Pessoa é a personalidade mais importante do Grupo do Orpheu, isto é, das tendências post-simbolistas portuguesas, mas ninguém deu conta do valor da sua arte, antes da sua morte, a não ser o seu restrito grupo de amigos. Só em 1934 é que a sua Mensagem, única obra publicada em vida, mereceu o segundo prémio do Secretariado Nacional de Informação. Só em 1943 é que o seu velho amigo Luís de Montalvor inicia a publicação das suas obras completas, dele e dos seus heterónimos. Passou-se então do desconhecimento a uma explosão de espanto e admiração, tornando-se o mais imitado de todos os poetas modernos.
A maior parte dos críticos está de acordo em que o grande valor do poeta está na sua profunda, quase chocante originalidade: ele nunca pensa, nunca diz como os outros, ainda mesmo quando imita. Veja-se, por exemplo, a réplica originalíssima do seu Mostrengo (Mensagem) ao episódio de O Gigante Adamastor de Camões. Transmitindo a mesma mensagem épica, ele foi originalíssimo, quer na forma, quer nas imagens, quer no símbolo que contrapôs ao gigante: o mostrengo.
A força do seu estilo está no imprevisto, no escândalo do anormal, no choque do paradoxo, e sobretudo no jogo artístico do fingimento. Para o poeta a arte é apenas um jogo de que ele, como ninguém, soube lançar os dados. Ele foi o primeiro e único poeta que conseguiu unificar, como verdadeiro motor da sua arte, a sensibilidade e a razão: "o que em mim sente está pensando". A inteligência e a sensibilidade sempre unidas para lançar os dados e realizar o jogo artístico.
A própria criação dos heterónimos é fundamentalmente um jogo. É certo que o próprio poeta radica a origem dos seus heterónimos na tendência que tinha em criança de criar companheiros imaginários para brincar (sozinho).
Os heterónimos não são apenas, como diz Mário Sacramento, "meros títulos da obra de Pessoa". Cada heterónimo que surgia correspondia não só a uma determinada posição ideológica e artística de Pessoa, mas também a um modo diferente de escrita. "Não são só as ideias e os sentimentos que se distinguem dos meus: a mesma técnica da composição, o mesmo estilo, é diferente do meu" (Fernando Pessoa).
A maior e mais genial das metáforas criadas por Pessoa foi ter-se instituído multiplamente como vários poetas diferentes, sem deixarem, no entanto, de ser "ele". O "fingimento" é a mola mais poderosa da sua poesia, e o ponto mais alto do seu fingimento está na sua despersonalização nos vários heterónimos, na criação do seu "drama em gente". Os heterónimos dão o travejamento do seu cosmos poético.
Só são grandes os poetas que sabem inventar o seu próprio universo artístico; e esses são sobretudo poetas de inteligência, como Fernando Pessoa.
Como nasceram os heterónimos de Fernando Pessoa. Vejamos a resposta dada pelo próprio poeta ao seu amigo Armando Cortes Rodrigues:
"Passo agora a responder à tua pergunta sobre a génese dos meus heterónimos.
Vou ver se consigo responder-lhe completamente.
Começo pela parte psiquiátrica. A origem dos meus heterónimos é o fundo traço de histeria que existe em mim. Não sei se sou simplesmente histérico, se sou, mais propriamente, um histero-neurasténico. Tendo para esta segunda hipótese, porque há em mim fenómenos de abulia que a histeria, propriarmente dita, não enquadra no registo dos seus sintomas. Seja como for, a origem mental dos meus heterónimos está na minha tendência orgânica e constante para a despersonalização e para a simulação. Estes fenómenos — felizmente para mim e para os outros — mentalizaram-se em mim; quero dizer, não se manifestam na minha vida prática, exterior e de contacto com outros; fazem explosão para dentro e vivo — os eu a sós comigo. Se eu fosse mulher — na mulher os fenómenos histéricos rompem em ataques e coisas parecidas — cada poema de Álvaro de Campos (o mais histericamente histérico de mim) seria um alarme para a vizinhança. Mas sou homem — e nos homens a histeria assume principalmente aspectos mentais; assim tudo acaba em silêncio e poesia...
