Bem-Vindos a este espaço! Aqui encontrarão retalhos da vida de uma mulher... Retalhos, porque a minha vida é isso mesmo... é composta por mil pedacinhos que se vão tecendo e juntando para construir uma teia, umas vezes mais colorida... outras mais sombria... Mas no fim, tudo se conjuga harmoniosamente...
Mostrar mensagens com a etiqueta Eça de Queirós. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Eça de Queirós. Mostrar todas as mensagens
segunda-feira, 15 de abril de 2013
quarta-feira, 4 de julho de 2012
Ora, Eça!...
"Nós estamos num estado comparável apenas à
Grécia: a mesma pobreza, a mesma indignidade
política, a mesma trapalhada económica, a
mesmo baixeza de carácter, a mesma decadência
de espírito. Nos livros estrangeiros, nas revistas
quando se fala num país caótico e que pela sua
decadência progressiva, poderá vir a ser riscado
do mapa da Europa, citam-se em paralelo, a
Grécia e Portugal"
(in As Farpas) - 1872
“Em Portugal não há ciência de governar nem há ciência de
organizar oposição. Falta igualmente a aptidão, e o
engenho, e o bom senso, e a moralidade, nestes dois factos
que constituem o movimento político das nações.
A ciência de governar é neste país uma habilidade, uma
rotina de acaso, diversamente influenciada pela paixão, pela inveja, pela intriga, pela vaidade, pela frivolidade e pelo interesse.
|
“Que fazer? Que esperar? Portugal tem
atravessado crises igualmente más: - mas
nelas nunca nos faltaram nem homens de
valor e carácter, nem dinheiro ou crédito.
Hoje crédito não temos, dinheiro também
não - pelo menos o Estado não tem: - e homens não os há, ou os raros que há são postos na sombra pela política. De sorte que esta crise me parece a pior - e sem cura.”
Eça de Queirós, in “Correspondência” (1891)
|
“Diz-se geralmente que, em Portugal, o público
tem ideia de que o Governo deve fazer tudo,
pensar em tudo, iniciar tudo: tira-se daqui a
conclusão que somos um povo sem poderes
iniciadores, bons para ser tutelados, indignos de uma larga liberdade, e inaptos para a independência.
| ||
domingo, 17 de junho de 2012
O Tesouro - Eça de Queirós
Simbologia
Número 3 – três irmãos, três chaves, três fechaduras, três alforges, três empadões de carne, três garrafas de vinho, três maravedis– símbolo da totalidade, da perfeição, da família.
Água – símbolo da pureza, purificação, vida…
Inverno e noite, corvos – morte
Primavera – renascimento, vida
Ouro – perfeição e beleza
Ao lermos este conto sobressai de imediato a
referência insistente ao número três, de todos os números aquele que carrega
maior carga simbólica.
São, então, três irmãos - o três é o símbolo da família — pai, mãe,
filho(s). Mas aqui encontramos uma família incompleta, imperfeita — nem pai,
nem mãe, apenas três irmãos. Não há, no conto, qualquer alusão aos progenitores
dos fidalgos de Medranhos, como se eles nunca tivessem existido. Essa ausência
é, de certo modo, o símbolo da sua falta na educação dos três irmãos. Sem a
presença modeladora dos pais (ou de alguém que os substituísse), Rui, Guanes e
Rostabal dificilmente poderiam desenvolver sentimentos humanos: vivem como
"lobos", porque cresceram como lobos.
Os três irmãos não conseguiram
constituir uma família verdadeira, apesar dos laços de sangue e de viverem
juntos, não formam uma família, porque são incapazes de sentir o amor.
O tesouro está guardado num cofre .
