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sexta-feira, 30 de novembro de 2018

Costa algarvia 5






Uma Após Uma 
Uma após uma as ondas apressadas 
Enrolam o seu verde movimento 
E chiam a alva 'spuma 
No moreno das praias. 

Uma após uma as nuvens vagarosas 
Rasgam o seu redondo movimento 
E o sol aquece o 'spaço 
Do ar entre as nuvens 'scassas. 

Indiferente a mim e eu a ela, 
A natureza deste dia calmo 
Furta pouco ao meu senso 
De se esvair o tempo. 

Só uma vaga pena inconsequente 
Pára um momento à porta da minha alma 
E após fitar-me um pouco 
Passa, a sorrir de nada. 

Ricardo Reis, in "Odes" 
Heterónimo de Fernando Pessoa 





















quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

Não sei se é amor que tens...



A Igreja Católica reconhece três santos com o nome de Valentim e todos foram martirizados pela Roma Antiga. Não se sabe qual desses três será o "responsável" pela história que deu origem à lenda que fez nascer o dia dos Namorados.


A versão mais conhecida conta que, por alturas do séc. III, o Imperador Cláudio II, querendo formar um poderoso exército romano, decidiu proibir temporariamente a celebração de casamentos para garantir que os jovens se concentrassem mais facilmente na guerra e na vida militar.
Contudo, o bispo Valentim contrariou as ordens e continuou a celebrar casamentos, agora na clandestinidade. A afronta à vontade do Imperador levou a que Valentim acabasse preso e condenado à morte.
Até à sua execução, foi recebendo flores e bilhetes (o que explica a troca de postais, cartas e presentes, hoje em dia) enviados por anónimos como demonstração de apoio e consideração pela sua conduta.
A milagrosa história de amor
A filha do carcereiro de Valentim, que era cega, movida pela curiosidade, terá pedido para o visitar no cárcere e, mal se aproximou dele, recuperou a visão. Ambos se apaixonaram um pelo outro. Numa carta escrita à sua amada, o bispo ter-se-à despedido com a expressão “do seu Valentim”, que ainda é usada na língua inglesa (“valentine“) para designar namorado.
Mas esta história não tem final feliz: ainda segundo a lenda, a ordem de execução dada por Cláudio foi cumprida e Valentim acabaria por ser decapitado num 14 de Fevereiro de finais dos anos 200 (séc. III).
Devido à indefinição e à falta de factos históricos comprovados para além de qualquer dúvida, a Igreja Católica não celebra oficialmente esta data. Não é por isso, no entanto, que o Dia de São Valentim, dia dos namorados, 14 de Fevereiro, deixa de ser festejado em todo o mundo, tendo passado a fazer parte das tradições nacionais. Assim sucede há séculos – em Portugal, por exemplo.
Oleira de Guimarães mantém viva tradição da ‘cantarinha dos namorados’
A ‘cantarinha dos namorados’ de Guimarães continua a ser uma prenda muito oferecida por alturas de São Valentim, mantendo-se assim viva uma tradição antiga que actualmente é alimentada pelas mãos da mestre oleira Bela Alves.
Segundo a tradição, quando um rapaz se dispunha a fazer o pedido oficial de casamento oferecia primeiro à namorada uma cantarinha, moldada em barro. Se a prenda fosse aceite, estava formalizado o pedido particular, passando a depender apenas da vontade dos pais o anúncio do noivado. Uma vez dado o consentimento, a cantarinha servia então para guardar as prendas que o noivo e os pais da noiva ofereciam, designadamente peças em ouro.
Bela Alves aprendeu o ofício com o mestre Joaquim Oliveira, entretanto falecido, e hoje continua a “dar à luz” ‘cantarinhas de namorados’, na sua oficina instalada na Plataforma das Artes, em Guimarães.
“Na altura de São Valentim, é quando se vende em maior quantidade”, refere, enquanto molda a argila e, com o pé, vai girando a típica roda de oleiro.
Se a tradição mandava que fossem eles a oferecer a cantarinha, hoje, revela Bela Alves, a iniciativa deve “andar ela por ela”, ou seja, os compradores são tanto homens como mulheres.
Actualmente, as cantarinhas já não são propriamente usadas para pedir a mão a alguém nem para guardar jóias, mas assumem-se como “guardiãs” de segredos e de histórias de amor. “Quem as oferece, fá-lo pelo simbolismo que elas encerram”, sublinha Bela Alves.
(com Agência Lusa)

terça-feira, 17 de julho de 2012

Uns, com os olhos postos no passado - Ricardo Reis


Uns, com os olhos postos no passado,
Vêem o que não vêem: outros, fitos
Os mesmos olhos no futuro, vêem
O que não pode ver-se.
Porque tão longe ir pôr o que está perto -
A segurança nossa?  Este é o dia,
Esta é a hora, este o momento, isto
É quem somos, e é tudo.
Perene flui a interminável hora
Que nos confessa nulos.  No mesmo hausto
Em que vivemos, morreremos.  Colhe
o dia, porque és ele.
Ricardo Reis


O sujeito poético neste poemas diz que “uns” e “outros” são os que não são capazes de viver o presente. Assim, “uns” vivenciam o tempo, olhando para o passado, o que significa não ver a realidade, pois já não existe. “Outros” olham para o futuro e, por isso, também não vêem a realidade, uma vez que apenas existe na imaginação.
Neste poema o sujeito poético usa vários paradoxos para traduzir a impossibilidade e o engano a que são conduzidos aqueles que vivem da recordação ou da imaginação.
A relação que o sujeito poético estabelece com os "uns" e os "outros" é de perfeito distanciamento. Enquanto os "uns" só olham o passado - "os olhos só postos no passado" - os "outros" apenas se interessam pelo futuro - "...Fitos / Os mesmos olhos no futuro" -, atitudes que o sujeito poético condena, porque distorcem e falseiam a realidade. Assim, os primeiros "Vêem o que não vêem", enquanto os segundos "vêem / O que não pode ver-se", pondo em risco a segurança e a vivência do momento defendidas pelo "sujeito poético" - "Porque tão longe ir pôr (...) / A segurança nossa?".
O sujeito poético defende a vivência do momento numa perspectiva claramente epicurista, recusando a memória e o antecipar do futuro - "Este é o dia, / Esta é a hora, este o momento, isto / É quem somos, e é tudo". O sujeito lírico afirma, ainda, que o presente é a sua única certeza - "Porque tão longe ir pôr o que está perto - /A segurança nossa?" -, sublinhando a marcha inexorável do tempo - "Perene flui a interminável hora" - e referindo que o nosso destino é a morte (visão fatalista da vida) - No mesmo hausto / Em que vivemos, morremos." O estoicismo, tão característico da poética de Reis, não aparece aqui de uma forma explícita, mas o carácter triste e melancólico do poema é consequência da atitude cerebral e contida do sujeito poético.
O carácter exortativo do poema está ligado à transmissão de uma moral, ou seja, de uma arte de viver que o sujeito poético apresenta a um "tu", que devê-la-á adoptar. Assim, a exortação é conseguida através do emprego do imperativo - "Colhe" -, e da primeira pessoa do plural - "nossa", "somos", "nos", "vivemos", "morremos" - que implica a existência de um "tu" que segue os ensinamentos do "eu".
As repetições da segunda estrofe são constituídas pelo uso reiterado dos demonstrativos "este" e "isto" e pela forma verbal no presente do indicativo "é". O conjunto destas repetições evidencia a máxima que domina o poema: o carpe diem. Nada mais interessa, nada mais tem valor senão a vivência calma e contida do "dia, porque és ele.".


sexta-feira, 1 de junho de 2012

Bocas roxas de vinho - Ricardo Reis







Bocas roxas de vinho,
Testas brancas sob rosas,
Nus, brancos antebraços
Deixados sobre a mesa;


Tal seja, Lídia, o quadro
Em que fiquemos, mudos,
Eternamente inscritos
Na consciência dos deuses.


Antes isto que a vida
Como os homens a vivem
Cheia da negra poeira
Que erguem das estradas.


Só os deuses socorrem
Com seu exemplo aqueles
Que nada mais pretendem
Que ir no rio das coisas


Ricardo Reis 







Lídia, a companheira de "viagem" de Ricardo Reis é a destinatária deste poema, a quem o sujeito poético ensina a conter qualquer atitude emotiva - "fiquemos, mudos". Assim, a relação que o sujeito lírico estabelece com Lídia é pautada pela contenção, pela aceitação do destino inexorável - "Eternamente inscritos /Na consciência dos deuses." - deixando-se "ir no rio das coisas", ou seja, demitindo-se de qualquer vivência horaciana próxima do carpe diem, expressa em toda a primeira estrofe - um quadro que ele pinta com as tintas dos deuses.
A metáfora "negra poeira" encerra um sentido duplamente negativo: "negra", enquanto dolorosa, e "poeira", enquanto resíduo inútil. Deste modo, a "negra poeira" que os homens "erguem das estradas" simboliza a inutilidade de qualquer esforço humano no seu percurso existencial.
Na poética de Ricardo Reis, a relação com o tempo é definida pela consciência da precariedade e fugacidade da vida, o que o leva a deixar-se "ir no rio das coisas", sem nada mais exigir, seguindo o exemplo de "aqueles / Que nada mais pretendem".
O vocabulário empregue apela claramente às sensações - "bocas roxas", "cestas brancas", "Nus, brancos antebraços" - num convite a viver o momento como um "quadro" mudo, em que ambos se abandonam ao prazer comedido; esta ideia de abandono e contenção é expressa pelas formas verbais "Deixados" e "fiquemos".
Retomando tudo o que anteriormente foi referido, este poema é exemplo de uma filosofia de vida epicurista eivada de estoicismo: Ricardo Reis convida Lídia a gozar suavemente o presente - o momento - sem nada mais exigir que a sua fruição.



quarta-feira, 16 de maio de 2012

Antes de nós nos mesmos arvoredos - Ricardo Reis









Antes de nós nos mesmos arvoredos
Passou o vento, quando havia vento,
E as folhas não falavam
De outro modo do que hoje.
Passamos e agitamo-nos debalde.
Não fazemos mais ruído no que existe
Do que as folhas das árvores
Ou os passos do vento.
Tentemos pois com abandono assíduo
Entregar nosso esforço à Natureza
E não querer mais vida
Que a das árvores verdes.
Inutilmente parecemos grandes.
Salvo nós nada pelo mundo fora
Nos saúda a grandeza
Nem sem querer nos serve.
Se aqui, à beira-mar, o meu indício
Na areia o mar com ondas três o apaga,
Que fará na alta praia
Em que o mar é o Tempo?

Ricardo Reis

O tema deste poema de Ricardo Reis é o destino humano. 
O poema é uma lição de abnegação e essa lição significa uma tentativa de encontrar a felicidade, pois a vida humana rege-se pelas leis que regem o universo - estas caracterizam-se pela efemeridade que subjaz a qualquer ciclo regenerador.
"Antes de nós nos mesmos arvoredos
Passou o vento (...)"
Os arvoredos aparecem como um espaço fixo; a linguagem das folhas é também intemporal.
"E as folhas não falavam
De outro modo do que hoje."
É o homem que se apresenta como um elemento móvel, ideia que é apontada pelo referente temporal "Antes de nós (...)".
A árvore simboliza, no poema, o receptáculo das almas dos antepassados; ela representa a vida inesgotável; é equivalente à imortalidade.
A relação do Homem com o Ser é delineada no poema: uma canção primordial, eterna, tece o fio do Ser, de que o Homem é apenas uma parte.
O universo é um todo determinístico - tudo é o resultado de causas prévias; a autonomia individual consiste na aceitação das leis.
"Não fazemos mais ruído no que existe
(...)
Do que as folhas das árvores
Ou os passos do vento"
Assim, não vale a pena desejar nada que não esteja de acordo com essas leis. Patenteiam-se aqui as filosofias epicurista e estóica, oriundas da Grécia antiga, que preconizam a abnegação motivada pela constatação da inutilidade do desejo.
"Passamos e agitamo-nos debalde."
A comunhão com a Natureza pressupõe a perda da identidade no Todo, para alcançar a Identidade suprema.

"Entregar nosso esforço à Natureza
E não querer mais vida
Que a das árvores verdes."


A expressão "mais vida" opõe-se ao adjectivo "verdes":
"mais vida" -> vida interior (dimensão ontológica) -> remete para a vida individual
"verdes" -> símbolo da vida cosmogónica -> aponta para a vida da Natureza, como um Todo -> A cor verde sugere o equilíbrio entre o Homem e a Natureza - esta cor adquire um valor polissémico, associado a simbologia da árvore - nega-se a morte através da própria morte - a natureza conhece a regeneração cíclica, após a morte de determinados elementos, que fazem, automaticamente, parte desse trabalho regenerador.


Encontramos, no poema, a negação da dimensão prometeica do ser humano (Prometeu era, na mitologia clássica, aquele que roubou o fogo aos deuses para o entregar aos homens, o que o levou a sofrer um castigo eterno; o fogo simboliza, no mito, a sabedoria, a vontade que o ser humano sente de ultrapassar a sua condição e de adquirir características divinas). O homem é inserido num mundo uno, situando-se ao mesmo nível que os elementos naturais, aparecendo como parcela finita do infinito que é o Ser - Deus ter-se-ia materializado nos diferentes objectos criados e não apenas no ser humano.
E esta reflexão conduz-nos à concepção platónica da existência, pela oposição entre a "areia" que o poeta vê e a "alta praia".
"Na areia o mar com ondas três o apaga
Que fará na alta praia"
"areia" -> mundo da aparência, que é uma cópia do mundo da Essência
"alta praia" -> mundo da Essência (de notar o valor semântico do adjectivo "alta")
O número três, que aparece na referência às ondas ("ondas três"), associa-se ao destino do Homem e ao mito das três parcas: a primeira dava o fio (da vida), a segunda fiava (a vida do homem na terra) e a terceira cortava o fio (momento que equivale à morte).
O número três liga-se ainda às nereidas (deusas), filhas do Oceano, que personificavam as ondas, na Antiguidade Clássica, e que fiavam, teciam e cantavam. Também a poesia é um processo de criação, que traduz o destino do Homem, remetendo para o acto de "tecer".
O sujeito poético propõe uma visão pagã da existência e defende a integração do Homem na Natureza, constatando a brevidade e a efemeridade da vida humana. A renúncia à acção, pelo reconhecimento da inutilidade da mesma (influência das filosofias epicurista e estóica) surge como a única atitude que conduz à tranquilidade.

Estabelece-se na primeira estrofe uma relação entre «nós» e os elementos da Natureza que é caracterizada por:
  • uma similitude de condições que decorre da participação da mesma realidade perene («Antes de nós nos mesmos arvoredos / Passou o vento, quando havia vento, / E as folhas não falavam / De outro modo do que hoje.» (vv. 1-4); «Não fazemos mais ruído no que existe / Do que as folhas das árvores / Ou os passos do vento» (vv. 6-8);


  • uma dissimilitude de condições que decorre da finitude e da transitoriedade que caracterizam o homem e a sua consciência do tempo («Passamos» (v. 5) e da consciência da inutilidade do esforço humano («agitamo-nos debalde» (v. 5).


A terceira estrofe contém uma exortação à fruição calma do momento, à serenidade epicurista do contacto directo com a Natureza («Tentemos pois com abandono assíduo / Entregar nosso esforço à Natureza» (vv. 9-10), e ao desejo único de identificação com ela («E não querer mais vida / Que a das árvores verdes.» (vv. 11-12), numa indiferença à perturbação causada pela ameaça inelutável do Fatum.

Nas quatro primeiras estrofes do poema, refere-se um destino comum a todos os homens, através do recurso a um sujeito plural («nós» v. 1),  «Passamos» v. 5, «agitamo-nos»  v. 5, «Não fazemos» v. 6, «Tentemos» v. 9, «nosso» v. 10, «parecemos» v. 13, «nós» v. 14, «Nos» v. 15, «nos» v. 16).
Na última quadra, evoca-se a situação particular do «eu» e refere-se a experiência directa da fugacidade da vida e da passagem inexorável do Tempo, através do recurso a um sujeito singular de primeira pessoa («o meu indício» v. 17).

Toda a última estrofe é constituída por uma interrogação retórica que remete para a consciência que o «eu» possui da fugacidade da vida e que releva o fosso existente entre a pequenez humana («Se aqui, à beira-mar, o meu indício / Na areia o mar com ondas três o apaga,»  vv. 17-18) e a vastidão e a inexorabilidade do Tempo («Que fará na alta praia / Em que o mar é o Tempo?» vv. 19-20).





 Características estilísticas

Construção frásica, à maneira clássica
O advérbio adjunto de modo
 O advérbio traduz a inutilidade do desejo humano, pois o destino é inexorável e nada escapa à sua lei.
"Passamos e agitamo-nos debalde."
O advérbio de modo traduz, no poema, a oposição entre a imagem que o Homem criou de si mesmo e a função real que ele desempenha no Todo universal, pois terá sempre que se submeter a uma Vontade que está para além dele.
"Inutilmente parecemos grandes."

Os nomes


Os nomes "ruído" e "vento" concentram a ideia dominante do poema: não é o homem que "fabrica" o seu destino; ele cumpre uma vontade outra.
"Não fazemos mais ruído no que existe
Do que as folhas das árvores
Ou os passos do vento."
O vocábulo "ruído" significa, no poema, a palavra humana, por oposição à palavra divina (ou ao Fado) e aponta, consequentemente, para a relatividade da palavra do Homem.
O vocábulo "vento" tem, aqui, um valor polissémico - ele associa-se ao Homem, pela ideia de efemeridade que lhe está subjacente, e remete para o sopro divino, numa significação oposta.
O nome "beira-mar" é o eco da expressão temporal que aparece no início do poema: "Antes de nós (...)", pela simbologia inerente à água - a água desintegra e extingue as formas.




O imperativo/conjuntivo com valor de imperativo


A utilização do imperativo implica a assunção de uma atitude filosófica como forma de conquistar o bem-estar (aproximação às filosofias epicurista e estóica).


"Tentemos pois com abandono assíduo"




A pontuação


A ausência de vírgulas, no interior ou no final do verso, evidencia a fluidez do pensamento, a lógica da constatação, que o ponto final enfatiza.




Sonoridades


Os sons nasais provocam um arrastamento sonoro, que corresponde ao  arrastamento da existência humana, determinado por uma vontade superior ao Homem, que se abandona àquilo que não pode dominar.


Sons nasais: antes, vento, quando, falavam, não, tentemos, com, abandono, entregar, inutilmente, mundo, sem, tempo.






sábado, 12 de maio de 2012

Atrás não torna, nem, como Orfeu, volve - Ricardo Reis



Orfeu era o mais talentoso de todos os músicos. Orfeu era filho da musa Calíope e do deus Apolo. Este presenteou o filho com uma lira. Quando Orfeu a tocava, os pássaros paravam para escutar, os animais selvagens perdiam o medo e as árvores curvavam-se para pegar os sons que o vento trazia.
Orfeu apaixonou-se pela bela Eurídice e casaram-se. Ela era tão bonita que Aristeu se apaixonou por ela. Ela recusa  Aristeu, mas este persegue-a continuamente. Durante a fuga, Eurídice tropeça numa serpente. A serpente morde-a e a jovem morre.
Desesperado e sofrendo muito, Orfeu foi até ao mundo dos mortos, levando a sua lira para resgatar Eurídice. A canção emocionada que entoa convence Caronte (o barqueiro) a levá-lo e, em seguida, faz adormecer Cérbero, o cão de três cabeças que vigia a entrada do mundo inferior.
Quando Orfeu chega perante Hades, o deus do submundo fica muito irritado por ver que um vivo conseguira penetrar no mundo dos mortos, mas a música de Orfeu comove-o. Perséfone, que estava com Hades, convence-o a satisfazer o pedido de Orfeu.
Hades concorda, mas com uma condição: Eurídice pode sair, seguindo Orfeu, mas ele só deve olhar para ela novamente quando estiverem à luz do sol.
Orfeu parte pelo caminho íngreme, tocando músicas de alegria e celebração, a fim de guiar a sombra de Eurídice de volta à vida. Ele não olha nunca para trás. Mas, quando atinge a luz do sol, vira-se, procurando certificar-se de que Eurídice o segue. Ele vê-a por um instante, perto da saída do túnel escuro, perto da vida outra vez. Mas, enquanto ele a olha, ela transforma-se de novo num fantasma, o seu grito final de amor e pena não é mais do que um suspiro na brisa que sai do mundo dos mortos. Ele perde-a para sempre.


Atrás não torna, nem, como Orfeu, volve
Sua face, Saturno.
Sua severa fronte reconhece
Só o lugar do futuro.
Não temos mais decerto que o instante
Em que o pensamos certo.
Não o pensemos, pois, mas o façamos
Certo sem pensamento.


Escrevi o texto acima sobre o mito de Orfeu, pois este é referido neste poema nos dois primeiros versos. Tem a ver com o facto de não se poder voltar atrás, ou seja, a morte é algo definitivo e nada nem ninguém pode alterar isso. Saturno comanda o tempo das vidas humanas, quando o tempo de vida termina, segundo a lenda, Saturno corta o fio que nos prende à vida e nós morremos. A amada de Orfeu tinha morrido e tudo apontava para que ele a conseguisse trazer de volta ao mundo dos vivos. Isso não aconteceu, porque tal não era possível, a morte é a única certeza que temos em relação ao nosso futuro e é isso que nos pretende dizer o sujeito poético nos dois primeiros versos. Podemos perguntar em relação a Orfeu: Será que se ele esperasse mais um pouco antes de se virar para ver a sua amada, ela teria voltado à vida? Não teria, pois o destino não permite um retrocesso. E o sujeito poético, nos dois primeiros versos, afirma, dirigindo-se a Saturno (apóstrofe) que não há retorno, nem mesmo se Orfeu não tivesse voltado a face para ver se a sua amada o seguia. Orfeu, mesmo que não tivesse voltado a face para trás, não dominaria a morte, esta é definitiva, pois o Homem nada pode fazer para alterar o seu destino ou o destino dos outros (da amada de Orfeu). O didactismo da poesia de Ricardo Reis é, aliás, motivado por esta constatação. Os próprios deuses estão submetidos a uma vontade superior – o fado (destino). O Homem é regido pelas regras cosmogónicas universais e o apelo de Ricardo Reis surge no sentido de promover a consciência deste facto, o que implica uma desvalorização da individualidade e da ideia de que o Homem pode controlar a sua existência, ao contrário dos animais irracionais ou das árvores e das pedras. É a constatação desta verdade que leva este heterónimo a defender a ataraxia, a inércia como a única possibilidade perante o reconhecimento da inevitabilidade do destino e da morte.
Ricardo Reis foi o que melhor traduziu a evidência da tragédia humana: Existir é nada ter, é nada poder. Ele não acredita na obtenção da verdade e a sua única certeza é que não fugiremos ao nosso fado, ao nosso destino, que culminará, inevitavelmente, na morte: “Sua severa fronte reconhece / Só o lugar do futuro.”: Quando Orfeu volveu a sua fronte, reconheceu “o lugar do futuro”, a morte (eufemismo e perífrase). Então, o poeta propõe a anulação da vontade, a aceitação passiva de todas as coisas, a recusa da emoção do prazer exagerado, pois o homem é um ser que está preso na sua própria condição: “Não temos mais decerto que o instante / Em que o pensamos certo.” A renúncia é a única coisa que nos resta perante uma vontade divina que nos transcende, perante o Tempo (Saturno), que devora os seus próprios filhos. Assim, Ricardo Reis propõe o gozo do momento, o carpe diem, pois o futuro é incógnito e a vida efémera. O poeta prefere viver numa áurea mediocritas, com a tranquilidade que se adquire através da recusa dos prazeres violentos e das emoções fortes, renuncia a qualquer acção inútil e evita a dor (lição epicurista). Para Ricardo Reis, a liberdade e a felicidade são ilusórias, assim há que perseguir “uma calma qualquer”:  “Não o pensemos, pois, mas o façamos / Certo sem pensamento.”


Tom coloquial – diálogo permanente

Apóstrofe: o poeta dirige-se a Saturno.

Hipérbato nos dois primeiros versos.

Adjectivo anteposto ao nome “severa fronte”

Personificação: “Sua severa fronte reconhece”

Eufemismo e perífrase: “o lugar do futuro”

Anáfora:
“Não temos mais decerto que o instante
Em que o pensamos certo.
Não o pensemos, pois, mas o façamos
Certo sem pensamento.”

Anástrofes

Repetição de sons

Predominância de sons nasais e fechados

Uso do imperativo como manifestação de atitude filosófica: “Não o pensemos, pois, mas o façamos / Certo sem pensamento.”


sexta-feira, 4 de maio de 2012

Síntese das características da poesia de Ricardo Reis





Aspectos temáticos

  • Conciliação da moral epicurista e da moral estóica - o ser humano nunca poderá ser feliz; deve evitar os prazeres fortes e aceitar a dor como algo que, inevitavelmente, teremos de sentir; a tranquilidade é o nosso único quinhão de felicidade e de liberdade;
  • exercício de auto-disciplina, renunciando às fortes emoções / violentas - o poeta racionaliza as emoções e recusa o seu valor, face à realidade que descobre, através do pensamento;
  • procura da ataraxia;
  • demissão da vida através de compromissos afectivos e sociais;
  • defesa da "aurea mediocritas";
  • elogio do "carpe diem" - a vivência do momento presente; 
  • a presença do fatalismo - o destino é uma força superior ao Homem, o Fado é uma entidade superior as deuses;
  • aceitação calma do destino;
  • consciência da inutilidade de qualquer esforço de mudança - atitude de renúncia;
  • obsessão da efemeridade da vida; 
  • consciência da fugacidade do tempo;
  • aparente tranquilidade, na qual se reconhece a angústia existencial do ortónimo;
  • presença do paganismo - os deuses também eles submetidos à força do Fado;
  • constatação da inutilidade da acção;
  • recusa da inserção do indivíduo na sociedade, pela negação da práxis, ou seja, pela crença da inutilidade da acção;
  • intenção didáctica dos seus versos (parece estar a ensinar uma lição de vida).

Aspectos formais e estilísticos
  • Uso de vocabulário erudito;
  • recurso a arcaísmos;
  • uso de latinismos;
  • formas estróficas e métricas de influência clássica - ode;
  • sintaxe alatinada - anástrofe e hipérbato;
  • predomínio da subordinação;
  • frequência dos advérbios de modo;
  • uso frequente do gerúndio;
  • uso do imperativo como manifestação de atitude filosófica;
  • coloquialidade - diálogo permanente com um "tu" (destinatário implícito ao discurso);
  • nomes usados como atributos (adquirindo o valor dos adjectivos);
  • recurso a apócopes (queda de um ou vários fonemas no final de uma palavra);

Sonoridades
  • Repetição de sons;
  • predominância de sons nasais e fechados;
  • rima no interior dos versos.


sexta-feira, 27 de abril de 2012

Ricardo Reis - O epicurismo e o estoicismo



Ricardo Reis foi quem melhor traduziu a evidência da tragédia humana. Existir é nada ter, é nada poder.
Este poeta não acredita na obtenção de verdades e a sua única certeza é que não fugiremos ao nosso fado, ao nosso destino, que culminará, inevitavelmente, na morte. Então, propõe a anulação da vontade, a aceitação passiva de todas as coisas, a recusa da emoção e do prazer exagerado. Para Ricardo Reis, o homem é um ser que está preso na sua própria condição.


"(...)
Pouco os deuses nos dão, e o pouco é falso.
Porém, se o dão, falso que seja, a dádiva
É verdadeira. Aceito,
Cerro olhos: é bastante.
Que mais quero?"



A renúncia é a única coisa que nos resta perante uma vontade divina que nos transcende, perante Cronos (o Tempo), que devora os seus próprios filhos. Assim, Ricardo Reis propõe o gozo do momento, o carpe diem, pois o futuro é incógnito e a vida é efémera. O poeta prefere viver numa aurea mediocritas, com a tranquilidade que se adquire através da recusa dos prazeres violentos e das emoções fortes.

"Vem sentar-te comigo Lídia, à beira do rio.
Sossegadamente fitemos o seu curso e aprendamos
Que a vida passa, e não estamos de mãos enlaçadas.
    (Enlacemos as mãos.)

Depois pensemos, crianças adultas, que a vida
Passa e não fica, nada deixa e nunca regressa,
Vai para um mar muito longe, para ao pé do Fado,
    Mais longe que os deuses.

Desenlacemos as mãos, porque não vale a pena cansarmo-nos.
Quer gozemos, quer não gozemos, passamos como o rio.
Mais vale saber passar silenciosamente
    E sem desassossegos grandes.

(...)"

A imitação da Antiguidade não esconde uma preocupação que caracteriza os tempos modernos: a angústia perante a morte, o horror do nada, preocupações igualmente presentes, na poesia ortónima e na prática de Álvaro de Campos.
Ricardo Reis cultiva o individualismo. o que o leva a afastar-se dos outros. Seguindo a lição epicurista, abdica dos prazeres violentos a favor da tranquilidade, renuncia a qualquer acção inútil e evita a dor. Para este heterónimo, a liberdade (que os próprios deuses não detêm, pois acima deles existe uma entidade superior, uma Lei, um Fado) e a felicidade (apagada pela consciência da morte inevitável) são ilusórias. Assim, como afirma Fernando Pessoa, a sua obra "profundamente triste" constitui uma forma lúcida, uma disciplina que leva o poeta a perseguir "uma calma qualquer":

    "Segue o teu destino,
    Rega as tuas plantas,
    Ama as tuas rosas.
    O resto é a sombra
    De árvores alheias.



    A realidade
    Sempre é mais ou menos
    Do que nós queremos.
    Só nós somos sempre
    Iguais a nós-próprios.
(...)

    Vê de longe a vida.
    Nunca a interrogues.
    Ela nada pode
    Dizer-te. A resposta
    Está além dos deuses.



    Mas serenamente
    Imita o Olimpo
    No teu coração.
    Os deuses são deuses
    Porque não se pensam."
Ricardo Reis renuncia ao Conhecimento, porque não acredita na possibilidade de o alcançar. A resposta à questão "Qual é o sentido da vida?" jamais seria conseguida.

Rafael Baldaya, um semi-heterónimo menos conhecido de Fernando Pessoa, é o filósofo que espelha o tecido social e moral do séc. XX. Com efeito, este século caracteriza-se por uma profunda crise de valores, pois estes tornaram-se lógicos; era necessário inventar outros, que traduzissem a essência da espécie humana.
Baldaya significa a única certeza, pessimista, mas real, do Homem desta era - a ideia do nada, o niilismo, que, inevitavelmente, absorverá a existência.
Esta consciência perpassa na poesia de Ricardo Reis, marcada pela ideia de que a vida não é mais do que a condenação à morte, uma espera mais ou menos longa do nada.