Isto explica, tant bien que mal, a origem orgânica do meu heteronimismo. Vou agora fazer-lhe a história directa dos meus heterónimos. Começo por aqueles que morreram, e de alguns dos quais já me não lembro — os que jazem perdidos no passado remoto da minha infância quase esquecida. Desde criança tive a tendência para criar em meu torno um mundo fictício, de me cercar de amigos e conhecidos que nunca existiram. (...)
Lembro, assim, o que me parece ter sido o meu primeiro heterónimo, ou, antes, o meu primeiro conhecido inexistente — um certo Chevalier de Pas dos meus seis anos, por quem escrevia cartas dele a mim mesmo, e cuja figura, não inteiramente vaga, ainda conquista aquela parte da minha afeição que confina com a saudade. (...)
Basta de maçada para si, Casais Monteiro! Vou entrar na génese dos meus heterónimos literários, que é, afinal, o que V. quer saber. Em todo o caso, o que vai dito acima dá-lhe a história da mãe que os deu à luz).
Aí por 1912, salvo erro (que nunca pode ser grande), veio-me à ideia escrever uns poemas de índole pagã. Esbocei umas coisas em verso irregular (não no estilo Álvaro de Campos, mas num estilo de meia regularidade), e abandonei o caso. Esboçara-se-me, contudo, numa penumbra mal urdida, um vago retrato da pessoa que estava a fazer aquilo. (Tinha nascido, sem que eu soubesse, o Ricardo Reis).
Ano e meio, ou dois anos depois, lembrei-me um dia de fazer uma partida ao Sá-Carneiro — de inventar um poeta bucólico, de espécie complicada, e apresentar-lho, já me não lembro como, em qualquer espécie de realidade. Levei uns dias a elaborar o poeta mas nada consegui. Num dia em que finalmente desistira — foi em 8 de Março de 1914 — acerquei-me de uma cómoda alta, e, tomando um papel, comecei a escrever, de pé, como escrevo sempre que posso. E escrevi trinta e tantos poemas a fio, numa espécie de êxtase cuja natureza não conseguirei definir. Foi o dia triunfal da minha vida, e nunca poderei ter outro assim. Abri com um título, O Guardador de Rebanhos. E o que se seguiu foi o aparecimento de alguém em mim, a quem dei desde logo o nome de Alberto Caeiro. Desculpe-me o absurdo da frase: aparecera em mim o meu mestre. Foi essa a sensação imediata que tive. E tanto assim que, escritos que foram esses trinta e tantos poemas, imediatamente peguei noutro papel e escrevi, a fio, também, os seis poemas que constituem a Chuva Oblíqua, de Fernando Pessoa. Imediatamente e totalmente... Foi o regresso de Fernando Pessoa Alberto Caeiro a Fernando Pessoa ele só. Ou, melhor, foi a reacção de Fernando Pessoa contra a sua inexistência como Alberto Caeiro.
Aparecido Alberto Caeiro, tratei logo de lhe descobrir — instintiva e subconscientemente — uns discípulos. Arranquei do seu falso paganismo o Ricardo Reis latente, descobri-lhe o nome, e ajustei-o a si mesmo, porque nessa altura já o via. E, de repente, e em derivação oposta à de Ricardo Reis, surgiu-me impetuosamente um novo indivíduo. Num jacto, e à máquina de escrever, sem interrupção nem emenda, surgiu a Ode Triunfal de Álvaro de Campos — a Ode com esse nome e o homem com o nome que tem. (...)
