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terça-feira, 3 de janeiro de 2012

O Infante - Fernando Pessoa - Mensagem


Deus quer, o homem sonha, a obra nasce.
Deus quis que a terra fosse toda uma,
Que o mar unisse, já não separasse.
Sagrou-te, e foste desvendando a espuma,

E a orla branca foi de ilha em continente,
Clareou, correndo, até ao fim do mundo,
E viu-se a terra inteira, de repente,
Surgir, redonda, do azul profundo.

Quem te sagrou criou-te português.
Do mar e nós em ti nos deu sinal.
Cumpriu-se o Mar, e o Império se desfez.
Senhor, falta cumprir-se Portugal!


Este poema integra-se na segunda parte da "Mensagem", que se designa "Mar Português".
Podemos considerar, neste poema, três momentos:
  • O primeiro verso, uma espécie de mote ou aforismo, em ritmo ternário: "Deus quer, o homem sonha, a obra nasce".
Os três sujeitos (Deus, o homem e a obra), dependentes mutuamente, praticam as suas acções: o primeiro quer, o segundo sonha, e a terceira nasce. Mas, sem a vontade do primeiro, o segundo não sonharia e a terceira não podia nascer.
  • O segundo momento vai até ao fim da segunda quadra e, sendo a glosa do mote, subdivide-se em três partes:
  1. A primeira parte, referente a Deus, vai até "Sagrou-te". Deus, o agente da vontade, quer a unidade da terra. Ele é o agente dum projecto divino de unidade. Daí haver no poema um grande número de palavras ou expressões que sugerem a ideia de uno ou de unidade: uma, unisse, não separasse, inteira, redonda, fim do mundo.
  2. A segunda, referente ao homem, vai até ao fim da primeira quadra. Aí se desenvolve a ideia de que o homem sonha e é o agente da vontade divina. No poema, esse homem animado por um projecto divino é o Infante. Ele é o herói navegante em busca do caminho da imortalidade, cumprindo um dever individual e pátrio: a realização terrestre de uma missão transcendente. E, por outro lado, ele é também o herói em busca de um caminho de universalidade. Daí o uso do artigo definido em "O Infante" e "o homem", com um valor universalizante. Mais do que a identificação do Infante com o homem em geral, ele é o escolhido por Deus para a realização do Seu projecto. Isto empresta-lhe um carácter divino, ele é um iniciado, aquele que sonha, o que tem a visão e, por isso, foi "desvendando a espuma". E, sendo português, a sua escolha para desempenhar uma missão transcendente, a sua sagração, é a divinização do homem português.
  3. A terceira, referente à obra, vai até ao fim da segunda quadra e corresponde à revelação: "E viu-se a terra inteira, de repente, / Surgir, redonda, do azul profundo".
Há no texto vários caracteres próprios da Revelação:
- o seu carácter súbito: "de repente";
- o aparecimento: "Surgir";
- a ideia de origem, profundidade: "o azul profundo;
- a presença do "sinal", na terceira estrofe.
  • O terceiro momento é uma conclusão da glosa e obedece a um esquema semelhante ao do primeiro verso, um esquema dialéctico hegeliano: o sonho cumpriu-se, desfez-se e deu lugar a um novo sonho. O sonho cumprido ("Cumpriu-se o Mar") corresponde à tese, o sonho desfeito ("O Império se desfez") seria a antítese, e o novo sonho constituiria a síntese ("Cumprir-se Portugal"). Este esquema dialéctico cíclico impõe o nascimento de um outro sonho ("Cumprir-se Portugal!"), mas tal só acontecerá se o "Senhor" corresponder ao apelo que, em frase exclamativa e em forma de vocativo, lhe é feito no último verso: "Senhor, falta cumprir-se Portugal!"
Portanto, mais uma vez, a vontade de Deus, como no primeiro verso, é requisito inicial e indispensável. Esta conclusão é, no fundo, uma invocação a Deus para que queira de novo e desencadeie um novo ciclo. Seria um voltar ao princípio: uma nova vontade divina, um novo sonho e uma nova acção.

Este poema, comò praticamente todos os da "Mensagem", é caracterizado pela sua ambiguidade e pela exploração do valor simbólico de certas palavras ou conceitos. A forma verbal "sagrou-te", para além da força advinda das suas conotações religiosas, evoca, quando associada à figura do Infante, a palavra "Sagres" com todo o seu valor sagrado e simbologia de início ou princípio.
No que diz respeito à exploração do simbólico são de considerar:
- a utilização das maiúsculas, que vem do paulismo (Mar, Império) e procura chamar a atenção para a riqueza significativa das palavras.
- Por outro lado, palavras como "espuma" e formas verbais como "desvendando" sugerem-nos o mistério, o véu, a névoa que se descobre, a venda que se levanta, o segredo que se revela.
- E o tirar ou levantar a venda (desvendar) provoca o clarear ("clareou"), sugestivo de luz, revelação, conhecimento. "O azul profundo" do mar e o escuro são o desconhecido; o claro é o revelado.
- Também "sinal" e "mar" assumem o valor de símbolos. O mar é traço de união de ilhas e continentes: "Deus quis que o mar unisse, já não separasse".
- O adjectivo "redonda" referido a terra é altamente simbólico. Designa um mundo circular, fechado, uno, todo.
- Mesmo as cores (o azul e o branco) assumem valor simbólico: o azul está ligado ao misterioso desconhecido; o branco da espuma vem clarear e revelar "a terra inteira, de repente".
- E o "Infante" é o símbolo do homem universal, herói que realizou um sonho que era vontade de Deus.

Mas há outros recursos estilísticos a assinalar:
- A personificação: "E a orla branca foi (...) correndo, até ao fim do mundo". Há personificação da "orla branca" que nos sugere a rapidez imparável, elementar, das descobertas.
- A presença de uma certa forma de diálogo. Pessoa dirige-se a Deus (Senhor, falta cumprir-se Portugal!) e ao Infante, utilizando, em relação a este, a segunda pessoa do singular: "Sagrou-te e foste..." e "Quem te sagrou criou-te português / Do mar e nós em ti nos deu sinal". Todo o discurso dirigido ao Infante no tempo presente é uma evocação do passado feita no pretérito e a invocação ao "Senhor", também produzida no tempo presente, é feita no presente do indicativo ("falta cumprir-se Portugal!"), o que vem dar-lhe uma dimensão maior, uma sugestão de necessidade, uma ultrapassagem do passado e uma projecção no futuro. Claro que este diálogo não tem respostas, o que sobrecarrega de virtualidades a explorar o mesmo diálogo e não impede que nos apercebamos da sua orientação messiânica.
- A rima valoriza certas palavras que, aparecendo em fim de verso, vêem o seu significado alargado: "uma" (segundo verso), "português" (nono verso). "Portugal" (último verso).
- O ritmo ternário do primeiro verso (já referido).O ritmo binário no terceiro verso da primeira estrofe "Cumpriu-se o Mar, e o Império desfez-se".

Concluo com uma pequena interpretação do poema:
  1. Nele se sugere a ideia de um ritmo cíclico dependente da vontade de Deus, ditado pelo Destino: Deus quis, o homem sonhou, a obra (o Império) nasceu, a obra desfez-se e falta cumprir-se Portugal. Deus tem de querer de novo que se cumpra Portugal.
  2. Há ainda a ideia de assimilação do Infante ao homem animado de um projecto de universalidade e imortalidade.
  3. Acentua-se a divinização do herói, que é o eleito de Deus, um iniciado.
  4. A divinização do herói transmuta-se na divinização de um povo, que é também um eleito de Deus para levar a cabo uma missão, um projecto ideal de universalidade e de unidade do mundo


quarta-feira, 3 de setembro de 2008

Deus quer, o homem sonha, a obra nasce

Praia do Pedrógão


O INFANTE

Deus quer, o homem sonha, a obra nasce.
Deus quis que a terra fosse toda uma,
Que o mar unisse, já não separasse.
Sagrou-te, e foste desvendando a espuma,

E a orla branca foi de ilha em continente,
Clareou, correndo, até ao fim do mundo,
E viu-se a terra inteira, de repente,
Surgir, redonda, do azul profundo.

Quem te sagrou criou-te português.
Do mar e nós em ti nos deu sinal.
Cumpriu-se o Mar, e o Império se desfez.
Senhor, falta cumprir-se Portugal!


O desenvolvimento do assunto deste poema desenvolve-se em três partes. A primeira parte é constituída apenas pelo primeiro verso, que contém uma afirmação tripartida de tipo aforístico: "Deus quer, o homem sonha, a obra nasce". Os três termos desta afirmação seguem-se segundo a ordem lógica causa-efeito: o agente ou causa próxima da obra (efeito) é o homem, mas a causa remota, o primeiro determinante é Deus. Se Deus não quisesse, o homem não sonharia e a obra não nasceria. De notar que o sentido aforístico da frase tem um valor universal: o substantivo homem refere-se ao ser humano em geral e obra designa qualquer acção humana.
A segunda parte do texto (do segundo verso da 1.ª estrofe até ao fim da 2.ª) apresenta-nos a vontade de Deus que quer toda a terra unida pelo mar (que a separava), confiando essa missão ao Infante D. Henrique que levou, como por encanto, essa orla branca até ao fim do mundo, surgindo, em visão miraculosa, a terra redonda do azul profundo. Esta segunda parte subdivide-se em três momentos: a acção de Deus, a acção do Infante (herói ungido por Deus) e a realização da obra (o grandioso efeito que transcende as forças humanas, próprio de heróis).
A terceira parte é constituída pela última estrofe, em que se transpõe para o povo português a glória do Infante (quem te sagrou criou-te português). O povo português foi, pois, o eleito por Deus para esta façanha. Mas o sujeito poético assinala também o desmoronar-se do império dos mares (o império se desfez), prevendo, no entanto, uma nova acção para renovação e engrandecimento de Portugal
(falta cumprir-se Portugal).
O assunto evolui primeiro do geral (universal) para o particular: o homem e a obra do primeiro verso têm aplicação universal, ao passo que, na segunda parte, o homem se particulariza no Infante e a obra na epopeia marítima. Dá-se, depois, na passagem da segunda para a última parte do poema, uma mudança de sentido oposto: transição de um plano particular (Infante) para um plano geral (os portugueses).
Deus => o homem => a obra = Pela vontade de Deus e pelo querer e acção do homem português realizou-se a epopeia marítima, "cumpriu-se o mar", mas, logo a seguir, o Império se desfez. Dá-se o desânimo nacional, uma pausa no caminho glorioso do nosso povo. Daí a súplica do sujeito poético ao Senhor que dá origem a tudo: "Senhor, falta cumprir-se Portugal!..." Sugere-se, pois, uma nova acção de Deus e do homem português, de forma a repor, ou a acrescentar ainda mais a glória do povo luso. De novo se vai repetir a mesma sequência do primeiro verso do poema: um impulso de Deus => um sonho do homem => e uma nova epopeia.
Neste poema realça-se a função iniciática do Infante na obra dos descobrimentos, acção essa que lhe foi confiada pela própria divindade. Daí o emprego de palavras carregadas de conotações simbólicas. Assim, a expressão "sagrou-te", talvez ligada na mente do sujeito poético
à palavra Sagres (o Infante de Sagres), sugere a escolha do Infante para uma missão divina ("Deus quer"). O facto de o sujeito lírico usar maiúsculas em "Mar" e "Império" dá às palavras uma dimensão marcadamente simbólica. Mar é símbolo do desconhecido, do mistério. Daí as expressões "desvendando a espuma" (desfazendo o mistério), "nos deu sinal" (dar um sinal é dar a chave para decifrar o mistério), que denunciam já o levantar de um véu, o caminhar para a plena luz. As palavras, ou expressões "espuma" (branca), "orla branca", "clareou", "surgir" (sair das sombras, revelar-se), "do azul profundo" (do mar imenso, do fundo do mistério), com todo o seu conteúdo simbólico, exprimem a passagem do mistério para a plena luz. Esta passagem apresenta-se como repentina, espectacular, miraculosa. É o que sugere a expressão: "E viu-se a terra inteira, de repente,/ Surgir redonda..."
Esta visão da terra redonda, surgida repentinamente, sugere a ideia de que a obra dos portugueses é o realizar de um plano divino. O redondo, a esfera, é o símbolo da perfeição cósmica, da unidade, da obra completa e perfeita que Deus quis: "Deus quer... /Deus quis que a terra fosse toda uma..."
O próprio Infante surge-nos aqui mais como símbolo do herói português escolhido por Deus para ser agente da sua vontade: "Quem te sagrou criou-te português".
É nítido no poema um certo pendor dramático não só atendendo à tensão emocional que se revela sobretudo na segunda estrofe com a visão da terra redonda surgindo magicamente do azul profundo, mas também porque há três personagens: o sujeito emissor (sujeito poético), Deus e o Infante. Se os dois últimos não falam, o primeiro dirige-se ao Infante (sagrou-te, Quem te sagrou, em ti) e interpela Deus (Senhor, falta cumprir-se Portugal). Há portanto um diálogo, pelo menos implícito, o que está de harmonia com o carácter misterioso, messiânico do poema.
O texto começa com os verbos no presente (quer, sonha, nasce), de harmonia com o discurso aforístico do primeiro verso, passa para o passado (quis, sagrou-te, foi, clareou, viu-se) narrativo de acontecimentos passados, para regressar ao tempo presente (Falta cumprir-se Portugal).
Após a primeira aventura vitoriosa dos portugueses (o Império se fez), veio o desânimo. Por isso o sujeito poético, voltando-se para Deus: "Senhor, falta cumprir-se Portugal". Este presente "falta" confere à frase uma sugestão de urgência, necessidade. De notar que esta última frase do texto, com toda a sua indeterminação e ambiguidade, juntamente com todas as palavras e expressões carregadas de conotações simbólicas (já referidas atrás) dá ao poema características simbolistas.
O último verso só indirectamente formula uma súplica a Deus. Apenas se enuncia perante Ele um facto: falta cumprir-se Portugal. Segundo a técnica simbolista, é mais belo sugerir do que afirmar. Além disso, esta enunciação da súplica, não em forma imperativa, mas em forma informativa, relaciona-se com as características messiânicas do poema: o povo português é o eleito de Deus; basta que Deus veja o que falta a Portugal para que desencadeie as acções necessárias para restabelecer a glória do seu povo.
Esta dinâmica cíclica-messiânica da história de Portugal não se encontra apenas neste poema de Fernando Pessoa; vemo-la também n'Os Lusíadas de Camões: no último canto é claro o incitamente do poeta a D. Sebastião (enviado por Deus) para que reponha e, se possível, acrescente a glória de Portugal.




Fui às compras com os meus filhos e, desta vez, comprámos uma máquina para fazer pão. Tem sido um verdadeiro sucesso, cá em casa, além de todos já saberem fazer pão (caseiro, rústico, saloio, integral, francês, com sementes, com chouriço, com bacon...), na máquina também se podem fazer bolos, scones, massa para pizzas, doces, compotas... E é tão agradável ter paozinho fresco e quentinho a todas as refeições!
Aqui ficam fotos de algumas especialidades da casa: pão rústico, pão saloio e pão com chouriço.






Trabalhitos
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Prato

Mais uma almofadinha que era da minha avó. Esta também é bem bonita!