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quinta-feira, 8 de março de 2018

Dia Internacional da Mulher


Clara Zetkin e Rosa Luxemburgo, 1910 

"Por um Mundo onde sejamos socialmente iguais, humanamente diferentes e totalmente livres"
(Rosa Luxemburgo)

Dia Internacional da Mulher



A 8 de Março de 1857, operárias de uma fábrica de tecidos, de Nova Iorque, fizeram greve. Ocuparam a fábrica e começaram a reivindicar melhores condições de trabalho, tais como, redução na carga diária de trabalho para dez horas (as fábricas exigiam 16 horas de trabalho diário), equiparação de salários com os homens (as mulheres chegavam a receber até um terço do salário de um homem, para executar o mesmo tipo de trabalho) e tratamento digno dentro do ambiente de trabalho.

A manifestação foi reprimida com total violência. As mulheres foram trancadas dentro da fábrica e esta foi incendiada. 129 tecelãs morreram carbonizadas.  

Em 1910, durante uma conferência na Dinamarca, ficou decidido que o 8 de Março passaria a ser o “Dia Internacional da Mulher”, em homenagem as mulheres assassinadas em 1857. Em 1975, através de um decreto, a data foi oficializada pela ONU.  






Fotografia de algumas das operárias assassinadas



O Dia Internacional da Mulher é comemorado anualmente a 8 de Março.
A data surgiu pela primeira vez a 19 de Março de 1911 na Áustria, Dinamarca, Alemanha e Suíça.
Desde esse ano, o dia tem vindo a ser comemorado em vários países do mundo, de forma a reconhecer a importância e contributo da mulher na sociedade.
Outro dos objectivos por detrás da origem do Dia Internacional da Mulher é recordar as conquistas das mulheres e a luta contra o preconceito, seja racial, sexual, político, cultural, linguístico ou económico.
Em 1975, as Nações Unidas promoveram o Ano Internacional da Mulher e em 1977 proclamaram o dia 8 de Março como o Dia Internacional da Mulher.

Dá a Surpresa de Ser

Dá a surpresa de ser. 
É alta, de um louro escuro. 
Faz bem só pensar em ver 
Seu corpo meio maduro. 

Seus seios altos parecem 
(Se ela tivesse deitada) 
Dois montinhos que amanhecem 
Sem Ter que haver madrugada. 

E a mão do seu braço branco 
Assenta em palmo espalhado 
Sobre a saliência do flanco 
Do seu relevo tapado. 

Apetece como um barco. 
Tem qualquer coisa de gomo. 
Meu Deus, quando é que eu embarco? 
Ó fome, quando é que eu como ? 


Fernando Pessoa, in "Cancioneiro" 






A Mulher

Ó Mulher! Como és fraca e como és forte!
Como sabes ser doce e desgraçada!
Como sabes fingir quando em teu peito
A tua alma se estorce amargurada!

Quantas morrem saudosa duma imagem.
Adorada que amaram doidamente!
Quantas e quantas almas endoidecem
Enquanto a boca rir alegremente!

Quanta paixão e amor às vezes têm
Sem nunca o confessarem a ninguém
Doce alma de dor e sofrimento!

Paixão que faria a felicidade.
Dum rei; amor de sonho e de saudade,
Que se esvai e que foge num lamento!
Florbela Espanca

domingo, 5 de fevereiro de 2017

Minh'alma, de sonhar-te, anda perdida



Fanatismo

Minh‟alma, de sonhar-te, anda perdida (A)
Meus olhos andam cegos de te ver! (B)
Não és sequer razão de meu viver, (B)
Pois que tu és já toda a minha vida! (A)

Não vejo nada assim enlouquecida…(A)
Passo no mundo, meu Amor, a ler (B)
No misterioso livro do teu ser (B)
A mesma história tantas vezes lida! (A)

“Tudo no mundo é frágil, tudo passa…”(C)
Quando me dizem isto, toda a graça (C)
 Duma boca divina fala em mim! (D)

 E olhos postos em ti, vivo de rastros: (C)
"Ah! Podem voar mundos, morrer astros, (C)
Que tu és como Deus: princípio e fim!..." (D)


Florbela Espanca


Trata-se de um soneto, pois possui 4 quadras e dois tercetos, cujas estrofes são isométricas e isorrítmicas, fazendo com que seja uniforme entre si. Os versos são decassílabos, heróicos, com esquema rítmico binário, já que a tonicidade está na 6.ª e 10.ª sílabas: "Meus /o/lhos/ an/dam /CE/gos /de/ te /VER",


O esquema rimático das quadras é  ABBA, sendo, assim, rimas interpoladas em A e emparelhadas em B; nos tercetos, há o esquema CCD, sendo emparelhadas em C e interpoladas em D. Excepto os versos 12 e 13, em que rimam os nomes rastros/astros, as demais rimas são ricas. Nos versos 1, 4, 5, 8, 9, 10, 12 e 13, o ritmo dos versos é feminino e grave, nos demais, é masculino e agudo.

Recursos expressivos
Predomina a Aliteração da letra m.

Antítese: "cegos de te ver"; "princípio e fim".
Comparação: "tu és como Deus".
Repetição: "Tudo no mundo é frágil, tudo passa".
Metáfora: "misterioso livro de teu ser".
Prosopopeia: voar mundos; boca divina.
Hipérbole: "Pois que tu és já toda a minha vida"; Que tu és como Deus: princípio e fim!..."
Encadeamento: a ler - no misterioso livro do teu ser (vs. 6 e 7); toda a graça - duma boca divina fala em mim (vs. 10 e 11);



O sujeito lírico é uma mulher apaixonada que declara seu amor e que expõe com furor os seus sentimentos. Por meio de metáforas e hipérboles, o sujeito poético procura explicar a força do seu amor, um amor tão forte e avassalador que tomou conta da sua vida. A confiança do sujeito lírico na durabilidade e na permanência dos seus sentimentos é tão grande que ele chega a desdenhar daqueles que tentam alertá-lo para a fugacidade e efemeridade das coisas e dos sentimentos. 
O título do poema dá-nos a ideia da intensidade do sentimento - Fanatismo - que remete para a definição de um sentimento anormal, que beira a obsessão. O eu corrobora essa ideia no poema quando afirma que sua "alma está perdida‟, que seus olhos "andam cegos  de te ver" e ainda que anda "enlouquecida‟, e que ele, o objecto do seu amor,  já se tornou toda a sua vida: ‟Pois que tu és já toda a minha vida!".
O amor do sujeito-lírico é tão desmedido e irracional que assume ares de devoção religiosa no momento em que compara o ser amado a Deus, ou ainda, ao Deus da sua vida, que é o seu "princípio e fim". 
As características simbolistas presentes no trecho são o uso de várias figuras estilísticas (metáfora, comparação, hipérbole, paradoxo); o egotismo representado pelo amor exacerbado do eu que o impede de viver lucidamente e de ver o ser amado como pessoa de "carne e osso‟; a espiritualidade através da elevação do amor e do ser amado a um patamar superior às demais pessoas, alçando-o à condição de Deus.


Roberto Adam, 11.º ano

domingo, 5 de maio de 2013

MAMÃ



Noite negra e tempestuosa! No céu não luzia uma estrela, o vento soprava com violência, e flocos de neve envolviam, como em alva mortalha, a aldeia adormecida. Só ao longe milhares de luzes ardiam no soberbo castelo. Perfumes, flores, sedas, rendas e cá fora, numa humilde choupana à beira da estrada, fome, miséria e lamentos. Vivia ali uma pobre camponesa com dois filhinhos. Magros, doentes, pediam esmola pelos casais. Agora choravam. Tinham fome e não tinham pão, os míseros pequeninos. No único aposento via-se apenas uma enxerga onde, com a cabeça entre as mãos, a pobre mãe pensava, talvez, no futuro bem negro dos filhinhos.
A contrastar, porém, singularmente com a miséria do casebre, via-se um berço elegante e lindo. Envolviam-no rendas e arminhos. Dentro um pequeno gentil dormia, com a linda cabecita emoldurada nos anéis doirados do seu cabelo loiro. Nos lábios pairava-lhe um sorriso meigo de anjo dormente. Abre-se a porta de repente. Uma mulher divinalmente formosa, envolta em ondas de rendas e sedas, arrastando altiva a longa cauda, entra na choupana. A camponesa ergue-se admirada, enquanto a fidalga adulada, invejada, que tinha a seus pés um mundo de adoradores, não receando amarrotar as renda caras do seu opulento vestido de baile, ajoelhou humilde ante o bercito do filho do crime, que tinha de beijar furtivamente; inclinou a cabeça, e duas lágrimas brilhantes como gotas de orvalho se desprenderam dos olhos, resvalando-lhe pelas faces, que foram cair nas do pequenito que, a sorrir no seu sorriso de anjo, balbuciou mimoso:
- Mamã!





Florbela Espanca



Não se sabe ao certo em que ano Florbela Espanca escreveu este pequeno conto. Mas foi antes de completar 13 anos de idade.

sexta-feira, 25 de maio de 2012

A vaidade



Uma aluna chegou à minha aula muito revoltada, porque lhe tinham chamado vaidosa, "és uma vaidosona". Acha normal, professora, chamarem-me vaidosa só porque trago um vestido novo? Não acho, Cátia, mas não te preocupes é inveja. Também já mo chamaram e, olha, é para lado que durmo melhor! Aqueles ou aquelas que te chamaram vaidosa também o são. Toda a gente é vaidosa, uns mais, outros menos... O problema é quando a inveja também começa a falar...  Olha, Cátia, sabes uma coisa, o que é insuportável na vaidade dos outros é que ela colide com a nossa. E quem diz não ter vaidade possui na realidade a maior de todas. Por isso, linda, esquece e sê como és!



Quando se fala em vaidade, lembro-me sempre das sábias palavras de António Lobo Antunes ou das de Vergílio Ferreira ou do poema de Florbela Espanca de que gosto particularmente... 

Ora vejam!


"Com o passar do tempo, há dois sentimentos que desaparecem: a vaidade e a inveja. A inveja é um sentimento horrível. Ninguém sofre tanto como um invejoso. E a vaidade faz-me pensar no milionário Howard Hughes. Quando ele morreu, os jornalistas perguntaram ao advogado: «Quanto é que ele deixou?» O advogado respondeu: «Deixou tudo.» Ninguém é mais pobre do que os mortos."

António Lobo Antunes



"Aquilo em que se tem mais vaidade é o corpo. Mesmo que aleijado, há sempre um pormenor que nos envaidece. Compô-lo. Arranjá-lo. O careca puxa o cabelo desde o cachaço ou do olho do cú para tapar a degradação. O marreco faz peito. O espelho é para todos o grande dialogante. Passa-se a uma vitrina e olha-se de soslaio a ver como se vai. Uma mulher perfeita (e um homem) não inveja o intelectual, o artista. O inverso é que é. Muitas mulheres (e homens) cultivam a excepcionalidade do seu espírito ou engenho por complexo ou vingança. Quando se não tem já vaidade no corpo, está-se no fim. Mas mesmo num leito de morte nos queremos «compostos». «Não me descomponhas» — disse a marquesa de Távora ao carrasco, uns momentos antes de ser decapitada. Tomam-se providências para como se há-de ir no caixão. A degradação do corpo é a última coisa que se aceita. Hoje lavei o carro e vesti um calção para me não molhar. Dei uma vista de olhos ao espelho. Grumos, tumefacções pelas pernas. Não gostei. Não muito tempo. Lembrou-me um certo professor. Tinha a bossa da oratória. E então contava: escrevia um discurso e lia. Parecia-lhe péssimo. Lia outra vez e outra. E a certa altura, sem emendar nunca uma vírgula, já lhe não parecia tão mau. A realeza em nós é um imatismo. Como no Menon de Sócrates, o que há é que descobri-la." 


 Vergílio Ferreira



"A vaidade é uma das principais virtudes, e, no entanto, poucas pessoas admitem que a procuram e a tomam como objectivo. É na vaidade que muitos homens ou mulheres encontraram a salvação, mas, apesar disso, a maioria das pessoas arrasta-se a quatro patas em demanda da modéstia."

Oscar Wilde


"Corre por aí que sou vaidoso. Mas eu acho que a vaidade é a coisa mais bem distribuída deste mundo. Vaidosos somos todos nós. A questão está em saber se há alguma razão para o ser ou se se é vaidoso sem razão nenhuma."

José Saramago



Vaidade

Sonho que sou a Poetisa eleita,
Aquela que diz tudo e tudo sabe,
Que tem a inspiração pura e perfeita,
Que reúne num verso a imensidade!

Sonho que um verso meu tem claridade
Para encher todo o mundo! E que deleita
Mesmo aqueles que morrem de saudade!
Mesmo os de alma profunda e insatisfeita!

Sonho que sou Alguém cá neste mundo ...
Aquela de saber vasto e profundo,
Aos pés de quem a Terra anda curvada!

E quando mais no céu eu vou sonhando,
E quando mais no alto ando voando,
Acordo do meu sonho ... E não sou nada! ...

Florbela Espanca




Este título, Vaidade, poderia levar-nos a interpretar erradamente o soneto de Florbela Espanca. Ao lermos o poema, constatamos  que a vaidade é mais um desejo que o sujeito lírico tem. O sujeito poético anseia a plenitude, deseja ser a Poetisa eleita:
Sonho que sou a Poetisa eleita,
Aquela que diz tudo e tudo sabe,
Que tem a inspiração pura e perfeita,
Que reúne num verso a imensidade!

Na primeira estrofe, encontramos a presença da subjetividade, da idealização e da fantasia da poetisa. O verso “Sonho que sou a Poetisa eleita” transmite-nos o desejo que o sujeito poético (em primeira pessoa) tem em atingir a plenitude da expressão escrita, tentando afirmar-se a partir do sonho.
A imagem do sonho continua nas estrofes seguintes, quando o sujeito lírico almeja que os seus versos sejam sublimes, que tenham claridade para encher todo o mundo e que emocionem e deleitem toda a gente, mesmos os mais melancólicos e tristes:

Sonho que um verso meu tem claridade
Para encher todo o mundo! E que deleita
Mesmo aqueles que morrem de saudade!
Mesmo os de alma profunda e insatisfeita!

As  inquietações do sujeito poético sugerem uma reflexão sobre o papel da poesia e sobre a aceitação da sua obra pelo público/leitor. E é assim que surge, então, o desejo de se sentir “alguém cá neste mundo”, confirmando o propósito de ter utilizado a palavra “Vaidade” como título:

Sonho que sou Alguém cá neste mundo ...
Aquela de saber vasto e profundo,
Aos pés de quem a Terra anda curvada!

Mas, depois de enumerar todos os seus sonhos, do mais simples ao mais sublime, o sujeito lírico constata a sua própria condição: o nada.

E quando mais no céu eu vou sonhando,
E quando mais no alto ando voando,
Acordo do meu sonho ... E não sou nada! ... 


 O último verso do soneto é o acordar, que se opõe ao sonhar tão reiterado anteriormente, e o nada, a tudo o que se queria alcançar.


terça-feira, 15 de março de 2011

Aos Olhos Dele



Não acredito em nada. As minhas crenças
Voaram como voa a pomba mansa,
Pelo azul do ar. E assim fugiram o
As minhas doces crenças de criança.

Fiquei então sem fé; e a toda gente
Eu digo sempre, embora magoada:
Não acredito em Deus e a Virgem Santa
É uma ilusão apenas e mais nada!

Mas avisto os teus olhos, meu amor,
Duma luz suavíssima de dor...
E grito então ao ver esses dois céus:

Eu creio, sim, eu creio na Virgem Santa
Que criou esse brilho que m'encanta!
Eu creio, sim, creio, eu creio em Deus!

Florbela Espanca

segunda-feira, 7 de março de 2011

A minha tragédia




Tenho ódio à luz e raiva à claridade
Do sol, alegre, quente, na subida.
Parece que a minh’alma é perseguida
Por um carrasco cheio de maldade!

Ó minha vã, inútil mocidade,
Trazes-me embriagada, entontecida!...
Duns beijos que me deste noutra vida,
Trago em meus lábios roxos, a saudade!...

Eu não gosto do sol, eu tenho medo
Que me leiam nos olhos o segredo
De não amar ninguém, de ser assim!

Gosto da Noite imensa, triste, preta,
Como esta estranha e doida borboleta
Que eu sinto sempre a voltejar em mim!..

Florbela Espanca

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Parabéns, pai!

Ter um Pai ! É ter na vida

Uma luz por entre escolhos ;

É ter dois olhos no mundo

Que vêem pelos nossos olhos !

Ter um Pai ! Um coração

Que apenas amor encerra,

É ver Deus, no mundo vil,

É ter os céus cá na terra !

Ter um Pai ! Nunca se perde

Aquela santa afeição,

Sempre a mesma, quer o filho

Seja um santo ou um ladrão ;

Talvez maior, sendo infame

O filho que é desprezado

Pelo mundo ; pois um Pai

Perdoa ao mais desgraçado !

Ter um Pai ! Um santo orgulho

Pró coração que lhe quer

Um orgulho que não cabe

Num coração de mulher !

Embora ele seja imenso

Vogando pelo ideal,

O coração que me deste

Ó Pai bondoso é leal !

Ter um Pai ! Doce poema

Dum sonho bendito e santo

Nestas letras pequeninas,

Astros dum céu todo encanto !

Ter um Pai ! Os órfãozinhos

Não conhecem este amor !

Por mo fazer conhecer,

Bendito seja o Senhor !


Florbela Espanca