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sábado, 24 de março de 2012

O guardador de rebanhos - Alberto Caeiro



Eu nunca guardei rebanhos,
Mas é como se os guardasse.
Minha alma é como um pastor,
Conhece o vento e o sol
E anda pela mão das Estações
A seguir e a olhar.
Toda a paz da Natureza sem gente
Vem sentar-se a meu lado.
Mas eu fico triste como um pôr de sol
Para a nossa imaginação,
Quando esfria no fundo da planície
E se sente a noite entrada
Como uma borboleta pela janela.
Mas a minha tristeza é sossego
Porque é natural e justa
E é o que deve estar na alma
Quando já pensa que existe
E as mãos colhem flores sem ela dar por isso.
Com um ruído de chocalhos
Para além da curva da estrada,
Os meus pensamentos são contentes,
Só tenho pena de saber que eles são contentes,
Porque, se o não soubesse,
Em vez de serem contentes e tristes,
Seriam alegres e contentes.
Pensar incomoda como andar à chuva
Quando o vento cresce e parece que chove mais.
Não tenho ambições nem desejos.
Ser poeta não é uma ambição minha
É a minha maneira de estar sozinho.
E se desejo às vezes
Por imaginar, ser cordeirinho
(Ou ser o rebanho todo
Para andar espalhado por toda a encosta
A ser muita coisa feliz ao mesmo tempo),
É só porque sinto o que escrevo ao pôr do sol,
Ou quando uma nuvem passa a mão por cima da luz
E corre um silêncio pela erva toda.

Quando me sento a escrever versos
Ou, passeando pelos caminhos ou pelos atalhos,
Escrevo versos num papel que está no meu pensamento,
Sinto um cajado nas mãos
E vejo um recorte de mim
No cimo dum outeiro
Olhando para o meu rebanho e vendo as minhas ideias,
Eu olhando para as minhas ideias e vendo o meu rebanho,
E sorrindo vagamente como quem não compreende o que se diz
E quer fingir que compreende.
Saúdo todos os que me lerem,
Tirando-lhes o chapéu largo
Quando me vêem à minha porta
Mal a diligência levanta no cimo do outeiro.
Saúdo-os e desejo-lhes sol,
E chuva, quando a chuva é precisa,
E que as suas casas tenham
Ao pé duma janela aberta
Uma cadeira predilecta
Onde se sentem, lendo os meus versos.
E ao lerem os meus versos pensem
Que sou qualquer coisa natural

Por exemplo, a árvore antiga
À sombra da qual quando crianças
Se sentavam com um baque, cansados de brincar,
E limpavam o suor da testa quente
Com a manga do bibe riscado.

Alberto Caeiro


Este poema começa assim: “Eu nunca guardei rebanhos, mas é como se os guardasse”, mas a seguir, Alberto Caeiro explica-se melhor, dizendo-se “pastor por metáfora”:

Minha alma é como um pastor,

Conhece o vento e o sol

E anda pela mão das Estações

A seguir e a olhar.

Logo neste primeiro poema , O Guardador de Rebanhos, Caeiro dá o tom: ele é um ser natural, que vive no seio da natureza (assim se explica a sua imagística e vocabulário simples, do campo semântico da natureza – rebanhos, pastor, vento, sol, pôr-de-sol, como uma borboleta, ruído de chocalhos); que tem “pensamentos contentes”, mas tem pena de saber que são contentes, porque “pensar incomoda como andar à chuva”.

Acrescenta que não tem ambições, nem a de ser poeta – “Ser poeta / é a minha maneira de estar sozinho”; saúda os que o lerem e deseja-lhes sol e chuva, “quando a chuva é precisa”; que tenham, em suas casas uma janela aberta e uma cadeira onde se sentem a ler os seus versos e que, ao lê-los, “pensem que (é) / sou qualquer coisa natural”.

O sujeito lírico afirma nunca ter guardado rebanhos, “Eu nunca guardei rebanhos”, mas todo o poema nos sugere que ele se comporta como se efectivamente os guardasse e que procede, mesmo, se bem que ficticiamente, por artes do fingimento, como um guardador de rebanhos (“é como se os guardasse”). Não é, então, um pastor verdadeiro, real, pois ele afirma-nos convicto “Eu nunca guardei rebanhos”, mas comporta-se como se o fosse , “Mas é como se os guardasse”.

