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domingo, 8 de janeiro de 2017

Cesário Verde - Deambulismo - O Sentimento dum Ocidental



O Sentimento de um Ocidental é um poema dividido em quatro momentos: Ave-Marias, Noite Fechada, Ao Gás, Horas Mortas. Trata-se da reconstituição de um passeio solitário que o sujeito poético faz num sábado de lazer, descrevendo, ao longo do seu passeio, tudo o que vai observando, em especial as pessoas e os espaços em que elas se movimentam.
Este poema, considerado como uma "epopeia às avessas", dá-nos uma visão da cidade como metáfora do Ocidente, paradigma de um pretenso progresso e desenvolvimento.


Ave-Marias


A primeira parte do poema situa-se ao fim da tarde ("ao anoitecer"), à hora em que os sinos das igrejas chamam para a oração vespertina - a ave-maria.
O sujeito poético, à medida que deambula pelas ruas junto ao Tejo, descreve vários espaços citadinos - edifícios em construção, "boqueirões", "becos", "varandas", "arsenais", "oficinas", "hotéis da moda" -, referindo as "personagens urbanas" que neles se movimentam - "carpinteiros", "calafates", "dentistas", "obreiras", "varinas", "um trôpego arlequim", "os querubins do lar", "os logistas". Em relação ao grupo de personagens descrito, é evidente a simpatia solidária que o sujeito poético revela para com as personagens populares, com destaque especial para as varinas que "... embalam nas canastras / Os filhos que depois naufragam nas tormentas" e que trabalham "(...) Nas descargas do carvão, / Desde manhã à noite, (...) / E apinham-se num bairro aonde miam gatas, / E o peixe podre gera os focos de infecção!" A impressão geral que decorre desta primeira descrição da cidade é de que se trata de um espaço soturno e melancólico, pouco luminoso, que apresenta uma "cor monótona e londrina", despertando no "eu" sentimentos contraditórios - "E o fim da tarde inspira-me; e incomoda!"
Nesta primeira parte do poema, é também nítida a oposição entre o real e a fantasia. Na verdade, face a uma realidade que lhe desperta "um desejo absurdo de sofrer", o sujeito poético anseia partir para outras dimensões, e exprime o seu desejo de evasão:
  • para outros espaços reais: "Levando à via-férrea os que se vão. Felizes! / Ocorrem-me em revista exposições, países: /Madrid, Paris, Berlim, S. Petersburgo, o mundo!";
  • para outros tempos, outras glórias - "Evoco, então, as crónicas navais: / Mouros, baixéis, heróis, tudo ressuscitado! / Luta Camões no Sul, salvando um livro a nado! / Singram soberbas naus que eu não verei jamais!".
Esta evocação das grandezas passadas aparece logo seguida da referência ao "couraçado inglês" que, no Tejo, ocupa agora o lugar das naus de quinhentos (Cesário Verde era um republicano convicto que via de forma muito crítica a ingerência inglesa na política, sobretudo a colonial, portuguesa. O Ultimatum Inglês data de 1890).


Noite Fechada

O sujeito poético continua o seu percurso, observando a realidade que o rodeia, enumerando os novos espaços que observa:
  • as cadeias
  • o Aljube
  • a "velha Sé"
  • os andares
  • as tascas
  • os cafés
  • as tendas
  • os estancos
  • as igrejas
  • "as íngremes subidas"
  • "o recinto público e vulgar"
  • "um palácio em face de um casebre"
  • os quartéis
  • as "montras dos ourives"
  • os magasins
  • a brasserie
Destes espaços mórbidos, pouco iluminados, desprende-se uma sensação de enclausuramento, de solidão, de pessimismo progressivo - "E eu desconfio, até, de um aneurisma / Tão mórbido me sinto, ao acender das luzes", "Chora-me o coração que se enche e que se abisma.", "E eu sonho o Cólera, imagino a Febre", "Triste cidade! Eu temo que me avives / Uma paixão defunta!".
Surgem, então, novas figuras citadinas, a que o sujeito poético se refere como "uma acumulação de corpos enfezados" - presos, velhinhas, crianças, soldados, as elegantes, as costureiras, as floristas ("E muitas delas são comparsas ou coristas") e os emigrados que jogam dominó.
O tom melancólico e disfórico presente na descrição da cidade não nasce apenas do relato dos espaços e das personagens que neles evoluem, mas também do tipo de sensações empregues pelo sujeito poético para concretizar essa mesma descrição:
  • auditivas - "Toca-se as grades, nas cadeias. Som / Que mortifica e deixa umas loucuras mansas!", "E os sinos dum tanger monástico e devoto.", "... ao riso...";
  • visuais - "... ao acender das luzes", "à crua luz";
  • térmicas - "Derramam-se por toda a capital, que esfria".
Nesta segunda parte, face à desolação e à soturnidade do presente, o sujeito poético também evoca o passado ("Assim que pela História eu me aventuro e alargo") através do "severo inquisidor", do "épico de outrora" e da Idade Média.


Ao Gás

O deambular progressivo do sujeito poético permite-lhe completar o quadro citadino. Novos espaços e personagens são referidos:

Espaços
  • os "passeios de lajedo"
  • os "moles hospitais"
  • as "lojas tépidas"
  • a "catedral de um comprimento imenso"
  • o "cutileiro"
  • a "padaria"
  • as "casas de confecções e modas", com longos balcões de mogno
  • as "longas descidas" e as esquinas
Personagens
  • "as impuras"
  • as "burguesinhas do Catolicismo"
  • "o forjador"
  • um "ratoneiro imberbe"
  • "a lúbrica pessoa"
  • uma "velha, de bandós!"
  • "os caixeiros"
  • "um cauteleiro rouco"
  • o "velho professor (...) de latim"
Esta longa enumeração, para além de pormenorizar o retrato da cidade, reitera alguns dos aspectos característicos da poesia de Cesário Verde, como:
  • a valorização do campo, presente na única nota eufórica desta parte - o "cheiro salutar e honesto a pão no forno" que sai de uma padaria;
  • a presença de uma figura feminina que subverte os cânones poéticos da época - "as impuras";
  • o anticlericalismo presente na referência ao histerismo das freiras;
  • a solidariedade social presente na referência ao facto de o seu "velho professor (...) de Latim" estar transformado num pedinte.
Tal como nas duas primeiras partes, o sujeito poético descreve a cidade de modo sensorial, recorrendo a:
  • sensações tácteis - "(...) A noite pesa, esmaga. (...) / Um sopro que arrepia os ombros quase nus";
  • olfactivas - "Um cheiro salutar e honesto a pão no forno";
  • visuais - "E a vossa palidez romântica e lunar!";
  • auditivas - "Da solidão regouga um cauteleiro rouco".
O sujeito poético sublinha que o real é motivo de inspiração poética - "E eu que medito um livro que exacerbe. / Quisera que o real e a análise mo dessem".


Horas Mortas

A quarta parte do poema corresponde ao momento final do percurso do sujeito poético, percurso esse que se vai progressivamente tornando mais angustiante e fechado.
Assim, estamos no domínio total da noite, as estrelas brilham no céu - "Vêm lágrimas de luz dos astros com olheiras" - e "os guardas, que revistam as escadas, / caminham de lanterna (...)".
Este é também o momento em que as personagens marginais dominam a cidade: as "imorais", os assassinos, os "tristes bebedores", os "dúbios caminhantes" e até os cães, que se transformam em lobos - "E sujos, sem ladrar, ósseos, febris, errantes, / Amareladamente, os cães parecem lobos".
É também o momento em que o espaço se torna agressivo para o sujeito poético, essa agressividade está presente:
  • no colocar dos taipais e no ranger das fechaduras;
  • na consciência de que a cidade é uma prisão, uma antecâmara da morte - "Mas se vivemos, os emparedados. / Sem árvores, no vale escuro das muralhas!..."; "prédios sepulcrais";
  • no sentir de um nojo físico pela cidade - "Nauseiam-me (...) os ventres das tabernas".
Face a esta cidade opressiva, o sujeito poético apenas pode:
  • evocar a beleza e a serenidade do campo - "Pois sobem, no silêncio, infaustas e trinadas, / As notas pastoris de uma longínqua flauta";
  • expressar desejos impossíveis ou de difícil realização - "Se eu não morresse, nunca! E eternamente / Buscasse e conseguisse a perfeição das cousas!";
  • esperar o regresso da grandeza perdida - "Nós vamos explorar todos os continentes / E pelas vastidões aquáticas seguir!"
O poema conclui com uma nota claramente disfórica: a cidade é, inevitavelmente, o espaço onde "A Dor humana busca os amplos horizontes, / E tem marés, de fel, como um sinistro mar!".



"O "Sentimento dum Ocidental" é a investigação definitiva de Cesário Verde sobre a cidade. O poema regista as percepções e as impressões de um observador caminhando nas ruas nocturnas da cidade, um narrador que descreve um passeio solitário que não é apenas um movimento no espaço das ruas da cidade; é também um processo no tempo, uma viagem para dentro da noite durante a qual o narrador penetra e confronta o mundo simbólico de sombras reais que é a cidade nocturna. A cidade é Lisboa; o sentimento do título é o do narrador, natural do extremo ocidental da Europa, um português. Mas a cidade também representa o todo da civilização ocidental a que Portugal pertence; e o sentimento que ela provoca é ao mesmo tempo um produto dessa civilização e um protesto contra ela."

Hélder Macedo, "Nós" - Uma Leitura de Cesário Verde

in Colecção Resumos da Porto Editora

Dúvidas: Avé-Maria ou Ave-Maria?

Embora a expressão “Avé Maria” exprima melhor a forma como as pessoas a pronunciam, há que salientar que a expressão, de origem latina, é Ave, com o sentido de salve, saúde. Por isso, deve escrever-se sem o acento. A propósito ainda desta expressão, deve referir-se que quando serve para designar a oração correspondente, aconselha-se a que esta seja distinguida com hífen (ave-maria) para permitir o uso do plural.
Por exemplo: “Ave Maria cheia de graça”, "Vou rezar uma ave-maria" e “Já rezei três ave-marias.”


segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

Cesário Verde - Deambulismo - Num Bairro Moderno



Para Cesário Verde, ver é perceber o que se esconde na realidade, é captar as impressões que as coisas lhe deixam e, por isso, o poeta percepciona o real minuciosamente através dos sentidos. Ou seja, andando pela cidade, deambulando por espaços físicos vários, o real exterior é apreendido pelo mundo interior do sujeito poético que o interpreta e recria com grande nitidez, numa atitude de captação do real pelos sentidos, dando predominância aos dados obtidos pela visão: cor, luz, recorte, formas, movimento.
A errância pelos espaços da cidade é motivação para escrever.
Os poemas de Cesário que melhor ilustram esta deambulação, esta errância por uma cidade que é sua são:


Num Bairro Moderno

Trata-se da reconstituição do percurso que sujeito poético habitualmente faz para o emprego, para a loja de ferragens do pai.
Este poema de Cesário Verde pode ser considerado uma espécie de paradigma da totalidade da sua produção poética, uma vez que, de uma forma mais ou menos desenvolvida, todos os aspectos essenciais da sua poesia estão nele presentes.
Analisemos este poema, então, começando por fazer referência às duas realidades presentes no texto:
  • a objectiva, construída através da descrição do bairro e das personagens que nele se movimentam: estrofes 1, 2, 3, 4, 5, 6, 13, 14, 15, 16, 17, 18 e 19;
  • a subjectiva, a fuga imaginativa levada a cabo pela visão pessoal do "eu" que vagueia, que deambula pelo bairro: 7, 8, 9, 10, 11, 12 e 20.
A coexistência destas duas realidades prefigura a poetização do real, uma vez que o sujeito poético se deixa levar pela sua imaginação, construindo um corpo feminino (símbolo de saúde, de fertilidade, mas também de sensualidade) a partir da giga de legumes e frutos, vendo estrelas nas gotas de água que caem do ralo de regador, ou transformando a visão final da hotaliceira e do seu cesto à cabeça numas "grossas pernas dum gigante /Sem tronco, mas atléticas, inteiras".
Esta poetização do real, construída pela imaginação do sujeito poético, inviabiliza algumas teorias segundo as quais Cesário Verde seria um poeta realista. Cesário é, sim, contemporâneo do realismo, sofre influências desse movimento, mas vai além dele. É quase um surrealista antes do tempo, pela dimensão que o imaginário e a transformação poética assumem na sua poesia.

Relativamente à realidade objectiva, assinale-se:

a) o carácter deambulatório (o "eu" descreve o que vê à medida que passeia pelo bairro), cinético e visual da poesia de Cesário:
  • a focagem do plano geral (o bairro);
  • a passagem para a cena particular (o episódio da hortaliceira).

b) a presença do quotidiano visível nas características narrativas do poema:
- tempo: "Dez horas da manhã" (estrofe 1); "ao calor de Agosto" (estrofe 16);
- espaço: "larga rua macadamizada" enquadrada por casas apalaçadas com quartos estucados, paredes de papéis pintados, mesas com porcelanas, jardins com nascentes - bairro burguês (estrofes 1 e2);
- personagens:
  • sujeito poético - frágil, doente. "Com as tonturas de uma apoplexia" (estrofe 3);
  • a hortaliceira: mulher do povo, esguedelhada, magra, feia, doente, enfezadita (est. 5, 6 e 19). A mulher do povo apresentada de uma forma realista, não sujeita a uma metamorfose poética, constitui uma inovação da poesia deste poeta. Esta mulher pobre, feia, "sem quadris", esmagada pelo peso da giga, simboliza também as preocupações sociais presentes na poesia de Cesário Verde, aspectos completamente "revolucionários" para a época;
  • o criado;
  • o pequerrucho;
  • os padeiros;
  • as ménages.
-acção:
  • o deambular do sujeito poético pelo bairro, o encontro com a hortaliceira e a fuga imaginativa a partir da giga. Esta fuga imaginativa é uma micro-narrativa encaixada na narrativa de primeiro grau;
  • o retomar do passeio e a visão final.