Mais uns apontamentos nesta matéria... Eu vejo diante de mim, no espaço incolor mas real do sonho, as caras, os gestos de Caeiro, Ricardo Reis e Alvaro de Campos. Construi-lhes as idades e as vidas. Ricardo Reis nasceu em 1887 (não me lembro do dia e mês, mas tenho-os algures), no Porto, é médico e está presentemente no Brasil. Alberto Caeiro nasceu em 1889 e morreu em 1915; nasceu em Lisboa, mas viveu quase toda a sua vida no campo. Não teve profissão nem educação quase alguma. Álvaro de Campos nasceu em Tavira, no dia 15 de Outubro de 1890 (às 1.30 da tarde, diz-me o Ferreira Gomes; e é verdade, pois, feito o horóscopo para essa hora, está certo). Este, como sabe, é engenheiro naval (por Glasgow), mas agora está aqui em Lisboa em inactividade. Caeiro era de estatura média, e, embora realmente frágil (morreu tuberculoso), não parecia tão frágil como era. Ricardo Reis é um pouco, mas muito pouco, mais baixo, mais forte, mas seco. Álvaro de Campos é alto (1,75 m de altura, mais 2 cm do que eu), magro e um pouco tendente a curvar-se. Cara rapada todos — o Caeiro louro sem cor, olhos azuis; Reis de um vago moreno mate; Campos entre branco e moreno, tipo vagamente de judeu português, cabelo, porém, liso e normalmente apartado ao lado, monóculo. Caeiro, como disse, não teve mais educação que quase nenhuma — só instrução primária; morreram-lhe cedo o pai e a mãe, e deixou-se ficar em casa, vivendo de uns pequenos rendimentos. Vivia com uma tia velha, tia-avó. Ricardo Reis, educado num colégio de jesuítas, é, como disse, médico; vive no Brasil desde 1919, pois se expatriou espontaneamente por ser monárquico. É um latinista por educação alheia, e um semi-helenista por educação própria. Álvaro de Campos teve uma educação vulgar de liceu; depois foi mandado para a Escócia estudar engenharia, primeiro mecânica e depois naval. Numas férias fez a viagem ao Oriente de onde resultou o Opiário. Ensinou-lhe latim um tio beirão que era padre.
Como escrevo em nome desses três?... Caeiro por pura e inesperada inspiração, sem saber ou sequer calcular que iria escrever. Ricardo Reis, depois de uma deliberação abstracta, que subitamente se concretiza numa ode. Campos, quando sinto um súbito impulso para escrever e não sei o quê. (...)
Nesta altura estará o Casais Monteiro pensando que má sorte o fez cair, por leitura, em meio de um manicómio. Em todo o caso, o pior de tudo isto é a incoerência com que o tenho escrito. Repito, porém: escrevo como se estivesse falando consigo, para que possa escrever imediatamente. Não sendo assim, passariam meses sem eu conseguir escrever. (...)"
Há, com certeza, muita mistificação neste texto de Pessoa (a mistificação esteve sempre dentro da sua técnica de fingimento). A heteronimia de Pessoa é, essencialmente, uma genial construção intelectual de um universo literário (poético), dentro do qual pudesse instituir-se como o super-poeta que ele próprio, com corajosa sinceridade, se considerou. A poesia de Pessoa é essencialmente dramática. As personagens desse drama encontrou-as ele no desdobramento do seu "eu", na sua própria despersonalização. Daí o nome que ele mesmo deu a esse universo artístico: "drama em gente".
Angel Crespo, na linha do pensamento de Jorge de Sena, distingue entre Pessoa - ortónimo e Pessoa - ele mesmo. Pessoa - ortónimo é o cidadão Fernando Pessoa que escrevia cartas aos amigos, autor da Mensagem, dos Poemas Ingleses e dos Poemas Franceses, e essa espécie de demiurgo criador dos heterónimos. É de Jorge de Sena a afirmação: "a obra ortónima do poeta não é menos heterónima que a dos poemas que assinou depois da criação dos heterónimos, é também heterónimo. Se assim não fosse ele não seria personagem do seu "drama em gente", o que redundaria num contra-senso.
Angel Crespo escreveu: "Pessoa é um dos poetas mais enigmáticos de qualquer tempo e lugar os heterónimos nimbam Pessoa de um prestígio oracular, de uma aura absolutamente fantástica... É preciso estudar esse fenómeno sem lhe querer destruir o mistério..."
Fernando Pessoa é "um animal literário", no sentido de que todos os seus fingimentos se orientam ao travejamento da sua monumental obra poética, penetraremos mais facilmente no enigma que ainda constitui este grande inventor de metáforas.