Há realmente uma parte de si, a alma, que age como um pastor e é, no poema, caracterizada como sendo profundamente íntima da natureza, pois “Conhece o vento e o sol”, “E anda pela mão das Estações / a seguir”, marcada pela sedução da viagem, “e a olhar”, preocupada sobretudo com o que vai observando – de notar a personificação. Por causa da sua alma, o sujeito poético tem acesso a “Toda a paz da Natureza sem gente” que vai sentar-se a seu lado.

“Mas eu fico triste” diz o sujeito lírico, explicando que a sua tristeza acontece quando um bem, por exemplo, o sol que ao pôr-se, desaparece, e se converte num mal, “E se sente a noite entrada“, como se se tratasse de uma desilusão que chega, imperceptivelmente, “Como uma borboleta pela janela”. De salientar as aliterações e jogos de sons para exprimir o modo como o pôr-do-sol acontece à entrada da noite, entristecendo o sujeito poético. Este pôr –do-sol é “Para a nossa imaginação” sempre mais excessivo, bem pior do que é na realidade. Esta tristeza do sujeito lírico é natural e justa, por isso ele conforma-se, não se excede, “Mas a minha tristeza é sossego” “E é o que deve estar na alma” quando a alma se ocupa em pensar , “Quando já pensa que existe”, não dando pela natureza, pelas flores que as mãos colhem, “E as mãos colhem flores sem ela dar por isso”.

A alma do sujeito poético encontra-se dividida, por uma lado, está devotada à simplicidade, à paz, à natureza, à sensibilidade, por outro lado, vota-se à tristeza, ao pensamento. Merece-se ser triste, confessa o sujeito lírico, quando o pensamento invade a alma. É que os seus pensamentos aparecem “com um ruído de chocalhos”, isto é de forma ruidosa, destituídos de simplicidade e “para além da curva da estrada” são contentes, obstinados. Ele não lamenta que os seus pensamentos sejam contentes, eles sê-lo-iam de qualquer modo, “Em vez de serem contentes... / Seriam... contentes. O que ele lamenta é “Só tenho pena de saber que eles são contentes / Porque, se o não soubesse, / Em vez de serem... tristes, / Seriam alegres”. Tudo isto, porque pensar incomoda, incomoda tanto como “andar à chuva / Quando o vento cresce e parece que chove mais”., logo é o pensamento que gera a infelicidade e não a tristeza.

O sujeito poético confessa “Não tenho ambições nem desejos / Ser poeta não é uma ambição minha”. Ser poeta “é a minha maneira de estar sozinho”, acrescenta. “Às vezes”, tem um desejo : “ser cordeirinho” (simbolizando um ser pacífico, natural, ingénuo, que não pensa), Ou ser o rebanho todo” para melhor sentir a felicidade:

Para andar espalhado por toda a encosta

A ser muita coisa feliz ao mesmo tempo),

E justifica-o com a necessidade de ultrapassar a tristeza que por vezes o assola, representada simbolicamente pelo pôr-do-sol (o pôr do sol do verso 36 está relacionado com o pôr-do-sol do verso 9), da nuvem que “passa a mão por cima da luz” (personificação) ofuscando-lhe a felicidade, do silêncio que “corre... pela erva fora.

O sujeito lírico prossegue a sua caracterização enquanto pastor: ele é pastor quando escreve versos na realidade e escreve versos no pensamento quando é pastor. Sente “um cajado nas mãos”, símbolo do pastor, mas também da sua segurança, da sua estabilidade, e vê-se no cimo de um outeiro olhando o rebanho (rebanho = ideias -> metáfora) e exigindo ingenuidade.

“E vejo um recorte de mim” é mais uma manifestação da dispersão que aflige o sujeito poético, ele não é tudo aquilo que quer ser, eles sente-se dividido. E é nessa condição de pastor/poeta, sem outra ambição que não seja a de tentar ultrapassar a tristeza, a nuvem, o silêncio, que ele, ingénuo e simples, deseja saudar todos os que lerem os seus versos. Ele é um mestre muito procurado por todos os que se interessam pela sua doutrina, pela sua filosofia, saudando-os e brindando-os com tudo o que é simples e objectivo, pacífico e suave, ingénuo e natural: o sol, a chuva, a casa, a janela aberta, a cadeira predilecta, a árvore antiga, a criança despreocupada...

E o que ele deseja, unicamente, é fazer-se passar por qualquer coisa natural, completamente alheia ao acto de pensar:

E ao lerem os meus versos pensem

Que sou qualquer coisa natural

segunda-feira, 19 de março de 2012

O meu olhar azul como o céu - Alberto Caeiro


O meu olhar azul como o céu
É calmo como a água ao sol.
É assim, azul e calmo,
Porque não interroga nem se espanta ...

Se eu interrogasse e me espantasse
Não nasciam flores novas nos prados
Nem mudaria qualquer cousa no sol de modo a ele ficar mais belo...

(Mesmo se nascessem flores novas no prado
E se o sol mudasse para mais belo,
Eu sentiria menos flores no prado
E achava mais feio o sol ...

Porque tudo é como é e assim é que é,
E eu aceito, e nem agradeço,
Para não parecer que penso nisso...)

Alberto Caeiro


O sujeito poético inicia o poema com uma comparação, compara o seu olhar "azul" e "calmo" com o "céu" e a "água ao sol", para mostrar a pureza, a perfeição e tranquilidade da vida, em contacto com a Natureza fruída na sua essência. Por outro lado, a comparação utilizada reitera a sua visão simples e depurada, ou seja, desprovida de preconceitos, à semelhança da autenticidade dos elementos da Natureza evocados.
O sujeito poético justifica as características que atribui ao seu olhar, afirmando que "...não interroga nem se espanta...", pois se "interrogasse" se "espantasse", "Não nasciam flores novas nos prados" nem o sol ficava mais belo. Desta forma, o sujeito lírico considera que a reflexão, a especulação, a intelectualização e a emoção perturbam a beleza e a espontaneidade da natureza. Esta oferece-se ao olhar do sujeito lírico sem mistérios, sem sentidos ocultos; as coisas são o que são e nada mais.

Alberto Caeiro utiliza dois processos linguísticos para conseguir uma escrita próxima da realidade, aproximando a sua linguagem poética do prosaísmo: a parataxe (sequência de frases justapostas, sem conjunção coordenativa), nomeadamente as frases coordenadas copulativas - "e me espantasse"; "Não nasciam... Nem mudaria"; "E se o sol mudasse" - e a tautologia, a explicitação de uma ideia com a repetição da mesma ideia - Porque tudo é como é e assim é que é,".

No final do poema, o sujeito lírico afirma aceitar o que o rodeia sem se interrogar sobre a sua existência, porque a única forma de conhecimento que ele admite é a que resulta do contacto imediato com a realidade, rejeitando o pensamento ou qualquer outro acto de natureza intelectual. Para ele, ("Pensar é estar doente dos olhos)", no entanto, admite que, por vezes, pensa e, por essa razão, é que afirma "para não parecer que penso nisso", numa clara afirmação da sua ingenuidade trabalhada e aparente.


terça-feira, 13 de março de 2012

Olá, guardador de rebanhos - Alberto Caeiro




"Olá, guardador de rebanhos,
Aí à beira da estrada,
Que te diz o vento que passa?"

"Que é vento, e que passa,
E que já passou antes,
E que passará depois.
E a ti o que te diz?"

"Muita coisa mais do que isso.
Fala-me de muitas outras coisas
De memórias e de saudades
E de coisas que nunca foram".

"Nunca ouviste passar o vento.
O vento só fala do vento.
O que lhe ouviste foi mentira,
E a mentira está em ti".

Alberto Caeiro


Há neste poema um diálogo entre um guardador de rebanhos e um sujeito lírico. Para o guardador de rebanhos, o vento não tem qualquer mistério, apenas passa; para o sujeito poético, o vento aparece personificado, falando "de memórias e de saudades", "de muitas outras coisas" que não estão no vento, mas no seu próprio espírito. Verifica-se, portanto, um confronto entre duas atitudes perante a natureza: uma que a povoa de fantasmas e outra que a despe de qualquer carga emotiva ou mítica.