Em relação à realidade subjectiva que assume no poema o estatuto de uma narrativa de segundo grau, que integra a fuga imaginativa:
  • o carácter subjectivo / metamorfoseante e surrealista da descrição da giga (est. 7, 9, 10, 11, 12);
  • o simbolismo inerente a esta "fuga": a giga é "um retalho de horta" e, por isso, transmite força, vigor, saúde, vida, poder de transformação, por oposição à cidade, representada pelo sujeito poético e pela hortaliceira, conotada com dor, sofrimento, e, no limite, morte;
  • a presença dos binómios campo/cidade, vida/morte estruturantes da poesia de Cesário Verde e associados ao mio de Anteu. Só o contacto com o real, mas sobretudo com o campo, com a terra, confere ao homem força e vitalidade;
  • o visualismo (aspectos pictóricos) quer na descrição da rua, quer na descrição da giga, criado a partir das referências à:
  1. luz - "E fere a vista, com brancuras quentes, / A larga rua macadamizada.";
  2. cor - "Ou entre a rama dos papéis pintados";
  3. forma - "Achava os tons e as formas";
  4. movimento - "Sobem padeiros";
  • a presença dos principais aspectos do estilo poético de Cesário Verde:
  1. emprego de um vocabulário pragmático, preciso, concreto e corrente - "Se ela se curva, esguedelhada, feia";
  2. utilização inusitada do adjectivo - "Atira um cobre lívido, oxidado";
  3. emprego de sinestesias - "brancuras quentes";
  4. recurso a sensações / verbos sensitivos: visão ("matizam"); tacto ("fere"); olfacto ("Bóiam aromas, fumos de cozinha"), ("hortelã que cheira"); audição ("Toca, frenética, de vez em quando"); gosto ("Como de alguém que tudo aquilo jante");
  5. valor expressivo dos diminutivos - "pequenina", "bracinhos", "enfezadita";
  6. emprego de estrangeirismos - "rez-de-chaussée", "ménages".
in Colecção Resumos da Porto Editora

sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

Cesário Verde - Deambulismo - Cristalizações


Cristalizações recria o quadro do trabalho dos calceteiros a que o sujeito poético assiste. O título do poema está relacionado com o brilho da luz nos charcos, cujos reflexos parecem cristais.
O título deste poema poderia ser "Num Bairro Proletário", como contraponto a "Num Bairro Moderno". Enquanto neste último o sujeito poético nos conduz através de um bairro burguês com as suas casas apalaçadas e os seus mordomos, em "Cristalizações", deambulamos por entre "Uns barracões de gente pobrezita / E uns quintalórios velhos com parreiras" que se situam nuns "sítios suburbanos, reles!"
Porém, não é apenas este aspecto que aproxima dois poemas que retratam espaços citadinos tão diametralmente opostos. Também a oposição real / fuga imaginativa está presente nos dois textos.
Tendo em conta esta oposição, é possível delimitar em "Cristalizações" dois níveis narrativos diferentes:
  • o do real (estrofes 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9, 10, 11, 12, 13, 14, 15, 16, 17, 18, 19, 20);
  • o da imaginação (estrofes 7 - versos 2, 3, 4 - 13).
No domínio do real, pontuam diversas personagens - os calceteiros, as varinas e a "actrizita" -, assumindo os calceteiros o estatuto de personagem principal
Com efeito, todo o poema é um hino a estes trabalhadores que abandonaram as lezírias, os montados, as planícies, as montanhas para com "os grossos maços" partirem a pedra "com que outros" fazem a calçada. Trata-se de um trabalho duro, moroso, ininterrupto - "(...) E os rapagões morosos, duros, baços, / Cuja coluna nunca se endireita"; "Homens de carga! Assim as bestas vão curvadas! / Que vida tão custosa!") - realizado ao frio, "nesse rude mês, que não consente as flores", nesse "Dezembro enérgico, sucinto".
De repente, cortando o ritmo de trabalho daqueles homens fortes, rudes - "bovinos, másculos, ossudos" - e brutos - "Como animais comuns", surge uma actrizita com "pezinhos de cabra" cuja presença desassossega aqueles trabalhadores que a encaram "sanguínea, brutamente".
No entanto, "O demonico arrisca-se, atravessa /Covas, entulhos, lamaçais depressa", continuando o seu caminho.
O posicionamento do sujeito poético face aos calceteiros, embora lhes reconheça aspectos quase que animalescos, é de uma empenhada solidariedade bem patente, quando na estrofe 13, transforma as nódoas de vinho em medalhas, as camisas em bandeiras e os suspensórios numa cruz - metáfora do sofrimento de Cristo, na cruz.
Este poema é talvez aquele em que a descrição sensorial do real se torna mais evidente, através do uso de:
  • sinestesias - "Vibra uma imensa claridade crua"
  • sensações visuais - "E as poças de água, como em chão vidrento, / reflectem a molhada casaria"
  • sensações auditivas - "Disseminadas, gritam as peixeiras", "E o ferro e a pedra - que união sonora!"
  • sensações tácteis - "Faz frio"
  • sensações olfactivas "Cheira-me a fogo, a sílex, a ferrugem"
  • sensações gustativas - "Sabe-me a campo, a lenha, a agricultura"
  • vocabulário expressivo - "O céu renova a tinta corredia"
  • metáforas - "E os charcos brilham tanto, que eu diria / Ter ante mim lagoas de brilhantes!"
O próprio sujeito poético reitera esse carácter sensorial do texto ao afirmar "Lavo, refresco, limpo os meus sentidos. / E tangem-me excitados, sacudidos, / O tacto, a vista, o ouvido, o gosto, o olfacto!"

in Colecção Resumos da Porto Editora



Cesário Verde - Deambulismo - "De Verão" e "Nós"




Paralelamente ao deambulismo citadino, Cesário Verde passeia o seu olhar também pelo campo, como atestam os poemas: "De Verão" e "Nós".


