"Cântico Negro", poema de José Régio, contido em POEMAS DE DEUS E DO DIABO, aborda a problemática do indivíduo que anseia pela sua afirmação a partir da contestação da norma e do afastamento da vivência colectiva despersonalizadora.
O posicionamento rebelde do "eu" condu-lo à afirmação da sua individualidade, partindo da contestação da norma colectiva, que se lhe oferece como um convite, até que, tendo estabelecido uma comparação entre os dois elementos opostos, em torno dos quais se desenvolve o texto - a individualidade e a colectividade —, culmina na decisão final de insubordinação à norma.
1 Inicialmente, consideremos o título, composto por dois elementos: "cântico" e "negro". O primeiro deixa transparecer a ideia de hino em homenagem a um ente de natureza divina ou elevado a esta categoria, e assim remete-nos para a lembrança dos cantos religiosos do Velho Testamento em louvor a divindades. O segundo elemento pode ser interpretado como "escuro", "sombrio", "maldito", "condenado", sendo os dois últimos sentidos os mais lógicos neste texto.
Ora, a qualidade de "negro" ("maldito", "condenado") não parece ser própria da natureza do "cântico" ("hino"), mas antes advém daquilo que é exaltado; assim, o título como que denuncia a natureza do poema; para que algo seja "maldito" ou "condenado", é preciso que seja encarado a partir da contestação ou negação de um preceito ou ponto de vista vigentes, livres de tal adjectivação. A significação geral do poema diz respeito, então, à exaltação de algo ao mesmo tempo que contesta e nega valores vigentes.
2 A abertura da primeira estrofe ("Vem por aqui") tem, evidentemente, um tom imperativo; o verbo dizer ("dizem-me") empregado em seguida deixa que compreendamos a expressão destacada pelo travessão como uma norma a ser obedecida enquanto a sua repetição em outros momentos do poema (4.º e 17.º versos: 'Vem por aqui") define o seu carácter de fórmula pronta e acabada que se oferece impositivamente ao "eu".
A indeterminação do sujeito, contida na forma verbal ("dizem—...") e reforçada com o emprego do indefinido ("alguns"), faz-nos pensar em elementos sem definição individual, que têm como ponto comum e objectivo o "Vem por aqui"; na verdade, a norma é o dado concreto no que toca ao sujeito indeterminado, como se todos se tivessem esfumado e diluído como individualidades; entretanto, a pluralidade de "alguns" revela um sentido colectivo; a norma existe enquanto aceite e mantida pela colectividade, que por sua vez baseia a sua existência na norma e na colectividade e mantêm uma relação de dependência recíproca. Por outro lado, a função de objecto exercida pela primeira pessoa deixa-nos entrever que a subordinação à ordem estabelecida pela norma colectiva anula a individualidade.
A norma configura-se num convite persuasivo e aliciante, decorrendo do modo como é apresentada ("com olhos doces" — 1.º verso) e numa proposta de participação e convivência ("Estendendo-me os braços," — 2.º verso). A segurança pressentida na colectividade ("e seguros" — 2.º verso) é acompanhada da expectativa de adesão e de dúvida quanto à validade da obediência ("De que seria bom que eu os ouvisse" – 3.º verso).
Ao convite à aceitação da norma colectiva, que aparece nos quatro primeiros versos, nos quais a verbalização e o comportamento se conjugam, segue-se a resposta da primeira pessoa na atitude de enervamento e indiferença ("Eu olho-os com olhos lassos" — 5.º verso), ironia e crítica, em "(Há, nos meus, olhos, ironias e cansaços)" — 6.º verso, negativa da convivência ("E cruzo os braços" — 7.º verso) e de insubordinação e afastamento da norma ("E nunca vou por ali..." — 8.º verso).
Contudo, a atitude rebelde do "eu" é assumida a partir do modo de agir da colectividade; contrapondo "olhos lassos" (5.º verso) a "olhos doces" (1.º verso), e "E cruzo os braços" (7.º verso) a "Estendendo-me os braços" (2.º verso) e "nunca vou por ali" (8.º verso) a "vem por aqui'" (1.º e 4.º versos), o "eu" revela que os seus estímulos não são procurados no íntimo da sua natureza, uma vez que são encontrados no comportamento colectivo, transparecendo assim que a sua atitude contrária aos outros, em essência, consiste apenas em não ser os outros.
