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quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Os Lusíadas - Reflexões do poeta



Considerações do Poeta - críticas e conselhos aos Portugueses

Os Lusíadas são uma epopeia na qual se reflecte o optimismo do Renascimento, crente nas capacidades do Homem. Por isso, o herói liberta-se da sua pequenez humana de "bicho da Terra" e, através da ousadia e da coragem, ascende a um estádio superior, digno dos deuses.
No entanto, não é apenas esta visão optimista do Homem  aquela que está patente na obra. A verdade é que, a par da glorificação dos heróis que fizeram grande a Pátria e o Homem e devem , por isso, servir de exemplo, está presente um desencanto e um pessimismo do poeta que olha para o Portugal seu contemporâneo com tristeza, nostalgia e desalento. Não podemos esquecer que Camões publicou Os Lusíadas, 74 anos depois da viagem de Vasco da Gama, num momento em que o império português estava já em decadência e um futuro negro se pressentia.
Esse pessimismo está patente sobretudo nas reflexões do final dos Cantos.
O poeta apresenta-se, nas suas reflexões, como guerreiro e poeta a quem não "falta na vida honesto estudo; com longa experiência misturado" (C. X, 154). Um poeta que, ainda que perseguido pela sorte e desprezado pelos seus contemporâneos, assume o papel humanista de intervir, de forma pedagógica, na vida contemporânea. Por isso:
  • critica a ignorância e o desprezo pela cultura revelados pelos homens de armas (C. V);
  • denuncia o desprezo pelo bem comum, a ambição desmedida, o poder exercido com tirania, a hipocrisia dos aduladores do Rei, a exploração do povo (C. VII);
  • denuncia o poder corruptor do ouro (C. VIII);
  • propõe um modelo humano ideal de "Heróis esclarecidos" que terão ganhado o direito de ser na "Ilha de Vénus recebidos" (C. IX, 95);
  • ergue-se contra o adormecimento da Pátria, metida "No gosto da cobiça e na rudeza / Duma austera, apagada e vil tristeza". (C. X, 145).
Mas, o poema, acima de tudo, evidencia a grandeza do passado de Portugal: um pequeno povo que cumpriu, ao longo da sua História, a missão de dilatar a Cristandade, que abriu novos rumos ao conhecimento, que mostrou a capacidade do Homem de concretizar o sonho.
Ao cantar o heroísmo do passado, o poeta pretende mostrar aos seus contemporâneos a falta de grandeza do Portugal presente, e incentivar o Rei a conduzir os Portugueses para um futuro de novo glorioso, para uma nova era de orgulho nacional.


Canto I - Reflexão sobre a fragilidade da condição humana

As traições e perigos a que os navegadores estão sujeitos justificam o desabafo do poeta sobre a fragilidade da condição humana, que submete o Homem a inúmeros e permanentes perigos.
Não será por acaso que esta reflexão surge no final do Canto I, quando o herói ainda tem um longo e penoso caminho a percorrer. Ver-se-á, no Canto X, até onde a ousadia, a coragem e o desejo de ir sempre mais além podem levar o "bicho da terra tão pequeno", tão dependente da fragilidade da sua condição humana.


Canto V - Crítica à falta de cultura e de apreço pelos poetas que os Portugueses revelam

O poeta começa por mostrar como o canto e o louvor incitam à realização dos feitos heróicos; dá em seguida exemplos do apreço que os antigos heróis gregos e romanos tinham pelos seus poetas e da importância que davam ao conhecimento e à cultura, conciliando as armas com o saber.
Não é, infelizmente, o que se passa com os portugueses, que não dão valor aos seus poetas, porque não têm cultura para os conhecer. Ora, não se pode amar o que não se conhece, e a falta de cultura dos heróis nacionais é responsável pela indiferença que manifestam pela divulgação dos seus feitos, e, se não tiverem poetas que os cantem, serão esquecidos. Apesar disso, o poeta, movido pelo amor da Pátria, reitera o seu propósito de continuar a engrandecer, com os seus versos, as "grandes obras" realizadas.
Manifesta, desta forma, a vertente crítica e pedagógica da sua epopeia, na defesa da realização plena do Homem, em todas as suas capacidades.


Canto VI - Reflexão sobre o verdadeiro e árduo caminho da fama e da glória

Continuando a exercer a sua função pedagógica, o poeta defende um novo conceito de nobreza, espelho do modelo da virtude renascentista. Segundo este modelo, a fama e a imortalidade, o prestígio e o poder adquirem-se pelo esforço - na batalha ou enfrentando os elementos, sacrificando o corpo e sofrendo pela perda dos companheiros. Não se é nobre por herança, permanecendo no luxo e na ociosidade, nem pela concessão de favores se deve alcançar lugar de relevo.


Canto VII - Elogio ao espírito de cruzada dos portugueses / crítica aos outros povos

Percorrido tão longo e difícil caminho, é momento para que, na chegada a Calecut (est. 3-7), o poeta faça novo louvor aos portugueses. Exalta então o seu espírito de cruzada, a incansável divulgação da fé, por África, Ásia, América, "E, se mais mundos houvera, lá chegara", assim inserindo a viagem à Índia na missão transcendente que assumiram, e que é marca da sua identidade nacional.
Por oposição, critica duramente as outras nações europeias - os "Alemães, soberbo gado", o "duro inglês, o "Galo indigno", os italianos que, "em delícias, / Que o vil ócio no mundo traz consigo, / Gastam as vidas" - por não seguirem o seu exemplo, no combate aos infiéis...


Canto VII - Crítica aos contemporâneos ambiciosos que exploram e oprimem o povo

Numa reflexão de tom marcadamente autobiográfico, o poeta exprime um estado de espírito bem diferente do que caracterizava, no Canto I, a Invocação às Tágides. Agora percorre um caminho - "árduo, longo e vário", e precisa de auxílio, porque teme não chegar a bom porto. De uma vida cheia de adversidades, enumera a pobreza, a desilusão, os perigos do mar e da guerra, "Nua mão sempre a espada e noutra a pena".
Denuncia que, como paga do seu labor, recebe novas contrariedades, e desta forma apresenta, uma vez mais, a crítica aos contemporâneos, deixando o alerta: em consequência de tais maus exemplos de ingratidão deixarão de aparecer outros poetas que cantem a pátria. E a crítica aumenta de tom na parte final, quando enumera aqueles que nunca cantará e que, implicitamente, denuncia abundarem no seu tempo: os ambiciosos que sobrepõem os seus interesses aos do "bem comum e do seu Rei", os dissimulados, os exploradores do povo, que não defendem "que se pague o suor da servil gente".
No final, retoma a definição do seu herói - o que arrisca a vida "por seu Deus, por seu Rei".


Canto VIII - Crítica ao poder do dinheiro

O poeta enumera os efeitos perniciosos do ouro que provoca derrotas, faz dos amigos traidores, mancha o que há de mais puro, deturpa o conhecimento e a consciência, condiciona as leis, dá origem a difamações e à tirania dos reis, corrompe até os sacerdotes, sob a aparência da virtude. Retomando a função pedagógica do seu canto, o poeta aponta o dedo à sociedade sua contemporânea, orientada por valores materialistas.


Canto IX - Reflexões sobre o caminho para merecer a fama

Na sequência da cerimónia simbólica de entrega das coroas de louros aos marinheiros e a Vasco da Gama, o poeta dirige-se àqueles que desejam ser famosos, aconselhando-os sobre o caminho a seguir. Na verdade, é também aos seus contemporâneos que Camões se dirige, exortando-os a despertar do adormecimento e do ócio, a pôr de lado a cobiça e a tirania, a serem justos e a lutarem pela Pátria e pelo rei. Só assim serão eternizados como os marinheiros, e serão também "nesta ilha de Vénus recebidos."


Canto X - Crítica aos Portugueses seus contemporâneos / Apelo ao Rei

Os últimos versos de Os Lusíadas revelam sentimentos contraditórios: desalento, orgulho, esperança. "No mais, Musa, no mais..." pede o poeta, recusando continuar o seu canto, não por cansaço, mas por desânimo. O seu desalento advém de constatar que canta para "gente surda e endurecida", mergulhada "no gosto da cobiça e na rudeza / duma austera, apagada e vil tristeza". É a imagem do Portugal do seu tempo.
Por contraste, o poeta tem orgulho nos que estão dispostos a reavivar a grandeza do passado, evidenciando ainda a esperança de que o Rei os estimule para dar continuidade à glorificação do "peito ilustre lusitano" e dar matéria a novo canto. O poema encerra, pois, com uma mensagem que abarca o passado, o presente e o futuro. A glória do passado deverá ser encarada como exemplo presente para construir um futuro grandioso.


Velho do Restelo - um episódio em final de canto
(Canto IV, est. 94-104)

Situado no final do Canto IV, este episódio insere-se na narrativa feita por Vasco da Gama ao rei de Melinde. De certa forma, estabelece a ponte entre o plano da História de Portugal e o plano da Viagem.
No momento em que a armada está prestes a partir, uma figura destaca-se da multidão e levanta a voz, condenando a viagem. A caracterização sublinha a idade )"velho"), o aspecto respeitável ("aspeito venerando"), a atitude de descontentamento ("meneando / três vezes a cabeça, descontente"). a voz solene e audível ("A voz pesada um pouco alevantando"), e a sabedoria resultante da experiência de vida ("Cum saber só de experiências feito"; "experto peito"). De facto, a figura do Velho do Restelo impõe uma autoridade  e respeitabilidade que lhe permitem falar e ser ouvido sem contestação. As suas palavras têm o peso da idade e da experiência que daí resulta e a autoridade provém, exactamente, dessa vivida e longa experiência.
Naturalmente, o "Velho do Restelo" não é uma personagem histórica, mas uma criação de Camões com um profundo significado simbólico.
Numa análise superficial e meramente historicista, o Velho representa a corrente de opinião que via com desagrado a expansão para o Oriente, preferindo as conquistas militares no Norte de África.
Mas o Velho do Restelo representa muito mais. Ele é a representação daqueles que condenam a ousadia do Homem, o impulso do ser para transcender tudo o que o limita, o sonho de ir mais além.
Opositor de toda a forma de ambição humana, vê no progresso a fonte de todos os males. Nesse sentido, o Velho do Restelo é um conservador que se opõe ao juvenil impulso criador r transformador daqueles que não se contentam nem conformam com o já adquirido e já vivido.
Por outro lado ainda, podemos ver o Velho como símbolo dos que, em nome do bom senso, recusam a aventura, defendendo que é preferível a tranquilidade duma vida mediana à promessa de riquezas que, frequentemente, se traduzem em desgraças. Encontramos aqui um eco de uma ideia humanista: a nostalgia da Idade do Ouro, tempo de paz e tranquilidade de que o Homem se viu afastado e a que pode voltar, reduzindo a sua ambição a uma sábia mediania ("aurea mediocritas"), já que foi a ambição que lançou o ser humano na Idade do Ferro, em que vive (est. 98). Neste sentido, o episódio pode ser entendido como a manifestação do espírito humanista, favorável à paz e tranquilidade, contrário ao espírito guerreiro da Idade Média.

Edições Sebenta

segunda-feira, 25 de maio de 2009

Ó glória de mandar, ó vã cobiça

O Velho do Restelo (Canto IV, 94/104)


“La vos digo que ha fadigas,

Tantas mortes, tantas brigas,

E perigos descompassados,

Que assi vimos destroçados,

Pelados como formigas.”

Gil Vicente – Auto da Índia


1. Caracterização do Velho:


a) Física

“velho”

“aspeito venerando”

“a voz pesada”


b) Psicológica

“descontente”

“c’um saber só de experiências feito”


2. Circunstâncias que acompanharam o seu discurso:


Estrofe 94:

a) “(que) ficava nas praias entre a gente”

b) “postos em nós os olhos”

c) “meneando três vezes a cabeça, descontente”

d) “a voz pesada um pouco alevantando”



2.1.O sentido das circunstâncias

a) Os portugueses que discordavam da viagem.

b) Atitude para convencer.

c) 3 – o número da perfeição; a sabedoria.

d) A repreensão.


3. A estrutura do episódio:


1.ª parte – est. 94 – Introdução ao discurso do velho.

2.ª parte – est. 95/104 – Discurso (directo) organizado em três fases:

1 – est. 95/97

- Reflexão sobre os perigos a que a “vaidade, a quem chamamos Fama”, a “glória de mandar” e a “honra” conduzem o ser humano. (Frases do tipo exclamativo).

- Enumeração de algumas consequências dessa ambição.

- Interrogação sobre quais teriam sido as promessas que levaram os Portugueses a tal aventura. (Frases do tipo interrogativo).

2 – est. 98/101

- Apelo à “geração daquele insano” para que, se tanto enleva “a leve fantasia”, combata os Mouros (que estão perto e onde pode ganhar fama e glória) em vez de partir em busca do “incerto e incógnito perigo”.

3 – est. 102/104

- Incapaz de conter a sua amargura, o Velho maldiz aquele que inventou a caravela e recorda outros que, por ambição, também foram castigados.


4. O Velho como símbolo: O Velho, se por um lado representa a voz do bom senso, não deixa de ser também um símbolo do tradicional medo do desconhecido e da habitual hesitação perante a novidade.




Este episódio insere-se na narrativa feita por Vasco da Gama ao rei de Melinde. No momento em que a armada do Gama está prestes a largar de Lisboa para a grande viagem, uma figura destaca-se da multidão e levanta a voz, para condenar a expedição.

O texto é constituído por duas partes: a apresentação da personagem feita pelo narrador (est. 94) e o discurso do Velho do Restelo (est. 95 a 104).

A caracterização destaca a idade (“velho”), o aspecto respeitável (“aspeito venerando”), a atitude de descontentamento (“meneando / Três vezes a cabeça, descontente”), a voz solene e audível (“A voz pesada um pouco alevantando”), e a sabedoria resultante da experiência de vida (“Cum saber só de experiências feito”; “experto peito”).

A figura do Velho do Restelo revela uma autoridade, uma respeitabilidade, que lhe permite falar e ser ouvido sem contestação. As suas palavras têm o peso da idade e da experiência que daí resulta. E a autoridade provém exactamente dessa vivida e longa experiência.

O seu discurso pode dividir-se em três partes.

Na primeira (est. 95-97), condena o envolvimento do país na aventura dos descobrimentos, a que se refere de forma claramente negativa (“vã cobiça”, “vaidade”, “fraudulento gosto”, “dina de infames vitupérios”). Denuncia de forma inequívoca o carácter ilusório das justificações de carácter heróico que eram apresentadas para esse empreendimento (“Fama”, “honra”, “Chamam-te ilustre, chamam-te subida”, “Chamam-te Fama e Glória soberana”), sendo certo que tudo isso são apenas “nomes com quem se o povo néscio engana”. E apresenta um rol extenso de consequências negativas dessa aventura: mortes, perigos tormentas, crueldades, desamparo das famílias, adultérios, empobrecimento material e destruição. Esta primeira parte é introduzida por uma série de apóstrofes (“Ó glória de mandar”, “ó vã cobiça”. “Ó fraudulento gosto”), com as quais revela que o que ele condena é de facto a ambição desmedida do ser humano, neste caso materializada na expansão ultramarina. O sentimento de exaltada indignação manifesta-se, sobretudo, pela utilização insistente de exclamações e interrogações retóricas.

Na segunda parte (est. 98-101 começa com uma nova apóstrofe, desta vez dirigida, não a um sentimento, mas aos próprios seres humanos (“ó tu, geração daquele insano”). Se na primeira parte manifestou a sua oposição às aventuras insensatas que lançam o ser humano na inquietação e no sofrimento, agora propõe uma alternativa menos má, sugerindo que a ambição seja canalizada para um objectivo mais próximo — o Norte de África. A estância 99 é toda ela preenchida com orações subordinadas concessivas, anaforicamente introduzidas por “já que”, antecedendo a sua proposta de forma reiterada e cobrindo todas as variantes dessa ambição: religiosa (“Se tu pola [Lei] de Cristo só pelejas?”), material (“Se terras e riquezas mais desejas?”), militar (“Se queres por vitórias ser louvado?”). E aproveita para apresentar novas consequências maléficas da expansão marítima: fortalecimento do inimigo tradicional (“Deixas criar às portas o inimigo”), despovoamento e enfraquecimento do reino. E mais uma vez recorre às interrogações retóricas como recurso estilístico dominante.

Na terceira parte (est. 102-104), o poeta recorda figuras míticas do passado, que, de certo modo, representam casos paradigmáticos de ambição, com consequências dramáticas. Começa por condenar o inventor da navegação à vela — “o primeiro que, no mundo, / Nas ondas vela pôs em seco lenho!”. Faz depois referência a Prometeu, que, segundo a mitologia grega, teria criado a espécie humana, dando assim origem a todas as desgraças consequentes — “Fogo que o mundo em armas acendeu, / Em mortes, em desonras (grande engano!”. Logo a seguir, narra os casos de Faetonte e Ícaro, que, pela sua ambição, foram punidos. E os quatro versos finais da fala do Velho do Restelo sintetizam bem esse desejo desmedido de ultrapassar os limites:

Nenhum cometimento alto e nefando

Por fogo, ferro, água, calma e frio,

Deixa intentado a humana geração.

Mísera sorte! Estranha condição!



Simbologia do episódio do “Velho do Restelo”


Naturalmente, o “Velho do Restelo” não é uma personagem histórica, mas uma criação de Camões com um profundo significado simbólico.

Por um lado, representa aquela corrente de opinião que via com desagrado o envolvimento de Portugal nos Descobrimentos, considerando que a tentativa de criação de um império colonial no Oriente era demasiado custosa e de resultados duvidosos. Preferiam que a expansão do país se fizesse pela ampliação das conquistas militares no Norte de África.

Por outro lado, se ignorarmos o contexto histórico em que o episódio é situado, podemos ver na figura do Velho o símbolo daqueles que, em nome do bom senso, recusam as aventuras incertas, defendendo que é preferível a tranquilidade duma vida mediana à promessa de riquezas que, geralmente, se traduzem em desgraças. Encontramos aqui um eco de uma ideia cara aos humanistas: a nostalgia da idade de ouro, tempo de paz e tranquilidade, de que o homem se viu afastado e a que pode voltar, reduzindo as suas ambições a uma sábia mediania (“aurea mediocritas”, na expressão dos latinos), já que foi a desmedida ambição que lançou o ser humano na idade de ferro, em que agora vive (est. 98). Neste sentido o episódio pode ser entendido como a manifestação do espírito humanista, favorável à paz e tranquilidade, contrário ao espírito guerreiro da Idade Média.

Assim, o episódio do “Velho do Restelo” está de certo modo em contradição com aquilo mesmo que Os Lusíadas, no seu conjunto, procuram exaltar — o esforço guerreiro e expansionista dos portugueses. Essa contradição é real e traduz, de forma talvez inconsciente, as contradições da sociedade portuguesa da época e do próprio poeta. De facto, Camões soube interpretar, melhor que ninguém, o sentimento de orgulho nacional resultante da consciência de que durante algum tempo Portugal foi capaz de se destacar das demais nações europeias. Mas Camões era também um homem de sólida formação cultural, atento aos valores estéticos do classicismo literário e imbuído de ideais humanistas. Se, ao cantar os feitos dos portugueses, ele dá voz a esse orgulho nacional, que sentia também como seu, na fala do “Velho do Restelo” e em outras intervenções disseminadas ao longo do poema, exprime as suas ideias de humanista.



A Mena na cozinha

Pudim de maracujá


100 g de polpa de maracujá
2 dl de natas
1 saqueta de gelatina de maracujá
2,5 dl de água

Misture bem a polpa com as natas. Na água a ferver, dissolva a gelatina. Adicione à gelatina a mistura das natas com a polpa e mexa bem. Leve ao frigorífico para solidificar dentro de uma forma.
Desenforme e decore a gosto.


Miminho


Deixo-vos este miminho que veio daqui. Obrigada, meninos!


Trabalhinho:
Brinco

sexta-feira, 22 de maio de 2009

O Velho do Restelo

Vasco da Gama e D. Manuel I

O Velho do Restelo

A fala do velho do Restelo surge como um eco erudito e majestoso de todas as vozes anónimas que se lamentavam. As queixas espontâneas e instintivas do povo anónimo surgem na boca do Velho do Restelo (tais palavras tirou do esperto peito) carregadas da força lógica da razão. Estão no seu discurso todos os receios de perder para sempre os familiares (Que mortes, que perigos, que tormentas, que crueldades neles experimentas?) de destruição da família (fonte de desamparo e adultérios) e de muitos outros desastres (A que novos desastres determinas de levar estes reinos... Que perigos que mortes lhes destinas?) A diferença entre o povo anónimo e o Velho está no facto de este poder exibir uma grande cultura, de se apresentar como um humanista.
Segundo A. J. Saraiva, Camões assume inteiramente o ponto de vista do Velho do Restelo, que corresponde, afinal à ideologia renascentista da paz e da tranquilidade. Como se explica então que Camões exalte, no mesmo poema, as acções heróicas dos portugueses? Assim se explica nesta contradição d' Os Lusíadas: o poeta era um humanista, mas ao serviço de uma ideologia cavaleiresca. No próprio texto que estamos a analisar se pode detectar que Camões deu conta e tentou mesmo destruir, ou esbater, essa contradição, por meio daquela concessão (Já que...) na estrofe 99, em que o Velho (e também o poeta) admite que, para satisfazer o desejo natural da heroicidade, se faça guerra no norte de África, onde o inimigo está mais perto (deixas criar às portas o inimigo, / por ires buscar outro de tão longe...)
Esta transigência do Velho (e do poeta), segundo a qual se tolera a guerra de África, já não está nada de acordo com o espírito pacífico renascentista, espítito que volta a renascer na parte final do texto (Oh! Maldito o primeiro que, no mundo, / nas ondas velas pôs em seco lenho!), em que se condenam todos os atrevimentos simbolizados na revoltosa ousadia de Prometeu, no atrevimento de Faetonte, e no orgulho de Dédalo e seu filho Ícaro. A utilização destas figuras simbólicas da mitologia, assim como a referência ao mito das quatro idades, revelam o tom e a cultura renascentista do discurso de Velho.
Há, no entanto, quem não veja qualquer contradição entre as opiniões do Velho do Restelo e o espírito cavaleiresco da mensagem laudatória d' Os Lusíadas: as razões de Velho representariam apenas a opinião daqueles que, nessa altura, se opunham à empresa dos descobrimentos. Sendo assim, a oposição do Velho não corresponderia à opinião do poeta e não representaria forçosamente o ideal renascentista da paz e tranquilidade.
Poder-se-á também dizer que a voz do Velho do Restelo é a voz do bom senso que adverte do perigo de aventuras, que se afiguram antecipadamente como impossíveis e, com grande probabilidade, desastrosas. Não poderá então esta figura do Velho prudente ter sido criada por Camões para realçar a coragem de os portugueses se lançarem a um empreedimento que antecipadamente se afigurava acima das possibilidades do homem, "bicho da terra tão pequeno, acima do que prometia a força humana?"
Mas não se pode duvidar historicamente da existência de duas correntes opostas, uma de harmonia com os interesses da velha nobreza que repudiava a nossa expansão para o oriente e a defendia para o norte de Áftica, e outra de harmonia com os interesses da nova burguesia que defendia a expansão para o oriente. Camões nunca condena as palavras do Velho, reveste-o de respeito e autoridade; por outro lado, as referências do poeta à obra do Infante D. Henrique (o grande promotor dos descobrimentos) são quase nulas; além disso, é clara a sua insistência junto de D. Sebastião para que ele chefie a luta no norte de África, dando origem a nunca ouvido canto. Tudo isto leva muitos à conclusão de que Camões assumiu a opinião da velha nobreza, defendendo a nossa expansão para o norte de África, o que o Velho apenas tolerava e o que não deixava de se opor também aos ideais humanistas da paz e tranquilidade. Continua, pois, a contradição de Camões repudiar, como humanista, a viagem à Índia e exaltar este mesmo empreendimento como acção central do seu poema. Porém, Amélia Pinto Pais coloca a resolução desta contradição aparente no próprio poema: os navegadores não se deixam demover e partem apesar da mensagem do Velho, movidos por um impulso interior de grandeza e heroicidade. "Herói é aquele que, consciente embora do aspecto irracional de um empreendimento, para ele avança, cheio de força interior... Porque dirá mais tarde Camões, em contraponto às palavras do Velho, a imortalidade conquista-se

Pelo trabalho imenso que se chama
Caminho da virtude, alto e fragoso,
Mas, no fim, doce, alegre e deleitoso.

O progresso do homem faz-se na luta, muitas vezes ilógica e absurda, contra os obstáculos que lhe move o céu sereno". Ainda segundo Amélia Pinto Pais, a viagem do Gama demontrará, apesar do Velho, que os portugueses chegam à Índia, vencendo o elemento água, tal como Ícaro e Prometeu, venceram o ar e o fogo. Foi mais um passo em frente na luta do homem por se elevar acima do tamanho natural do bicho da terra, acima do que prometia a força humana, porque, na linguagem poética de Fernando Pessoa,

Quem quer passar além do Bojador
tem que passar além da dor.

e

Tudo vale a pena
se a alma não é pequena.


Trabalhinho:


Brinco

A Mena na Cozinha

Dourada grelhada ao natural

1 dourada grande
sal

pimenta
azeite
alho em pó

Arranje o peixe: tire-lhe as tripas e as escamas e dê uns golpes como apresenta na figura. Tempere com sal, pimenta e alho em pó. Regue com azeite e leve a assar no forno num pirex. Vá regando o peixe com o azeite. A meio da cozedura, vire-o.

Sirva com batatinhas cozidas com a pele e com brócolos,
Bom apetite!


MEME do DICIONÁRIO

Recebi este MEME do blog felixahel.blogspot.com. Obrigada!

1) Pegue o dicionário, de preferência de língua portuguesa, mais próximo que você encontrar...
2) Abra esse dicionário em qualquer página...
3) A primeira palavra que vir, retire-a e digite-a no “Google Imagens“...
4) Faça uma postagem a dizer qual a palavra que foi sorteada...
5) E mostre o primeiro resultado da imagem conseguida, digitando essa palavra.

Palavra: disna - casa africana, de planta circular e tecto cónico.

Repasso este jogo a quem o quiser levar. É só avisarem!