Um cofre protege, preserva, permite que o seu conteúdo permaneça intocado ao
longo do tempo. A sua utilização é significativa do caráter precioso do
conteúdo. Igualmente significativo é o facto de o cofre ser de ferro, material
resistente, simultaneamente, à força e à corrupção. Três fechaduras — novamente
o número "três" — preservam o conteúdo do cofre (Da curiosidade? Da
cobiça? Da apropriação indevida?...), mas três chaves permitem abri-lo sem
dificuldade. De notar que nenhuma delas, só por si, abre o cofre, mas as três
em conjunto. O simbolismo aqui é evidente. Só a cooperação dos três proprietários
permite aceder ao tesouro. É pela solidariedade, pela cooperação, pela
convergência de interesses e esforços que é possível alcançar o
"tesouro" por todos almejado. Foi apenas porque, momentaneamente, os
três cooperaram, que lhes foi permitido contemplar o "tesouro". Mas, como
não souberam manter esse espírito de cooperação, não lhes foi permitido possuir
o "tesouro". E quando Rui expõe a estratégia a seguir, o número
"três" volta a aparecer insistentemente (...três alforges de
couro, três maquias de cevada, três empadões de carne e três botelhas de vinho.),
como que a sublinhar o irredutível individualismo que os conduzirá à tragédia. Por
outro lado, o ouro, material precioso e incorruptível, é ele próprio símbolo de
perfeição. Obviamente, para além do seu valor material, simboliza a salvação, a
elevação a uma forma superior de vida, mais espiritual, menos animal. É esse o
verdadeiro bem, o verdadeiro tesouro. Os fidalgos de Medranhos vivem
mergulhados na decadência material e na degradação moral. Não se lhes conhece
uma actividade útil, um sentimento mais elevado, um afetco. Vivem com os
animais e como animais. Mas para eles, como para todo o ser humano, há uma
possibilidade de redenção. O "tesouro" está ali, à sua frente, é
possível alcançá-lo; mas, para isso, é necessário enfrentar dificuldades,
largar a cobiça, vencer o egoísmo, criar laços de solidariedade e verdadeira
fraternidade. Frequentemente, na narrativa, a tragédia é anunciada
antecipadamente por indícios, que as personagens ignoram, mas não passam
despercebidos ao leitor atento. É o caso da cantiga que Guanes entoa ao
dirigir- se à vila e continua a cantarolar quando regressa: Olé! Olé! Sale
la cruz de la iglesia, Vestida de negro luto... A "cruz" e o
"negro luto" são referências claras à morte que Guanes planeia para
os irmãos. Mas ironicamente prenuncia também a sua própria morte. Nenhuma das
três personagens é capaz de reconhecer esse sinal. Outro indício trágico são as
duas garrafas que Guanes trouxe de Retortilho. Rui estranha o facto, mas não
suspeita da traição. Se as personagens fossem capazes de interpretar esses
indícios, poderiam fugir ao destino. Mas são incapazes disso e é desse lento
aproximar do desenlace e da incapacidade das personagens para o evitar que
resulta a dimensão trágica da narrativa.
Indícios trágicos
A ideia de final trágico / morte é sugerida desde o início e vai sendo continuamente sugerida ao longo do conto.
O adjectivo negro / negra é repetido nove vezes no conto
Cantiga de Guanes
Duas garrafas para três irmãos
Bando de corvos que aparecem várias vezes ao longo da acção
Indícios que indicam o carácter violento dos irmãos:
"E a miséria tornara estes senhores mais bravios que lobos."
"Mas Guanes (...) desconfiado (...) brutalmente:"
...
Indícios que indicam o carácter de Rui:
"...o mais avisado,"
"Rui sorriu."
...
O Tesouro - Eça de Queirós
Modos de apresentação/ representação/expressão
Descrição ( pausa na acção) – situação inicial – caracterização das personagens, do paço de Medranhos, da mata de Roquelanes, da fonte… O uso do Pretérito Imperfeito do Indicativo; a utilização frequente de adjectivos; a presença de referências temporais e espaciais; A presença de referências relacionadas com as sensações (visão, audição, tacto, olfacto, gosto).
Narração – (avanço na acção) – caça na mata, descoberta do cofre, decisão da divisão do tesouro…( sequências narrativas). O uso do Pretérito Perfeito.
Diálogo – conversas entre os irmãos – decisão da divisão do tesouro, distribuição das chaves, conspiração de Rui e Rostabal…
sexta-feira, 15 de junho de 2012
O Tesouro - Eça de Queirós
Narrador
Ciência - observador – numa grande parte do conto, mas vai tornando-se omnisciente.
Presença - não participante – heterodiegético
O narrador, quanto à presença:
O narrador pode ser caracterizado quanto à presença. Se participa na acção é considerado um narrador participante ou presente. Ele pode ser uma personagem principal, narrando a sua própria história, narrador autodiegético ou ser apenas uma personagem secundária que relata os acontecimentos - narrador homodiegético. Nestes dois casos, uma vez que o narrador participa na história, a narração é feita na primeira pessoa. Se o narrador não participa na história é considerado um narrador não participante ou ausente - narrador heterodiegético - a narração é feita na terceira pessoa. Para verificarmos esta diferença, deves procurar no texto marcas de primeira e terceira pessoas respectivamente no discurso do narrador: pronomes, determinantes e formas verbais.
O narrador, quanto à ciência:
O narrador é omnisciente se tem um conhecimento total da história, conseguindo inclusivamente penetrar no íntimo das personagens, dando a conhecer ao leitor os seus pensamentos, a sua vida, os seus sentimentos, etc..
Observador se apenas conta aquilo que lhe é permitido contemplar, quer das personagens, quer dos espaços em que elas se inserem.
O narrador, quanto à posição:
O narrador pode ser objectivo, se relata os acontecimentos de uma forma imparcial e distanciada; subjectivo, se ao narrar a história apresenta a sua opinião sobre os factos, julgando, aconselhando, elogiando, censurando, etc..
terça-feira, 12 de junho de 2012
O Tesouro - Eça de Queirós
Espaço
Não se deve encarar o espaço de uma narrativa apenas como o lugar físico onde decorre a acção. De facto, o espaço pode também referir-se ao ambiente social e cultural onde se inserem as personagens. O espaço físico e geográfico refere-se ao lugar ou lugares onde decorre a acção. Pode definir-se como um espaço aberto ou fechado, interior ou exterior, público ou privado, etc.. O espaço social e cultural refere-se ao meio e à situação económica, cultural ou social das personagens. Através deste tipo de espaço podem ser definidos grupos sociais, conjuntos de valores e crenças desses grupos, posição que ocupam na sociedade, referência às tradições e costumes culturais, etc..
Paço de Medranhos – cozinha, pátio, estrebaria
Mata de Roquelanes – moita dos espinheiros, clareira, cova na rocha, silvados, fonte
Espaço psicológico – pensamento de Rui após a morte dos irmãos – pensa em Medranhos e no tesouro só para si.
A acção localiza-se nas Astúrias e decorre, a parte
inicial, nos "Paços de Medranhos" e, a parte central, na mata de
Roquelanes.
O paço dos Medranhos é descrito negativamente, por
exclusão (“...a que o vento da serra levara vidraça e telha...”), e os
três irmãos circulam entre a cozinha (sem luz, nem comida) e a estrebaria, onde
dormem, para aproveitar o calor das três éguas lazarentas.
O facto de três fidalgos passarem os seus dias entre
a cozinha e a estrebaria, os lugares menos nobres de um palácio, é
significativo: caracteriza bem o grau de decadência económica em que vivem. A
miséria em que vivem é acompanhada por uma degradação moral que o narrador não
esconde (E a miséria tornara estes senhores mais bravios que lobos.).
De igual modo, o espaço exterior, a mata de
Roquelanes, não é um simples cenário onde decorre a acção. As descrições da
natureza têm também um carácter significativo. A "relva nova de
Abril", manifestação visível do renascimento da natureza, sugere o
renascimento espiritual que as personagens, como veremos, não são capazes de
concretizar. Do mesmo modo, a "moita de espinheiros" e a "cova
de rocha" simbolizam as dificuldades, os sacrifícios, que é necessário
enfrentar para alcançar o objecto pretendido — são obstáculos que é necessário
ultrapassar.
A natureza, calma, pacífica, renascente ("...um fio
de água, brotando entre rochas, caía sobre uma vasta laje escavada, onde fazia
como um tanque, claro e quieto, antes de se escoar para as relvas altas."),
contrasta com o espaço interior das personagens, que facilmente imaginamos
inquietas, agitadas, perturbadas pela visão do ouro e ansiosas por dele se
apoderarem, com exclusão dos demais. Enquanto isso, as duas éguas retouçavam
a boa erva pintalgada de papoulas e botões-de-ouro. Esse contraste tinha já
sido posto em evidência antes, depois dos três terem contemplado o ouro ("...
estalaram a rir, num riso de tão larga rajada que as folhas tenras dos olmos,
em roda, tremiam..."). E, quando Rui e Rostabal esperam, emboscados, o
irmão, um vento leve arrepiou na encosta as folhas dos álamos, como se a
natureza sentisse o horror do crime que estava para ser cometido. Depois de
assassinado Guanes, os dois regressam à clareira onde o sol já não dourava
as folhas.
segunda-feira, 11 de junho de 2012
O Tesouro - Eça de Queirós
Tempo
Tempo histórico – século IX – Reino das Astúrias/ Maravedis - moeda árabe - os árabes invadiram a península ibérica no século VIII
(no século X encontramos já constituído o Reino de Leão, que sucedeu ao das Astúrias)
Tempo da história - a acção inicia-se no Inverno -> Primavera - manhã de domingo
-> tarde – a tarde descia – a sombra se adensava -> noite – anoiteceu.
A acção passa-se durante alguns meses, pelo menos três, quatro meses.
Tempo do Discurso- A acção passa-se durante alguns meses, pelo menos três (três parágrafos iniciais), mas o cerne da acção passa-se em apenas 1 dia – manhã, tarde e noite – a que corresponde a maior parte da narrativa.
Para que isto aconteça numa narrativa curta como é o conto tem de haver elipses e sumários
Sumário – 2º parágrafo – todo o inverno se passa num só parágrafo.
Elipse – tardes de Inverno – situação inicial e o início do desenvolvimento – ora, na Primavera…
Analepse - quando o narrador recorda o que Guanes fez quando foi a Retortilho – final do desenvolvimento.
Prolepse - Início do da 3ª parte – quando Rui imagina ou conjectura o que fará quando chegar a Medranhos.
A referência ao "Reino das Astúrias" permite-nos localizar a
acção no século IX, já que os árabes invadiram a Península Ibérica no século
VIII (a ocupação iniciou-se em 711 e prolongou-se por vários anos, sem nunca
ter sido concluída); por outro lado, no século X encontramos já constituído o
Reino de Leão, que sucedeu ao das Astúrias. A acção decorre entre o
Inverno e a Primavera, mas concentra-se num Domingo de Primavera, estendendo-se
de manhã até à noite. O Inverno está conotado com a escuridão, a noite, o sono,
o declínio, a morte. É no Inverno que nos são apresentadas as personagens,
envoltas na decadência económica, no isolamento social e na degradação moral (“E
a miséria tornara estes senhores mais bravios que lobos.”). Por sua vez, a
Primavera tem uma conotação positiva, associa-se à luz, à cor, ao renascimento
da natureza, sugere uma vida nova, enquanto o Domingo é um dia santo, favorável
ao renascimento espiritual. A acção central inicia-se na manhã de Domingo e
progride pelo dia fora. À medida que a noite se aproxima, a tragédia vai-se
preparando. Quando tudo termina, com a morte sucessiva dos irmãos, surge também
a noite (“Anoiteceu.”). A acção estende-se do Inverno à Primavera, mas o
seu núcleo central concentra-se num dia, desde manhã até à noite. A condensação
de um tempo da história tão longo (de três ou quatro meses) numa narrativa
curta (conto) implica a utilização sistemática de sumários ou resumos (processo
pelo qual o tempo do discurso é menor do que o tempo da história). Nos momentos
mais significativos da acção (decisão de repartir o tesouro e partilha das
chaves, bem como a argumentação de Rui para excluir Guanes da partilha) o tempo
do discurso tende para a isocronia (igual duração do tempo da história e do tempo
do discurso, por causa do diálogo entre as personagens), sem no entanto a
atingir. É possível também identificar no texto um outro processo de redução do
tempo da história, a elipse (eliminação, do discurso, de períodos mais ou menos
longos da história). A parte inicial da ação é localizada no Inverno (...passavam
eles as tardes desse Inverno...) e logo a seguir o narrador remete-nos para
a Primavera (Ora, na Primavera, por uma silenciosa manhã de domingo...).Quanto
à ordenação dos acontecimentos, predomina o respeito pela sequência cronológica.
Só na parte final nos surge um recuo no tempo (analepse), quando o narrador
abandona a postura de observador e adopta uma focalização onisciente, para
revelar o modo como Guanes tinha planejado o envenenamento dos irmãos,
manifestando dessa forma a natureza traiçoeira do seu caráter. Frequentemente,
o recuo do tempo permite esconder da narração pormenores importantes para a
compreensão dos acontecimentos, mantendo assim um suspense favorável à tensão dramática.
"Ora, na Primavera, por uma silenciosa manhã de domingo, andando todos três na mata de Roquelanes a espiar pegadas de caça e a apanhar tortulhos entre os robles, enquanto as três éguas pastavam a relva nova de Abril - os irmãos de Medranhos encontraram, por trás de uma moita de espinheiros, numa cova de rocha, um velho cofre de ferro. Como se o resguardasse uma torre segura, conservava as suas três chaves nas suas três fechaduras. Sobre a tampa, mal decifrável através da ferrugem, corria um dístico em letras árabes. E dentro, até às bordas, estava cheio de dobrõres de ouro!"
Repara que o início do conto começa no Inverno, associado à ideia de escuridão. O facto de a acção principal começar na Primavera, associada à ideia de renovação da Natureza, e numa "silenciosa manhã de domingo", que representa a luminosidade e a tranquilidade, permite-nos pensar que a vida dos três irmãos poderá mudar.
"Anoiteceu. Dois corvos, de entre o bando que grasnava além dos silvados, já tinham pousado sobre o corpo de Guanes. A fonte, cantando, lavava o outro morto. Meio enterrada na erva negra, toda a face de Rui se tornara negra. Uma estrelinha tremeluzia no céu. O tesouro ainda lá está, na mata de Roquelanes.
A estrela que reluz no céu nega a total obscuridade, apresentando-se como um sinal de esperança, após a morte dos três irmãos.
O facto de o tesouro se manter na mata deixa em aberto o desfecho da história. Talvez possa ser encontrado por outras personagens, dando origem a uma nova história...