De Verão

Este poema inicia-se com uma confissão, já antes pressentida, por parte do sujeito poético: é ao campo que ele vai buscar a sua inspiração - "No campo; eu acho nele a musa que me anima: / A claridade, a robustez, a acção."
Logo após esta confissão, o sujeito poético introduz uma personagem feminina, a prima, com quem vai deambular pelo campo, ao mesmo tempo que conversam sobre temas banais e do quotidiano.
Assim, ao longo do poema, é possível detectar três vectores estruturantes:
  • um constituído pela relação que se estabelece entre a prima séria e educada, que, pela sua beleza e naturalidade, está em sintonia com o espaço campestre em que se move - uma "criança encantadora", de "olhos castos", "Exótica", austera, gentil, inteligente, com "chapéu de palha", "As saias curtas, frescas, engomadas", "os cabelos muito loiros" - e o sujeito poético, caracteristicamente citadino - "E ria-me, eu ocioso, inútil, fraco. / Eu de jasmim na casa do casaco / E de óculo deitado a tiracolo!" - e que fuma cachimbo;
  • outro constituído pelos espaços - "a velha ermida", "as leiras", "a ribeira", os "olivais escuros", as pastagens, os milhos, a "colina azul", "o lugar caiado", a azinhaga, as vinhas, os celeiros, os pinheiros, a campina e personagens do campo - os que "andam cantando aos bois", "os saloios vivos, corpulentos", os pastores que fazem regressar os rebanhos - que compõem um quadro que transmite energia e saúde - "(...) Que aldeias tão lavadas / Bons ares! Boa luz! Bons alimentos!";
  • e, finalmente, um outro constituído pela conversa entre as duas personagens principais - a propósito de um carreiro de formigas - "No atalho enxuto (...) / Esguio e a negrejar em um cortejo, / Destaca-se um carreiro de formigas." - que o sujeito poético tem vontade de esmagar - "As ladras da colheita! Eu se trouxesse agora / Um sublimado corrosivo, uns pós / De solimão, eu, sem maior demora, / Envenená-las-ia!". A prima tece, então, uma série de considerações, em que, implicitamente, acusa a cidade, simbolizada na figura do primo, de ser uma entidade ociosa que vive à custa do campo - "Estas mineiras negras, incansáveis, / São mais economistas, mais notáveis. / E mais trabalhadoras que o senhor."
De referir que, também neste poema, estão presentes aspectos característicos da poética de Cesário Verde:
  • a afirmação da objectividade na apreensão do real - "Não pinto a velha ermida com seu adro; / Sei só desenho de compasso e esquadro, / Respiro indústria, paz, salubridade";
  • o impressionismo descritivo - "O sol abrasa (...) / E alvejam-te, na sombra dos pinheiros, / (...) As saias curtas";
  • a sinestesia - "Na natureza trémula de sede";
  • o predomínio das sensações visuais - "(...) Os teus cabelos muito loiros / Luziam, com doçura (...)"; auditivas - "Vibravam, na campina, as chocas da manada".

Nós

Do conjunto da obra poética de Cesário Verde, este poema é o que apresenta um carácter claramente biográfico, pelas informações relativas às suas vivências pessoais e familiares:
  • a ida da família da cidade para o campo, tentando fugir à epidemia da cólera;
  • as estadas sazonais no campo, que se tornaram um hábito da família Verde;
  • a actividade agrícola do chefe da família;
  • as preocupações do pai com a saúde e bem-estar dos filhos;
  • a doença de um dos irmãos e a sua posterior morte.
O poema está organizado em três partes (I, II, III), que correspondem a três momentos da evocação do sujeito poético dos espaços cidade e campo.
Assim, na primeira parte, o sujeito poético refere o ambiente de doença que domina a cidade - "a Febre / E o Cólera também andaram na cidade" - e que teve como consequências:
  • a fuga dos habitantes da cidade - "esta população, com um terror de lebre, / Fugiu da capital como da tempestade";
  • a decisão da família Verde em mudar-se para o campo - "Ora, meu pai, depois das nossas vidas salvas / (...) Tanto nos viu crescer entre uns montões de malvas"; "Por isso, o chefe antigo e bom da nossa casa / (...) Não quis voltar senão depois das grandes chuvas";
  • o pânico e a actividade de controlo da epidemia - "E os médicos, ao pé dos padres e coveiros, / Os últimos fiéis, tremiam dos enfermos!"; "Barricas de alcatrão ardiam";
  • a morte - "Mesmo no nosso prédio, os outros inquilinos / Morreram todos";
Nesta primeira parte, a oposição cidade/campo é uma constante, pelo significado que uma e outra adquirem para o sujeito poético e sua família: a cidade perspectivada como "Um lívido flagelo e uma moléstia horrenda!" e o campo como "um salutar refúgio".

Na segunda parte, o campo é caracterizado, através da experiência pessoal do sujeito poético, como espaço de:
  • beleza natural e sadia - "Que de fruta! E que fresca e temporã / Nas duas boas quintas"; "O laranjal de folhas negrejantes";
  • fertilidade - "As ricas primeurs da nossa terra"; "Abundâncias felizes que eu recordo!"; "Pradarias de um verde ilimitado!";
e torna-se motivo de inveja dos países industrializados do norte da Europa - "Anglo-Saxónios, tendes que invejar! / Ricos suicidas comparai convosco! / (...) Oponde às regiões que dão os vinhos / Vossos montes de escórias inda quentes!"

Na terceira parte, o sujeito poético retoma o tom autobiográfico do poema e justifica o título do mesmo - "Nós".
De regresso à cidade "Tínhamos nós voltado à capital maldita" - o sujeito lírico recorda um acontecimento dramático - "nos sucedeu uma cruel desdita".
A doença e morte de um dos irmãos é então evocada de forma realista - "Uma tuberculose abria-lhe cavernas!" / (...) Não sei dum infortúnio imenso como o seu!" / "E, sem querer, aflito e atónito, morreu!"
Esta morte prematura desencadeia no sujeito poético sentimentos dolorosos e contraditórios:
  • revolta contra as injustiças;
  • vingança concretizada no seu trabalho poético - "Se ainda trabalho é como os presos no degredo, / Com planos de vingança e ideias insubmissas";
  • "desdém pela literatura";
  • desprezo pelos seus "amados versos".
in Colecção Resumos da Porto Editora

segunda-feira, 14 de novembro de 2016

Cesário Verde - A evasão do real e a pretensa objectividade


Apesar da poesia de Cesário Verde se alicerçar no real objectivo, é possível verificar que a imaginação transfiguradora interfere, frequentemente, na visão objectiva que o sujeito poético tem da realidade.
Segundo Jacinto do Prado Coelho, "artista (...) não é o que se limita a copiar o real, é o homem de imaginação privilegiada que dá um sentido às coisas e cria, a partir do concreto, uma super-realidade". É frequente encontrarmos nos poemas de Cesário Verde outras realidades que estão para além da realidade primeira, imediata, observável, e que surgem por meio da imaginação criadora e transfiguradora, possibilitando ao sujeito poético a fuga, a evasão do real.
Detectamos essa evasão do real em poemas como:
  • "Num Bairro Moderno" - a visão do cesto de vegetais da hortaliceira é transfigurada e dá lugar à visão de um corpo humano - "Há colos, ombros, boca, um semblante / Nas posições de certos frutos. (...) surge um melão que me lembrou um ventre."
  • "O Sentimento dum Ocidental" - a deambulação do sujeito poético pelos cais da cidade suscita-lhe imagens de um passado longínquo - "Luta Camões no sul, salvando um livro a nado! / Singram soberbas naus que eu não verei jamais!"
  • "Cristalizações" - a visão das "árvores despidas", realidade imediata, transforma-se em outras imagens que vão para além desse imediato - "Mastros, enxárcias, vergas!"
Constatamos na poesia de Cesário Verde um modo especial de ver a realidade, que cede lugar ao subjectivismo de um sujeito poético que sabe poetizar a realidade concreta.

