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terça-feira, 15 de janeiro de 2019

Histórias de gigantes


Naquele tempo, o meu pai contava-me muitas histórias de gigantes. Eu não queria adormecer sozinho, de maneira que ele sentava-se na minha cama e entretinha-me, enquanto não chegava o João Pestana. A verdade é que o meu pai não sabia as histórias de cor e ia inven-tando, à medida que ia contando. Algumas histórias, que começavam sempre com «Era uma vez um gigante», desconfio que ele as inventou de uma ponta à outra.
Mas a partir do momento em que a história era contada eu não admitia variantes. Queria ali todos os pormenores. Acho que todos os miúdos têm esta atenta memória que contradiz e mete na ordem os adultos contadores, quando são distraídos.
Pois naquela altura saltitava lá por casa um coelhito malhado. Não era um desses coelhos anões, cinzentos e cheios de peneiras, armados em fidalgos, que se vendem agora nos centros comerciais. Não. Era um robusto coelho do campo, muito curioso, de narizito sempre a farejar, grande apreciador de cenouras.
Houve alguém que nos ofereceu aquele coelho, no pressuposto de que o destinaríamos à panela, com batatas e ervas cheirosas. Mas naquela nossa casa não havia ninguém capaz de sacrificar um animal, para mais simpático e dado ao convívio.
De início, ficou numa marquise. Todas as manhãs, quando se abria a porta da marquise vinha cumprimentar-nos, farejando-nos os pés e empinando-se a olhar para nós. Não tardou que circulasse por toda a casa e me fizesse companhia naquelas brincadeiras que demoravam o dia inteiro.
Era um coelho extremamente asseado. Tinha lá o seu sítio de recolhimento e fez questão de nunca deixar noutro lado aquelas bolinhas pretas e redondinhas que os coelhos costumam distribuir.
E bom companheiro que ele era. Tinha imenso jeito para andar nos carrinhos, ajudava a descarrilar o comboio de brinquedo, e admirava, com sinceridade, as maravilhosas obras de engenharia que eu construía com o meu «Meccano».
Eu já deixara de invejar os outros miúdos que tinham cães e gatos nos quintais. Nenhum se comparava ao meu coelho, nem sabia brincar com tanta classe.
Os homens são ingratos. Quando crescem, ainda mais. Imaginem que eu me esqueci completamente do nome do meu coelhinho. Certo é que ele acudia aos chamamentos e vinha de onde estivesse, saltitão, com o tufo peludo do rabito no ar. Eu podia agora improvisar um nome e fazer de conta que o bicho se chamava, por exemplo, «Pinóquio» ou «Lanzudo». Mas não quero inventar nada. Quero contar tudo como era. Esqueci-me do nome, passou-me, pronto!
Mas... um dia comecei a ouvir os adultos a segredar, lá em casa. Desconfiei logo que se tratava do meu coelho, e era mesmo. Um amigo, possuidor duma quinta, tinha-se oferecido para instalar o bicho no campo e os meus pais - com aquele irritante bom senso que compete aos mais crescidos - haviam considerado a proposta interessante. Sempre era melhor para o animal andar em liberdade, ao ar livre, entre arvoredos, na companhia dos seus iguais e das aves de capoeira... E quando eu protestava, com muita força, limitavam-se a abraçar-me e sorrir.
E lá levaram o coelhinho, aproveitando uma distracção minha. O que eu barafustei! Foi um tremendo desgosto. Ao deitar, não quis ouvir histórias de gigantes. Durante toda a noite chorei e exigi a devolução do meu companheiro. Em vão.
Espero que ele tenha sido feliz lá na tal quinta. Ainda hoje, quando vejo um orelhudo malhado a saltitar, pataludo, com os olhos vivos e o nariz sempre em acção, consolo-me sempre com a ideia de que pode ser um dos descendentes daquele saudoso coelhinho da minha infância. E quando contar aos meus netos histórias de gigantes, talvez introduza nos contos as peripécias de um herói orelhudo.




Mário de Carvalho, in Memórias da Infância. 
Boletim Cultural da Fundação Calouste Gulbenkian, VIII série, n.° l, Dezembro de 1994


A. Responde com V (verdadeiro), F (falso) às seguintes afirmações:

1. O pai do narrador contava-lhe todas as noites histórias de gigantes.
2. O narrador exigia que as histórias fossem sempre contadas com a mesma exactidão, o mesmo rigor e os mesmos pormenores.
3. O coelho que vivia em casa do narrador era pequeno, cinzento e arrogante.
4. O coelho foi oferecido à família para fazer companhia à criança.
5. O lugar reservado ao coelho situava-se perto da cozinha.
6. O coelho fazia as suas necessidades no quintal.
7. O narrador lembra-se de brincar com o coelho e com o comboio eléctrico.
8. Os amigos do narrador também tinham animais de estimação.
9. Hoje, o narrador lembra-se de que bastava chamar um nome qualquer para que o coelho aparecesse logo.
10. Um dia, um amigo da família ofereceu-se para dar ao coelho a companhia de outros coelhos.
11. O narrador desconfiou, desde o início, do tipo de destino que estava reservado ao seu animal de estimação.
12. Os adultos levaram o coelho com a concordância do narrador.
13. Na noite em que o coelho partiu, o pai do narrador contou-lhe mais uma vez uma histó-ria de gigantes.
14. Sempre que o narrador vê um coelho, pensa no companheiro coelho da sua infância.
15. Traumatizado com o acontecimento que relata, o narrador decidiu deixar de ouvir e de contar histórias.

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

A Descrição

Rio Tejo - Lisboa





Guião para produção de textos descritivos


Descrever é um processo no qual se empregam os sentidos para captar uma realidade e transportá-la para o texto. Descrever é, assim, pintar com palavras, mostrar aos leitores ou ouvintes, através de palavras, como é uma pessoa, um ambiente, um objecto ou, até mesmo, um sentimento ou emoção.

Aquando da produção de um texto descritivo, seja enquanto sequência que compõe um outro tipo de texto seja enquanto dominante textual, propõe-se a adopção da seguinte metodologia de trabalho:



Fase A

1. Definição do tema-título que vai ser descrito (normalmente associado a espaços, paisagens, períodos temporais, retratos, imagens, produtos resultantes de uma sucessão de acções, comparações).

2. Adopção de uma perspectiva ou ponto de vista face à descrição a fazer: subjectiva (reflectindo o ponto de vista do emissor)/objectiva (transmitindo informação factualmente comprovável).

3. Observação - sem observação não há descrição; é preciso confrontar a realidade a descrever com a que se encontra no papel. A observação implica os cinco sentidos (vista, ouvido, olfacto, gosto e tacto). Observados os pormenores, seleccionam-se aqueles que melhor caracterizam a realidade a descrever.

4. Esquematização do plano da descrição pela:


a) enumeração das partes constitutivas do tema-título;

b) associação de características/propriedades a cada uma dessas partes;

c) definição de campos de descrição/observação: sectores (direita, esquerda, superior, inferior…); planos (primeiro, segundo…, de fundo);

d) construção de relações adequadas à expansão descritiva (comparações, metáforas, metonímias, relações de palavras, estruturas modificadores);

e) escolha do ponto e da ordenação da descrição/observação (estático/ dinâmico; geral/de pormenor).



Fase B

1. Elaboração de um primeiro registo escrito que dê conta:

a) de uma ordenação no processo de descrição;

b) de uma impressão de conjunto da realidade a descrever;

c) da descrição pormenorizada das partes e das características mais individualizadoras (formas, matéria, cheiro, sons, cor, brilho, etc.), tendo em atenção o recurso a:

- estruturas nominais;

- estruturas adjectivas ou outras equivalentes na função de expansão e modificação da entidade a ser descrita;

- processos estilísticos sugestivos para a descrição (recurso a comparações, metáforas, adjectivação, sinestesias…);

d) de uma conclusão que utiliza outros dados considerados relevantes ou que corresponde a uma apreciação final de conjunto face à entidade descrita;

e) da natureza factual da entidade descrita (predominando o tempo verbal do presente) ou da dimensão ficcional dessa entidade (predominando o pretérito imperfeito).



Fase C


Revisão do texto, atentando:

a) na organização esquematizada (ordenação da descrição, segmentação por parágrafos);

b) na correcção linguística do texto.



Alguns conselhos práticos


1. Não é aconselhável apresentar todos os pormenores acumulados num único período.

Deve-se, ao contrário, apresentá-los ao leitor pouco a pouco, verificando as partes focalizadas, associando-as ou interligando-as.

2. Na descrição de uma pessoa, por exemplo, podemos começar uma visão geral e depois, aproximando-se dela, passar aos pormenores: os olhos, o nariz, a boca, o sorriso, o que esse sorriso revela (inquietação, ironia, desprezo, desespero...), etc.

3. Na descrição de objectos, é importante que, além da imagem visual (cores, formas…), sejam transmitidas ao leitor outras referências sensoriais, como as tácteis (o objecto é liso ou áspero?), as auditivas (o som emitido pelo objecto), as olfactivas.

4. A descrição de paisagens ou de ambientes também não deve limitar-se a uma visão geral. É preciso ressaltar os pormenores, o que não depende apenas da visão. Certamente, numa paisagem ou num ambiente haverá ruídos, sensações térmicas, cheiros, que deverão ser transmitidos ao leitor, evitando que a descrição se transforme numa fotografia fria e pouco expressiva. Também poderão integrar a cena pessoas, vultos, animais ou objectos, que lhe dão vida. É, portanto, fundamental destacar esses elementos.



Guião de verificação


Produzido o texto descritivo, poderás avaliar o percurso realizado em função dos pressupostos anteriormente expostos, podendo detectar, com a ajuda do guião de verificação, as áreas a que terá de prestar mais atenção, caso verifique alguma fragilidade na consecução das orientações dadas.



Guião de verificação na produção de um TEXTO DESCRITIVO


Antes de redigir o texto


• Defini o tema-título

• Optei por uma perspectiva objectiva/subjectiva face à descrição

• Fiz um esquema/plano orientador da descrição, de modo a contemplar

a) a enumeração das partes constitutivas do tema-título

b) a indicação das características/propriedades dessas partes

c) a ordenação da observação

- do geral para o pormenor

- por sectores de lateralidade

- por sectores de verticalidade

• Propus formas de construir o tema-título, e respectivas partes, de acordo com estruturas de expansão descritiva



Ao redigi-lo


• Apoiei-me na ordenação do plano/esquema traçado

• Assumi a natureza da entidade descrita, optando

a) pela dimensão factual da entidades descrita (Presente)

b) pela dimensão ficcional dessa entidade (Pretérito Imperfeito)

• Fui coerente na perspectiva subjectiva/objectiva adoptada

• Utilizei marcas identificadoras do texto descritivo, nomeadamente:

a) estruturas nominais não repetitivas

b) estruturas adjectivais ou equivalentes

• Parti de uma impressão de conjunto

• Desenvolvi a descrição na lógica ordenada dos pormenores considerados

• Produzi o desenvolvimento

a) em função de uma perspectiva descritiva (estática/móvel)

b) ordenando segundo uma lógica vertical, horizontal, ou de planos

c) tendo em conta formas, cores, dimensões

d) explorando características sensoriais

e) utilizando recursos estilísticos adequados

• Fechei a descrição com uma conclusão



No final da produção escrita


• Verifiquei a disposição lógica e ordenada do texto

• Atentei na correcção linguística a nível

a) da ortografia

b) da pontuação

c) da acentuação

d) da sintaxe

e) da selecção vocabular



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A Mena na cozinha

Maçã assada com mel e canela

maçãs (reineta, golden...)
mel
sumo de limão
canela em pó

Descasque e lamine as maçãs. Coloque-as num pirex às camadas, salpicando cada camada com sumo de limão, canela e um fio de mel.

Leve 5 minutos ao microondas. Retire, mexa e leve mais 5 minutos ao microondas.

Coma assim ou recheie crepes, enfeitando com canela e mel.
Delicie-se!

Aqui fica, então, a minha resposta ao desafio da Mary!


Trabalhinho:

T-shirt


Miminho

A Sónia deixou-me este selinho! Obrigada, amiga!
Aqui fica para quem o quiser levar.