No aspecto formal, este poema é típico de Alberto Caeiro pelo uso do verso livre, metricamente irregular, constituído por um terceto e três quadras, estruturalmente organizado à volta de duas interrogações. A linguagem é extremamente acessível e repetitiva (terceiro verso da primeira estrofe e segunda estrofe, por exemplo), o que vem emprestar à composição um certo tom de falsa simplicidade, típica deste poeta.

No fundo, trata-se de opor uma concepção subjectiva a uma visão objectiva da natureza. E isso é que é importante. Os recursos estilísticos são pouco abundantes, como, aliás, convinha ao pendor prosaico da poesia de Alberto Caeiro:

  • repetições "O vento só fala do vento"
  • assonância: "E a ti o que te diz?"
  • personificação: "Fala-me de muitas outras coisas"
  • ritmo predominantemente binário.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Da mais alta janela da minha casa - Alberto Caeiro



Da mais alta janela da minha casa
Com um lenço branco digo adeus
Aos meus versos que partem para a Humanidade.


E não estou alegre nem triste.
Esse é o destino dos versos.
Escrevi-os e devo mostrá-los a todos
Porque não posso fazer o contrário
Como a flor não pode esconder a cor,
Nem o rio esconder que corre,
Nem a árvore esconder que dá fruto.


Ei-los que vão já longe como que na diligência
E eu sem querer sinto pena
Como uma dor no corpo.


Quem sabe quem os terá?
Quem sabe a que mãos irão?


Flor, colheu-me o meu destino para os olhos.
Árvore, arrancaram-me os frutos para as bocas.
Rio, o destino da minha água era não ficar em mim.
Submeto-me e sinto-me quase alegre,
Quase alegre como quem se cansa de estar triste.


Ide, ide de mim!
Passa a árvore e fica dispersa pela Natureza.
Murcha a flor e o seu pó dura sempre.
Corre o rio e entra no mar e a sua água é sempre a que foi sua.


Passo e fico, como o Universo.


Alberto Caeiro


O tema deste poema é a criação poética.
A "casa", no primeiro verso, é metáfora do universo, do Todo e pressupõe a ligação do Homem à Terra.
A altura funciona como a sugestão de ausência de um referente espacial concreto.
A janela sugere a dicotomia interior/exterior, ou seja, através da janela é estabelecido o contacto entre a interioridade do poeta e o exterior, antecipando-se a ideia de que os versos, apesar de terem sido escritos pelo sujeito poético, pertencem à Humanidade.
A imagem apresentada no verso remete para o contrário - o poeta não se situa num plano superior em relação à realidade que o circunda; a sua casa é, antes, a Natureza, o que implica a sua ligação à terra e a ideia de criação poética como um acto natural.
O Homem é um elemento que se insere no Universo; os versos pertencem, pois, à Humanidade - a comunhão do ser humano com o lado cosmogónico significa a recusa do individualismo e da criação poética como um produto do sujeito lírico.

"Com um lenço branco digo adeus
Aos meus versos (...)"

"Ei-los que vão já longe como que na diligência"

O facto de os versos do sujeito poético serem lidos por outros significa que cada leitor os interiorizará, por sua vez, de acordo com a sua própria subjectividade, pelo que o acto de leitura é um acto de recriação poética - os versos já não pertencem ao seu autor, mas a todos aqueles que os lerem, interiorizando-os.

"Quem sabe quem os terá?
Quem sabe a que mãos irão?"

A produção poética é caracterizada pela mesma incerteza que marca o destino da flor ou do fruto, ou seja, tal como os outros elementos naturais, também o homem participa de um destino, que se liga ao simples facto de existir.

"Flor, colheu-me o meu destino para os olhos."

O homem, o rio, as árvores ou as flores são elementos de uma mesma totalidade e situam-se ao mesmo nível, na escala da existência.

"Rio, o destino da minha água era não ficar em mim."

A produção poética é encarada como um acto natural, orgânico. A perda da subjectividade é aquilo que é anunciado nos versos:

"Submeto-me e sinto-me quase alegre,
Quase alegre como quem se cansa de estar triste."

