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domingo, 20 de março de 2011

Realismo, oposição ao Romantismo




O Realismo constituiu-se como literatura antitética da do Romantismo, como se pode ver no esquema seguinte:

Romantismo

Realismo

- Culto pelo passado, sobretudo pela Idade Média, daí a vulgarização do romance ou novela histórica

- Atenção ao presente e ao futuro, acreditando na ciência e no progresso, daí a predilecção pelo romance ou novela de crítica da vida contemporânea.

- Tendência para o individualismo e egocentrismo.

- Cunho social e até a tendência para um certo socialismo.

- Gosto pelas coisas nacionais.

- Um certo cosmopolitismo.

- Emotividade e sentimentalismo.

- Gosto pela realidade e objectividade.

- Imaginação e sensibilidade do autor a dominar a narrativa, manifestando sempre a sua simpatia ou repulsa.

- Observação analítica, imparcialidade do autor que, em atitude científica, pretende chegar a conclusões.

- Linguagem espontânea, descuidada, carregada de emoção, com muitas exclamações.

- Linguagem correcta e equilibrada, com uma grande preocupação de aperfeiçoamento formal.

- Gosto pelo indeciso, pelo vago, pelos ambientes nocturnos, descrição a largos traços.

- Gosto pela nitidez, pelos tons vivos, pelas descrições minuciosas e exactas.











quinta-feira, 17 de março de 2011

Realismo e naturalismo




Realismo


A escola literária do Realismo surge, na 2.ª metade do século XIX, como reacção aos excessos do Romantismo.

Afastando-se da tendência romântica para a imaginação e para a fuga da realidade, o autor realista procura representar, acima de tudo, a verdade absoluta e objectiva. O objectivismo recusa, então, o subjectivismo e individualismo românticos. Deste modo, o homem realista deixa de se centrar no seu EU para passar a preocupar-se em compreender a realidade que o rodeia. Para isso, serve-se da técnica da observação minuciosa dos factos, das impressões sensíveis e da atenção dada aos aspectos físicos e, principalmente, psicológicos do homem.

Esta preocupação pela observação minuciosa dos factos e da sua análise dá origem a narrativas longas e lentas, que pintam uma realidade com pormenor e sem esconder os aspectos menos agradáveis dos elementos retratados.

Para além da recusa do subjectivismo romântico, a reacção realista rejeita também os seus ideais, passando, por exemplo, a procurar a representação do momento presente e do quotidiano, ao contrário do Romantismo voltado para o passado histórico e para os nacionalismos.

Observando o presente com fidelidade, a literatura passa a ser um instrumento de denúncia social, onde se analisa criticamente os vícios da sociedade sua contemporânea, corporizados na classe dominante, a burguesia, retratada em personagens-tipo, e satirizando as instituições tradicionais conservadoras como a Família, a Igreja e o Estado. Na ficção realista, a personagem e a sua caracterização contribuem para a compreensão do enredo, pois é possível estabelecer uma relação entre as atitudes e comportamentos das personagens, descritas de maneira objectiva e lógica, e a sociedade da época.

A objectividade realista é conseguida a partir de uma linguagem simples e pouco rebuscada de compreensão imediata. Além disso, a tendência da descrição minuciosa e exacta não dá espaço à linguagem metafórica e hiperbólica dos românticos.


Realismo segundo Eça de Queirós

Segundo Eça de Queirós, na 4.ª Conferência do Casino a 12 de Junho de 1871, o Realismo é a negação da arte pela arte; é a proscrição do convencional, do enfático e do piegas. É a abolição da retórica considerada como arte de promover a comoção usando da inchação do período, da epilepsia da palavra, da congestão dos tropos. É a análise com o fito na verdade absoluta. Por outro lado, o realismo é uma reacção contra o romantismo: o romantismo era a apoteose do sentimento; o realismo é a anatomia do carácter. É a crítica do homem. É a arte que nos pinta a nossos próprios olhos – para que nos conhecermos, para que saibamos se somos verdadeiros ou falsos, para condenar o que houver de mau na nossa sociedade.

