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terça-feira, 28 de julho de 2015

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Fernando Pessoa - teoria do fingimento


A poética do ortónimo

Vivendo sobretudo pela inteligência e imaginação, o discurso poético pessoano afirma-se a partir da "aprendizagem de não sentir senão literariamente as "cousas"", ou seja, em fingir sentimentos, até mesmo os que verdadeiramente vivenciamos.
Pessoa parte da negação da ideia romântica do poeta como um confessor, como alguém que se desnuda aos olhos do leitor, e filtra tudo através da inteligência. Em Pessoa tudo é inteligência e todo o texto é produto da imaginação. No momento de produção literária/poética, o poeta finge sentimentos, emoções, não deixando, no entanto, de haver verdade, só que essa verdade, essa sinceridade é artisticamente trabalhada.


Arte poética pessoana - Teoria do fingimento

Os poemas "Autopsicografia" e "Isto" instituem a verdadeira Arte Poética de Pessoa, iniciando uma aprendizagem do não sentir, que sobrepõe o conhecimento racional ao afectivo. O poema torna-se, assim, uma construção de sentido e não uma construção sentida, porque se baseia na palavra que é a abstracção suprema, nas palavras do próprio Pessoa, "uma intelectualização da sensibilidade". O poeta, um ser que se completa para além da percepção sensorial, é alguém que recorre a truques verbais para a construção de verdades poéticas. Os poemas que melhor ilustram esta arte poética pessoana, que se baseia no fingimento, são:

"Autopsicografia" - Este texto define o processo de criação poética pessoana:
  • o sujeito poético parte da asserção / afirmação "O poeta é um fingidor", identificando "poeta" e "fingidor", transferindo o acto de criar poesia da esfera das emoções reais / vividas para a esfera das emoções fingidas / pensadas;
  • este fingimento poético é tão extremado que leva o "eu" lírico a "fingir" emoções que realmente "sente" - a poesia resulta, assim, do fingimento da dor e não da sua vivência (grande revolução na concepção tradicional de poesia);
  • fingir é "fazer um desvio pela inteligência", submetendo os sentimentos e as emoções ao espírito analítico;
  • o processo de criação poética não é exclusivo do "eu" lírico (que apenas finge emoções), mas alarga-se ao leitor - "os que lêem o que escreve";
  • o leitor, também ele interveniente no processo de criação, sente na "dor lida" (poema), uma outra dor: uma dor que não é nem a vivida, nem a fingida pelo sujeito poético, mas uma outra construída por ele próprio - "Mas só a que eles (leitores) não têm" - esta dor também ela fingida;
  • finalmente, o sujeito poético conclui, recorrendo à imagem das "calhas de roda" e do "comboio de corda", que a criação poética resulta de permanente interacção entre o coração e a razão, entre o sentir e o pensar;
  • torna-se, deste modo, evidente a supremacia da razão sobre as emoções no acto de criar - processo de intelectualização das emoções assumido por Pessoa.
"Isto" - O poema dá resposta à perplexidade suscitada pelas reflexões inovadoras presentes em Autopsicografia:
  • o sujeito poético afirma que não há mentira no processo de criação poética;
  • concebe um outro modo de criar poesia, sentir "Com a imaginação" - a emoção é filtrada pela imaginação;
  • afirma, metaforicamente, que a realidade que sonha ou vive é ainda rudimentar - "um terraço / Sobre outra coisa ainda";
  • sublinha que a verdadeira beleza reside nessa "coisa linda" - o acto de escrever;
  • recusa o acto poético como expressão exclusiva das sensações;
  • remete para o leitor o sentir.
"Tenho tanto sentimento" - O sujeito poético auto-caracteriza-se como um ser dominado pelo vício de pensar:
  • obsessão pela racionalização, embora tendo, por vezes, a ilusão de que é sentimental;
  • a oposição sentir / pensar desenvolve-se ao longo do poema através dos pares: vida vivida / vida pensada; vida verdadeira / vida errada - pares de opostos que explicitam a fragmentação do "eu";
  • a oposição entre o sentir e o pensar é marca distintiva da arte poética pessoana ("Autopsicografia" e "Isto").

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Isto e... Autopsicografia



Análise do poema "Isto", comparado com o texto "Autopsicografia"

O assunto do poema "Isto", tal como o do poema "Autopsicografia" foca a teoria da criação poética. Parece até que a afirmação "dizem que finjo ou minto / Tudo que escrevo" é uma resposta a supostas críticas nascidas de possíveis interpretações do poema "Autopsicografia".
O poeta responde na primeira parte ( primeira estrofe) que o seu fingimento não é propriamente mentira, mas uma síntese rara (como se ele fosse um predestinado) da sensação e da imaginação.
Enquanto em "Autopsicografia" o poeta distinguia entre sensação (dor sentida) e fingimento (dor imaginada), aqui simplesmente sente com a imaginação (atente-se no valor expressivo do advérbio de modo a marcar a exclusividade de outra qualquer sensação que não seja a sensação intelectual, a sensação-imaginação). O poeta parece esquecer, neste poema, o ponto de partida que em "Autopsicografia" era a sensação (coração). Mas, não esquece, simplesmente realiza (no acto da criação poética) a síntese da sensação com a imaginação, sobressaindo esta, porque intelectual, operada pela razão. O poeta não usa o coração, porque lhe basta a imaginação, que surge aqui como concentração do sensível e do intelectual.
Em "Autopsicografia", o poeta fala na 3.ª pessoa, dando a entender que a teoria exposta tem aplicação universal: é um processo verificável em todo o verdadeiro poeta. No poema "Isto", o poeta fala na 1.ª pessoa, não há nenhuma frase de carácter axiomático, de aplicação universal. Aqui Fernando Pessoa apresenta-se como o poeta intelectual por excelência.
A segunda parte do poema (segunda estrofe) constitui uma confirmação do conteúdo da primeira parte, baseada na experiência vivida. Todas as contingências da sua vida ("Tudo o que sonho ou passo, / O que me falha ou finda") são como que um terraço sobre outra coisa, e essa coisa é que é linda. Essa coisa são os dados da imaginação, são a transfiguração artística operada pela inteligência-imaginação. Repare na expressividade da comparação "como que um terraço", a simbolizar as aparências que escondem a realidade mais bela (essa coisa é que é linda). Mas o poeta não separa o terraço da beleza que ele esconde: as contingências da vida são como um terraço com tudo o que ele esconde de mais belo. Parece então sugerir que nele a inteligência-imaginação, num único acto de síntese, abarca ao mesmo tempo as esperanças e os fracassos da sua vida (o terraço, isto é, as aparências) e as belas realidades poéticas, a essência pura da poesia criada pelo fingimento.
Enquanto na "Autopsicografia", o poeta distinguia dois momentos (o da sensação e o da imaginação), aqui tudo se processa num só momento: as realidades (belas) subjacentes ao terraço (aparências) são vistas por ele, poeta-Pessoa, automática e simultaneamente.
É evidente que paira aqui a doutrina platónica da reminiscência: olhar para as aparências (as coisas deste mundo) e ver imediatamente as realidades puras de um mundo mais alto. Verifica-se aqui também a grande emoção (de natureza intelectual) que o poeta punha naquilo que ele considerava o fulcro, o âmago da poesia: "Essa coisa é que é linda".
