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sexta-feira, 23 de maio de 2008

"O homem só é superiormente feliz quando é superiormente civilizado"

Proposta de leitura:

"- É curioso… Nunca plantei uma árvore!
- Pois é um dos três grandes actos, sem os quais, segundo diz não sei que filósofo, nunca se foi um verdadeiro homem… Fazer um filho, plantar uma árvore, escrever um livro. Tens de te apressar, para ser um homem. É possível que talvez nunca prestasses um serviço a uma árvore, como se presta a um semelhante!
- Sim… Em Paris, quando era pequeno, regava os lilases. E no Verão é um belo serviço! Mas nunca semeei."

QUEIRÓS, Eça de, A Cidade e as Serras

A Cidade e as Serras

Jacinto, o “Príncipe da Grã-Ventura” (como lhe chamava o seu amigo José Fernandes), nascera e sempre morara num palácio, nos Campos Elísios, em Paris e estava habituado a todos os luxos e facilidades da civilização. Jacinto era forte e, além de rico, era inteligente. Todas as suas actividades eram votadas ao conhecimento. Detestava o campo, o bucolismo. No seu palácio, amontoavam-se livros de todos os géneros: filosofia, ciência… além dos aparelhos tecnicamente mais avançados para a época. Para Jacinto, “o homem só é superiormente feliz quando é superiormente civilizado”.
José Fernandes nasceu em Guiães, nos confins do Douro, estudou em Coimbra e, graças a um tio rico, foi para Paris. Aí conheceu Jacinto. Zé Fernandes não comungava das ideias tecnicistas e mecanizadas de Jacinto. Eram burgueses, boémios, e viviam ambos das rendas das propriedades do Douro. Enquanto percorriam a Cidade Luz, iam filosofando acerca da Civilização. Conversavam sobre a ruralidade, a sociedade, a economia, as vaidades e as humildades. Um dia, Jacinto, enfastiado da vida citadina, decidiu partir para Portugal, com o pretexto de reconstruir a sua casa em Tormes, deslocando para lá todos os confortos do seu palácio parisiense. Mas, o criado perdeu-se com as bagagens, que, por engano, foram remetidas para Alba de Tormes, em Espanha. Jacinto chegou, então, a Tormes apenas com a roupa que trazia vestida.
Em contacto estreito com a natureza, Jacinto descobriu que a civilização não era tudo, como pensava. E numa atitude de encantamento, foi-se integrando na vida produtiva do campo, aplicando os seus conhecimentos técnicos e científicos à realidade de Tormes. E sem romper totalmente com os valores da “civilização”, Jacinto foi-se adaptando ao campo, modernizando as serras e aplicando algumas reformas sociais.
Agora, ao “príncipe da Grã-Ventura”, só faltava um lar. Jacinto logo se apaixonou por Joaninha, prima de Zé Fernandes e casou. Assim, completamente feliz, Jacinto não regressou a Paris.

O espaço rural, simbolizado por Tormes, pelas serras, revela a Jacinto que a Civilização de nada nos vale se não apreciarmos condignamente a Natureza e tudo o que ela tem para nos oferecer. Eça de Queirós pinta-nos as duas realidades, a cidade e as serras, com magníficas descrições, sarapintadas aqui e além de fina ironia.
Eça, escritor realista, descreve-nos a sociedade parisiense e do Douro rural português nos finais do século XIX e faz referências às correntes filosóficas que vigoravam na altura em Portugal: Socialismo, Pessimismo, Liberalismo e Absolutismo.
A história é-nos contada na primeira pessoa por José Fernandes, personagem secundária e narrador homodiegético em quem Eça se revê.

A leitura dá-nos a conhecer os locais onde se passa a acção e ficamos, de certo modo, tentados a partir para Paris, para aí apreciar a agitação, a vida de boémia e de vício ou, então, desfrutar da calma e do aconchego das serranias vinhateiras do nosso lindo Douro.

"Através dos muros seculares, que sustêm as terras liados pelas heras, rompiam grossas raízes coleantes a que mais hera se enroscava. Em todo o torrão, de cada fenda, brotavam flores silvestres."

Estação de Tormes

" e ambos em pé, às janelas, esperamos com alvoroço a pequenina estação de Tormes, termo ditoso das nossas provações."

Igreja de Santa Cruz

"Nos cerros remotos, por cima da negrura pensativa dos pinheirais, branquejavam ermidas. O ar fino e puro entrava na alma, e na alma espalhava alegria e força."

"Assim, vagarosamente e maravilhados, chegámos àquela avenida de faias, que sempre me encantara pela sua fidalga gravidade."

"Para os vales, poderosamente cavados, desciam bandos de arvoredos, tão copados e redondos, um verde tão moço, que eram como um musgo macio onde apetecia rolar."


