Bem-Vindos a este espaço! Aqui encontrarão retalhos da vida de uma mulher... Retalhos, porque a minha vida é isso mesmo... é composta por mil pedacinhos que se vão tecendo e juntando para construir uma teia, umas vezes mais colorida... outras mais sombria... Mas no fim, tudo se conjuga harmoniosamente...
terça-feira, 15 de novembro de 2011
quinta-feira, 3 de junho de 2010
A duna
Foto da NetA Duna
E foi ao ver a alegria das meninas lituanas a descer a duna que me lembrei de tantas tardes passadas lá em cima, de tantas gargalhadas cheias de areia!
Todas as manhãs subíamos o monte de areia, muito mais alto do que é hoje, e nos embrenhávamos por entre as árvores à cata de lenha. Em grupo, entre anedotas e risadas, apanhávamos os ramos secos e caídos das árvores e algum mato para atearmos o lume. E à noite, subíamos aquela areia fria e húmida carregados com as violas, os termos do café e do chá e os biscoitos, bolachas e bolinhos. E, chegados ao cume, sentávamo-nos a ver a vista, São Martinho iluminado, incendiava a água da baía que cintilava e tremeluzia colorida. Depois, deitávamo-nos e ficávamos a mirar a lua e a contar as estrelas. Já mais descansados e com os olhos cheios com aquela beleza nocturna, aproximávamo-nos da lenha e fazíamos uma fogueira e era à sua volta, sentados, que cantávamos horas a fio, até se gastar a lenha, o café, o chá e todos os bolinhos, até a voz enrouquecer e os olhos piscarem de tanto sono e cansaço, até os reflexos das labaredas desaparecerem do nosso olhar. No fim, altas horas da madrugada, descíamos o monte a correr numa alegria descomunal, lá em baixo a água brilhava e aqui e ali saltitavam peixinhos. Tudo estava tão silencioso, a praia deserta, a água a murmurar suavemente. Todos nos calávamos para ouvir o silêncio, para enchermos de novo os nossos olhos com aquela água negra e brilhante, com a lua reflectida na negrura como um queijo enorme a flutuar. E, levemente, quase sem tocar com os pés no chão, cada um de nós entrava na sua tenda clandestinamente.
Foto da MarianaPalavras de amor
Não posso adiar o amor
Não posso adiar o amor para outro século
não posso
ainda que o grito sufoque na garganta
ainda que o ódio estale e crepite e arda
sob as montanhas cinzentas
e montanhas cinzentas
Não posso adiar este braço
que é uma arma de dois gumes
amor e ódio
Não posso adiar
ainda que a noite pese séculos sobre as costas
e a aurora indecisa demore
não posso adiar para outro século a minha vida
nem o meu amor
nem o meu grito de libertação
Não posso adiar o coração.
O que é que o poeta não pode adiar no poema "Não posso adiar o amor..."?
Não posso adiar...
- a minha vida
- o amor
- o coração
- o meu amor
- o meu grito de libertação
- este braço
Figuras de estilo:
"este braço/ que é uma arma de dois gumes/ amor e ódio" = antítese e metáfora
"a noite pese séculos/ sobre as costas" = metáfora
"estale e crepite e arda" = gradação e polissíndeto
A expressividade da linguagem deste poema confere-lhe um carácter original e contribui para a criação de múltiplas linhas de sentido. A intersecção de versos curtos com versos longos, a quase inexistência de rima e as constantes repetições estão na linha da poesia do século XX.
Este poema, em relação à sua estrutura externa, apresenta uma estrutura estrófica e métrica irregulares.
O tema deste poema é o amor. Fala-se de um amor inadiável e da influência que este tem na vida do sujeito poético. A ideia de que o amor é inadiável é-nos logo apresentada no título e está presente ao longo de todo o poema através da construção anafórica do poema, em que o 1º verso de cada estrofe repete a expressão “não posso adiar”. O sujeito lírico afirma, ao longo do poema, a sua incapacidade de negar o amor, uma vez que este sentimento surge no poema como sinónimo de vida e de liberdade. No poema aponta-se para a existência de duas forças opostas, o amor e o ódio. Assim, aparecem alguns elementos negativos ao longo do poema: o grito que sufoca a garganta; o ódio que estala; sob montanhas cinzentas; a noite que pesa séculos sobre as costas, como se nunca acabasse; “a aurora indecisa” que demora a chegar, como se a esperança de um novo dia nunca se concretizasse. A estes elementos negativos, o sujeito poético contrapõe o amor como se fosse um abraço, “uma faca de dois gumes”, que pudesse conciliar, ou melhor, fazer uma ponte, uma ligação entre o amor e o ódio. O sujeito lírico termina esta estrofe, afirmando a sua incapacidade de adiar o amor, ou seja, a vida, reclamando uma existência em que a liberdade esteja no centro da sua vida “não posso adiar para outro século a minha/ vida/ nem o meu amor/ nem o meu grito de libertação”. O sujeito poético sintetiza com uma expressão, num monóstico, os seus sentimentos, afirmando somente “não posso adiar o coração”. O coração é o centro da vida, o lugar onde nasce o amor.
Bacalhau com natas
1 kg de batatas
azeite
2 cebolas
2 colheres de sopa de farinha
0,5 l de leite
2 dl de natas
1 colher de sopa de mostarda
sumo de limão
sal
pimenta
queijo ralado
Num tabuleiro de ir ao forno e à mesa, disponha o bacalhau com a cebola e as batatas em camadas, Regue com o molho e polvilhe com queijo ralado. Leve ao forno a alourar.
Bom apetite!
Trabalhinhos dos meninos das sextas-feiras
sexta-feira, 21 de março de 2008
Árvores e Poesia

E deseja o destino que deseja;
Nem cumpre o que deseja,
Nem deseja o que cumpre.
Como as pedras na orla dos canteiros
O Fado nos dispõe, e ali ficamos;
Que a Sorte nos fez postos
Onde houvemos de sê-lo.
Não tenhamos melhor conhecimento
Do que nos coube que de que nos coube.
Cumpramos o que somos.
Nada mais nos é dado.
Ricardo Reis
Autopsicografia
O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.
E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.
E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama o coração.
Agora as palavras
Obedecem-me agora muito menos,
as palavras. A propósito
de nada resmungam, não fazem
caso do que lhes digo,
não respeitam a minha idade.
Provavelmente fartaram-se da rédea,
não me perdoam
a mão rigorosa, a indiferença
pelo fogo-de-artifício.
Eu gosto delas, nunca tive outra
paixão, e elas durante muitos anos
também gostaram de mim: dançavam
à minha roda quando as encontrava.
Com elas fazia o lume,
sustentava os meus dias, mas agora
estão ariscas, escapam-se por entre
as mãos, arreganham os dentes
se tento retê-las. Ou será que
já só procuro as mais encabritadas?
«A árvore é figura do homem e próprio significado seu: porque nela, diz Santo Ambrósio, que há viver e morrer, crescer e decrescer, como no homem. Nela, diz Plínio, que há mocidade e velhice: doenças gerais e particulares, como no homem. Dela, diz Colunela, que padece fome e sede, como o homem e que tanto lhe faz mal a sobejidão do alimento, como a falta dele. Dela, diz Santo Agostinho, que vive enquanto reverdece e morre quando seca e murcha. Plutarco por encarecimento diz que as árvores têm fraqueza e mostram que sentem dores quando lhes quebram ou cortam os ramos. O sol as seca, frios as queimam, névoas lhes fazem mal, quenturas as abrasam, águas as apodrecem, ventos as combatem, tempestades as destroem e enfim muitas coisas lhes são adversas e outras favoráveis, como sucede aos homens. Também se diz das árvores que após admiráveis concebimentos de cada ano, têm fecundos partos com os quais aparecem quando descobrem flores, e então tem cuidado de criar os filhos que dão os frutos maduros e sazonados. As árvores são amigas entre si e folgam com a companhia das outras. Teófrasto diz que assim como o exterior do homem mostra os poucos ou muitos anos que têm, assim as árvores nas aparências mostram sua idade.
Por estas e outras razões têm as árvores muita simpatia e semelhança com os homens e metaforicamente são eles significados nelas. Assim diz São Gregório que o homem em sua criação é árvore que cresce, e na tentação folha que se move, e na fraqueza flor que cai. É o homem árvore e por isso em grego se chama Antropos que quer dizer árvore que tem as raízes para cima e os ramos para baixo. (...)»
in "Consideração primeira", Tratado das Significações das Plantas, Flores, e Frutos que se referem na Sagrada Escritura, Frei Isidoro de Barreira (Lisboa, 1622)
Cada árvore é um ser para ser em nós
Cada árvore é um ser para ser em nós
Para ver uma árvore não basta vê-la
a árvore é uma lenta reverência
uma presença reminiscente
uma habitação perdida
e encontrada
À sombra de uma árvore
o tempo já não é o tempo
mas a magia de um instante que começa sem fim
a árvore apazigua-nos com a sua atmosfera de folhas
e de sombras interiores
nós habitamos a árvore com a nossa respiração
com a da árvore
com a árvore nós partilhamos o mundo com os deuses
António Ramos Rosa
A planície é um brasido e, torturadas,
As árvores sangrentas, revoltadas,
Gritam a Deus a bênção duma fonte!
Esfíngicas, recortam desgrenhadas
Os trágicos perfis no horizonte!
Árvores! Corações, almas que choram,
Almas iguais à minha, almas que imploram
Em vão remédio para tanta mágoa!
Árvores! Não choreis! Olhai e vede:
- Também ando a gritar, morta de sede,
Pedindo a Deus a minha gota de água!

As árvores crescem sós. E a sós florescem.
Começam por ser nada. Pouco a pouco
se levantam do chão, se alteiam palmo a palmo.
Crescendo deitam ramos, e os ramos outros ramos,
e deles nascem folhas, e as folhas multiplicam-se.
Depois, por entre as folhas, vão-se esboçando as flores,
e então crescem as flores, e as flores produzem frutos,
e os frutos dão sementes,
e as sementes preparam novas árvores.
E tudo sempre a sós, a sós consigo mesmas.
Sem verem, sem ouvirem, sem falarem.
Sós.
De dia e de noite.
Sempre sós.
Os animais são outra coisa.
Contactam-se, penetram-se, trespassam-se,
fazem amor e ódio, e vão à vida
como se nada fosse.
As árvores, não.
Solitárias, as árvores,
exauram terra e sol silenciosamente.
Não pensam, não suspiram, não se queixam.
Estendem os braços como se implorassem;
com o vento soltam ais como se suspirassem;
e gemem, mas a queixa não é sua.
Sós, sempre sós.
Nas planícies, nos montes, nas florestas,
A crescer e a florir sem consciência.
Virtude vegetal viver a sós
E entretanto dar flores.
António Gedeão

Ainda falando de árvores: estas estão floridas e anunciam a Primavera.

