terça-feira, 17 de agosto de 2010

As histórias das palavras

Esta foto veio daqui!


Depois do jantar, todos nos sentámos à porta a conversar. A noite luarenta e amena convidava-nos para a rua. Os pirilampos voltejavam à roda de uns pequenos arbustos. Há tanto tempo que não via pirilampos! Há tanto tempo que não ouvia, assim, tão de perto, os gri-gri dos grilos! Os sons do campo, a calma, a luz da lua, as conversas amenas, as histórias engraçadas, as anedotas divertidas, tudo era agradável! Os rostos cansados ganharam nova energia, novo esplendor.

O ti Joaquim gosta de contar histórias e o ti Manuel conta anedotas como ninguém e enquanto não põe toda a gente a rir, não descansa.

- Nada melhor do que umas boas gargalhadas… até a alma se anima!

O neto do ti Joaquim chegou com o pai e quis logo saber do que estávamos a rir.

- És muito pequeno para estas histórias, Miguel, vai mas é brincar! – disse a ti Alice a rir.

O garoto é endiabrado e não parou um segundo, a avó mandou-o estar quieto um cento de vezes, mas ele “tem o diabo no corpo”, dizia a avó Maria:

- Ó Miguel pára de corrichar, eu estou a ver-te e já te mandei estar quieto mil vezes.

- Ó mãe, eles aqui dizem cada coisa, cada palavra, até parece que não falamos a mesma língua - admirou-se, uma vez mais, a minha filha.

- Eu não vos disse que iam ter umas férias inesquecíveis? – perguntou-nos o ti Joaquim e ria a bom rir.

- Eu sei, pelo contexto, que corrichar é correr para aqui ou para além, de um lado para o outro, porque o Miguel não pára quieto e não fez mais nada desde que chegou a não ser correr – informou a minha filha.

- Pois é! – concordou o ti Joaquim, acrescentando ainda:

- Então, senhora professora, não nos dá mais uma lição de latim, de evolução da língua? – convidou-me.

- Não queria maçar-vos com latinizes…

- Latinizes?

- Ó senhora professora, essa é que eu nunca ouvi, nem ao ti Joaquim – disse o ti João a rir.

- Ó João, como disse a menina há bocado, essa também a tiro pelo contexto – atirou o ti Manuel e explicou:

- Com certeza que é empregar expressões latinas, falar latim, não é, senhora professora?

Insisti e persisti, que não me tratassem por senhora professora, que me chamassem Mena ou Filomena. Mas, “está-nos nas entranhas, no sangue, senhora professora!”. Não adianta, para aquela boa gente, sou e serei sempre a senhora professora.

- Bem, se querem saber de onde vem a palavra corrichar, eu explico com muito gosto! Provém do étimo latino curriculum – pequena corrida. De curriculum surgiu curriculare. A palavra evoluiu para curri’clar e por fim corrichar. O “cl” passou a “ch”, a este fenómeno fonético dá-se o nome de palatalização.

- As histórias das palavras são muito interessantes! – exclamou o ti Joaquim.

- Ó ti Joaquim, estas férias vão ser também de partilha de conhecimentos, os senhores ensinam-nos coisas do campo e mostram-nos a região e a minha mãe ensina-lhes “as histórias das palavras”.

O sorriso do ti Joaquim abriu-se ainda mais, mostrando uns olhinhos pequeninos muito vivos, ali estava algo que lhe agradava muito: a partilha de saberes.


Esta foto está aqui!


A Mena na cozinha

Salada de esparguete

esparguete cozido
2 latas de atum
2 ovos cozidos
1 pepino
queijo
2 tomates chucha
1 pimento vermelho assado (compro no Lidl em conserva)
beterraba
azeite e vinagre ou maionese
sal
pimenta

Corte o esparguete. Corte também o resto dos ingredientes em quadrados e, por fim, o atum.

Tempere com sal e pimenta, azeite e vinagre ou maionese.
Bom apetite!


Trabalhinho:

Brincos em prata com pérolas de rio e ametistas

domingo, 15 de agosto de 2010

O vento vago voltou



E até do que hoje sou
No entardecer da terra
O sopro do longo Outono
Amareleceu o chão.
Um vago vento erra,
Como um sonho mau num sono,
Na lívida solidão.

Soergue as folhas, e pousa
As folhas, e volve, e revolve,
E esvai-se inda outra vez.
Mas a folha não repousa,
E o vento lívido volve
E expira na lividez.

Eu já não sou quem era;
O que eu sonhei, morri-o;
Amanhã direi, "quem dera
Volver a sê-lo!... Mais frio
O vento vago voltou.

Fernando Pessoa


O assunto do poema é a passagem do tempo e as transformações que esta provoca.
O sujeito poético começa por referir o Outono e os seus efeitos sobre a natureza, salientando o carácter triste desta estação, dado provocar o amarelecimento, o vento que agita as folhas e não as deixa sossegar, culminando na expiração.
Na última estrofe, aponta-se o estado de espírito do sujeito lírico que constata que também ele mudou e emite o desejo de voltar a ser o que fora, embora verifique a impossibilidade de ser o que já fora, porque o frio que se acentuara lá fora se assemelhava ao que interiormente sentia.
O sujeito lírico sugere uma imagem do real que associa a "um sonho mau num sono", é a terra no seu fim, onde o chão "amareleceu" com "o sopro do longo Outono", isto é, a terra "foi varrida" por ventos, aqui sinónimo de conflitos, que fazem dela um lugar vazio, onde o homem não sente prazer em viver. E tal como a terra se encontra em definhamento, e observando a luta que as folhas empreendem contra a força destruidora do vento, sem, contudo, conseguirem vencer as contrariedades naturais, também o sujeito poético se sente frustrado e triste, por não conseguir a estabilidade emocional que outrora teve, nem mesmo combater a solidão que nele se instalou.
Os sons nasais (m, n, ão) presentes no poema sugerem melancolia e tristeza; a revolta está expressa nos sons v e s que remetem para o tumulto, para a intranquilidade presente na natureza e no estado de espírito do sujeito lírico.
Neste poema encontramos o tom confessional, o carácter embalatório, a solidão interior, a impossibilidade de viver a vida, temas do gosto dos românticos e que nos permitem estabelecer um paralelismo entre Fernando Pessoa e os movimentos anteriores, e até com o simbolismo e o saudosismo, aqui em evidência pelas características da natureza em tumulto, a simbolizar a inquietação do sujeito poético, e pelo desejo de voltar atrás. O poema, a nível formal, tem estrofes e métrica regulares, versos curtos e o ritmo é lento e embalatório.





A Mena na cozinha

Sorvete de alfazema

4 a 6 flores de alfazema
6 dl de natas
casca de limão
150 g de açúcar
4 gemas de ovo

Lave e enxugue a alfazema. Coloque-a num tacho com as natas e a casca de limão e leve ao lume. Antes de começar a ferver, junte o açúcar e mexa até se dissolver. Quando estiver a ferver, retire do lume e passe por um coador fino e depois junte as gemas, previamente batidas. Leve de novo ao lume e cozinhe em lume brando, mexendo até que engrosse. Logo que principie a ferver, retire do lume e deite num tabuleiro frio. Deixe arrefecer.

Leve ao congelador até que as bordas fiquem congeladas (mas não o centro). Com um garfo, bata até que fique homogéneo. Congele de novo e repita este processo mais duas vezes.

Sirva enfeitado com flores de alfazema e...

delicie-se!


Trabalhinho:


sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Feira da "Lada"



A casa do ti Joaquim fica numa quinta perto do sapal e é um lugar muito aprazível. Ali, há um pouco de tudo: animais, árvores de fruto, produtos hortícolas…

Chegados à quinta, veio logo ao nosso encontro a ti Maria, mulher roliça, de cabelo grisalho, tez queimada pelo sol do campo, avental florido sobre uma roupa acinzentada e tamancos de madeira. Os seus olhos doces estavam aflitos com a nossa demora e diziam que estávamos atrasados, que a vida do campo tem algumas regras, que era preciso fazer isto, fazer aquilo e mais aqueloutro… O ti Joaquim ria e dizia que o tempo no campo não é igual ao da cidade, que no campo há tempo para tudo e para mais alguma coisa. Nós seguíamo-los apressados e com vontade de ajudar no que fosse preciso.

A minha filha foi tratar dos coelhos, dos patos, das galinhas e, claro, brincar com os pintainhos. O meu marido ficou incumbido de ajudar o ti Joaquim a tratar dos animais de maior porte: porcos, vacas, cabras e ovelhas… Primeiro cortaram beterrabas, abóboras, frutos (caídos das árvores), couves, ou seja, prepararam uma gostosa lavadura para os porquinhos que já estavam a dar sinal de alguma impaciência.

Eu peguei na máquina fotográfica para tirar algumas fotografias, mas logo a ti Maria me disse que tinha de lhe dar uma mãozinha na cozinha, pois era preciso preparar o jantar para todos. E foi um corrupio: descascar batatas, cenouras, cabeças de nabo; preparar hortaliça; lavar e salgar carnes… Andávamos numa roda-viva, quando entrou pela porta a dentro o ti Manuel com um coelho bravo que tinha atropelado sem querer. Era preciso prepará-lo para petiscarmos antes do jantar. A minha filha, muito desgostosa, dizia “coitadinho” e o ti Manuel:

- Não se diz isso, menina, os animais servem para nós comermos.

Entretanto, pusemos a mesa e chegaram os outros trabalhadores com as famílias: a ti Alice, o ti João, o ti Zé, a ti Almerinda, a ti Celeste. Ah, e o ti Manuel, que chegara antes dos outros com o petisco atropelado, juntou-se a nós depois de fritar o coelhinho. O pitéu foi dividido por onze pessoas, não dez, porque a minha filha não quis comer “o pobre animal que teve o azar de ser atropelado e, ainda por cima, ainda ia ser comido, coitado!”.

As travessas giravam, passavam de mão em mão, os copos ora cheios ora vazios tilintavam, as conversas corriam, as anedotas sucediam-se e, de repente, o ti Joaquim lembrou-se da conversa inacabada.

- Ó ti Joaquim, mas o senhor deu logo a resposta – dissemos a rir.

- Então digam-me o que é a “Feira da Lada” – desafiou o ti Joaquim com aquele olhar maroto de quem sabe mais do que diz.

- Não quererá dizer Feira da Ladra? – perguntou a minha filha, desconfiada.

- Vá lá, digam logo que não sabem – falou a ti Alice a rir – se não ele não descansa.

- Ó ti Joaquim, não me diga que a Feira da Ladra, antigamente se chamava “Feira da Lada”? – indaguei curiosa e divertida.

- Às tantas era feita à beira do rio Tejo – arriscou o meu marido.

- Em Lisboa, há muito tempo, apareceu, na zona ribeirinha, a “Feira da Lada”, junto ao rio Tejo, na margem “lada” do Tejo. Depois essa feira passou por muitos outros locais e hoje realiza-se no «Campo de Santa Clara» todas as semanas, às terças-feiras e sábados… E como aí se compravam coisas muito baratas, o povo começou a pensar que aquilo que lá se vendia era roubado…

- Pronto, ti Joaquim, já percebi tudo – disse a ti Almerinda – o povo começou a dizer Feira da Ladra em vez de “Feira da Lada”.

- Foi isso mesmo – assentiu o ti Joaquim com os olhos mais brilhantes do mundo.

- Ó ti Joaquim, não me diga que também leu isso no livro que o senhor padre lhe deu? – inquiriu, brincalhão, o ti Manuel.






A Mena na cozinha

Coelho bravo frito

1 coelho bravo
sal
vinho
alhos
louro
carqueja
azeite

Prepare o coelho, tirando as tripas e a pele, e corte-o em pedaços pequenos. Tempere-o com sal e ponha-o em vinha de alhos durante uma hora: lamine os alhos, junte uma folha de louro e um pouco de carqueja e regue com um pouco de vinho.