António Salgado Júnior, História das Conferências do Casino


PRINCIPAIS AUTORES DO PERÍODO REALISTA

- Portugal: Eça de Queirós, Antero de Quental, Ramalho Ortigão, Júlio Lourenço Pinto…

- França: (país onde nasceu esse movimento) Gustave Flaubert, Balzac e Emile Zola.

- Inglaterra: William Thackeray e George Eliot.

- Rússia: Fiódor Dostoievski e Leon Tolstoi.


TEORIAS SOCIAIS E CIENTÍFICAS QUE DESPERTARAM UMA VISÃO MAIS OBJECTIVA E CRÍTICA DO MUNDO

- O positivismo de Augusto Comte.

Segundo Augusto Comte só é possível obter o verdadeiro conhecimento da realidade a partir dos métodos da rigorosa observação e da experimentação.

- O evolucionismo de Darwin.

Segundo este cientista, as espécies vivas são o resultado de um processo evolutivo em que a selecção natural desempenhou um papel determinante, pois só sobreviveram as espécies que souberam, ao longo da sua evolução, adaptar-se ao seu meio.

- O marxismo de Karl Marx.

Segundo Karl Marx, as relações de trabalho, isto é, as relações de produção, são o verdadeiro motor da História. Por isso, este autor propôs a transformação da sociedade capitalista, a partir de uma organização do proletariado, e reivindicou a melhoria das condições de vida do ser humano.

No Realismo e no Naturalismo, estas teorias traduziram-se numa fé na ciência, no progresso e na vontade de transformar a sociedade, denunciando os seus males.

Naturalismo


O Naturalismo constitui o período literário, da década de 80, que se segue ao Realismo. Este movimento estético partilha com o Realismo a ideia de que a Arte deve ser o retrato fiel da realidade, no entanto, influenciado pelo Positivismo de Comte e pela teoria evolucionista de Charles Darwin, o Naturalismo considera que o romancista não se deve limitar a observar os acontecimentos e expô-los, mas também a interpretar os factos e os fenómenos sociais, com o rigor próprio da ciência. Deste modo, o romance adquirirá um valor social e científico.

O escritor naturalista, tal como o Realismo, também se baseia na observação e descrição do meio social, contudo, acredita que o indivíduo é o resultado de influências do meio, da educação e de factores do momento histórico que condicionam o seu comportamento. Para os naturalistas, a hereditariedade, a educação e o meio passam a explicar os comportamentos desviantes do indivíduo, conferindo-se a responsabilidade desses comportamentos a factos externos como o meio e factores de ordem hereditária e educacional.

Tematicamente, esta escola literária debruçou-se sobre o adultério (como resultado de uma errada educação assente em princípios românticos); o jogo; o alcoolismo (como deformação do carácter); a criminalidade; a miséria e a doença (como por exemplo a loucura), mas sempre a partir duma análise rigorosa do meio social e sem descurar dos aspectos patológicos.

Os termos Realismo e Naturalismo são usados, muitas vezes, como sinónimos, isto porque, de facto, existem muitos pontos em comum entre o romance realista e o naturalista. Aliás, por vezes, é difícil classificar um autor ou uma obra, como pertencente a uma destas correntes literárias. Por exemplo, Eça de Queirós é considerado por alguns críticos realista e, por outros, naturalista.

No entanto, existem algumas diferenças. Por exemplo, enquanto o Realismo descreve e analisa o comportamento humano, o Naturalismo, fortemente influenciado pela teoria evolucionista de Charles Darwin, observa o homem por meio do método científico, tentando perceber as causas do seu comportamento, porque acredita que só através deste método científico se pode chegar ao conhecimento objectivo dos factos e das situações. O Naturalismo acredita que o comportamento humano é o resultado da confluência de factores determinantes (a hereditariedade, a educação e o ambiente) sobre os indivíduos e que estes condicionam as suas acções, o seu carácter e o seu próprio destino.

Assim, é possível concluir que o Naturalismo é um prolongamento do Realismo, só que mais intenso, pois ao aprofundar a visão científica do Realismo, torna-a ainda mais objectiva.

