sábado, 10 de fevereiro de 2018

D. Caio

D. Caio

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Era um alfaiate muito poltrão, que estava trabalhando à porta da rua; como ele tinha medo de tudo, o seu gosto era fingir de valente. Vai de uma vez viu muitas moscas juntas e de uma pancada matou sete. Daqui em diante não fazia senão gabar-se:
– Eu cá mato sete de uma vez!
Ora o rei andava muito aparvalhado, porque lhe tinha morrido na guerra o seu general Dom Caio que era o maior valente que havia, e as tropas do inimigo já vinham contra ele, porque sabiam que não tinha quem mandasse a combatê-las. Os que ouviram o alfaiate andar a dizer por toda a parte: “Eu cá mato sete de uma vez!” foram logo metê-lo no bico ao rei, que se lembrou de que quem era assim tão valente seria capaz de ocupar o posto de Dom Caio. Veio o alfaiate à presença do rei, que lhe perguntou:
– É verdade que matas sete de uma vez?
– Saberá vossa majestade que sim.
– Então nesse caso vais comandar as minhas tropas, e atacar os inimigos que já me estão cercando.
Mandou vir o fardamento de Dom Caio e fê-lo vestir ao alfaiate, que era muito baixinho, e que ficou com o chapéu de bicos enterrado até às orelhas; depois disse que trouxessem o cavalo branco de Dom Caio para o alfaiate montar. Ajudaram-no a subir para o cavalo, e ele já estava a tremer como varas verdes, assim que o cavalo sentiu as esporas botou à desfilada, e o alfaiate a gritar:
– Eu caio, eu caio!
Todos os que o ouviam por onde ele passava, diziam:
– Ele agora diz que é o Dom Caio; já temos homem.
O cavalo que andava costumado às escaramuças, correu para o sítio em que andava a guerreia, e o alfaiate com medo de cair ia agarrado às crinas, a gritar como desesperado:
– Eu caio, eu caio!
O inimigo assim que viu vir o cavalo branco do general valente, e ouviu o grito: “Eu caio, eu caio!” conheceu o perigo em que estava, e disseram os soldados uns para os outros:
– Estamos perdidos, que lá vem o Dom Caio; lá vem o Dom Caio.
E botaram a fugir em debandada; os soldados do rei foram-lhe no encalço e mataram neles, e o alfaiate ganhou assim a batalha só em agarrar-se ao pescoço do cavalo e em gritar: “Eu caio.” O rei ficou muito contente com ele, e em paga da vitória deu-lhe a princesa em casamento, e ninguém fazia senão louvar o sucessor de Dom Caio pela sua coragem.


(Porto.)


In Contos Tradicionais do Povo Português, Teófilo Braga, Texto Editores


sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018

Saca Rolhas Wine Bar - Serra D' el Rei


Aqui fica uma pequena amostra do que se pode degustar neste acolhedor restaurante familiar. Comida da mais alta qualidade. Produtos fresquíssimos. Petiscos MUITO BONS! Bons vinhos. Proprietários simpaticíssimos. 
RECOMENDAMOS E VAMOS VOLTAR!














quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

Sábios como camelos



Sábios como Camelos
de José Eduardo Agualusa



Há muitos anos viveu na Pérsia um grão-vizir - nome dado naquela época aos chefes dos governos - que gostava imenso de ler. Sempre que tinha de viajar ele levava consigo quatrocentos camelos, carregados de livros, e treinados para caminhar em ordem alfabética. O primeiro camelo chamava-se Aba, o segundo Baal, e assim por diante, até ao último, que atendia pelo nome de Zuzá. Era uma verdadeira biblioteca sobre patas. Quando lhe apetecia ler um livro o grão-vizir mandava parar a caravana e ia de camelo em camelo, não descansando antes de encontrar o título certo.
Um dia a caravana perdeu-se no deserto. Os quatrocentos camelos caminhavam em fila, uns atrás dos outros, como um carreirinho de formigas. À frente da cáfila, que é como se chama uma fila de camelos, seguiam o grão-vizir e os seus ministros. Subitamente o céu escureceu, e um vento áspero começou a soprar de leste, cada vez mais forte. As dunas moviam-se como se estivessem vivas. O vento, carregado de areia, magoava a pele. O grão-vizir mandou que os camelos se juntassem todos, formando um círculo. Mas era demasiado tarde. O uivo do vento abafava as ordens. A areia entrava pela roupa, enfiava-se pelos cabelos, e as pessoas tinham de tapar os olhos para não ficarem cegas. Aquilo durou a tarde inteira. Veio a noite e quando o Sol nasceu o grão-vizir olhou em redor e não foi capaz de descobrir um único dos quatrocentos camelos. Pensou, com horror, que talvez eles tivessem ficado enterrados na areia. Não conseguiu imaginar como seria a vida, dali para a frente, sem um só livro para ler. Regressou muito triste ao seu palácio. Quem lhe contaria histórias?
Os camelos, porém, não tinham morrido. Presos uns aos outros por cordas, e conduzidos por um jovem pastor, haviam sido arrastados pela tempestade de areia até uma região remota do deserto. Durante muito tempo caminharam sem rumo, aos círculos, tentando encontrar uma referência qualquer, um sinal, que os voltasse a colocar no caminho certo. Por toda a parte era só areia, areia, e o ar seco e quente. À noite as estrelas quase se podiam tocar com os dedos.
Ao fim de quinze dias, vendo que os camelos iam morrer de fome, o jovem pastor deu-lhes alguns livros a comer. Comeram primeiro os livros transportados por Aba, ou seja, todos os títulos começados pela letra A. No dia seguinte comeram os livros de Baal. Trezentos e noventa e oito dias depois, quando tinham terminado de comer os livros de Zuzá, viram avançar ao seu encontro um grupo de homens. Eram as tropas do grão-vizir.
Conduzido à presença do grão-vizir o jovem guardador de camelos, explicou- lhe, chorando, o que tinha acontecido. Mas este não se comoveu:
- Eras tu o responsável pelos livros - disse -, assim por cada livro destruído passarás um dia na prisão.

O guardador de camelos fez contas de cabeça, rapidamente, e percebeu que seriam muitos dias. Cada camelo carregava quatrocentos livros, então quatrocentos camelos transportavam cento e sessenta mil! Cento e sessenta mil dias são quatrocentos e quarenta e quatro anos. Muito antes disso morreria de velhice na cadeia.
Dois soldados amarraram-lhe os braços atrás das costas. Já se preparavam para o levar preso, quando Aba, o camelo, se adiantou uns passos e pediu licença para falar:
- Não faças isso, meu senhor - disse Aba dirigindo-se ao grão-vizir - esse homem salvou-nos a vida.
O grão-vizir olhou para ele espantado:

- Meu Deus! O camelo fala!?
- Falo sim, meu senhor - Confirmou Aba, divertido, com o incrédulo silêncio dos homens.
- Os livros deram-nos a nós, camelos, a ciência da fala.

Explicou que, tendo comido os livros, os camelos haviam adquirido não apenas a capacidade de falar, mas também o conhecimento que estava em cada livro. Lentamente enumerou de A a Z os títulos que ele, Aba, sabia de cor. Cada camelo conhecia de memória quatrocentos títulos.
- Liberta esse homem - disse Aba -, e sempre que assim o desejares nós viremos até ao vosso palácio para contar histórias.
O grão-vizir concordou. Assim, a partir daquele dia, todas as tardes, um camelo subia até ao seu quarto para lhe contar uma história. Na Pérsia, naquela época, era habitual dizer-se de alguém que mostrasse grande inteligência:
- Aquele homem é sábio como um camelo.
Isto foi há muito tempo. Mas há quem diga que, quando estão sozinhos, os camelos ainda conversam entre si.

Pode ser! 


1. O grão-vizir gostava muito de ler. Como organizou a sua biblioteca ambulante?

2. Um dia a caravana perdeu-se no deserto.
2.1 Transcreve do texto uma expressão que identifique o elemento da Natureza que provocou esse incidente.

3. Indica os recursos estilísticos presentes nas seguintes frases:
«As dunas moviam-se como se estivessem vivas.»
«O uivo do vento abafava as ordens.»

4. O grão-vizir regressou muito triste ao seu palácio.
4.1 Qual a razão dessa tristeza?

5. O jovem pastor tomou conta dos camelos. Como resolveu ele o problema da alimentação dos animais?

6. O grão-vizir mostrou-se agradecido? Justifica.

7. Quem é que salvou o jovem pastor? Justifica.

8. Os camelos assumiram um novo papel no palácio do grão-vizir. Qual?

9. Como classificas o narrador quanto à sua participação na acção? Justifica a tua resposta.

10. Quais as personagens que intervêm na acção?

11. Identifica a personagem principal.

12. Procura, agora, as personagens secundárias. 

13. Dá exemplos de frases do texto para.
• Narração
• Diálogo
• Descrição

14. Consideras que esta história é real ou imaginária? Porquê?

15. Por que razão se considera que o texto «Sábios Como Camelos» é uma narrativa?

sábado, 3 de fevereiro de 2018

Bartolomeu Dias - O Capitão do Fim



A 3 de Fevereiro de 1488, Bartolomeu Dias dobra o Cabo das Tormentas, depois chamado da Boa Esperança
Bartolomeu Dias terá nascido cerca de 1450 e faleceu a 29 de Maio de 1500. 
O navegador português, ao serviço de D. João II, dobrou o Cabo Tormentoso ou das Tormentas, local que a partir de então passaria a ser conhecido por Cabo da Boa Esperança numa clara alusão ao facto de este ser o ponto de partida para se alcançar o oceano Índico a partir do oceano Atlântico e a todas as possibilidades, económicas e expansionistas, que isto encerrava na época.

A Bartolomeu Dias foi-lhe encomendada esta importante missão acima de tudo porque era um homem com um nível de formação que garantiam ao monarca uma percentagem bastante grande de possível êxito.
Assim, em finais de Agosto de 1487, Bartolomeu Dias larga de Lisboa ao mando de três embarcações, com rumo traçado em direcção ao Tormentoso com o objectivo de encontrar a tão ansiada passagem marítima para a Índia, afinal o propósito último que leva dom João II a empreender esta empresa.
A viagem, tal como Bartolomeu Dias teria oportunidade de relatar na primeira pessoa ao seu soberano, estaria cheia de sobressaltos e dificuldades, tornando a tarefa mais complicada do que se julgaria a princípio.
Finalmente, em 3 de Fevereiro de 1488, passados quase 6 meses desde a partida de Lisboa, a expedição alcança o seu objectivo.
Conta-se que, antes do regresso a casa, Bartolomeu Dias, observando por última vez o famoso cabo que tinha conseguido “dobrar”, terá dito “Tormentoso, mas porquê, se a tormenta já lá vai? Assinalas o caminho para a Índia, por isso vou chamar-te da Boa Esperança…”.
Em 1495 D. João II viria a morrer e subiria ao trono D. Manuel I, monarca que em 1497 empreende a busca pela Índia e entrega o comando da expedição a Vasco da Gama.
Bartolomeu Dias sai de Lisboa integrado na armada de Vasco da Gama, mas o seu destino não é a Índia, antes será São Jorge da Mina, local para onde D. Manuel I o destacara. Mais tarde regressará a Lisboa e em Março de 1500 está à frente de uma das naus da segunda armada portuguesa com rumo à Índia, liderada desta feita por Pedro Álvares Cabral.
Bartolomeu Dias iria, finalmente, cumprir o seu grande sonho: navegar até ao oriente através do caminho que ele próprio ajudara a abrir. A expedição de Pedro Álvares Cabral viria, nesta viagem e de forma acidental, a descobrir as primeiras terras a que mais tarde dariam o nome de Brasil. Outro marco significativo da história portuguesa no qual Bartolomeu Dias esteve envolvido.
Depois dos primeiros contactos com os nativos das novas terras descobertas, os portugueses rumam novamente para a Índia, o seu destino original, no início de Maio de 1500. No dia 23 do mesmo mês avistariam o Cabo da Boa Esperança e por essa altura uma tempestade de proporções gigantescas destrói e afunda 4 naus da armada, entre elas a de Bartolomeu Dias. Ironia do destino, o navegador encontra a morte no mesmo local que anos antes o tinha levado à glória.




"Epitáfio"- inscrição tumular.

"Jaz aqui na praia extrema o Capitão do Fim"- refere-se a Bartolomeu Dias, que descobriu o fim do Continente Africano (e limite austral do Mundo de então) e acabou por desaparecer num naufrágio ao largo do Cabo da Boa Esperança em 1500. Pessoa supõe o seu corpo dado à costa na praia extrema (mais a sul) de África.

"Dobrado o Assombro"- passado o cabo do medo; 

vencido o terror (aqui: dobrado o Cabo da Boa Esperança).

Atlas - um dos titãs, condenado por Zeus a carregar no ombro a esfera do firmamento. Aqui Pessoa põe o titã a mostrar, não a esfera celeste, mas a Terra redonda, de cuja esfericidade ainda se duvidava nos séculos XV e XVI.

Raízes



Uma vez um homem deitou-se, todo, em cima da terra. A areia lhe servia de almofada. Dormiu toda a manhã e quando se tentou levantar não conseguiu. Queria mexer a cabeça: não foi capaz. Chamou pela mulher e pediu-lhe ajuda.
— Veja o que me está a prender a cabeça.
A mulher espreitou por baixo da nuca do marido, puxou-lhe levemente pela testa. Em vão. O homem não desgrudava do chão.
— Então, mulher? Estou amarrado?
— Não, marido, você criou raízes.
— Raízes?
Já se juntavam as vizinhanças. E cada um pu­xava sentença. O homem, aborrecido, ordenou à esposa:
— Corta!
— Corta, o quê?
— Corta essa merda das raízes ou lá o que é...
A esposa puxou da faca e lançou o primeiro golpe. Mas logo parou.
— Dói-lhe?
— Quase nem. Porquê me pergunta?
— É porque está sair sangue.
Já ela, desistida, arrumara o facão. Ele, esgotado, pediu que alguém o destroncasse dali. Me ajudem, suplicou. Juntaram uns tantos, gentes da terra. Aquilo era assunto de camponês. Começaram a escavar o chão, em volta. Mas as raízes que saíam da cabeça desciam mais fundo que se podia imaginar. Covaram o tamanho de um homem e elas continuavam para o fundo. Escavaram mais que as fundações de uma montanha e não se vislumbrava o fim das radiculações.
— Me tirem daqui, gemia o homem, já noite.
Revesaram-se os homens, cada um com sua pá mais uma enxada. Retiraram toneladas de chão, vaza­ram a fundura de um buraco que nunca ninguém vira. E laborou-se semanas e meses. Mas as raízes não só não se extinguiam como se ramificavam em mais redes e novas radículas. Até que já um alguém, sabedor de planetas, disse:
— As raízes dessa cabeça dão a volta ao mundo.
E desistiram. Um por um se retiraram. A mulher, dia seguinte, chamou os sábios. Que iria ela fazer para desprender o homem da inteira terra? Pode-se tirar toda a terra, sacudir as remanascentes areias, disse um. Mas um outro argumentou: assim teríamos que transmudar o planeta todo inteiro, acumular um monte de terra do tamanho da terra. E o enraizado, o que que se faria dele e de todas suas raízes? Até que falou o mais velho e disse:
— A cabeça dele tem que ser transferida.
E para onde, santos deuses? Se entreolharam todos, aguardando pelo parecer do mais velho.
— Vamos plantar a cabeça dele lá!
E apontou para cima, para as celestiais alturas. Os outros devolveram a estranheza. Que queria o velho dizer?
— Lá, na lua.
E foi assim que, por estreia, um homem passou a andar com a cabeça na lua. Nesse dia nasceu o primeiro poeta.

(in Contos do Nascer da Terra, Caminho)

sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018

Adega do Albertino































Um espaço criado para bem-receber!
O Restaurante Adega do Albertino foi fundado pelo Sr. Albertino Catarino e pela sua esposa D. Fátima. Abriu as suas portas no dia 1 de Fevereiro de 1989, curiosamente na altura sem ainda um objectivo completamente definido: Café ou restaurante?  
No mesmo dia as coisas ficaram muito mais claras…
Desde 1989 que se dedicam à cozinha tradicional Portuguesa, com uma enorme atenção ao detalhe e à qualidade, quer seja na confecção dos  pratos quer seja na escolha dos melhores e mais frescos ingredientes.
A sala tem 88 lugares sentados e o restaurante está aberto todos os dias com excepção dos Domingos ao jantar e Segundas-Feiras.
Tem parque de estacionamento privativo e está situado bem perto da cidade de Caldas da Rainha, na localidade de Imaginário.

E o petisco de sexta-feira foi aqui! Tudo MUITO BOM! Atendimento 5*****
RECOMENDAMOS VIVAMENTE. O preço está de acordo com a qualidade do que é aqui servido.


domingo, 28 de janeiro de 2018

A Estrela


A ESTRELA 
Vergílio Ferreira

Um dia, à meia-noite, ele viu-a. Era a estrela mais gira do céu, muito viva, e a essa hora passava mesmo por cima da torre. Como é que a não tinham roubado? Ele próprio, Pedro, que era um miúdo, se a quisesse empalmar, era só deitar-lhe a mão. Na realidade, não sabia bem para quê. Era bonita, no céu preto, gostava de a ter. Talvez depois a pusesse no quarto, talvez a trouxesse ao peito. E daí, se calhar, talvez a viesse a dar à mãe para enfeitar o cabelo... Devia-lhe ficar bem, no cabelo.
De modo que, nessa noite, não aguentou. Meteu-se na cama como todos os dias, a mãe levou a luz, mas ele não dormiu. Foi difícil, porque o sono tinha muita força. Teve mesmo de se sentar na cama, sacudir a cabeça muitas vezes a dizer-lhe que não. E quando calculou que o pai e a mãe já dormiam, abriu a janela devagar e saltou para a rua. A janela era baixa. Mas mesmo que não fosse. Com sete anos, ele estava treinado a subir às oliveiras quando era o tempo dos ninhos, para ver os ovos ou aqueles bichos pelados, bem feios, com o bico enorme, muito aberto. E se não era o tempo dos ninhos, andava à solta pela serra, saltava os barrancos e jogava mesmo, quando preciso, à porrada como um homem. Assim que se viu na rua, desatou a correr pela aldeia fora até à torre, porque o medo vinha a correr também atrás dele. Mas como ia descalço, ele corria mais. A igreja ficava no cimo da aldeia e a aldeia ficava no cimo de um monte. De modo que era tudo a subir. Mas conseguiu - e agora estava ali. Olhou a estrela para ganhar coragem, ela brilhava, muito quieta, como se estivesse à sua espera. E de repente lembrou-se: se a porta estivesse fechada? Levantou-se logo, foi ver. A torre era muito alta e tinha uma porta para a rua. Pedra empurrou-a um pouco e viu que estava aberta. Ficou muito admirado, mas depois nem por isso. Ninguém ia roubar os sinos que mesmo eram muito pesados. E quanto às estrelas, se calhar ninguém se lembrava de que era fácil empalmá-las. E tão contente ficou de a porta estar aberta, que só depois se lembrou de a ter ouvido ranger. E então assustou-se. Voltou a experimentar e rangeu outra vez. Rangia pouco, mas o silêncio era muito e parecia por isso que também a porta rangia muito. E teve medo. Reparou mesmo que estava a suar e não devia ser da corrida, porque este suor era frio. A porta ficara já deslocada e agora era só encolher-se um pouco e passar. Mas sem tocar na porta, para não ranger. Meteu-se de lado e entrou. Havia um grande escuro lá dentro. Já calculava isso, mas as coisas são muito diferentes de quando só se calculam. E cheirava lá a ratos, a cera, às coisas velhas que apodrecem na sombra. Como estava escuro, pôs-se a andar às apalpadelas. Mas as pedras frias assustaram-no. Lembravam-lhe mortos ou coisas assim. Já com os pés não se assustava tanto, porque o frio que entrava por aí era só frio da falta de botas. Até que pisou o primeiro degrau e começou a subir. Cheirava mal que se fartava. Mas, à medida que ia subindo, vinha lá de cima um fresco que aclarava o cheiro. À última volta da escada em caracol, olhou ao alto o céu negro, muito liso. Via algumas estrelas, mas era tudo estrelas velhas e fora de mão. Até que chegou ao campanário e respirou fundo. Aproveitou mesmo para puxar as calças que estavam a cair. Eram dois sinos e uma sineta. E de um dos lados havia só um buraco vazio sem sino nenhum. Agora tinha de subir por uma escadinha estreita que começava ao lado; e depois ainda por uma outra de ferro, ao ar livre, e com o adro lá em baixo. Mas quando chegou à de ferro, não olhou. Deu foi uma olhadela à estrela, que já se via muito bem. Todavia, quando a escada acabou, reparou que lhe não chegava ainda com a mão. Tinha pois de subir o resto de gatas, dobrando e desdobrando as pernas como uma rã. Mesmo no cimo da tal torre havia uma bola de pedra e enterrado na bola havia um ferro e ao cimo do ferro estava um galo com os quatro pontos cardeais. Pedro segurou-se ao varão e viu que tinha ainda de subir até se pôr mesmo em cima do galo. Subiu devagar, que aquilo tremia muito, e empoleirou-se por fim nos ferros cruzados dos quatro ventos. Enroscando as pernas no varão, tinha agora os braços livres. E então ergueu a mão devagar. Os ferros balançavam, mas ele nem olhava lá para baixo. Fez força ainda nas pernas, apoiou-se na mão esquerda e com a outra, finalmente, despegou a estrela. Não estava muito pregada e saiu logo. Entalou-a então no cordel das calças, porque não tinha bolsos, e começou a descer. A chatice era se lhe caía e se partia lá em baixo. Mas não a levando entalada, só se a levasse nos dentes, o que podia dar em resultado parti-la à mesma. Porque precisava dos dentes para fazer força nos sítios mais difíceis. Em todo o caso, com jeito, lá conseguiu. E assim que pôs pé em terra, largou para casa, mas não muito depressa. Apetecia-lhe mesmo parar de vez em quando e olhar a estrela com uma atenção especial. Era formidável. Lembrava um pirilampo, mas muito maior. Oh, muito maior. E de outro feitio, já se vê. A certa altura, voltou-se para trás e olhou ao alto o sítio donde a despegara, como se para ver se realmente já lá não estava. E não. O que lá estava agora era um buraco escuro, por sinal bem feio. Lembrava-lhe a boca dele quando lhe caiu um dente, mas não sabia bem porquê. Quando por fim chegou a casa, trepou à janela que deixara aberta e meteu-se na cama. Esteve ainda algum tempo com a estrela na mão, mas não muito, porque já não podia mais, arrombado de sono. De modo que guardou a estrela numa caixa e adormeceu.
No dia seguinte acordou tarde. A mãe estranhou aquele sono demorado, mas não muito, porque quem passava os dias no retoiço era natural que uma vez por outra pegasse no sono com vontade. Mas a certa altura Pedro começou aos berros. Como tinha o berro forte, capaz de ir de monte a monte, a mãe ouviu logo. Veio então a correr muito aflita, sem fazer ideia do que fosse, e perguntou-lhe o que tinha. E ele, que estava fora de si, ou mesmo ainda com sono, disse assim:
- Roubaram-ma! Roubaram-ma!
E a mãe, naturalmente, perguntou o que é que lhe tinham roubado. Mas ele aqui calou-se. A mãe cuidou que seriam restos de sonho e não ligou. Disse só:
- Vê é se tiras o cu do ninho que já são horas.
Mas não tinha sido um sonho, não. O que aconteceu foi que, logo de manhã, assim que acordou, abriu a caixa para ver a estrela e a estrela não estava lá. Ou por outra, estava lá, mas não era a mesma, era assim como uma estrela de lata. E então pensou que lha tinham trocado para pensar qualquer coisa, porque aquilo, realmente, não era coisa que se pensasse. É claro que brilhava um pouco. Mas toda a estrela de lata brilha. O que é, só de dia, quando lhe bate o sol. E mesmo assim, não muito. Que afinal, com sol todas as coisas brilham com o brilho que é do Sol e não dessas coisas. E a estrela brilhava com um brilho só dela. Mas nada disse à mãe do que se passara, porque a mãe com certeza respondia-lhe com uma sova. E muito menos ao pai, que arreava ainda muito duro. De forma que se calou. Passou assim o dia muito quieto e portanto muito triste, porque quando se está alegre a gente mexe-se sempre bastante. A mãe punha-lhe o comer diante e ele mal lhe tocava. Então ela começou a preocupar-se e perguntou:
- Mas que é que tu tens, meu filho? Estarás doente?
Ele, muito sério, disse que não, só com a cabeça.
Já o pai tinha outras ideias. Como o rapaz fora sempre rijo que nem um cabrito, aquilo tinha era feito alguma malhoada que lhe não correra bem. E disse:
- Ou tramaste alguma ou estás para a tramar.
Pedro ficou muito corado, com o sinal à vista de que fizera uma das dele, e pôs-se a comer à pressa para parecer que não.
Mas à noite, quando a mãe o deitou e levou a luz, aconteceu uma coisa extraordinária. A mãe dissera-lhe que dormisse, mas ele não tinha sono. E como não tinha sono, cansado de dar voltas, pôs-se para ali de olhos abertos. Então reparou que de baixo da cama vinha uma luz que se estendia pelo soalho. A princípio assus- tou-se, mas antes de se assustar muito e de dar algum berro, lembrou-se do que poderia ser. E, com efeito, quando puxou a caixa, que ficara com a tampa mal fechada, e a abriu, a estrela brilhava como quando a fora apanhar. Tirou-a devagar e todo o quarto ficou cheio da sua luz. Esteve assim algum tempo com ela nas mãos até que os olhos lhe começaram a arder com sono e a guardou outra vez na caixa. Mas no dia seguinte, assim que acordou, foi logo ver se ainda lá estava. Ela estava lá, realmente. Mas não deitava luz nenhuma. Apagada, mesmo com alguma ferrugem em certos sítios - para que queria ele aquilo? Mais bonita era até uma estrela do presépio ou uma estrela dos andores, ou uma feita da prata dos chocolates que às vezes achava na rua. Suara que se fartara, apanhara frio, tivera mesmo a sua ponta de cagaço para aquela porcaria. Que era mesmo uma porcaria. Vezes sem conta foi espreitar a estrela à caixa pelo dia adiante, a ver se ela se resolvia a parecer-se com o que devia ser. Mas nada. Cada vez mais miserável e ferrugenta. Até que à noite
se deitou e a mãe veio buscar a luz. Então tirou a caixa de baixo da cama e qual não foi o seu espanto quando viu pelas taliscas uma luzinha a brilhar. Tirou a tampa e foi logo um luar aberto pelo quarto. Ficou muito contente, como é de ver. Mas logo depois ficou triste porque a estrela só tinha luz quando ele tinha sono.
Aconteceu então que no dia seguinte se levantou na aldeia um burburinho que nem quando dois homens discutem à facada. Foi o caso que um velho bastante velho, e que mal se podia já mexer, começou a berrar da varanda coisas que se não percebiam. As pessoas queriam entender, mas a voz do velho esganiçava-se ou saía muito enrodilhada de cuspo ou às vezes, com a estafa, nem mesmo saía. Foi até preciso que o Cigarra, que era um tipo que tocava viola, subisse à varanda, encostasse o ouvido à boca do velho para perceber. E quando percebeu, largou ele também um berro que nem uma trovoada:
- Roubaram a estrela!
Que estrela? As pessoas que estavam em baixo ficaram parvas a olharem umas para as outras, ver se alguém tinha entendido. Mas ninguém sabia de nada e o Cigarra também não explicava, muito encarnado, muito furioso, com os dois braços no ar.
- Bandidos! - dizia ele. - Ladrões! Há-de-se saber quem foi o filho da mãe que é para malhar ali com o coirão na cadeia!

Pedro, que também lá estava, ouviu a coisa e foi-se raspando. Quando de longe olhou para trás, o Cigarra ainda continuava a falar. Mas desandou, que aquilo estava a aquecer. Conhecia muito bem o velho, que gostava dele e o chamava mesmo às vezes da varanda quando o via passar, para o meter na conversa. Dava-lhe berlindes, aguçara-lhe mesmo ainda há poucos dias o bico do pião para escachar o do Rui que era seu vizinho e lhe rachara o dele de meio a meio. Mas do que Pedro mais gostava era de histórias e o velho sabia muitas. A bem dizer, ele sabia apenas umas três ou quatro; mas Pedro gostava tanto, que se não aborrecia de as ouvir outra vez e era assim como se fossem muitas. Tinha olhos bons, o velho. Um pouco amachucados da velhice, mas bons. E Pedro gostava dele. Ninguém tinha dado conta do roubo a não ser ele, porque as pessoas, como tinham de trabalhar, quando era a altura de as estrelas acordarem, era também a altura de elas estarem a dormir. E mesmo que não estivessem ainda a dormir, não tinham tempo de reparar nas estrelas, porque tinham de reparar noutras coisas. Mas o velho não podia já trabalhar e também não tinha sono. De maneira que, para ir passando a noite, que levava mais tempo a passar do que o dia, gostava às vezes de se pôr a olhar as estrelas. E foi assim que deu conta do roubo. É claro que ninguém gosta de que lhe limpem o que é seu. Mas, a bem dizer, a vida era tanta, que estrela a mais ou estrela a menos pouca diferença fazia. E o Sr. António Governo, que era muito importante lá na aldeia por ser muito rico e gostava de ser popular até onde, evidentemente, a coisa não metesse chatices, pôs-se logo ao lado da opinião de toda a gente e chegou mesmo a dizer:
- Olha eu agora a ralar-me por causa de uma estrela. O que mais falta são estrelas. Por mim podiam levá-las todas que não perdia o sono.
Mas aqui o Cigarra bateu o pé, que por sinal era bem grande:
- Isso é que não, Senhor Governo. Agora uma estrela. Isso é que não. As estrelas enfeitam; toda a gente sabe que enfeitam. E roubarem logo a mais bonita. Podiam roubar outra, uma, digamos, de segunda, já mais gasta. Mas não senhor, logo a melhor. Isto não pode ficar assim.

E tais coisas disse o Cigarra, e tão arreliado, que muita gente, pouco a pouco, começou a pôr-se ao lado dele. Porque uma arrelia assim tinha de ter alguma razão. A mãe do Pedro, a bem dizer, tanto se lhe dava como se lhe deu que tivessem levado a estrela. À primeira, porque havia muitas e queixar-se alguém assim era como se se queixasse de lhe roubarem uma azeitona. A segunda, porque só as olhava no Verão, quando vinha para a porta a tomar um pouco de ar. Ou nem as olhava, já tinha visto, não era preciso ver outra vez. Quanto ao pai até se ria - estaria tudo maluco? Tinham roubado a mula ao Roda Vinte e Seis, tinham roubado a galinha ao Pingo de Cera que só tinha uma e andava sempre à coca a ver quando ela punha o ovo, tinham roubado um caldeiro de bosta de boi à Raque-Traque que a andara a apanhar pelas ruas uma semana inteira para estrumar as couves - e ninguém fizera assim um banzé. Mas como não gramava o Governo por ter muita proa e sobretudo razão para a ter, e como por outro lado devia favores ao velho que até fora padrinho da mãe, lá ia perguntando também quem teria sido o sacana que empalmara a estrela. Como durante a ceia volta não volta as conversas iam dar sempre ao mesmo, o Pedro fazia que não ouvia, muito encavacado, comendo depressa para se raspar logo para a cama. Mas nem tocava na caixa, que se o pai ou a mãe descobrisse, estava cosido. Até que o roubo foi esquecendo como tudo tem de esquecer para se lembrarem outras coisas. E quando isso aconteceu, voltou a abrir a caixa, mas só por um bocadinho, não fosse o diabo tecê-las.
Ora certa noite, e já depois de se ter deitado, a mãe lembrou-se de que se calhar não tinha deixado o lume bem acondicionado para não pegar fogo. Naturalmente não o apagava de todo para não ter de ir pedi-lo à vizinha, a Pitapota, que fazia sempre um escarcéu medonho como se lhe estivesse a pedir a alma. Eis senão quando, ao passar ao quarto do filho, viu por debaixo da porta uma risca de luz. Ficou arreliadíssima, como é de ver, com medo de que o filho deitasse fogo à casa. Mas nem tugiu. Queria era apanhá-lo com a boca na botija e mesmo descobrir como é que ele tinha feito lume. Abriu, pois, só uma talisca da porta e espreitou. E então ficou de boca aberta: sentado na cama, o filho tinha a estrela nas mãos. A cara estava toda alumiada, e as mãos era como se tivessem lume por dentro. A mãe nem queria acreditar. Mas depois de se ter admirado, foi-se a ele numa fúria e deitou-lhe a mão à estrela. Mas aqui deu um grito tão alto que o pai acordou. Veio a correr ao quarto do filho e quando chegou já estavam a chorar os dois. Pedro chorava não sabia porquê nem sabia que não sabia, porque ninguém lhe tinha ainda perguntado. Mas a mãe sabia. A mãe tinha gritado, por- que ficara com a mão toda queimada. Atirara logo a estrela, ela caíra no chão. Mas não se tinha partido e alumiava o quarto todo. A mãe continuava a gritar, talvez um pouco mais do que era preciso, segurando a mão queimada com a outra. Até que o pai deu um berro para acabar com aquele chinfrim, que podia acudir a vizinhança. E disse apenas:
- Põe-lhe vinagre. Ata a mão com sal. E quanto a nós, amanhã falamos.
Mas no outro dia quem falou foi a freguesia inteira.
E a primeira coisa que disse foi que era indecente quererem fazer pouco das pessoas. Porque toda a gente via que a estrela não era aquela. Chamou-se mesmo o latoeiro para dar uma opinião e ele também disse. Não era bem de lata mas de outra coisa esquisita que ele sabia. Agora uma estrela, o que se chamasse uma estrela, toda a gente via que não. E brincar com o parceiro, só no Entrudo. E logo toda a gente que ainda não tinha descoberto que brincar com um parceiro só no Entrudo, começou também a dizer que brincar com um parceiro só no Entrudo. Então Pedro, já assustado e a choramingar, explicou:
- Só à noite é que é! Só à noite.
E só à noite é que foi. O Governo, que era homem de leituras, chegou mesmo a explicar com paciência àqueles brutos que as estrelas, evidentemente, só à noite é que era. Mesmo só à meia-noite é que se podia saber o sítio daquela. De modo que à meia-noite juntou-se a aldeia no adro. E como o António Governo gostava de dar bons exemplos, chamou o filho para ser um homem e ir ele próprio em pessoa pôr a estrela no seu lugar. E o filho chamou o Pananão, que lhe cultivava umas sortes, para ir buscar duas escadas à loja. Pedro tinha a estrela nas mãos, o Pananão foi buscar as escadas. Quando voltou com elas, uma em cada 
ombro, o filho do Governo, ou porque não acreditasse nessa história da queimadura, ou porque se esquecera já dessa história, ou porque estava com pressa de ser homem, deitou a mão à estrela. Mas logo largou um urro, enquanto largava também a estrela, porque aquilo queimava que nem o fogo do inferno. Pedro apanhou logo a estrela a ver se se tinha partido. Foi quando o pai dele se adiantou com um braço no ar a pedir silêncio a toda a gente. E toda a gente lhe deu o silêncio que ele pedia. Então ele disse:
- O meu filho é que tirou a estrela, o meu filho é que a deve lá ir pôr.
Toda a aldeia achou bem. Que aquilo é que era um pai. Que aquilo é que sim. Pedro ia ouvindo tudo sem ter opiniões, que também lhe não pediam. E muito calmo, com a estrela nas mãos, meteu pela porta da torre. As pessoas esperaram algum tempo que ele aparecesse lá no alto da torre. E ele apareceu finalmente, a estrela brilhando ainda mais entre os sinos como se houvesse lá uma fogueira. As escadas do Governo estavam já encostadas no seu lugar para uma subida mais fácil. Mas Pedro, quando toda a gente supunha que ele ia meter por elas, desapareceu pela escadinha interior que ia dar à de ferro que ficava de fora. O pai ainda lhe berrou cá de baixo:
- Agarra-te às escadas! Não vás por aí! Sobe pelas escadas!
Mas ele nem olhou e logo desapareceu. Em baixo, todos esperavam em silêncio. E ele voltou enfim a apa- recer com a estrela entalada na cintura e que mesmo assim iluminava todo o largo. Muito ligeiro, subiu até ao varão de ferro. Mas faltava subir até ao galo e aos quatro pontos cardeais. O pai fazia força cá de baixo, toda a gente ia empurrando também, menos a mãe que nem queria ver e tapava mesmo os olhos, lembrando apenas aos santos das suas relações que era a altura de fazerem alguma coisa. E eles fizeram. Pedro, com efeito, rapidamente trepava pelo varão de ferro até ao galo e se encavalitava por cima do Norte-Sul-Este- Oeste. E, devagar, tirou a estrela do cinto. Era linda, brilhava no ar. E então, com jeito, segurando-a na mão, pô-la outra vez no seu lugar. Toda a gente estava a rebentar, sem poder dizer nada. De modo que, ao verem a estrela finalmente no seu sítio, largaram todos o «ah» que competia mas que saiu como um urro, com a força toda que tinham entalada na garganta. Nem mesmo repararam que assim que foi posta no seu lugar, a estrela começou logo a brilhar menos, embora brilhasse muito. E ou fosse porque o «ah» teve força a mais e o assustou ou porque não fincou bem os pés no varão de ferro, Pedro escorregou por ele abaixo até à bola de pedra. E então desequilibrou-se, e, de braços abertos, veio pelo ar estampar-se cá em baixo contra as pedras do adro.

Toda a gente chorou a sua morte. E o Cigarra, que andou de luto um ano inteiro, fez mesmo uns versos sobre ele para os cantar depois à viola. Já passaram muitos anos e ainda hoje se cantam. A estrela ainda lá está. Toda a gente a conhece. 

Vergílio Ferreira - 102 anos



A 28 de Janeiro de 1916, nasce o escritor Vergílio Ferreira
Romancista e ensaísta português, natural de Melo (Gouveia), nasceu a 28 de Janeiro de 1916 e morreu a 1 de Março de 1996, em Lisboa. Estudou no Seminário do Fundão, entre 1926 e 1932, vindo a abandoná-lo para completar os estudos liceais. Licenciou-se em Filologia Clássica na Universidade de Coimbra onde, durante a segunda metade dos anos trinta, tomaria contacto com um neorrealismo emergente, formado, entre outras influências, na leitura de romancistas brasileiros. Foi professor do ensino liceal, em Évora (1945-1958) e em Lisboa (desde 1959 e até à aposentação). Notabilizou-se no domínio da prosa ficcional, sendo um dos maiores romancistas portugueses deste século.