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terça-feira, 13 de março de 2012

Olá, guardador de rebanhos - Alberto Caeiro




"Olá, guardador de rebanhos,
Aí à beira da estrada,
Que te diz o vento que passa?"

"Que é vento, e que passa,
E que já passou antes,
E que passará depois.
E a ti o que te diz?"

"Muita coisa mais do que isso.
Fala-me de muitas outras coisas
De memórias e de saudades
E de coisas que nunca foram".

"Nunca ouviste passar o vento.
O vento só fala do vento.
O que lhe ouviste foi mentira,
E a mentira está em ti".

Alberto Caeiro


Há neste poema um diálogo entre um guardador de rebanhos e um sujeito lírico. Para o guardador de rebanhos, o vento não tem qualquer mistério, apenas passa; para o sujeito poético, o vento aparece personificado, falando "de memórias e de saudades", "de muitas outras coisas" que não estão no vento, mas no seu próprio espírito. Verifica-se, portanto, um confronto entre duas atitudes perante a natureza: uma que a povoa de fantasmas e outra que a despe de qualquer carga emotiva ou mítica.

No aspecto formal, este poema é típico de Alberto Caeiro pelo uso do verso livre, metricamente irregular, constituído por um terceto e três quadras, estruturalmente organizado à volta de duas interrogações. A linguagem é extremamente acessível e repetitiva (terceiro verso da primeira estrofe e segunda estrofe, por exemplo), o que vem emprestar à composição um certo tom de falsa simplicidade, típica deste poeta.

No fundo, trata-se de opor uma concepção subjectiva a uma visão objectiva da natureza. E isso é que é importante. Os recursos estilísticos são pouco abundantes, como, aliás, convinha ao pendor prosaico da poesia de Alberto Caeiro:

  • repetições "O vento só fala do vento"
  • assonância: "E a ti o que te diz?"
  • personificação: "Fala-me de muitas outras coisas"
  • ritmo predominantemente binário.