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Introdução ao estudo d'Os Maias

Os romances de Eça de Queirós


Eça de Queirós foi um grande mestre do romance português moderno.

O romance é um género narrativo ficcional em prosa, mais longo que a novela e o conto, em que as personagens são apresentadas com maior densidade psicológica e o tempo e o espaço são elementos mais elaborados. Este género narrativo de larga projecção cultural é, de acordo com a entrada “romance” do Dicionário de Narratologia, de Carlos Reis e Ana Cristina M. Lopes, “fruto de uma popularidade e de uma atenção por parte dos seus cultores que, sobretudo a partir do século XVIII, fez dele decerto o mais importante dos géneros literários modernos.

O Crime do Padre Amaro – a primeira versão surge nas páginas da “Revista Ocidental”, em 1875.

O Primo Basílio – 1878

O Mandarim - foi publicado em folhetins no “Diário de Portugal”, em 1880.

A Relíquia - 1887

Os Maias - 1888

A Cidade e as Serras – editado postumamente, em 1901.

A Correspondência de Fradique Mendes – obra póstuma.

A Ilustre Casa de Ramires – editado em volume no ano da morte do autor.


O Realismo


A conferência proferida por Eça de Queirós lança as bases estéticas deste movimento literário, que se constitui como reacção ao romantismo e resulta de uma nova preocupação, agora voltada para a realidade concreta e para as questões sociais e humanas, que serão analisadas ao pormenor.

Stendhal, em França, foi o primeiro a reagir ao sentimentalismo romântico. Mas é Balzac quem melhor define o realismo, dada a observação objectiva de que se serve, concretamente na Comédie Humaine, a que se seguiram Salammbô e Madame Bovary de Flaubert.

Além disso, as teorias positivistas e experimentais influem no aparecimento de uma literatura realista, de cariz analista que fará despoletar o naturalismo.

Em síntese, pode afirmar-se que o realismo é um movimento artístico que tenta observar e captar a realidade de uma forma objectiva, fazendo dela uma análise rigorosa, servindo-se da narrativa, particularmente do romance, por ser este que permite articular a narração com a descrição minuciosa dos espaços onde decorre a acção. Aqui, a personagem ganha relevo, especialmente porque se lhe associam aspectos profissionais, económicos, culturais e esta estabelece ligação com o mundo real, representativo de uma época histórica.


O Naturalismo


O naturalismo serve-se do real objectivo embora lhe imprima um carácter analítico. Isto equivale a dizer que parte do mesmo pressuposto do realismo, que defende que a arte deve ser a representação mimética e objectiva da realidade exterior, usando a impessoalidade e o objectivismo como técnica. Mas não se limita a representá-lo, procura aprofundá-lo através da análise das circunstâncias sociais que envolvem as personagens e que condicionam o seu comportamento. Parte, por isso, dos princípios deterministas como a hereditariedade, o meio social e a educação que condicionam os fenómenos humanos em todas as dimensões. Neste sentido, compreendem-se as afirmações de Eça de Queirós quando, na conferência intitulada "O Realismo como nova expressão de arte", afirma que "o Realismo é a anatomia do carácter. É a crítica do homem. É a arte que nos pinta a nossos próprios olhos para nos conhecermos, para que saibamos se somos verdadeiros ou falsos, para condenar o que houver de mau na nossa sociedade". Estas palavras comprovam a noção de que o Naturalismo não é independente do Realismo, é antes o seu aprofundamento porque tem subjacente um conjunto de correntes científicas e filosóficas que imprimem ao realismo um carácter algo científico.



Os temas fundamentais do romance naturalista ("experimental") são os seguintes:


- o alcoolismo, como deformação social e dos caracteres;

- o jogo, encarado como consequência de determinadas situações de injustiça;

- o adultério, como denúncia de certo modo de vida resultante duma errada educação romântica;

- A opressão social, como resultado de conflitos de interesses, denunciando as suas causas económicas, políticas e sociais;

- Até a própria doença (a loucura, por exemplo), enquanto manifestação de taras hereditárias.