in Colecção Resumos da Porto Editora

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

De tarde



Urbano Tavares Rodrigues considera o poema "De Tarde" um "exemplo de arte parnasiana, narrativa e plástica, desejosa de naturalidade e de plena consecução formal".
A primeira quadra é a introdução do poema. Nos dois primeiros versos, o determinante demonstrativo "Naquele" (em + aquele = contracção da preposição “em” com o determinante demonstrativo “aquele”) e a forma verbal no Pretérito Perfeito o Indicativo "Houve" remetem para o passado, instaurando a memória como meio de representação poética. Nesta quadra introduzem-se ainda dois motivos que percorrem o texto: a simplicidade "uma coisa simplesmente bela / E que, sem ter história nem grandezas" e o carácter plástico da cena descrita "bela", "dava uma aguarela"; a simplicidade e o prazer estético aliam-se para justificar a descrição desta experiência vivida pelo sujeito poético, como se confirmará na última estrofe.
O poema esboça uma narrativa. É possível verificar a existência de categorias próprias do discurso narrativo, tais como: espaço (campestre) - "um granzoal" (v. 7), "em cima duns penhascos" (v. 9); tempo - "De tarde" (título), "Pouco depois... /...inda o sol se via" (vv. 9-10); personagens -"burguesas" (v. 1), "tu" (v. 5), "Nós" (v. 10); acção - um "pic-nic" (v. 1), "descendo do burrico, / Foste colher... (...) / Um ramalhete rubro de papoulas" (vv. 5 a 8), "Nós acampámos (...) / E houve talhadas de ..." (vv. 9 a 12)
A utilização destes elementos narrativos permite a criação de dois quadros: 1.º quadro (2.ª estrofe) - a burguesa, que desceu do burrico, colhendo papoulas; 2.º quadro (3.ª e 4.ª estrofes) - o "pic-nic", em cima dos penhascos, destacando-se a imagem do ramalhete de papoulas saindo do decote da "burguesa".
Há sugestões pictóricas relativas a: linhas - horizontal - o "granzoal" / vertical - os "penhascos"; volumes - "o ramalhete", "talhadas de melão", "damascos", "seios"; cor - "granzoal azul", "ramalhete rubro", "talhadas de melão" / "damascos" (sugestão de tons amarelados), "todo púrpuro", "a sair da renda / Dos teus dois seios" (sugestão de branco). A descrição é feita com base em sensações, sobretudo visuais: percepção visual explícita - cores, elementos do cenário (melão, damascos), "inda o sol se via"; percepção gustativa implícita - referência aos alimentos ( "E pão-de-ló molhado em malvasia" ).
A musicalidade do poema é obtida através das rimas (cruzadas), do ritmo dos versos e do recurso à aliteração: " A um granzoal azul de grão-de-bico", "Um ramalhete rubro de papoulas", "E houve talhadas de melão, de damascos, / E pão-de-ló molhado em malvasia"

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

A Débil - Cesário Verde


A Débil

Eu, que sou feio, sólido, leal,

A ti, que és bela, frágil, assustada,
Quero estimar-te sempre, recatada
Numa existência honesta, de cristal.

Sentado à mesa dum café devasso,
Ao avistar-te, há pouco, fraca e loura,
Nesta Babel tão velha e corruptora,
Tive tenções de oferecer-te o braço.

E, quando socorreste um miserável,
Eu, que bebia cálices de absinto,
Mandei ir a garrafa, porque sinto
Que me tornas prestante, bom, saudável.

"Ela aí vem!" disse eu para os demais;
E pus-me a olhar, vexado e suspirando,
O teu corpo que pulsa, alegre e brando,
Na frescura dos linhos matinais.

Via-te pela porta envidraçada;
E invejava, — talvez que não o suspeites! -
Esse vestido simples, sem enfeites,
Nessa cintura tenra, imaculada.

Ia passando, a quatro, o patriarca.
Triste eu saí. Doía-me a cabeça.
Uma turba ruidosa, negra, espessa,
Voltava das exéquias dum monarca.

Adorável! Tu, muito natural,
Seguias a pensar no teu bordado;
Avultava, num largo arborizado,
Uma estátua de rei num pedestal.

Sorriam, nos seus trens, os titulares;
E ao claro sol, guardava-te, no entanto,
A tua boa mãe, que te ama tanto,
Que não te morrerá sem te casares!

Soberbo dia! Impunha-me respeito
A limpidez do teu semblante grego;
E uma família, um ninho de sossego,
Desejava beijar sobre o teu peito.

Com elegância e sem ostentação,
Atravessavas branca, esbelta e fina,
Uma chusma de padres de batina,
E de altos funcionários da nação.

"Mas se a atropela o povo turbulento!
Se fosse, por acaso, ali pisada!"
De repente, paraste embaraçada
Ao pé dum numeroso ajuntamento.

E eu, que urdia estes fáceis esbocetos,
Julguei ver, com a vista de poeta,
Uma pombinha tímida e quieta
Num bando ameaçador de corvos pretos.

E foi, então, que eu, homem varonil,
Quis dedicar-te a minha pobre vida,
A ti, que és ténue, dócil, recolhida,
Eu, que sou hábil, prático, viril.

Cesário Verde


Este poema põe em relevo uma figura feminina que escapa à típica mulher citadina, mas também à mulher que surge no espaço rural.
O sujeito serve-se de um conjunto de signos que contribuem para caracterizar a mulher: "bela, frágil, assustada, recatada, honesta, fraca, natural, dócil, recolhida", remetendo para o seu retrato moral. Já os vocábulos "loura, de corpo alegre e brando, cintura estreita, adorável, com elegância e sem ostentação, esbelta e fina, ténue" remetem para o seu aspecto físico.
Por outro lado, o sujeito lírico considera-se "feio, sólido, leal; sente-se prestável, bom e saudável quando a vê, ao ponto de desejar beijá-la. Afirma ainda ser "hábil, prático e viril", ou seja, com força suficiente para a socorrer quando ela precisar.
Para além da figura feminina, o sujeito poético refere ainda os espaços citadinos como o café, o largo, as ruas, caracterizando-os de forma negativa, chamando ao café "devasso"; do largo destaca o pedestal e das ruas a agitação que nelas se verifica. Nestes espaços movimentam-se figuras sórdidas, que ele caracteriza por " turba ruidosa, negra" e por " uma chusma de padres de batina". Isto significa que o local urbano em que se encontra se presta à movimentação mesquinha destes seres escuros que permitem destacar a fragilidade da jovem como a única capaz de clarear estes locais, torná-los mais brilhantes e mais atractivos ao sujeito lírico.
Com o intuito de evidenciar o contraste entre o espaço e a jovem senhora, o sujeito poético faz referência ao ajuntamento, característico dos espaços urbanos, onde a agitação e a confusão imperam. Sobressaem as diferentes classes sociais que se podiam encontrar no espaço citadino, o que permite afirmar que a cidade era palco de vários seres que nele se movimentam, uns por ociosidade, outros por obrigação, tal como seria normal numa cidade onde está a chegar a industrialização e para onde acorrem os mais pobres, na expectativa de aí encontrarem melhores condições de vida.
A luminosidade deste dia só é posta em evidência quando a figura feminina surge nos locais onde anteriormente se moviam figuras conotadas com os aspectos negativos da cidade. Só a visão desta mulher frágil e pura lhe possibilita uma visão mais positiva da realidade, estando aqui realçados o tempo e o espaço psicológicos, ou seja, aqueles que se resultam do estado de espírito do sujeito poético e da sua construção.
O sujeito lírico revela o receio de perder a mulher admirada, porque, "os corvos" a poderiam arrancar daquele local, a ela que não passava de uma "pombinha tímida e quieta". Por isso, o sujeito poético mostra-se capaz de a salvar, mesmo que seja a custo da sua própria vida, mostrando-se protector da fragilidade e capaz de tudo para poder conservar aquela figura que o fazia recordar a simplicidade do campo e das mulheres que o povoam.
Apesar da oposição que Cesário Verde costuma estabelecer entre a mulher do campo e a mulher da cidade, a figura feminina que aqui é retratada é uma espécie de mistura, uma vez que o retrato que dela traça está associado à mulher campesina, mas o espaço em que se movimenta é-lhe estranho e, por, isso, esta sente-se perdida, a necessitar da protecção masculina. Trata-se de uma mulher do campo que se sente desnorteada num espaço que não está adequado à sua fragilidade.
Cesário Verde serve-se de um conjunto de processos que, também neste poema, podem ser percepcionados. É o caso do vocabulário preciso e exacto e as imagens carregadas de visualismo que dão uma visão perfeita das realidades visionadas. Além disso, percebe-se a objectividade que imprime ao conteúdo, afastando-se, deste modo, do lirismo romântico. Para retratar fielmente a realidade ou as figuras com que depara, o autor emprega a adjectivação e as frases preposicionais de valor adverbial. Acresce ainda referir o uso das quadras e dos versos decassilábicos que permitem uma maior aproximação à prosa.
Concluindo, este é um texto cheio de referências à realidade social, onde se percepciona a crítica e a ironia de que Cesário Verde se serve e que reflectem o seu carácter subjectivo.

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Arrojos - Cesário Verde


Arrojos


Se a minha amada um longo olhar me desse
Dos seus olhos que ferem como espadas,
Eu domaria o mar que se enfurece
E escalaria as nuvens rendilhadas.


Se ela deixasse, extáctico e suspenso
Tomar-lhe as mãos "mignonnes" e aquecê-las,
Eu com um sopro enorme, um sopro imenso
Apagaria o lume das estrelas.


Se aquela que amo mais que a luz do dia,
Me aniquilasse os males taciturnos,
O brilho dos meus olhos venceria
O clarão dos relâmpagos nocturnos.


Se ela quisesse amar, no azul do espaço,
Casando as suas penas com as minhas,
Eu desfaria o Sol como desfaço
As bolas de sabão das criancinhas.


Se a Laura dos meus loucos desvarios
Fosse menos soberba e menos fria,
Eu pararia o curso aos grandes rios
E a terra sob os pés abalaria.


Se aquela por quem já não tenho risos
Me concedesse apenas dois abraços,
Eu subiria aos róseos paraísos
E a Lua afogaria nos meus braços.


Se ela ouvisse os meus cantos moribundos
E os lamentos das cítaras estranhas,
Eu ergueria os vales mais profundos
E abateria as sólidas montanhas.


E se aquela visão da fantasia
Me estreitasse ao peito alvo como arminho,
Eu nunca, nunca mais me sentaria
Às mesas espelhentas do Martinho.

Cesário Verde

Mignonnes - delicadas, graciosas, pequenas
Laura - a mulher celebrada por Petrarca, apresentada como amada inacessível.
Martinho - café lisboeta, frequentada por muitos intelectuais.


"Arrojos" foi publicado em conjunto com dois outros poemas sob o antetítulo comum "Fantasias do Impossível".
Os dois primeiros versos de cada uma das quadras do poema constituem a apresentação de uma fantasia de uma paixão feliz, paixão que nunca se tornará realidade (o carácter hipotético dessa paixão é realçado pelo emprego das orações condicionais). O antetítulo "Fantasias do impossível" remete precisamente para a impossibilidade de concretização dessa paixão.

A figura feminina apresenta os seguintes traços caracterizadores:
- olhar cortante (glacial): "olhos que ferem como espadas" (v. 2);
- mãos pequenas e graciosas: "mãos mignonnes" (v.6);
- amada inacessível : "a Laura" (v. 17);
- influência perversa sobre o sujeito poético: "a Laura dos meus loucos desvarios" (v. 17);
- arrogância e vaidade: "soberba" (v. 18);
- insensibilidade e indiferença: "fria" (v. 18);
- distância e irrealidade: "aquela visão da fantasia" (v. 29);
- pele muito branca (e macia): "peito alvo como arminho" (v. 30).

A hipérbole presente nos versos: "Eu com um sopro enorme, um sopro imenso / Apagaria o lume das estrelas." (vv. 7-8) sublinha a intensidade da paixão (tão grande que "Apagaria o lume das estrelas"), bem como representa a força da paixão feliz capaz de conferir poderes sobre-humanos, que permitiriam ao sujeito poético dominar as forças da natureza.

Os dois últimos versos revelam a amarga ironia do sujeito poético, uma vez que, tendo consciência de que esta paixão é impossível de realizar, o sujeito lírico afirma que estaria disposto a abandonar o seu hábito quotidiano de ir ao café, se o seu amor fosse correspondido. A ironia também nasce de algo paradoxal: comparar uma grande paixão com uma circunstância do quotidiano, o ir ao café.

Há uma relação de claro desequilíbrio entre o sujeito poético e a amada. Enquanto o sujeito lírico a ama e idolatra, está disposto a por ela conquistar o mar, as estrelas, os relâmpagos, o azul do céu, o sol, os rios, a domar a terra e as montanhas e a erguer os vales, a amada assume uma atitude fria, distante e inacessível. A paixão correspondida existe apenas na imaginação do sujeito poético.

sábado, 17 de setembro de 2011

De Verão - Cesário Verde


DE VERÃO

I
No campo; eu acho nele a musa que me anima:
A claridade, a robustez, a acção.
Esta manhã, saí com minha prima,
Em quem eu noto a mais sincera estima
E a mais completa e séria educação.