EMENTA QUEIROSIANA
Baseada na obra: “A Cidade e as Serras”

Presuntos, Salpicão, Queijos, Geleia e Ameixas secas

“Se eu porém aos meus olhos juntar os dois vidros simples de um binóculo de corridas, percebo, por trás da vidraça, presuntos, queijos, boiões de geleia e caixas de ameixas secas”


Caldo de Galinha com Fígado e Moela

“ Uma formidável moça, de enormes peitos que lhe tremiam dentro das ramagens do lenço cruzado, ainda suada e esbraseada do calor da lareira, entrou esmagando o soalho, com uma terrina a fumegar. “Desconfiado (Jacinto), provou o caldo que era de galinha e rescendia. Provou — e levantou para mim, seu camarada de miséria, uns olhos que brilhavam, surpreendidos [...]. E sorriu, com espanto: - Está bom!" Estava precioso: tinha fígado e tinha moela: o seu perfume enternecia: três vezes, fervorosamente, ataquei aquele caldo.“


Arroz de Favas com Frango Alourado

“E já espreitava à porta, esperando a portadora dos pitéus, a rija moça de peitos trementes que enfim surgiu, mais esbraseada, abalando o soalho – e pousou sobre a mesa uma travessa a transbordar de arroz com favas. (…) Jacinto, em Paris, sempre abominara favas!... Tentou todavia uma garfada tímida — e de novo aqueles seus olhos, que pessimismo enevoara, luziram, procurando os meus. Outra larga garfada, concentrada, com uma lentidão de frade que se regala. Depois um brado: - óptimo! Ah, destas favas, sim! Oh que fava! Que delícia!”

“Diante do louro frango assado no espeto e da salada que ele apetecera na horta, agora temperada com um azeite de serra digno dos lábios de Platão, terminou por bradar: - é divino!”


Creme Queimado

“À mesa onde os pudins, as travessas de doce [...]. - Como gostar! Mas é que delira!... Pudera! Tanto tempo em Paris, privado dos pitéus lusitanos...”


Café

“…e reclamava impacientemente o café, um café de Moca, mandado cada mês por um feitor de Dedjah, fervido à turca, muito espesso que ele remexia com um pau de canela”


Vinho de Tormes

“…caindo de alto, da bojuda infusa verde – um vinho fresco, esperto, seivoso, e entrando mais na alma, que muito poema ou livro santo.
Mirando, à vela de sebo, o copo grosso que ele orlava de leve espuma rósea, o meu Príncipe, com um resplendor de optimismo na face, citou Virgílio: - Quo te carmina dicam, Rethica? Quem dignamente te cantará, vinho amável desta serras?”

Trouxe este vídeo do cantinho da Siry. Obrigada, amiga, pelo carinho! A Siry fez um post em português para todos os seus amigos falantes de língua portuguesa, foi mesmo muito querida. Um dia, vou retribui-lhe a gentileza, fica aqui a promessa…

Ah! Se entre Amigos fôssemos gansos!

Na próxima temporada, quando vires os gansos emigrar, dirigindo-se para um lugar mais quente para passar o inverno, repara que voam em forma de "V". Talvez te interesse saber por que eles o fazem assim.

Ao voar em formação de "V"...

O bando inteiro aumenta em 71% o alcance do voo em relação ao de um pássaro voando sozinho.

Lição 1: Compartilhar da mesma direcção e sentido do grupo, permite chegar mais rápida e facilmente ao destino, porque se nos ajudarmos uns aos outros, os resultados serão melhores.

Quando um ganso sai da formação...

Sente a resistência do ar e a dificuldade de voar sozinho.

Então, rapidamente retorna à formação, para aproveitar o poder de elevação dos que estão à sua frente.

Lição 2: Devemos permanecer em sintonia e unidos junto àqueles que se dirigem connosco na mesma direcção, o esforço será menor. Será mais fácil e agradável alcançar as metas. Estaremos dispostos a aceitar e oferecer ajuda.

Quando o ganso líder se cansa...

... Muda-se para o final de formação, enquanto outro assume a dianteira.

Lição 3: Compartilhar a liderança. Respeitarmo-nos mutuamente o tempo todo. Dividir os problemas e os trabalhos mais difíceis. Reunir habilidades e capacidades, combinar dons, talentos e recursos.

Os gansos, enquanto voam em formação, grasnam para dar coragem e alento aos que vão na frente, para que assim mantenham a velocidade.

Lição 4: Quando há coragem e alento, o progresso é maior. Uma palavra de ânimo, dita a tempo, motiva, ajuda, dá forças, produz o melhor dos benefícios.

Quando um ganso adoece, fica ferido ou está cansado...

Deve sair da formação…

Outros saem também da formação e acompanham-no para ajudá-lo e protegê-lo. Permanecem com ele até que morra ou seja capaz de voar novamente; só depois alcançam o bando, ou integram-se noutra formação.

Lição 5: Estejamos unidos um ao lado do outro apesar das diferenças, tanto nos momentos difíceis, como nas horas de trabalho.

Se nos mantivermos ao lado uns dos outros, apoiando-nos mutuamente, unidos. Se tivermos espírito de equipa, apesar das diferenças, poderemos formar um grupo humano para enfrentar todo tipo de situações. Se entendermos o verdadeiro valor de amizade, se tivermos consciência do sentimento de partilha, a vida será mais simples e o voo dos anos será mais aprazível!

AMIGOS... SEJAMOS GANSOS!



Trabalhinhos: toalha feita em parceria com a minha mãe.



Pregadeira desenhada pela minha filhota e executada por mim.




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