Alegria e tristeza não significam nada - tudo se situa no mesmo nível; Alberto Caeiro nega a emoção e propõe que o ser humano sinta as coisas de acordo com as leis naturais - e na natureza, o significado dos dias de sol é o mesmo que o dos dias de chuva - tudo faz parte da existência e a relativização daquilo que se experimenta enquanto emoção liga-se à aceitação de uma realidade em que a diferença ou a antítese são elementos integrantes dessa mesma realidade.
Encontramos, no poema, um paralelismo semântico, a que subjaz a ideia da perda da subjectividade e da comunhão cosmogónica (este estabelece-se entre a primeira e a terceira estrofes).

flor => fruto => versos => elementos naturais
olhos => bocas => mãos/olhos => órgãos de percepção

Alberto Caeiro faz a apologia do fenómeno, daquilo que se vê, que nos é revelado e coloca a criação poética no plano do fenómeno natural (tal como a árvore dá frutos, o homem cria versos...).
Os espaços abstractos que surgem no poema por um processo de encaixe traduzem, assim, a ausência da conquista de um espaço, o que se prende à perda da identidade, à inserção do "eu" no Todo.

Casa/Natureza

Humanidade

Versos


A perda da individualidade remete para uma visão pagã da realidade, segundo a qual o ser humano participa integralmente das leis da Natureza. A simbiose entre o sujeito lírico e o universo pressupõe a concepção mítica do eterno retorno - vida e morte são um processo dialéctico - a renovação implica que algo acabe e que algo comece - esta é, por excelência, a lei da Natureza.

"Murcha a flor e o seu pó dura sempre.
Corre o rio e entra no mar e a sua água é sempre a que foi sua."

"Passo e fico, como o Universo."

A regeneração cósmica significa, então, vida, mesmo após a morte de elementos singulares, pois o universo perpetua-se indefinidamente.
O sujeito lírico propõe, assim, a ruptura com a tradição cultural ocidental através da negação da individualidade (princípio enraizado na moral cristã), da recusa da subjectividade e da defesa do reencontro com a Natureza, de acordo com a perspectiva preconizada pelo paganismo.


Estrutura externa

Os três primeiros versos revelam a influência da poesia japonesa - o "haiku" é um poema japonês, geralmente composto por três versos, num total aproximado de dezassete sílabas, cuja finalidade é "mostrar" - não se defendem argumentos, constata-se uma determinada realidade (Zen afirma que " Mostrar uma vez vale mais do que dizer cem vezes").
O poema é composto por sete estrofes: terceto, sétima, terceto, dístico, quintilha, quadra e monóstico.


Características estilísticas
  • Os adjectivos
A antonímia, ao nível dos adjectivos, traduz a recusa dos sentimentos sociais, convencionais. O poeta não sente como a maioria dos homens; para ele, o acto de sentir é substituído pelo acto de existir.

"E não estou alegre nem triste."

As cargas conotativas positiva e negativa destes adjectivos são neutralizadas; o poeta insere-se no meio natural, recusando integrar-se numa sociedade humana.

  • Os nomes / As formas verbais
Os nomes apontam para uma escala de valor, a escala da existência, em que todas as coisas têm o mesmo sentido e a mesma importância - os versos são, também, um produto da Natureza, uma manifestação natural da vida humana.

versos = fruto / rio / flor

versos => verbo mostrar => "Escrevi-os e devo mostrá-los a todos"

flor => verbo esconder (forma negativa) => "Como a flor não pode esconder a cor"

"Escrevi-os e devo mostrá-los a todos" <=> "Como a flor não pode esconder a cor"

O verbo esconder, na forma negativa, aparece três vezes no infinitivo - a utilização do modo infinitivo aponta para a perda da identidade, para a ausência do sujeito lírico no processo de criação poética, associada à criação da Natureza, que é algo que se manifesta como processo que faz parte de uma unidade, em que o elemento singular não tem qualquer expressão.

  • O deíctico (advérbio de designação) / Os advérbios adjuntos
"Ei-los que já vão longe"

Ei-los - deíctico - indicação de proximidade - acção de escrita

versus

- advérbio adjunto de tempo - perda do "eu" na linguagem - a imediatez do advérbio remete para a ideia de que, após o acto de escrita, o poema deixa de pertencer ao seu criador - perda da individualidade, aquando da conclusão do poema

longe - advérbio adjunto de lugar - negação da proximidade apontada pelo deíctico - o poema já não pertence ao seu autor; é recriado pelo leitor

  • A comparação
A comparação estabelece a união entre os sentimentos e os sentidos, conferindo uma dimensão física aos primeiros (o sentimento de pena é comparado a uma "dor no corpo").
"E eu sem querer sinto pena
Como uma dor no corpo."

Pena é dor, porque é sensação - o sentimento é captado como a cor da flor .

  • A pontuação
A pontuação, no final do verso, evidencia a consciência da inutilidade da explicação, enfatizando o valor da constatação, enunciada pelo verso "Porque não posso fazer o contrário", o que implica a negação da subjectividade, aliada ao acto de constatar.


Sonoridades

Nalguns versos, a repetição de sons nasais sugere o prolongamento do som no espaço, estabelecendo a relação entre o possessivo ("minha" / "meus"), a forma verbal ("partem") e o grupo nominal ("lenço branco"), tornando óbvia a ideia da despedida, isto é, a recusa da aliança entre subjectividade e o poema.

"Com um lenço branco digo adeus
Aos meus versos (...)

(...)

Ei-los que vão já longe como que na diligência"

Os sons aberto e semiaberto servem a constatação e o didactismo: alta, partem, humanidade, já (aberto); janela, versos (semiaberto).

domingo, 19 de fevereiro de 2012

Principais características da poesia de Alberto Caeiro


Linhas de sentido
  • Defesa da objectividade - visão do real centrada no fenómeno - nada existe para além daquilo que, de facto, é perceptível para o ser humano, para além daquilo que captamos através dos órgãos dos sentidos.
  • Predomínio da sensação sobre o pensamento (o Homem deve renunciar ao pensamento, pois este implica que se deturpe o significado das coisas que existem).
  • Comunhão total entre o Homem e a Natureza - o ser humano deve submeter-se às leis naturais e não deve racionalizar processos que existem naturalmente (por exemplo, as ideias de vida ou de morte, que existem enquanto verdades absolutas).
  • Neopaganismo - da ideia de comunhão absoluta com a Natureza resulta uma visão pagã da existência, que consiste na descrença total na transcendência; a única verdade é a sensação.
  • Ruptura com os cânones estéticos tradicionais (temáticos e formais).
  • Revolução de valores - amoralidade - a realidade não é vista à luz das ideias de moral ou imoral.
  • "Desculturalização" - pensar nas coisas é não as compreender.
  • Estoicismo - aceitação passiva de tudo - a vida humana deve ser encarada como a vida dos outros seres que existem no universo (há dias de sol e dias de chuva - esta é a verdade suprema e só a sua aceitação conduzirá à tranquilidade - o Homem não deverá integrar-se numa determinada sociedade, mas no todo cosmogónico).

Características estilísticas
  • Linguagem simples
  • Léxico objectivo (termos que remetem directamente para o objecto)
  • Adjectivação quase ausente
  • Quase ausência de metáforas, metonímias ou sinestesias
  • Paralelismos
  • Assíndetos
  • Predominância das formas verbais no presente do indicativo

Sonoridades
  • Ritmo lento (remetendo para a calma aceitação das coisas)
  • Alternância entre sons nasais e vogais abertas e semiabertas
  • Ausência de rima

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

let's play a while... Dia XVI - Morning


Hoje, quando me levantei, o sol já estava bem acordado!
Quando abri a porta para sair, o sol espreitava-me já através dos pinheiros. O céu estava azul e cheirava a Primavera, até o frio foi passear para outro lado e tive vontade de cantar e de dançar ao som do louco chilreado dos pardais que teimam vir, com ou sem frio, todos os dias, dar-me os bons-dias. Bom-dia Sol, bom-dia árvores, bom-dia passarinhos, bom-dia, bom-dia... e rodopio na ponta dos pés para abarcar toda a beleza, cor e movimento que me rodeia...

BOM-DIA!


Não Basta

Não basta abrir a janela
Para ver os campos e o rio.
Não é bastante não ser cego
Para ver as árvores e as flores.
É preciso também não ter filosofia nenhuma.
Com filosofia não há árvores: há ideias apenas.
Há só cada um de nós, como uma cave.
Há só uma janela fechada, e todo o mundo lá fora;
E um sonho do que se poderia ver se a janela se abrisse,
Que nunca é o que se vê quando se abre a janela.