II
Criança encantadora! Eu mal esboço o quadro
Da lírica excursão, de intimidade.
Não pinto a velha ermida com seu adro;
Sei só desenho de compasso e esquadro,
Respiro indústria, paz, salubridade.

III
Andam cantando aos bois; vamos cortando as leiras;
E tu dizias: «Fumas? E as fagulhas?
Apaga o teu cachimbo junto às eiras;
Colhe-me uns brincos rubros nas ginjeiras!
Quanto me alegra a calma das debulhas!

IV
E perguntavas sobre os últimos inventos
Agrícolas. Que aldeias tão lavadas!
Bons ares! Boa luz! Bons alimentos!
Olha: Os saloios vivos, corpulentos,
Como nos fazem grandes barretadas!

V
Voltemos! No ribeiro abundam as ramagens
Dos olivais escuros. Onde irás?
Regressam os rebanhos das pastagens;
Ondeiam milhos, nuvens e miragens,
E, silencioso, eu fico para trás.

VI
Numa colina brilha um lugar caiado.
Belo! E, arrimada ao cabo da sombrinha,
Com teu chapéu de palha, desabado,
Tu continuas na azinhaga; ao lado,
Verdeja, vicejante, a nossa vinha.

VII
Nisto, parando, como alguém que se analisa,
Sem desprender do chão teus olhos castos,
Tu começaste, harmónica, indecisa,
A arregaçar a chita, alegre e lisa,
Da tua cauda um poucochinho a rastos.

VIII
Espreitam-te, por cima, as frestas dos celeiros;
O sol abrasa as terras já ceifadas,
E alvejam-te, na sombra dos pinheiros,
Sobre os teus pés decentes, verdadeiros,
As saias curtas, frescas, engomadas.

IX
E, como quem saltasse, extravagantemente,
Um rego de água, sem se enxovalhar,
Tu, a austera, a gentil, a inteligente,
Depois de bem composta, deste à frente
Uma pernada cómica, vulgar!

X
Exótica! E cheguei-me ao pé de ti. Que vejo!
No atalho enxuto, e branco das espigas,
Caídas das carradas no salmejo.
Esguio e a negrejar em um cortejo,
Destaca-se um carreiro de formigas.

XI
Elas, em sociedade, espertas, diligentes.
Na natureza trémula de sede,
Arrastam bichos, uvas e sementes
E atulham, por instinto, previdentes,
Seus antros quase ocultos na parede.

XII
E eu desatei a rir como qualquer macaco!
«Tu não as esmagares contra o solo!»
E ria-me, eu ocioso, inútil, fraco,
Eu de jasmim na casa do casaco
E de óculo deitado a tiracolo!

(...)
Cesário Verde

Este poema relata um passeio do sujeito poético pelo campo, acompanhado de uma prima ("lírica excursão, de intimidade"), no qual se inclui o episódio das formigas trabalhadoras.

As personagens intervenientes são o sujeito lírico e a prima. O sujeito poético é claramente um homem citadino (usa um traje inadequado ao campo): "Eu de jasmim na casa do casaco / E de óculo deitado a tiracolo", apresentando-se, assim, como o perfeito "dândi" num passeio rural, que fuma cachimbo e vê o campo como um passatempo, mas também como fonte de inspiração ("No campo; eu acho nele a musa que me anima"); considera-se, ainda, "ocioso, inútil, fraco", em comparação com as formigas que "Arrastam bichos, uvas e sementes; / E atulham, por instinto, previdentes, / Seus antros quase ocultos na parede"; por último, revela, talvez, pouca sensibilidade, ao rir do cuidado da prima para não pisar as formigas. Enfim, trata-se de um proprietário rural de visita à quinta, a quem os trabalhadores "fazem grandes barretadas!", em sinal de respeito, e que observa a sua vinda com orgulho: "Verdeja, vicejante, a nossa vinha".
A prima é "Criança encantadora", meiga e educada ("Em quem eu noto a mais sincera estima / E a mais completa e séria educação"); é cuidadosa, dizendo ao primo "Apaga o teu cachimbo junto às eiras", brincalhona e vaidosa ("Colhe-me uns brincos rubros nas ginjeiras!"), querendo enfeitar-se, como qualquer criança, com as ginjas; adora a natureza, aprecia o ritmo dos trabalhos do campo ("Quanto me alegra a calma das debulhas!") e respeita a natureza no seu todo, desviando-se das formigas para não as pisar ("Tu não as esmagares contra o solo!"). Usa "um chapéu de palha, desabado" e apoia-se no cabo de uma sombrinha.

O espaço físico, o campo, é caracterizado, ao longo do poema, como "a musa", detentor de "paz, salubridade", um espaço repleto de "claridade", "robustez", "acção", desenhado através das leiras e das eiras e onde os saloios cantam aos bois. É o espaço da "calma das debulhas", das "aldeias tão lavadas", dos "Bons ares! Boa luz! Bons alimentos!", dos "saloios vivos, corpulentos", das "ramagens / Dos olivais escuros", dos rebanhos que regressam das pastagens, dos "milhos, nuvens e miragens", dos lugares calmos e das vinhas verdes e vicejantes.
O sentido associado a este espaço, ao campo, é claramente positivo. O campo é o espaço da claridade, um lugar solar, saudável, robusto, cheio de força e de viço. Este é, assim, visto como um espaço edénico, uma espécie de paraíso, pleno de vida e transmitindo felicidade.

Na estrofe 5, encontram-se várias aliterações: no 1.º verso, em "Na ribeira abundam as ramagens" e no 3.º e 4.º versos em "Regressam os rebanhos das pastagens; / Ondeiam milhos, nuvens e miragens" do som nasal (n e m e do som r); há ainda uma interrogação retórica ("Onde irás") e uma imagem do movimento dos campos de milho e das nuvens no céu, fustigados pelo vento, sugerida pela forma verbal em "Ondeiam milhos, nuvens e miragens". O conjunto destes recursos expressivos confere a esta estrofe um visualismo e um movimento que a transformam numa espécie de quadro/fotografia do espaço referido.
Na estrofe 6, em "Numa colina azul brilha um lugar caiado", é de notar a presença de uma metáfora, na associação da brancura do lugar com o brilho da "colina azul"; em "Belo!", de uma frase exclamativa que culmina a descrição das belezas do campo; do diminutivo, com toda a conotação de ternura, na alusão à "sombrinha" da prima; e, por último, em "Verdeja, vicejante, a nossa vinha", a aliteração do (v).

O episódio das formigas pode ser visto como uma espécie de alegoria: as formigas "em sociedade, espertas, diligentes" são uma metáfora do trabalho, da dedicação em prol da comunidade e também do campo, enquanto que o sujeito poético "ocioso, inútil, fraco / (...) de jasmim na casa do casaco / E de óculo deitado a tiracolo!" poderá ser entendido como a metáfora de cigarra, que canta no Verão e no Inverno, quer viver à custa dos outros, chegando, por vezes, a sucumbir... O sujeito poético, pelas características que apresenta, pode também ser o símbolo da cidade.

O carácter visualista e o predomínio das impressões visuais estão bem patentes ao longo de todo o poema, pois no decurso da "lírica excursão", o sujeito poético revela-se sensível às belezas do campo, que enaltece na sua descrição: "Que aldeias tão lavadas!" (de notar o emprego do advérbio de intensidade "tão", reforçando a limpeza das aldeias); "Bons ares! Boa luz! Bons alimentos!" (note-se a repetição do adjectivo); "Olha: os saloios vivos, corpulentos" (apelo ao destinatário para que veja mesmo). Os segmentos textuais "Na ribeira abundam as ramagens / Dos olivais escuros", "Regressam os rebanhos das pastagens", "Ondeiam milhos, nuvens e miragens", "Numa colina azul brilha um lugar caiado", "Verdeja, vicejante a nossa vinha", "No atalho enxuto, e branco das espigas (...) / Esguio e a negrejar em um cortejo, / Destaca-se um carreiro de formigas.", "Arrastam bichos, uvas e sementes; / E atulham, por instinto, previdentes, / Seus antros quase ocultos na parede." constituem uma sucessão de imagens visuais. Finalmente, o sujeito poético fica silencioso - "E, silencioso, eu fico para trás" - provavelmente para registar, guardar bem no seu íntimo, todas as impressões visuais, todas as imagens daquele paraíso e, para isso, precisa de silêncio, de recolhimento.


quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Ao Gás - Cesário Verde


AO GÁS

E saio. A noite pesa, esmaga.
Nos
Passeios de lajedo arrastam-se as impuras.
Ó moles hospitais! Sai das embocaduras

Um sopro que arrepia os ombros quase nus.


Cercam-me as lojas, tépidas. Eu penso

Ver círios laterais, ver filas de capelas,

Com santos e fiéis, andores, ramos, velas,

Em uma catedral de um comprimento imenso.

As burguesinhas do Catolicismo

Resvalam pelo chão minado pelos canos;

E lembram-me, ao chorar doente dos pianos,
As freiras que os jejuns matavam de histerismo.

Num cutileiro, de avental, ao torno,

Um forjador maneja um malho, rubramente;

E de uma padaria exala-se, inda quente,

Um cheiro salutar e honesto a pão no forno.


E eu que medito um livro que exacerbe,

Quisera que o real e a análise mo dessem;
Casas de confecções e modas resplandecem;

Pelas vitrines olha um ratoneiro imberbe.


Longas descidas! Não poder pintar

Com versos magistrais, salubres e sinceros,

A esguia difusão dos vossos reverberos,

E a vossa palidez romântica e lunar!


Que grande cobra, a lúbrica pessoa,
Que espartilhada escolhe uns xales com debuxo!

Sua excelência atrai, magnética, entre luxo,

Que ao longo dos balcões de mogno se amontoa.

E aquela velha, de bandós! Por vezes,
A sua traîne imita um leque antigo, aberto,
Nas barras verticais, a duas tintas. Perto,
Escarvam, à vitória, os seus mecklemburgueses.


Desdobram-se tecidos estrangeiros;

Plantas ornamentais secam nos mostradores;

Flocos de pós-de-arroz pairam sufocadores,

E em nuvens de cetins requebram-se os caixeiros.


Mas tudo cansa! Apagam-se nas frentes
Os candelabros, como estrelas, pouco a pouco;

Da solidão regouga um cauteleiro rouco;

Tornam-se mausoléus as armações fulgentes.


"Dó da miséria!... Compaixão de mim!..."
E, nas esquinas, calvo, eterno, sem repouso,
Pede-me sempre esmola um homenzinho idoso,

Meu velho professor nas aulas de Latim!


Cesário Verde

Este poema desenvolve-se acompanhando o deambular do sujeito poético pelas ruas da cidade - "Passeios de lajedo", "as embocaduras", "Cercam-me as lojas" - num determinado período do dia, a noite - "A noite pesa, esmaga".

Ao longo do poema há referências a determinados tipos sociais: as impuras, as burguesinhas, a mulher "magnética" ("a lúbrica pessoa") e a velha de bandós constituem o leque feminino de personagens; a par, surgem outras figuras como o forjador, o "ratoneiro imberbe", os caixeiros, o cauteleiro e o "velho professor" de latim, agora um pobre pedinte.

Das várias figuras femininas referidas neste poema, a mulher "magnética" é talvez a que permite estabelecer mais aproximações e mais pontos de afastamento com outras figuras femininas da imagética cesariana. Assim, pela sua sensualidades, mas ao mesmo tempo pelo seu estudado distanciamento, ela aproxima-se da milady de Deslumbramentos; a sua futilidade coloca-a no pólo oposto ao das mulheres do povo tão frequentes em Cesário Verde: a hortaliceira de Num Bairro Moderno, as peixeiras de Cristalizações, a engomadeira de Contrariedades.

Este excerto constitui uma espécie de súmula de alguns dos temas fulcrais da poesia de Cesário Verde. Assim, para além da variedade de figuras femininas presentes, as outras "personagens" ora são um meio de o poeta expressar a sua solidariedade pelos excluídos (o velho professor de latim), ora um meio de concretizar a pintura da cidade, que aqui aparece, como é constante nos poemas de Cesário, como símbolo de dor, sofrimento, solidão, até de vencidismo - "Mas tudo cansa!". Por oposição, surge, implicitamente, uma ténue alusão ao campo, modelo de saúde, vida, força - "Um cheiro salutar e honesto a pão no forno". Finalmente, dever-se-á ainda referir a fuga imaginativa presente na segunda estrofe ("Eu penso / Ver círios laterais, ver filas de capelas...") e na décima estrofe ("Tornam-se mausoléus as armações fulgentes").

Todo o poema e toda a descrição da cidade assentam numa sucessão de sensações, desde as tácteis ("Um sopro que arrepia os ombros quase nus"), as auditivas ("...ao chorar doente dos piao"; "Da solidão regouga um cauteleiro rouco"; "Pede-me sempre esmola"), as olfactivas ("exala-se, inda quente / Um cheiro salutar e honesto a pão no forno"; "Flocos de pós-de-arroz pairam sufocadores") ao claro predomínio das visuais ("E a vossa palidez romântica e lunar!").

Alguns críticos literários consideram O Sentimento dum Ocidental uma espécie de epopeia de sinal negativo. Uma epopeia é um texto que enaltece um herói ou uma realidade. Ao longo deste poema, há uma personagem principal enaltecida: a cidade; o poeta, porém, canta-a não como convencional heroína épica, mas num tom de desencanto, de melancolia, de evidente vencidismo. Assim sendo, é lógico que este texto de Cesário Verde possa ser considerado uma epopeia, pois todo ele se estrutura em torno dessa realidade (a cidade), mas esse canto acaba por ser negativa, porque o tom que dele se desprende é de clara melancolia.