Coloque uma frigideira ao lume com azeite. Escorra o coelho e ponha-o a fritar juntamente com os alhos. Quando estiver bem fritinho, sirva-o com pãozinho caseiro.
Bom petisco!




Trabalhinho:





quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Aves de arribação



Os nossos olhos estenderam-se pela plana e extensa terra húmida e deslumbraram-se com a beleza daquela paisagem molhada que se estendia a perder de vista para Sul, entre a pequena montanha e a aldeia. Ficámos entusiasmados com o número de aves que sobrevoavam aquela superfície alagada: algumas pareciam tocar as nuvens, lá no alto; outras pairavam, baixinho, junto à água à procura de alimento. Os cantares, os sons variadíssimos, enchiam-nos os ouvidos de longas e doces toadas.

Fechei os olhos e respirei fundo. O lugar era perfeito, lindo, verde, aguado… Mil perfumes brotavam daquela terra encharcada, daquelas plantas submersas...

A voz do ti Joaquim pareceu vir de muito, muito longe:

- Há aves que têm aqui o seu habitat permanente, outras vêm de longe para nidificar. Estas últimas são as aves de arribação.

- Aves de arribação! – exclamámos.

- O que quer dizer arribação? – perguntou-me a minha filha, curiosa.

- Ora bem, deixa-me ver, deve ter a ver com o étimo latino “ripa” que significa riba, margem elevada junto ao rio e também elevação que sustém as águas do mar!

- O latim ajuda muito! Não é, senhora professora? – disse o ti Joaquim.

- A minha mãe, quando quer saber o significado de alguma palavra, recorre sempre ao latim – explicou a minha filha, perguntando, logo de seguida:

- Os montes de Salir são, então, ribas?

- Pois são – concordou o ti Joaquim - e as aves vêm de muito longe, sobrevoam o mar e alcançam as ribas, daí o nome de aves de arribação.

- Ó mãe, e ribeiro também vem de “ripa”?

- Deve vir – atirou o ti Joaquim, olhando para mim - o ribeiro é um pequeno curso de água que vai dar, por exemplo, a um rio. O ribeiro não corre de muito longe, o seu curso ocorre perto da riba.

- Sim. A palavra ribeiro vem de riparium (de ripa) > ripairo > ribeiro – expliquei.

- Mas eu sei uma coisa que se calhar vocês não sabem. Nem mesmo a senhora professora! – exclamou o ti Joaquim com um sorrizinho atrevido nos lábios grossos e queimados do sol.

- Diga lá, então.

- Sabem como se chama a água que, junto da margem de um rio, tem pouca profundidade? – perguntou divertido.

Nem nos deixou responder, tal era a sua vontade de mostrar o que sabia.

- Lada.

- Lada?

- Bem, tenho de ir tratar dos animais – afastou-se a rir – ao jantar falamos nisso.

Seguimos o ti Joaquim com os olhos cheios da beleza daquele local lindíssimo, paradisíaco. As conversas, os passeios, os petiscos… o ti Joaquim queria que as nossas férias fossem perfeitas. Toda a gente vai para o Algarve, para a praia, mas eu vou mostrar-vos que podem ter umas férias magníficas aqui comigo, com as gentes da aldeia, dissera-nos.



Foto de Pyconotus






A Mena na cozinha


Delícia de ananás


1 embalagem de gelatina de ananás

ananás

2 dl de natas

água


Abra a lata de ananás e corte algumas rodelas em pedaço pequenos.
Prepare um dos pacotes de gelatina com 4 dl de água a ferver e junte as natas. Mexa bem. Adicione o ananás, misture bem, coloque numa forma e leve ao frigorífico.
Prepare a outra gelatina, conforme as indicações da embalagem, e leve ao frigorífico num tabuleiro.
Quando a gelatina com o ananás estiver solidificada, desenforme-a e reserve-a. Corte a segunda gelatina, com uma faca, em quadradinhos pequenos e, com ela, enfeite a gelatina reservada.

Delicie-se e refresque-se!



Trabalhinho: