Natal e Ano Novo em família
Muitos dias antes, começa-se por enfeitar a casa com os objectos próprios da época: presépio, árvore de Natal, coroas de azevinho, bolas…
Compra-se o bacalhau e demolha-se… Escolhem-se os vinhos…
Alisam-se as toalhas, os guardanapos… Desarrumam-se loiças, copos, talheres… Põem-se e enfeitam-se as mesas…
A verdade é que tenho a sensação de ter entrado na cozinha dia 24 de Dezembro de manhã e de ter saído apenas hoje e já bem tarde. Estive estes dias rodeada de toalhas, guardanapos, tachos, panelas, taças e tacinhas, pratos e pratinhos, travessas… Passou-me pelas mãos o bacalhau, as batatas, as couves de todos os tipos; depois foi a vez do peru, de mais batatas e das saladas. Lavei e miguei alface, tomates, rúcula, canónigos, rama da ervilheira, agriões… Mas a ementa natalícia só ficou completa com a tradicional cesta de fruta (maçãs para todos os gostos, laranjas, tangerinas, bananas, mangas, abacates, dióspiros, ananás…) e com os doces (coscorões, rabanadas, filhós, sonhos, arroz-doce tropical, trouxas-de-ovos, semi-frio de frutos vermelhos…).
A família chegou.
Ceou-se, conversou-se, riu-se, petiscou-se, brincou-se, cantou-se, debicou-se, deu-se uma olhadela aos vários canais da televisão, comentou-se, lambiscou-se… Tudo isto regadinho com vinhos doces e bem espirituosos…
Pela meia-noite, trocaram-se presentes, beijos e abraços, abriram pacotes, pacotinhos, sacos e saquinhos, caixas e caixinhas… Ah! Oh! Tão giro! Era mesmo o que eu queria receber! Não estava nada à espera! E no meio dos Oh e Ah… iam-se amontoando os papéis coloridos e enfeitados com mil laços e laçarotes de todos os feitios e cores. Depois… Todos agarraram nos seus novos pertences e encaminharam-se uns para os quartos, para a caminha… Já era tardíssimo! Outros para as suas casinhas que os esperavam ansiosas.
No silêncio da noite, dei uma arrumadela rápida a tudo, coloquei os doces no frigorífico, congelei outros…
O Almoço de Natal, depois da tradicional missa, foi em casa do meu irmão, recém-chegado de Moçambique. Uma pausa na lufa-lufa da minha vida!
Regresso a casa, onde estava ainda, à espera de ordem, toda a desarrumação do dia anterior, da Noite da Consoada.
E numa roda-viva, arrumou-se tudo: desfizeram-se as mesas e arrumaram-se; regressaram aos louceiros as louças, os copos, os talheres; lavaram-se as toalhas, os guardanapos… Voltou tudo ao seu lugar, por pouco tempo, é certo! É que a Passagem de Ano está aí, não tarda nada!
Passagem de Ano
E de novo tudo sai do seu lugar: é preciso dispor as mesas e enfeitá-las, fazer sair dos armários toda a loiça necessária, passar toalhas e… e… Repete-se o ritual.
Toda a família se reúne de novo.
Os miúdos, desta vez, podem escolher a ementa: um prato de peixe, um prato de carne e os doces. Claro que há sempre um adulto que tenta fazer batota, procurando influenciar a escolha. Surgem palpites daqui e dali. Não há acordo. Uma quer Lasanha, mas sem legumes, “isso é comida para coelhos”, outro Bacalhau com natas.
- Eu prefiro Bacalhau à Conde.
- Claro, já está mastigado!
- Não sejas parvinho.
- Vamos lá, meninos! Decidam-se, ou escolho eu e pronto…
- Eu quero Bacalhau à Conde e Lasanha.
- Lasanha? Nem penses!
- Arroz de pato.
- Concordo.
Começa a votação. Por fim há consenso: Bacalhau à Conde e Arroz de pato, mas nada de sopa. Os miúdos são todos alérgicos à sopa. Ah, marisco também não querem, “isso é para os adultos e para o mano! E por favor, não insistam, porque digo já que não como nada disso.”
As sobremesas: bolo de chocolate, semi-frio de Mars, bolo-rei, baba de camelo, pudim flan, lampreia de ovos, mousse de lima… Ah! E de novo coscorões, rabanadas, filhós, sonhos, arroz-doce …
Os sumos são religiosamente escolhidos pelos garotos e os vinhos pelos homens.
E foi um saudável convívio que durou até perto das quatro da manhã: comeu-se, bebeu-se, conversou-se, jogou-se matraquilhos, comeu-se, bebeu-se, cantou-se, celebrou-se, brindou-se, viu-se o fogo-de-artifício num espalhafato de cor e luz, muitos Ah e Oh, risadas, comeu-se, bebeu-se, um último jogo, mais umas tantas gargalhadas…
Ano Novo
Uma das muitas prendas de Natal que recebi foi um porquinho.
Pois é! A minha sogra dá-nos, todos os anos, um porquinho que ela cria com todo o carinho e cuidado. Alimenta-o com couves, beterrabas, maçãs e outras frutas, produtos da sua lavra e também algum milho e pouca farinha, porque a carne é para alimentar filhos e netos e todo o cuidado é pouco! Por causa deste presente, o almoço de Ano Novo é sempre, há uns tempos para cá, Cozido à Portuguesa. Este prato é confeccionado, aqui em casa, uma única vez por ano. É um prato apreciado por todos, miúdos e graúdos, mas um tanto “forte e trabalhoso”. É também o pretexto para se dar um valente rombo na grande quantidade de carne do porquito, ganhando, assim, espaço na arca frigorífica e nos congeladores que depois da matança, ficam atafulhados e sem espaço para guardar mais nada. E, olhem, que distribuí alguma carnita por familiares e vizinhos. Na verdade, é muita carne para quem acha que o peixe é muito mais saudável e saboroso!
Assim, junta-se toda a família, depois da missa de Ano Novo, e almoça-se o tradicional “Cozido à Portuguesa”, seguido dos doces que sobraram da noite anterior. Depois dá-se um passeio até à praia mais próxima, toma-se um gostoso café e conversa-se, dá-se uma volta na areia molhada, atiram-se conchas para a água e corre-se de volta aos carros que ameaça chover... De regresso a casa, jantamos, de novo em família, a Sopinha do Cozido (para desespero dos garotos, alérgicos a qualquer tipo de sopa!), as sobras do Cozido e por fim o resto dos doces, café ou chá. E no meio de grande alegria e brincadeira, joga-se mais um ou outro jogo. A festa chega ao fim, já tarde, mas ninguém tem vontade de deixar o calor da lareira e as brincadeiras…
Cozido à portuguesa da minha mãe
carne de vaca para cozer
lombo de porco,
pé de porco, chispe
chouriço, farinheira, morcela de arroz
toucinho entremeado, chouriço mouro
orelha de porco, rabo de porco
língua de porco, coração de porco
couve portuguesa (penca) ou coração de boi, couve lombarda
cenouras, batatas, cabeça de nabo
sal, um dente de alho, louro
arroz
Por ordem de cozedura mais rápida, vão-se tirando os enchidos, depois as carnes de porco, e só no fim, depois de bem cozida, a carne de vaca.
Quando cozidos, retire a panela do lume, deixando os legumes dentro.
Para servir, corte as carnes, disponha numa travessa com os respectivos legumes ou separadamente.
Trabalhinho: