Um velho bombeiro
Era uma vez um homem de certa idade e coxo que passava os seus dias a perscrutar o horizonte, olhando aqui, examinando ali, mirando acolá, fixando o olhar além. E todos os dias o víamos trilhando o mesmo caminho, subindo as mesmas encostas, espreitando aqui e ali. Que homem estranho! - dizíamos, entre dentes. Mas ele não ouvia nada, nada lhe parecia interessar, além do que procurava lá longe ou nem tão longe assim… e continuava a alongar o olhar, a esticar os olhos…
Um dia, uma senhora, vendo-o tão alheado e ausente, dirigiu-se-lhe e meteu conversa:
- Está a sentir-se bem?
O homem pareceu acordar de repente e disse que sim, que estava bem.
- É que costumo vê-lo sempre por aqui a olhar, a olhar tempos infinitos, pensei que alguma coisa não estivesse bem consigo.
-Ah, não se preocupe, este é o meu trabalho.
- Trabalho?
- Eu era bombeiro, tive um acidente que me deixou assim – disse, apontando para a perna.
- Foi num incêndio que ficou com esse problema na perna?
- Valeu-me a reforma e agora tenho este trabalho, sou responsável por toda a área que se avista daqui deste outeiro, há muita zona protegida e isto tem uma vista linda, há sempre quem queira deitar fogo para depois, não havendo nada mais, construírem - dizia, apontando tudo à sua volta.
- Ah!
- Tenho um telemóvel e se vir fumo ou algo fora do normal, contacto com o quartel dos bombeiros.
Este homem é meu vizinho e a senhora que meteu conversa com ele é a minha mãe. Ficou assim desvendado aquele mistério.
A verdade é que parecia que o homem andava sempre a cuscar e toda a gente achava aquele comportamento bem estranho, até tínhamos um certo receio. Hoje, já não nos faz qualquer impressão vê-lo a sondar por aqui e até nos tranquiliza muito saber que toda esta área está sob a sua protecção. Foi graças a ele que há dois anos um incêndio não colocou muitas habitações em perigo.
Foi horrível, estávamos na praia e recebemos um telefonema de um vizinho a dizer que tínhamos a casa rodeada por fogo. Viemos logo e as estradas estavam cortadas, não sabíamos que caminho tomar para chegar a casa. A polícia não deixava ninguém passar a não ser os bombeiros. O meu marido lembrou-se de ir por um atalho que passa por dentro de pinhais e eu não gostei nada da ideia! O certo é que lá fomos! Começámos a ver as labaredas e fumo por todo o lado, ele parou o carro e mandou-nos sair (a mim e aos miúdos) e voltar para trás. Disse-lhe que voltávamos todos para trás, ele não concordou, que ia para casa, que tinha de chegar lá.
A minha filha chorava, mas nenhum de nós saiu. Fechámos os vidros e o tecto do carro. Passámos pelo meio das chamas. Eu só dizia que não íamos conseguir passar e rezava... O meu filho afirmava que os pneus iam derreter…. A minha filha perguntava se íamos morrer queimados… O meu marido mandava-nos calar… O carro ia a uma velocidade maluca, era tudo vermelho e preto à volta e um calor abrasador. O caminho não é longo, mas naquele momento parecia nunca mais acabar. Passámos a casa do vizinho coxo que andava com uma mangueira a afastar as chamas para fora do seu território, a molhar tudo. Chegámos a casa. O ar estava empestado de partículas negras, pegámos em mangueiras e tratámos de molhar tudo à volta da casa, os muros, as árvores, a estrada e até a casa. Do lado de lá da estrada, o fogo crepitava. À noite, por fim, o fogo estava apagado, mas o vizinho andou toda a noite a rondar, a rondar, não fosse aparecer algum foco e começar tudo de novo.
A verdade é que o meu marido tornou-se amigo deste antigo bombeiro e por causa dessa amizade uma árvore sobreviveu a um ataque de fúria. O vizinho tem uma casa rodeada por um terreno em que cultiva um pouco de tudo e onde tem uma série de árvores de fruto, entre elas uma “pereira” linda, com folhas brilhantes que se mantêm todo o ano. Comprou-a no mercado, disseram-lhe que dava uns frutos óptimos. Plantou-a, cuidou dela, esperou que desse flores e frutos, mas qual não foi o seu espanto quando viu aquela espécie de pêras, nunca vira nada parecido. Descascou uma, que casca grossa! Comeu, que sabor horrível! Deve estar verde, pensou. Grande caroço, não, isto não é nenhuma pêra! Tratou de ditar logo ali a sorte da árvore: ia cortá-la. O meu marido, no seu passeio de bicicleta, meteu conversa com o vizinho e perguntou-lhe se ia cortar lenha. Que não, que ia cortar uma pereira de frutos lindos e brilhantes, mas intragáveis. O meu marido perguntou se precisava de ajuda e apeou-se logo, seguindo o velho bombeiro.
- Ó vizinho, isto são pêras abacates, não corte a árvore, é um fruto muito bom. A árvore está carregadinha, é uma pena cortá-la.
O meu marido explicou ao vizinho como arranjar e comer o fruto, mas não conseguiu fazê-lo gostar de abacate. Mas graças a esta conversa, a árvore ainda lá está e nós temos de comer todos os abacates que o vizinho nos vem trazer. Aqui está a primeira cesta deles, deste ano!
Trabalhinhos:
A Mena na cozinha
Batatas louras
1 kg de batatas descascadas
100 ml de vinho branco
1 ramo de salsa
1 folha de louro
50 g de banha
1 colher de sopa de pimentão-doce
4 dentes de alho descascados
300 ml de caldo de carne
sal
Esmague os alhos num almofariz juntamente com um pouco de sal grosso.
Corte as batatas em cubos e tempere com o preparado anterior e alguma pimenta. Coloque num pirex ou tabuleiro de barro.
Junte a folha de louro partida em pedaços. Polvilhe com o pimentão-doce e regue com o vinho branco.
Cubra com uma folha de alumínio e leve ao forno por 20 minutos, a 220ºC. Remova a folha de alumínio e prolongue a cozedura por 20-25 minutos, ou até as batatas se apresentarem cozidas e douradas.
Deixo-vos aqui estes miminhos para levarem para os vossos cantinhos. Agradeço-os a esta amiga e também a esta.