Alberto Caeiro

sábado, 11 de fevereiro de 2012

Alberto Caeiro


Alberto Caeiro - "o Mestre", "o pastor por metáfora"

  • Nasce em Lisboa, a 16 de Abril de 1899.
  • Órfão de pai e mãe, herda uma pequena quantia de uma tia, o que lhe permite mudar-se para o campo, onde vive até morrer.
  • De estatura média e frágil, louro, de olhos azuis, tem apenas a quarta classe, nunca tendo exercido nenhuma profissão.
  • Morre em 1915, tuberculoso.
Caeiro representa a antítese de Fernando Pessoa ortónimo, o "remédio" par a sua ansiedade e para a sua angústia perante o mistério da existência, inacessível ao Homem. Para este heterónimo, a única via para atingir a felicidade é não pensar, é recusar a essência, para acreditar que apenas existe a aparência. Ele nega a dicotomia platónica, herdada pela cultura ocidental, segundo a qual o fenómeno (aquilo que os seres humanos podem percepcionar através dos sentidos) é uma cópia de um mundo que o Homem não pode captar (o mundo da Essência). Alberto Caeiro propõe uma "desculturalização", na medida em que nega a visão da realidade, sujeita à anaálise do pensamento, defendendo que existir é, afinal, estar de acordo com as leis naturais. Assim, afirma que "Há metafísica bastante em não pensar em nada" e que "Pensar no sentido íntimo das cousas / é como (...) pensar na saúde / Ou levar um copo à água das fontes".
Ele é um estóico e um epicurista, porque não deseja nada, a não ser inserir-se no todo cosmogónico, aquilo que, efectivamente, lhe dará felicidade.

"Bendito seja o mesmo sol de outras terras
Que faz meus irmãos todos os homens
Porque todos os homens, um momento no dia, o olham como eu,
E nesse puro momento
Todo limpo e sensível
Regressam lacrimosamente
E com um suspiro que mal sentem
Ao homem verdadeiro e primitivo
Que via o Sol nascer e ainda o não adorava.
Porque isso é natural – mais natural
Que adorar o ouro e Deus
E a arte e a moral..."

Alberto Caeiro representa a tranquilidade que o seu criador nunca conseguiu encontrar e que
exprimiu ao constatar o paradoxo do universo:

(...) O Universo não concorda consigo próprio porque
passa. A vida não concorda consigo própria, porque
morre. O paradoxo é a forma típica da Natureza.
Por isso, toda a verdade tem uma forma (...) paradoxal (...)

Caeiro, o mestre reconhecido pelo seu próprio criador, responde:

"O que é preciso é ser-se natural e calmo
Na felicidade ou na infelicidade,
Sentir como quem olha,
pensar como quem anda,
E quando se vai morrer, lembrar-se de que o dia morre,
E que o poente é belo e é bela a noite que fica...
Assim é e assim seja..."

Fernando Pessoa afirma que a originalidade de Caeiro, " a sua objectividade quase inconcebível" consiste no facto de este heterónimo percepcionar a realidade através do olhar, sem proceder à intelectualização dessa percepção. A poesia de Caeiro é, assim, uma poesia sensacionista, na medida em que o poeta substitui pensamento (que associa a uma doença) e sentimento (subjectivo ou convencional) por sensação. A subjectividade não existe para este heterónimo pessoano. As suas sensações são colhidas no exterior objectivo. É o seu sensacionismo que, segundo Pessoa, faz dele um poeta pagão e lhe proporciona o reencontro com a Natureza.


Como quem num dia de Verão abre a porta de casa
E espreita para o calor dos campos com a cara toda,
Às vezes, de repente, bate-me a Natureza de chapa
Na cara dos meus sentidos,
E eu fico confuso, perturbado, querendo perceber
Não sei bem como nem o quê...

Mas quem me mandou a mim querer perceber?
Quem me disse que havia que perceber?

Quando o Verão me passa pela cara
A mão leve e quente da sua brisa,
Só tenho que sentir agrado porque é brisa
Ou que sentir desagrado porque é quente,
E de qualquer maneira que eu o sinta,
Assim, porque assim o sinto, é que é meu dever senti-lo...