Vasco da Gama e D. Manuel I
O Velho do Restelo
A fala do velho do Restelo surge como um eco erudito e majestoso de todas as vozes anónimas que se lamentavam. As queixas espontâneas e instintivas do povo anónimo surgem na boca do Velho do Restelo (tais palavras tirou do esperto peito) carregadas da força lógica da razão. Estão no seu discurso todos os receios de perder para sempre os familiares (Que mortes, que perigos, que tormentas, que crueldades neles experimentas?) de destruição da família (fonte de desamparo e adultérios) e de muitos outros desastres (A que novos desastres determinas de levar estes reinos... Que perigos que mortes lhes destinas?) A diferença entre o povo anónimo e o Velho está no facto de este poder exibir uma grande cultura, de se apresentar como um humanista.
Segundo A. J. Saraiva, Camões assume inteiramente o ponto de vista do Velho do Restelo, que corresponde, afinal à ideologia renascentista da paz e da tranquilidade. Como se explica então que Camões exalte, no mesmo poema, as acções heróicas dos portugueses? Assim se explica nesta contradição d' Os Lusíadas: o poeta era um humanista, mas ao serviço de uma ideologia cavaleiresca. No próprio texto que estamos a analisar se pode detectar que Camões deu conta e tentou mesmo destruir, ou esbater, essa contradição, por meio daquela concessão (Já que...) na estrofe 99, em que o Velho (e também o poeta) admite que, para satisfazer o desejo natural da heroicidade, se faça guerra no norte de África, onde o inimigo está mais perto (deixas criar às portas o inimigo, / por ires buscar outro de tão longe...)
Esta transigência do Velho (e do poeta), segundo a qual se tolera a guerra de África, já não está nada de acordo com o espírito pacífico renascentista, espítito que volta a renascer na parte final do texto (Oh! Maldito o primeiro que, no mundo, / nas ondas velas pôs em seco lenho!), em que se condenam todos os atrevimentos simbolizados na revoltosa ousadia de Prometeu, no atrevimento de Faetonte, e no orgulho de Dédalo e seu filho Ícaro. A utilização destas figuras simbólicas da mitologia, assim como a referência ao mito das quatro idades, revelam o tom e a cultura renascentista do discurso de Velho.
Há, no entanto, quem não veja qualquer contradição entre as opiniões do Velho do Restelo e o espírito cavaleiresco da mensagem laudatória d' Os Lusíadas: as razões de Velho representariam apenas a opinião daqueles que, nessa altura, se opunham à empresa dos descobrimentos. Sendo assim, a oposição do Velho não corresponderia à opinião do poeta e não representaria forçosamente o ideal renascentista da paz e tranquilidade.
Poder-se-á também dizer que a voz do Velho do Restelo é a voz do bom senso que adverte do perigo de aventuras, que se afiguram antecipadamente como impossíveis e, com grande probabilidade, desastrosas. Não poderá então esta figura do Velho prudente ter sido criada por Camões para realçar a coragem de os portugueses se lançarem a um empreedimento que antecipadamente se afigurava acima das possibilidades do homem, "bicho da terra tão pequeno, acima do que prometia a força humana?"
Mas não se pode duvidar historicamente da existência de duas correntes opostas, uma de harmonia com os interesses da velha nobreza que repudiava a nossa expansão para o oriente e a defendia para o norte de Áftica, e outra de harmonia com os interesses da nova burguesia que defendia a expansão para o oriente. Camões nunca condena as palavras do Velho, reveste-o de respeito e autoridade; por outro lado, as referências do poeta à obra do Infante D. Henrique (o grande promotor dos descobrimentos) são quase nulas; além disso, é clara a sua insistência junto de D. Sebastião para que ele chefie a luta no norte de África, dando origem a nunca ouvido canto. Tudo isto leva muitos à conclusão de que Camões assumiu a opinião da velha nobreza, defendendo a nossa expansão para o norte de África, o que o Velho apenas tolerava e o que não deixava de se opor também aos ideais humanistas da paz e tranquilidade. Continua, pois, a contradição de Camões repudiar, como humanista, a viagem à Índia e exaltar este mesmo empreendimento como acção central do seu poema. Porém, Amélia Pinto Pais coloca a resolução desta contradição aparente no próprio poema: os navegadores não se deixam demover e partem apesar da mensagem do Velho, movidos por um impulso interior de grandeza e heroicidade. "Herói é aquele que, consciente embora do aspecto irracional de um empreendimento, para ele avança, cheio de força interior... Porque dirá mais tarde Camões, em contraponto às palavras do Velho, a imortalidade conquista-se
Pelo trabalho imenso que se chama
Caminho da virtude, alto e fragoso,
Mas, no fim, doce, alegre e deleitoso.
O progresso do homem faz-se na luta, muitas vezes ilógica e absurda, contra os obstáculos que lhe move o céu sereno". Ainda segundo Amélia Pinto Pais, a viagem do Gama demontrará, apesar do Velho, que os portugueses chegam à Índia, vencendo o elemento água, tal como Ícaro e Prometeu, venceram o ar e o fogo. Foi mais um passo em frente na luta do homem por se elevar acima do tamanho natural do bicho da terra, acima do que prometia a força humana, porque, na linguagem poética de Fernando Pessoa,
Quem quer passar além do Bojador
tem que passar além da dor.
e
Tudo vale a pena
se a alma não é pequena.
Trabalhinho:
Sirva com batatinhas cozidas com a pele e com brócolos,
Bom apetite!
MEME do DICIONÁRIOBom apetite!
Recebi este MEME do blog felixahel.blogspot.com. Obrigada!
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Palavra: disna - casa africana, de planta circular e tecto cónico.
Repasso este jogo a quem o quiser levar. É só avisarem!