3 O "eu" justifica a opção "nunca vou por ali" na definição e imposição do seu carácter individual, desde o 9.º verso, onde "minha glória" anuncia e exalta uma natureza cuja existência exige a não participação no colectivo ("Criar desumanidade / Não acompanhar ninguém." – 10.º e 11.º versos), até ao final da quarta estrofe.
Negando-se à diluição da sua individualidade no seio da vivência colectiva, o "eu" pretende um programa existencial não orientado pela norma vigente, mas, antes guiado por impulsos que preexistem ao próprio ser (" - Que eu vivo com o mesmo sem-vontade / Com que rasguei o ventre a minha Mãe." – 12.º e 13.º versos).
A obediência aos impulsos interiores é reiterada ao longo do poema, onde cada metáfora como que aprofunda ou acrescenta novas cambiantes. Assim é que em "Só vou por onde / Me levam meus próprios passos..." (14.º e 15.º versos) a oposição não se esgota ao nível da norma vs impulsos, mas amplia o conhecido vs desconhecido. Ora, vendo-se na norma o princípio disciplinador da vivência colectiva, a obediência a forças incoercíveis (do 12.º ao 15.º verso) amplifica o carácter contrário do "eu" em relação à colectividade, através da antinomia razão vs instintos. Porém, a insubordinação à norma quando revelada nos versos citados tem um carácter ambíguo: insubmisso à regra, como produto da razão colectiva, o "eu" torna-se sujeito aos impulsos, passando à condição de objecto dos seus instintos ("Me levam meus próprios passos..." — 15.º verso).
Pretendendo confirmar a sua decisão pela obediência aos impulsos, o sujeito afirma "Prefiro escorregar nos becos lamacentos" (18.º verso) e "Como farrapos, arrastar os pés sangrentos" (20.º verso), como que tendo consciência da virtualidade de dificuldades, graças à singularidade da sua experiência que não lhe permite apoiar-se em vivências alheias. Todavia, a ambiguidade das expressões usadas pelo "eu" admite outras interpretações; assim, os próprios vocábulos seleccionados na composição do 18.º verso lembram riscos, quedas, profundidade, metaforicamente remetendo ao mundo interior; por sua vez, o 20.º verso tem toda uma significação de desgaste, de aspectos negativos; desta forma, o sentido desses versos está não só ligado à sondagem interior, mas pode ser associado aos resultados negativos da obediência aos instintos.
Dentro de uma perspectiva individualista, capaz de conduzir o discurso poético ao emprego enfático de "meus próprios...", repetidamente ("meus próprios passos" – 15.º verso, "meus próprios pés" – 24.º verso), o "eu" PREFERE "Redemoinhar aos ventos" (19.º verso), explicitando que a natureza do seu programa de vida não é apenas inspirada em forças subjectivas e transcendentes, mas também voltada para si mesmo.
A consciência individual comporta, porém, a compreensão de duas dimensões: a do "eu" e a dimensão do mundo onde se coloca ("Se vim ao mundo" — 22.º verso). O vir ao mundo, significando viver, é interpretado metaforicamente como "desflorar florestas virgens" (23.º verso) e "desenhar meus próprios pés na areia inexplorada" (24.º verso), insistindo na unicidade existencial do sujeito, que deve construir a sua existência imprimindo-lhe um cunho particular. Entretanto "meus próprios pés" retoma a ideia de ir "por onde me levam meus próprios passos", que, como já vimos, é a expressão da sujeição aos impulsos; sendo assim do ponto de vista do "eu", a razão e a vontade são encaradas como incapazes de criar novas perspectivas existenciais, cabendo às forças incoercíveis esta possibilidade de criar novos rumos ("florestas virgens" e "areia inexplorada"), reiterando a antinomia razão vs impulsos.
"Se ao que busco saber nenhum de vós responde" (16.º verso) evidencia a incompatibilidade entre o colectivo e a consciência individual, em razão da certeza de que a sua significação existencial como indivíduo não está na vivência colectiva, que, no entanto, se configura uma programação pronta que lhe é insistentemente oferecida, a ponto de gerar o estranhamento presente em "Por que me repetis: vem por aqui?" (l7.º verso).
A presença impositiva da colectividade é de tal porte que é diante dela que o "eu" se insubordina, pretende tornar-se independente, tentando afirmar-se como indivíduo a partir da dualidade outros vs "eu", e não partindo inicialmente da sua própria natureza ímpar: este conflito traduz-se em repetidas ocasiões no texto, como por exemplo quando o sujeito se dirige a “Vós" (16.º, 17.º, 26.º, e outros versos) como que se definindo diante de um interlocutor colectivo, como se precisasse desses ouvintes, da sua insubordinação e afirmação individual para alcançar a veemência necessária; a negativa repetida ("E nunca vou por ali..." – 8.º verso, "Não acompanhar ninguém," – 11.º verso) e a enfática em "Não, não vou por aí" (14.º verso) demonstra um esforço em direcção à imposição da sua unicidade a partir do distanciamento da convivência regida pela norma ("aí", "ali" indicam a visão à distância do "aqui" colectivo), entretanto em todos esses momentos a atenção continua voltada para o objecto de sua crítica e contestação como se a ele estivesse presa: podemos concluir, pois, que se a norma e a colectividade fossem realmente indiferentes ao "eu" não seriam capazes de provocar ironia, crítica, insubordinação.
4 O questionamento crítico que aparece nos três primeiros versos da quinta estrofe introduz a comparação entre os outros ('Vós") e o "eu", em que ressalta a incompatibilidade entre esses elementos. A colectividade é acusada de compromisso com o passado ("Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós", — 29.º verso) e de acomodação em face da tradição ("E vós amais o que é fácil!" — 30.º verso), enquanto o "eu" está voltado para o absoluto, o metafísico ("Eu amo o Longe e a Miragem," — 31.º verso) e para a sondagem interior, para o desafiador ("Amo os abismos, as torrentes, os desertos..." — 32.º verso).
Por seu turno, a citação dos elementos componentes do universo e do espírito da colectividade, do 33.º ao 36.º verso, define o carácter relativo e extrínseco dos valores existenciais, numa evidente oposição a "Loucura", como elemento metafísico, e "espuma, e sangue, e cânticos nos lábios..." — expressões do interesse pelo absoluto e pelos impulsos e valores intrínsecos, estabelecendo, assim, uma nova antinomia: relativo vs absoluto.
5 Em "Deus e o Diabo é que me guiam, mais ninguém." (40.º verso) o significado do experienciar é colocado mais uma vez num plano metafísico; "Deus e o Diabo", forças indestrutíveis e absolutas, significando o Bem e o Mal, são anteriores a "regras", "tratados," "filósofos", "sábios"..., que se constituíram na tentativa de aceitar uma (Bem -"Deus") e excluir, ou talvez simplesmente disciplinar, a outra (Mal — "Diabo"); tentativa esta que se revela inútil pois essas entidades (Deus, Diabo) coexistem, apesar de serem contrárias. A aceitação de forças absolutas como guias existenciais reitera a precariedade dos valores relativos aceites pela colectividade ("pátrias", "tectos", "regras", etc.). Por sua vez os elementos "pai" e "mãe" (41.º verso), como transmissores da vida e tradição, têm o seu carácter físico e relativo evidenciado graças aos versos seguintes (42.º e 43.º versos). A ambiguidade de "Mas eu, que nunca principio nem acabo, / Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo" (42.º e 43.º versos) leva-nos a pensar em um primeiro momento na oposição que aí se estabelece em relação a ter nascido de "pai" e "mãe"; ora, o "eu" como ser humano também provém de pai e mãe, portanto o entendimento não pode ser esgotado neste nível; outra ideia nos ocorre quando levamos em conta o "eu", nascido de "Deus" e do "Diabo", como síntese desses elementos contrários, por conseguinte guardando características de ambos, revela-se como algo novo, cuja natureza opositiva em relação ao velho é uma constante. A sétima estrofe amplifica a antinomia relativo vs absoluto de modo a fornecer a expressão mais veemente da dimensão do indivíduo, cujas natureza e existências são regidas por forças transcendentes, capazes de gerar impulsos da maior nobreza ("Deus") e da maior velhacaria ("Diabo").
O conhecimento e a aceitação de forças absolutas como impulsionadoras do existir conduzem o "eu" à decisão final por uma experiência de vida, cujo carácter individual é impossível de ser cerceado ("A minha vida é um vendaval que se soltou. / É uma onda que se alevantou. / É um átomo a mais que se animou..." - do 47.º ao 49.º verso), e é intransferível ("Ninguém me peça definições '." — 45.º verso), retomando assim a sua insubordinação à norma colectiva na verbalização — "Sei que não vou por aí!" (52.º verso).
O processo evidenciado em todo o poema resulta da incompatibilidade entre vivência colectiva e consciência individual, e os seus valores respectivos, como atitudes existenciais que coexistem, mas que se excluem; o que pode ser assim demonstrado: