Guerra Junqueiro
(1850 - 1923)
(António Aleixo)
Bem-Vindos a este espaço! Aqui encontrarão retalhos da vida de uma mulher... Retalhos, porque a minha vida é isso mesmo... é composta por mil pedacinhos que se vão tecendo e juntando para construir uma teia, umas vezes mais colorida... outras mais sombria... Mas no fim, tudo se conjuga harmoniosamente...
Minha mãe
Minha mãe, minha mãe!
Ai que saudade imensa
do tempo em que ajoelhava,
orando ao pé de ti.
Caía mansa a noite;
e andorinhas aos pares
Cruzavam-se, voando
em torno dos seus lares,
suspensos do beiral
da casa onde eu nasci.
Era a hora em que já sobre o feno das eiras
dormia quieto e manso o impávido lebreu.
Vinham-nos da montanha as canções das ceifeiras,
e a lua branca, além, por entre as oliveiras,
como a alma dum justo, ia em triunfo ao Céu.
E, mãos postas, ao pé do altar do teu regaço
vendo a lua subir, muda, alumiando o espaço
eu balbuciava minha infantil oração,
pedindo ao Deus que está no azul do firmamento
que mandasse um alívio a cada sofrimento,
que mandasse uma estrela a cada escuridão.
Vejam o que me enviaram por correio electrónico! Achei tão engraçado que decidi partilhar convosco!
Tudo o que sempre precisei saber, aprendi com a minha mãe. E com tudo isso estou vivo até hoje. A educação hoje em dia é bem diferente!
Minha mãe me ensinou a valorizar o sorriso.
“ME RESPONDE DE NOVO E EU TE ARREBENTO OS DENTES!”
“EU TE AJEITO NEM QUE SEJA À PANCADA!”
Minha mãe me ensinou a DAR VALOR AO TRABALHO DOS OUTROS.
“SE VOCÊ E SEU IRMÃO QUEREM SE MATAR, VÃO LÁ PRA FORA. ACABEI DE LIMPAR A CASA!”
Minha mãe me ensinou LÓGICA E HIERARQUIA.
“PORQUE EU DIGO QUE É ASSIM! PONTO FINAL! QUEM É QUE MANDA AQUI?”
Minha mãe me ensinou o que é MOTIVAÇÃO.
“CONTINUA CHORANDO QUE EU VOU TE DAR UMA RAZÃO VERDADEIRA PARA VOCÊ CHORAR!”
Minha mãe me ensinou a CONTRADIÇÃO.
” FECHA A BOCA E COME!”
Minha Mãe me ensinou sobre ANTECIPAÇÃO.
“ESPERA SÓ ATÉ SEU PAI CHEGAR EM CASA!”
Minha Mãe me ensinou sobre PACIÊNCIA.
“CALMA! … QUANDO CHEGARMOS EM CASA VOCÊ VAI VER SÓ…”
Minha Mãe me ensinou a ENFRENTAR OS DESAFIOS.
“OLHE PARA MIM! ME RESPONDA QUANDO EU TE FIZER UMA PERGUNTA!”
Bolo de chocolate
200g de chocolate negro (70% de cacau)
O 25 de Abril
(explicado pela M.)
O povo português fez este golpe de estado, porque não estava contente com o governo de Marcelo Caetano, que seguiu a política de Salazar (o Estado Novo), que era uma ditadura, uma forma de governo sem liberdade que durou cerca de 48 anos.
Enquanto os outros países da Europa avançavam e progrediam em democracia, o regime português mantinha o nosso país atrasado e fechado a novas ideias.
Todos os homens eram obrigados a ir à tropa (na altura estava a acontecer a Guerra Colonial) e a censura, conhecida como "lápis azul", é que escolhia o que as pessoas liam, viam e ouviam nos jornais, na rádio e na televisão.
Antes do 25 de Abril, todos se mostravam descontentes, mas não podiam dizê-lo abertamente (podiam ir presos) e as manifestações dos estudantes deram muitas preocupações ao governo. Os estudantes queriam que todos pudessem aceder igualmente ao ensino, (na altura a escola só era obrigatória até à 4ª classe), à liberdade de expressão e queriam também o fim da Guerra Colonial, que consideravam inútil.
Os países estrangeiros, que no início apoiavam Salazar e a sua política, começaram a fazer pressão contra Portugal. Por isso, o governante dizia que o nosso País estava "orgulhosamente só".
Quando Salazar morreu, foi substituído por Marcelo Caetano, mas este não mudou nada na política e a ditadura continuou.
A solução acabou por vir do lado dos que faziam a guerra: os militares. Cansados desse conflito e da falta de liberdade, criaram o Movimento das Forças Armadas (MFA), conhecido como o "Movimento dos Capitães".
Depois de um golpe falhado a 16 de Março de 1974, o MFA decidiu avançar.
O major Otelo Saraiva de Carvalho fez o plano militar e, na madrugada de 25 de Abril, a operação "Fim-regime" tomou conta dos pontos mais importantes da cidade de Lisboa: o aeroporto, a rádio e a televisão.
As forças do MFA, lideradas pelo capitão Salgueiro Maia, cercaram e tomaram o quartel do Carmo, onde se refugiara Marcelo Caetano. Rapidamente, o golpe de estado militar foi bem recebido pelos portugueses, que vieram para as ruas sem medo.
Foram lançadas duas "senhas" na rádio para os militares saberem quando avançar: a primeira foi a música "E Depois do Adeus", de Paulo de Carvalho e a segunda foi "Grândola, Vila Morena", de Zeca Afonso, que ficou ligada para sempre ao 25 de Abril.
Depois de afastados todos os responsáveis pela ditadura em Portugal, o MFA libertou os presos políticos e acabou com a censura sobre a Imprensa. E, assim, começou um novo período da nossa História: a democracia. Hoje, temos liberdade, todas as crianças podem ir à escola e o País juntou-se ao resto da Europa. Mas...
E depois do Adeus
Portugal, Lisboa. Revolução de 25 de Abril de 1974
Os poetas de outrora continuam actuais
(infelizmente)
Lamentação de Camões e de Pessoa
Não mais, Musa, não mais, que a lira tenho
Destemperada e a voz enrouquecida,
E não do canto, mas de ver que venho
Cantar a gente surda e endurecida,
O favor com quem mais se acenda o engenho
Não no dá a pátria, não, que está metida
no gosto da cobiça e na rudeza
Duma austera, apagada e vil tristeza.
Os Lusíadas, Canto X, 145
Nevoeiro
Nem rei nem lei, nem paz nem guerra,
Define com perfil e ser
Este fulgor baço da terra
Que é Portugal a entristecer
Brilho sem luz e sem arder,
Como o que o fogo-fátuo encerra.
Ninguém sabe que coisa quer.
Ninguém conhece que alma tem,
Nem o que é mal nem o que é bem.
(Que ânsia distante perto chora?)
Tudo é incerto e derradeiro.
Tudo é disperso, nada é inteiro.
Ó Portugal, hoje és nevoeiro...
É a hora!
Fernando Pessoa, Mensagem.
Os Lusíadas e a Mensagem
Luís de Camões e Fernando Pessoa foram dois poetas que exaltaram o povo português, através de duas obras distintas (Os Lusíadas – poema épico e a Mensagem – poema lírico). Ambas nos remetem para a época dos Descobrimentos, divulgando também as raízes do desenvolvimento dessa entidade colectiva: o povo português.
Embora escritas em épocas distintas, revelam os antepassados e os fundadores da personalidade e perfil dos portugueses. Há nestas obras o relato do nascimento de uma pátria, da sua vida (crescimento) e do seu adormecimento. Os navegadores cumpriram a missão de alargar o império e depois surgiu a estagnação, a desilusão geral.
Estes Poetas dão-nos uma imagem negativa de Portugal, uma nação apagada e mergulhada em tristeza.
Camões revela ter "descoberto" um Portugal ignorante, rude, ambicioso e ruim - " a pátria (...) está metida / No gosto da cobiça e na rudeza/ Dhua austera, apagada e vil tristeza." - cuja população se recusa a escutar a " voz que canta" as acções passadas que elevaram Portugal.
Fernando Pessoa embora o que constate seja uma penumbra e dispersão de ideias incertas - Ninguém sabe que coisa quer", "Tudo é disperso, nada é inteiro" - ainda vê um possível rumo para o renascer de um Portugal glorioso, terminando a obra com uma nota de esperança, um incentivo – " É a hora!"
Os dois poetas elogiam os Portugueses com o exemplo mais glorioso dos feitos de Portugal – os Descobrimentos – ambos revelam o seu grande amor pela pátria, criticam a falta de iniciativa, mas não deixam de estimular o povo português a evoluir e a criar novos sonhos que deverão ser concretizados.
A esperança de Camões residia na liderança de D. Sebastião que encaminharia novamente Portugal para um futuro glorioso, conforme revela nas três últimas estrofes da sua epopeia. Para Fernando Pessoa era chegada a hora da construção de um novo império, agora de carácter espiritual, o Quinto Império, e com condições para perdurar mais do que o anterior.
Outras visões
Guerra Junqueiro escrito em 1886
Poeta infortunado e tutelar.
Fez o milagre de ressuscitar
A pátria em que nasceu.
Quando, vidente, a viu
A caminho da negra sepultura,
Num poema de amor e de aventura,
Deu-lhe vida
Perdida.
E agora,
Nesta segunda hora
De vil tristeza,
Imortal,
É ele ainda a única certeza
De Portugal.
Miguel Torga
"Não tenho a certeza de que Portugal exista dentro de 50 anos. Vivemos num lento processo de decadência, com alguns focos de entusiasmo, como a República ou a Revolução dos cravos. Isso revela a uma incapacidade para manter alta a nossa tensão de viver. A nossa mentalidade é de uma tristeza apagada e civil, que pode não ser suficiente para nos mantermos. Pode ser que existam os portugueses, enquanto comunidade de gente que fala esta língua, mas o estado português pode desaparecer. Não há muito tempo, desapareceu um país que se chamava Jugoslávia. Nós continuaremos aqui, claro, mas as mudanças geoestratégicas e económicas podem conduzir-nos a um grau de subalternidade inédito. Ainda que isto não venha a suceder amanhã, tem que ver com o papel pujante da Espanha como Estado, um país vivo e em progressão. É lógico que Portugal seja atraído por ela e se integre – com um altíssimo grau de governo, entenda-se – num novo Estado Ibérico. Especulo, porque pessoalmente não estou a favor nem contra, mas digo-vos que até poderia ocorrer que, como Estado federado ao lado de Espanha, o país adquirisse uma importância que agora não tem."
Saramago e a Ibéria unida; Courrier International, nº 42 de 20 a 26 de Janeiro de 2006
"É a hora!".
Clama o poeta com um grito lancinante: "É a Hora" de acordarem, de se unirem, e de fazerem voltar tudo de novo. Quem sabe, D. Sebastião, fulgurante e montado no seu cavalo branco, não surgirá do espesso nevoeiro em que se sumiu e, então, o mito e a glória de Portugal ressurgirão das cinzas, como Fénix renascida.
O 25 de Abril foi mais uma vez o querer dum povo que saiu à rua no intuito de fazer renascer uma nova vida para Portugal e para os portugueses, uma mudança. Mas, passados 34 anos, sinto o mesmo desalento que os meus poetas preferidos, Luís de Camões e Fernando Pessoa, e é com tristeza que digo que continuam actuais (infelizmente).