Na terceira parte do poema (terceira estrofe), o poeta, a jeito de conclusão, ("Por isso...") afirma que escreve "em meio / do que não está ao pé". O que está ao pé são as sensações, é o mundo das aparências; o que não está ao pé é o mundo da inteligência, o mundo das realidades puras, da imaginação que transforma, que eleva as sensações ao nível da literatura, ao nível da poesia. A arte poética nasce da abstracção do mundo sensível. Só quando o poeta é livre do seu enleio (do mundo sensível, do coração) é que pode dar-se o milagre da poesia. Só com os super-poetas, como ele, Fernando Pessoa, é que o milagre se realiza plenamente, porque não usa o coração, porque está livre do seu enleio e sério do que não é (entenda-se "sério" por liberto, ou seja, livre do mundo sensível, das aparências).
O verso "Sério do que não é" está aqui para repetir e marcar bem a ideia do verso anterior "livre do meu enleio".
O poeta considera "sério" quem, como ele, é capaz de se abstrair do mundo sensível (do acidental), para se concentrar no mundo intelectual (mundo das essências). Para Fernando Pessoa a perfeição está no mundo intelectual e não no mundo sensível.
O poeta fecha o poema com uma pergunta retórica e uma exclamação de sentido irónico-depreciativo: "Sentir?" Note-se como esta interrogação, em conjunto com a exclamação "Sinta quem lê!" é uma resposta irónica ao "Dizem que finjo ou minto" do início do poema. O poeta não sente, deixa isso para os leitores, para quem não é poeta, para quem brinque com o sensível, com o mundo das aparências. Para ele, super-poeta, tudo se passa no mundo da inteligência-imaginação, no mundo das essências.
O último verso interrogativo-exclamativo parece o fechamento de uma circunferência iniciada no primeiro verso que deixa margem à reflexão, a um dinamismo intelectivo que fica a desenvolver-se na mente do leitor. Tal como no poema "Autopsicografia", essa circunferência melhor se diria uma pista circular sem limite, onde se processa o jogo sensação-imaginação e se perpetua a vitalidade do poema no seu aspecto lúdico.
Depois de uma análise essencialmente ideológica, vamos agora ver as razões de uma certa opacidade da mensagem poética. Apesar de todo o vocabulário ser simples, surgem no poema certas palavras, embora de sentidos denotativos vulgaríssimos, carregadas, no contexto, de conotações, originando a plurissignificação.
Assim, o verso "Dizem que finjo ou minto" tem aqui o sentido que lhe atribuem os que dizem que o poeta finge, isto é, "não ser sincero", "faltar à verdade", como se depreende da disjuntiva "finjo ou minto". Este sentido é depreciativo e corresponde ao uso popular da expressão "pessoa fingida", isto é, falha de verdade. Por isso, o poeta se apressa a negar esse sentido ao seu fingimento: "Eu simplesmente sinto / Com a imaginação, / Não uso o coração.". O fingimento do poeta é pois o trabalho mental que tudo transfigura, por meio da imaginação. A sua emoção está nessa transfiguração imaginativa onde floresce a poesia. A expressão "não uso o coração", não tem sentido exclusivista, isto é, o poeta não quer dizer que não parta das sensações, que nunca use o coração. O que ele pretende significar é que as sensações (o coração) não são o campo onde se elabora a grande poesia. As palavras "uso", "usar", na sua significação habitual, são portadoras da ideia de persistência, continuidade. Ora o que o poeta quer afirmar com "não uso o coração" é: o centro, ou o fulcro, da grande poesia não está nas sensações, no coração, mas na inteligência, na imaginação.
De notar a diferença de sentidos do verbo sentir: na primeira estrofe (sinto) refere-se à emoção intelectual e não às sensações; na última estrofe (sentir e sinta) refere-se às sensações próprias das pessoas que dizem que ele finge ou mente.
Os dois primeiros versos da segunda estrofe referem-se às contingências da vida do poeta; contingências, porque nenhum dos quatro verbos (sonho, passo, falha, finda), são propriamente activos, ficando a impressão de que o que sucede ao poeta é marcado pelo destino. Esta ideia é sugerida sobretudo pelo verso "O que me falha ou finda", em que o poeta não figura como sujeito das acções, mas como destinatário marcado pelo destino (o que se vê na forma pronominal "me"). O mesmo sugere a forma verbal "passo", que o poeta poderia substituir por "faço". Não o fez, porque enquanto "faço" apontaria para algo realizado pelo poeta, a forma "passo" aponta para algo que lhe sucede por fatalidade. Quer isto dizer que o poeta só por contingência se achava entre as coisas contingentes deste mundo (no mundo das aparências), pois o seu lugar, como poeta, situa-se para lá dessas coisas, para lá do terraço.
A metáfora (comparação) centrada em terraço é admiravelmente expressiva da fronteira, difícil de ultrapassar, entre o mundo sensível e o mundo intelectual. O verdadeiro poeta (neste caso Pessoa) é o privilégio que é capaz de ultrapassar essa fronteira, para usufruir da beleza que lá se encontra.
Ao notarmos a expressividade do adjectivo "linda" (essa coisa é que é linda), notemos também como o poeta recupera para o campo poético a banalidade significativa da palavra "coisa", fazendo-a expressiva daquilo que é indefinível, daquilo que fica para lá do terraço, na região onde se gera a poesia.
Note-se, na última estrofe, o desabitual o imprevisto que encontramos na expressão antitética "em meio / Do que não está ao pé". O que está ao pé é o mundo sensível; o que não está ao pé é o mundo que está para lá do terraço, o mundo da poesia. Fernando Pessoa, como poeta genial, escrevia bem metido nesse mundo misterioso da poesia, livre do seu enleio (note-se a expressividade do substantivo "enleio", que aponta para a prisão que é o mundo sensível).
Como é natural num texto de índole teórica, predominam os nomes e os verbos. Os verbos encontram-se todos no tempo presente, sendo de destacar a importância do verbo "ser" a significar existir na expressão "sério do que não é". "O que não é" é o mundo sensível (das aparências) e "o que é" é o mundo inteligível, onde o poeta se move na elaboração dos seus poemas.
São importantes os nomes "coração" e "enleio" (a conotar o mundo sensível); e "imaginação", "coisa" (a conotar o mundo inteligível). "Terraço" conota ao mesmo tempo o mundo sensível e o inteligível, pois estabelece a separação dos dois.
Quanto à forma do poema, o poeta usa o verso curto de seis sílabas (hexassílabo) num poema de fundo pesado, em que se expõe uma teoria da criação poética. Para que o discurso lógico, apesar disso, decorra mais livremente, aparecem os casos de encavalgamento: 1.º e 2.º, 3.º e 4.º versos da primeira estrofe; versos 2.º e 3.º, 3.º e 4.º da segunda estrofe; versos 1.º e 2.º da terceira estrofe.
O esquema rimático é igual nas três estrofes e apresenta rimas cruzadas e emparelhadas: ABABB. Há nas rimas variedade de sons, predominando nas duas primeiras estrofes os sons nasais e fechados e alternando, na última estrofe, os fechados com os abertos, sugerindo, talvez, o esclarecimento final do problema focado. São de salientar também os vários casos de aliteração (versos 3.º, 7.º, 23.º, 15.º).








Portugal, uma praça para o mundo

PORTUGAL, UMA PRAÇA PARA O MUNDO from Anze Persin on Vimeo.




Trabalhinho: pintura com água em velas





A Mena na cozinha

Frango tropical

4 bifes de frango ou coxas
1 cebola
2 dentes de alho
1 malagueta grande
azeite
1 dl de leite de coco
3 colheres de sopa de polpa de tomate
sal
2 colheres de caril
salsa picada

Pique a cebola e o alho, corte a malagueta em pedacinhos e leve ao lume em azeite.

Corte os bifes de frango em tiras e junte ao preparado de cebola, quando esta estiver translúcida. Deixe a carne ganhar uma corzinha. Adicione a polpa de tomate e deixe cozinhar mais um pouco.

Salpique o frango com o caril e tempere com sal. Deixe apurar.

Por fim, junte o leite de coco e tape o tacho, deixando cozinhar.

Quando estiver pronto, polvilhe com salsa picadinha e envolva.

Sirva com arroz branco ou com esparguete e uma boa salada.


Bom apetite!

domingo, 26 de setembro de 2010

Isto


Dizem que finjo ou minto
Tudo que escrevo. Não.
Eu simplesmente sinto
Com a imaginação.
Não uso o coração.

Tudo o que sonho ou passo,
O que me falha ou finda,
É como que um terraço
Sobre outra coisa ainda.
Essa coisa é que é linda.

Por isso escrevo em meio
Do que não está ao pé,
Livre do meu enleio,
Sério do que não é.
Sentir? Sinta quem lê!


Fernando Pessoa


O texto é constituído por três quintilhas de hexassílabos.

A estrutura do texto é de cunho racionalizado, com um fio lógico: apresenta-se uma tese, discute-se essa tese e apresenta-se uma conclusão.

1.ª parte - 1.ª e 2.ª estrofes: O poeta nega que finja, o que faz é racionalizar os sentimentos (sente com a imaginação) não usa o coração (depreende-se que para sentir). Sente-se possuído pela sina de procurar sempre uma coisa que é inatingível.

O poeta justifica porque não mente ao escrever: sente com a imaginação e possui o condão de procurar sempre.

2.ª parte - 3.ª estrofe: Por isso se quer libertar do imediato, das sensações. Ao escrever distancia-se delas.

Significado dos dois primeiros versos da segunda estrofe: sonho = anseios; passo = vivências; falha = insucesso; finda = fugacidade.

O poeta procura constantemente nunca se satisfazendo com o que procura, mas vendo sempre naquilo com que se depara um terraço que esconde mais.

Relacionar essa procura com o facto de o poeta se querer libertar do imediato, das sensações (3ª. estrofe) - ao escrever distancia-se delas.

Ao escrever, o poeta coloca-se ao nível do fingimento, do pensamento, da racionalidade, livre da confusão dos sentidos, acreditando sincero, na esfera do que não é o que parece, do inteligível.

Usa a ironia ao rematar o texto remetendo o sentimento para a pessoa do leitor.

O poeta conclui que é da sua competência a racionalização, ficando o sentimento a cargo de quem lê.

O título significa que o poeta explica algo "Isto" e designa também aquilo que está para além do terraço e o carácter insatisfeito do poeta que procura mas não encontra, está perto mas não abrange.


- Estamos perante um texto em que se explana uma teoria poética: o fingimento, expondo-se a aparente antítese: sentimento (coração) – pensamento (razão) e ganha contornos nítidos a dialéctica incompleta de Fernando Pessoa. Com efeito, a antítese só seria dialecticamente válida, se conduzisse a uma síntese, a uma conclusão, a uma “coisa linda” conseguida e não apenas pressentida, abstracta, com fundamentos evidentes na concepção platónica dos arquétipos e da divisão dos mundos em sensível e inteligível.

- E quem pode contemplar essa coisa encoberta pelo “terraço” de sonho, da dor, da frustração? Só o poeta, porque é capaz de se libertar do enleio do mundo e escrever “em meio do que não está ao pé”, isto é, usando a imaginação/razão, em busca do que é e apenas seguro “do que não é”.

- Estamos perante o pressentimento “do que não é” e a sugestão de que aquilo que “não é” é que, verdadeiramente, “é”. A tarefa do poeta é, portanto, essa viagem imaginária, esse pressentir do ser, da “coisa linda” e não sentir (“Sentir? Sinta quem lê!”), o que não deixa de indiciar uma concepção de certo modo elitista do poeta.

- Ao nível semântico, deve mencionar-se, em primeiro lugar, a linguagem simples, mas seleccionada, típica de Pessoa ortónimo. Não se traduz, no entanto, tal simplicidade em pobreza excessiva, uma vez que bastariam a musicalidade, o ritmo, as sonoridades bem conseguidas e situadas, para emprestar ao texto toda a força que um leitor, mesmo desprevenido, nele encontra. Mas há ainda o facto de, a cada passo, depararmos com a utilização de palavras com matizes significativos inesperados e originais, que nos colocam no limiar, ou mesmo nos domínios da metáfora:

. “Sinto com a imaginação” (o verbo sentir com significado diferente do habitual);

. “Não uso o coração” (o inesperado de o poeta não usar o coração, como se se tratasse de algo semelhante a qualquer utensílio dispensável ou substituível);

. “Tudo o que sonho… é… um terraço” (uma divisão, uma separação imaginária);

. “Essa coisa é que é linda” (o adjectivo “linda” aplicado a algo que está sob um terraço imaginário, e que, portanto, só metaforicamente existe).

. A recuperação para a poesia, de palavras tão prosaicas como “coisa” (“Sobre outra coisa ainda/Essa coisa é que é linda”), utilizada em versos consecutivos, para designar algo que está muito para além do Universo sensível a que, normalmente, se refere.

. O sentido da palavra “sério” no penúltimo verso, que nos parece um vestígio da formação anglo-saxónica do autor (significa “certo” ou “seguro”).

. A diferença de significado entre o verbo sentir usado na primeira quintilha (“Sinto/Com a imaginação”) e no último verso (“Sentir? Sinta quem lê!”), assumindo, neste caso, um conotação pejorativa, que não existe no primeiro.

- É ainda importante realçar a felicidade e a originalidade do símbolo “terraço”, como qualquer coisa que nos divide de algo que está sob os nossos pés e nunca conseguimos agarrar com as mãos.

- É também semanticamente importante o facto de o poeta dizer que escreve “… em meio/Do que não está ao pé”, imagem paradoxal, deliberadamente perturbadora e expressiva da imaterialidade dos domínios em que se movimenta. E não deixa de ter cabimento aqui uma nova referência à interrogação e exclamação finais, apoiadas numa repetição do verbo sentir, que vêm emprestar ao final do poema uma grande vivacidade expressiva.

Recursos expressivos:

- aliteração:

. Em “s”: “Eu simplesmente sinto/Com a imaginação/Não uso o coração”;

. Em “f”: “O que me falha ou finda”;

. Em “l”: “Livre do meu enleio”.

- O poeta utiliza muitas vezes o encavalgamento.

- De realçar o recurso a sons fechados, sobretudo, à nasalação, na primeira estrofe, havendo rimas em “in” e em “ão”. Na segunda estrofe, há uma alternância entre “a” e “in” e na terceira, praticamente, desaparecem os sons nasais e as rimas são em “é/ê” e em “ei”. Semanticamente, isto parece corresponder à passagem de uma situação de arrastamento, ou tensão, para um estádio de clarividência ou convicção.

- A comparação que engloba os três primeiros versos da 2ª estrofe. Esta comparação constitui o cerne do poema, aquele momento em que o autor define o universo em que se move, para, logo de seguida, ficarmos a saber o que procura.





A Mena na cozinha

Carne de alecrim com massa de orégãos

Carne de porco ou de vaca
1 cebola
2 dentes de alho
azeite
sal
1 malagueta grande
1 dl de vinho branco
1 dl de caldo de carne
alecrim
salsa
pimenta
3 colheres de sopa de polpa de tomate
1 colher de sopa de orégãos
massa

Pique a cebola e os alhos e leve a alourar com azeite. Junte a malagueta cortada aos pedacinhos.

Corte a carne aos cubos e adicione ao preparado anterior, acrescente também a polpa de tomate e deixe alourar um pouco.

Junte o vinho branco, deixe apurar um pouco. Tempere com sal e pimenta. Acrescente o caldo de carne, o alecrim e a salsa e deixe cozinhar 20 minutos.


À parte, leve uma panela ao lume com água temperada com sal e com um fiozinho de azeite. Quando estiver a ferver, junte a massa e os orégãos. Deixe cozer 10 minutos. A meio da cozedura (depois de 5 minutos), junte o preparado da carne e deixe acabar de cozinhar.

Sirva com uma boa salada.
Bom apetite!





Trabalhinho: