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terça-feira, 1 de janeiro de 2013

Vem, Noite - Álvaro de Campos




Ode à noite (excerto)

Vem, Noite antiquíssima e idêntica,
Noite Rainha nascida destronada,
Noite igual por dentro ao silêncio, Noite
Com as estrelas lantejoulas rápidas
No teu vestido franjado de Infinito.

Vem, vagamente,
Vem, levemente,
Vem sozinha, solene, com as mãos caídas
Ao teu lado, vem
E traz os montes longínquos para o pé das árvores próximas,
Funde num campo teu todos os campos que vejo,
Faz da montanha um bloco só do teu corpo,
Apaga-lhe todas as diferenças que de longe vejo,
Todas as estradas que a sobem,
Todas as várias árvores que a fazem verde-escuro ao longe.
Todas as casas brancas e com fumo entre as árvores,
E deixa só uma luz e outra luz e mais outra,
Na distância imprecisa e vagamente perturbadora,
Na distância subitamente impossível de percorrer.

Nossa Senhora
Das coisas impossíveis que procuramos em vão,
Dos sonhos que vêm ter connosco ao crepúsculo, à janela,
Dos propósitos que nos acariciam
Nos grandes terraços dos hotéis cosmopolitas
Ao som europeu das músicas e das vozes longe e perto,
E que doem por sabermos que nunca os realizaremos...
Vem, e embala-nos,
Vem e afaga-nos.
Beija-nos silenciosamente na fronte,
Tão levemente na fronte que não saibamos que nos beijam
Senão por uma diferença na alma.
E um vago soluço partindo melodiosamente
Do antiquíssimo de nós
Onde têm raiz todas essas árvores de maravilha
Cujos frutos são os sonhos que afagamos e amamos
Porque os sabemos fora de relação com o que há na vida.

Vem soleníssima,
Soleníssima e cheia
De uma oculta vontade de soluçar,
Talvez porque a alma é grande e a vida pequena,
E todos os gestos não saem do nosso corpo
E só alcançamos onde o nosso braço chega,
E só vemos até onde chega o nosso olhar.

Vem, dolorosa,
Mater-Dolorosa das Angústias dos Tímidos,
Turris-Eburnea das Tristezas dos Desprezados,
Mão fresca sobre a testa em febre dos humildes,
Sabor de água sobre os lábios secos dos Cansados.
Vem, lá do fundo
Do horizonte lívido,
Vem e arranca-me
Do solo de angústia e de inutilidade
Onde vicejo.
Apanha-me do meu solo, malmequer esquecido,
Folha a folha lê em mim não sei que sina
E desfolha-me para teu agrado,
Para teu agrado silencioso e fresco.
Uma folha de mim lança para o Norte,
Onde estão as cidades de Hoje que eu tanto amei;
Outra folha de mim lança para o Sul,
Onde estão os mares que os Navegadores abriram;
Outra folha minha atira ao Ocidente,
Onde arde ao rubro tudo o que talvez seja o Futuro,
Que eu sem conhecer adoro;
E a outra, as outras, o resto de mim
Atira ao Oriente,
Ao Oriente donde vem tudo, o dia e a fé,
Ao Oriente pomposo e fanático e quente,
Ao Oriente excessivo que eu nunca verei,
Ao Oriente budista, bramânico, sintoísta,
Ao Oriente que tudo o que nós não temos,
Que tudo o que nós não somos,
Ao Oriente onde — quem sabe? — Cristo talvez ainda hoje viva,
Onde Deus talvez exista realmente e mandando tudo...

Vem sobre os mares,
Sobre os mares maiores,
Sobre os mares sem horizontes precisos,
Vem e passa a mão pelo dorso da fera,
E acalma-o misteriosamente,
Ó domadora hipnótica das coisas que se agitam muito!

Vem, cuidadosa,
Vem, maternal,
Pé ante pé enfermeira antiquíssima, que te sentaste
À cabeceira dos deuses das fés já perdidas,
E que viste nascer Jeová e Júpiter,
E sorriste porque tudo te é falso é inútil.

Vem, Noite silenciosa e extática,
Vem envolver na noite manto branco
O meu coração...
Serenamente como uma brisa na tarde leve,
Tranquilamente com um gesto materno afagando.
Com as estrelas luzindo nas tuas mãos
E a lua máscara misteriosa sobre a tua face.
Todos os sons soam de outra maneira
Quando tu vens.
Quando tu entras baixam todas as vozes,
Ninguém te vê entrar.
Ninguém sabe quando entraste,
Senão de repente, vendo que tudo se recolhe,
Que tudo perde as arestas e as cores,
E que no alto céu ainda claramente azul
Já crescente nítido, ou círculo branco, ou mera luz nova que vem.

A lua começa a ser real.



Álvaro de Campos


Caracterização da Noite: “Noite antiquíssima e idêntica, / Noite Rainha nascida destronada, / Noite igual por dentro ao silêncio, Noite / Com as estrelas lantejoulas rápidas / No teu vestido franjado de Infinito.”, “(...) soleníssima, / Soleníssima e cheia /  De uma oculta vontade de soluçar,”, (...) Noite silenciosa e extática, / manto branco”.
A noite aparece, assim, como uma entidade eterna, solene e mágica, como algo que seduz e encanta o sujeito poético.

O sujeito poético sente-se triste, desencantado “oculta vontade de soluçar, / Talvez porque a alma é grande e a vida é pequena”, insatisfeito perante as limitações do homem “E só alcançamos onde o nosso braço chega, / E só vemos onde chega o nosso olhar”. Este estado de alma angustiado em face da “inutilidade / Onde vicejo”, condu-lo ao desejo futurista / sensacionista de ser “desfolhado” pela Noite e lançado em todas as direcções (Norte, Sul, Oriente, Ocidente). No entanto, este frenesim emocional redunda num desejo de repouso tranquilo no seio da noite “Vem envolver na noite manto branco / o meu coração...”
Estes sentimentos do sujeito poético face à Noite levam a que esta noite maternal seja também uma imagem da morte, a “cósmica maternidade da morte”.

O poema é um apelo à noite, apostrofada logo de início – “Vem, Noite, antiquíssima e idêntica” – e personificada também – “Vem, sozinha, solene, com as mãos caídas”. Mas este apelo acaba por se transformar num longo diálogo a uma voz. Assim as sucessivas apóstrofes à Noite, o emprego reiterativo do imperativo “vem”, “funde”, “faz”, “apaga”, “desfolha”..., além do predomínio do discurso de primeira pessoa “vejo”, “alcançamos”, nosso”, “vemos”, “nosso”, “me”, “vicejo”, “meu”, “mim”, “eu”... e de segunda pessoa “vem”, “teu”, “vem”, “teu”... revelam a presença da função apelativa.
O sujeito poético considera a Noite “Rainha nascida destronada”. De salientar  as imagens belíssimas: “Noite / Com as estrelas lantejoulas rápidas / No teu vestido franjado de infinito.”

Os recursos expressivos mais marcantes são a utilização anafórica de “Vem”, modo imperativo e função apelativa da linguagem, presentes ao longo de toda a ode, reforçam toda uma série de pedidos que o sujeito poético faz à noite – “Funde num campo teu todos os campos que vejo / Faz da montanha um bloco só do teu corpo, / Apaga-lhe todas as diferenças que de longe lhe vejo / Todas as estradas... / Todas as várias árvores... / Todas as casas...”, como se ela pudesse anular toda a variedade de sensações e sentimentos que experimentou. Finaliza, pedindo-lhe “só uma luz e outra luz e mais outra”, porque uma só luz não lhe chega, ele sente necessidade de diversos estímulos e sensações. A luz funciona como ponto de referência para percorrer a sua vida, uma distância imprecisa e vagamente perturbadora, uma distância subitamente impossível de percorrer.
Neste momento, notam-se já uns laivos de desespero e angústia, criados, possivelmente, por um sentimento de impotência e perplexidade face à sua vida presente. Estes indícios são confirmados na terceira estrofe, que é iniciada com nova apóstrofe à Noite, encarada como a padroeira dos sonhos impossíveis e das esperanças não concretizáveis: “Nossa Senhora / Das coisas impossíveis que procuramos em vão” (vv. 20/21 e seguintes.).
A salientar também a adjectivação expressiva “antiquíssima”, idêntica”, “sozinha”, “solenessima”.
A musicalidade, outra característica deste poema, é conseguida através do recurso à aliteração de sons nasais e fricativos (v), nos versos 6 e 7: “Vem, vagamente, / Vem lentamente...”. Os advérbios de modo (vagamente, lentamente, levemente, serenamente, tranquilamente) deixam adivinhar a necessidade de tranquilidade que a Noite poderá trazer ao sujeito lírico, em oposição aos seus sentimentos sempre em ebulição.
Só a Noite o poderá então aliviar da dor que lhe provoca a sensação de fracasso da sua vida, que não é mais do que uma sucessão de sonhos perdidos: “Dos sonhos que vêm ter connosco ao crepúsculo / E que doem por sabermos que nunca os realizaremos”; que a Noite lhe traga o alívio e o repouso de que necessita: “Beija-nos silenciosamente na fronte / Tão levemente que não saibamos que nos beijam (...)” (vv. 29-30).
Volta a referir esses sonhos nos versos seguintes, considerando-os frutos de árvores de maravilha que têm raiz no antiquíssimo de nós, ou seja, no mais íntimo do ser. O sujeito lírico estima e encoraja esses sonhos – única coisa que lhe resta, afinal.
Mas talvez a serenidade da Noite não seja suficiente para dissipar toda a sua angústia e desespero, o que lhe traz uma oculta vontade de chorar. O sujeito lírico é certamente invadido por uma onda de sentimentos disfóricos, talvez devido à constatação de que a vida e o corpo impõem limites à grandeza de alma que ele sabe possuir e à realização de todos os sonhos que ele agora sabe serem impossíveis de concretizar – “A alma é grande e a vida é pequena” (...).
A invocação seguinte está já imbuída de toda a negatividade – Vem Dolorosa , / Mater Dolorosa das Angústias dos Tímidos / ...das Tristezas dos Desesperados” (v. 44 e seguintes.). A Noite apresenta-se como solução – “Mão fresca sobre a testa em febre dos humildes” – e o poeta entrega-se a ela numa atitude de renúncia, bem marcada pela expressividade da imagem utilizada – “Vem e arranca-me / do solo de angústia e inutilidade onde vicejo...”. Esta leve insinuação de ideia da Morte é reforçada nos versos seguintes – “Apanha-me do meu solo... / E desfolha-me para teu agrado” – concretizando essa renúncia. O sujeito poético pede então à Noite que o torne múltiplo e o leve para junto dos locais que sempre amou – o Norte, “onde estão as cidades de Hoje”, o Sul “onde estão os mares”, o Ocidente, símbolo do futuro e, finalmente, o Oriente, “a origem de tudo, donde vem o dia e a fé”. Após este pedido, segue-se uma grande construção anafórica, criando um clima de exaltação do Oriente (vv. 67-71), “onde – quem sabe? – Cristo talvez ainda hoje viva”.
Na estrofe seguinte, através da metáfora – “Vem e passa a mão pelo dorso da fera / E acalma-o misteriosamente” – e da estranha apóstrofe “Ó domadora hipnótica das coisas que se agitam muito”, somos levados a pensar que só a Noite conseguirá acalmar até os sentimentos mais exaltados e violentos do sujeito poético. Ela é, então, um bálsamo, a “enfermeira antiquíssima” das chagas provocadas por todas as fés já perdidas e por tudo o que é falso e inútil.
Novamente uma alusão à morte, desta vez mais explícita – “Vem envolver na noite manto branco / O meu coração” – pedindo o sujeito lírico para ela o levar, já que a morte é encarada como uma saída plausível e até agradável – como se poderá depreender das comparações: “Como uma brisa na tarde leve, como um gesto materno afagando” e dos advérbios de modo serenamente, tranquilamente.
E a noite/morte virá, por fim, mesmo que ninguém a veja entrar ou saiba quando entrou, quando “a lua começa a ser real”.
Resumindo, o conjunto destes recursos expressivos confere ao poema um ritmo embalatório, dormente, um ritmo que envolve o sujeito poético, arrastando-o serena e tranquilamente para o “manto branco e materno da Noite”.

Esta “Ode à Noite” é quase um hino à morte, se a encararmos como metáfora e prefiguração da morte. O sujeito poético está neste poema, “cansado”, sonolento, é alguém que chega ao fim de um percurso de desistência e que se abandona ao “império”, ao domínio da Noite. Esta ode aproxima-se mais da fase abúlica.

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Não, não é cansaço... - Álvaro de Campos


Não, não é cansaço...
É uma quantidade de desilusão
Que se me entranha na espécie de pensar,
É um domingo às avessas
Do sentimento,
Um feriado passado no abismo...
Não, cansaço não é...
É eu estar existindo
E também o mundo,
Com tudo aquilo que contém,
Com tudo aquilo que nele se desdobra
E afinal é a mesma coisa variada em cópias iguais.
Não. Cansaço porquê?
É uma sensação abstracta
Da vida concreta —
Qualquer coisa como um grito
Por dar,
Qualquer coisa como uma angústia
Por sofrer,
Ou por sofrer completamente,
Ou por sofrer como...
Sim, ou por sofrer como...
Isso mesmo, como...
Como quê?...
Se soubesse, não haveria em mim este falso cansaço.
(Ai, cegos que cantam na rua,
Que formidável realejo
Que é a guitarra de um, e a viola do outro, e a voz dela!)
Porque oiço, vejo.
Confesso: é cansaço!...


Álvaro de Campos




O sujeito poético afirma no primeiro verso que não é cansaço aquilo que sente “Não, não é cansaço”, reiterando essa afirmação ao longo do poema (2.ª estrofe – 1.º verso, 3.ª estrofe – 1.º verso). No entanto, e talvez um pouco paradoxalmente, refere que a desilusão se lhe “entranha na espécie de pensar”, sublinha a monotonia da vida (“...é a mesma coisa variada em cópias iguais”), exprime a angústia perante o mistério e a indefinição que perpassam nesse “falso cansaço”; finalmente aceita que, “porque ouve e vê”, o estado em que se encontra é de cansaço: “Confesso: é cansaço!…” Assim, podemos afirmar que, progressivamente, o sujeito poético se deixa envolver / dominar por uma letargia, um estado de cansaço e desistência progressiva, que o afasta do mundo.

Entre o sujeito poético, os outros e o mundo há um distanciamento, decorrente da incapacidade de relação; o único ponto comum é o facto de todos existirem: “É eu estar existindo/ E também o mundo”. Os outros, os “cegos que cantam na rua”, são apenas aqueles que o sujeito poético observa, mantendo-se, no entanto, afastado, não se relacionando com eles:

(Ai, cegos que cantam na rua,
Que formidável realejo
Que é a guitarra de um, e a viola do outro, e a voz dela!)

O parêntesis constitui um momento em que o sujeito poético abandona o tom reflexivo, se volta para o exterior e o vê como um “formidável realejo”. O parêntesis é como que um oásis num texto de características claramente negativas, uma vez que é o próprio sujeito poético que lhe confere uma conotação positiva. Todo o poema está carregado de negativismo, o sujeito lírico, embora declare que não é cansaço aquilo que sente, utiliza vocábulos e expressões de carácter negativo: “desilusão”, “domingo às avessas”, “feriado passado no abismo”, “um grito”, uma angústia / por sofrer “, “falso cansaço”, “cansaço”.
Simbolicamente, podemos afirmar que a felicidade só é possível para quem é “cego”, ou seja, para quem não vê a verdadeira realidade do mundo.

A primeira estrofe inicia-se com a repetição do advérbio de negação “não” empregue numa frase reticente, o que revela uma certa indefinição. O discurso assume um tom claramente metafórico – (“domingo às avessas / Do sentimento, / Um feriado passado no abismo...”), terminando a estrofe também com uma frase reticente. O conjunto destes recursos expressivos, aliado à repetição anafórica presente nos versos 2 e 4, traduz a tentativa de definir o estado de espírito que domina o sujeito poético.
Na segunda estrofe, temos também a repetição do advérbio de negação “não” e a construção paralelística, continuando o sujeito lírico a explicar o seu estado.
Na terceira estrofe, apresenta-se-nos a pergunta retórica “Cansaço porquê?”, seguindo-se ainda a tentativa de definição do seu estado de espírito. De salientar nesta estrofe as comparações “Qualquer coisa como um grito”, “Qualquer coisa como uma angustia”, os paralelismos, as anáforas, as frases cortadas pelas reticências que revelam a reflexão levada a cabo pelo sujeito lírico na tentativa de explicar o seu estado de espírito e a  ausência de respostas para concretizar essa definição. Havendo, assim, nestas explicações uma certa indefinição (repare-se, por exemplo, na antítese “sensação abstracta / vida concreta”, na repetição do vocábulo “sofrer”, seguido da partícula comparativa “como” e de reticências).
A quarta estrofe apresenta-se entre parêntesis e é, como foi dito anteriormente, uma espécie de oásis: “Ai” sem valor negativo, como se o sujeito lírico tivesse pena de não ser ele também “cego” para poder cantar e ser feliz e ainda os vocábulos “cantam” e “formidável” . O exterior, a “rua” é um “formidável realejo” (metáfora), onde os outros cantam, tocam, numa palavra, são felizes (ao contrário do sujeito poético), porque não se apercebem da realidade que os circunda.

Este poema integra-se na fase abúlica de Álvaro de Campos, pelo que revela de incapacidade de viver a vida, pelo que transmite de tédio, de uma certa desistência perante o mundo que o rodeia e os outros. Nada motiva o sujeito poético, nada lhe interessa, tudo se resume a um “supremíssimo cansaço”.

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Aniversário - Álvaro de Campos




Aniversário

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu era feliz e ninguém estava morto.
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,
E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer.

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,
De ser inteligente para entre a família,
E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.
Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças.
Quando vim a.olhar para a vida, perdera o sentido da vida.

Sim, o que fui de suposto a mim-mesmo,
O que fui de coração e parentesco.
O que fui de serões de meia-província,
O que fui de amarem-me e eu ser menino,
O que fui — ai, meu Deus!, o que só hoje sei que fui...
A que distância!...
(Nem o acho... )
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!

O que eu sou hoje é como a umidade no corredor do fim da casa,
Pondo grelado nas paredes...
O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhas lágrimas),
O que eu sou hoje é terem vendido a casa,
É terem morrido todos,
É estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio...

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos ...
Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo!
Desejo físico da alma de se encontrar ali outra vez,
Por uma viagem metafísica e carnal,
Com uma dualidade de eu para mim...
Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes!

Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que há aqui...
A mesa posta com mais lugares, com melhores desenhos na loiça, com mais copos,
O aparador com muitas coisas — doces, frutas, o resto na sombra debaixo do alçado,
As tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa,
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...

Pára, meu coração!
Não penses! Deixa o pensar na cabeça!
Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus!
Hoje já não faço anos.
Duro.
Somam-se-me dias.
Serei velho quando o for.
Mais nada.
Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira! ...

O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!...

Álvaro de Campos

Este poema apresenta uma viagem através do tempo, através da memória. A recordação da infância motiva um angustiante sentimento de perda, pois esse estádio corresponde, para o o sujeito poético, a uma época feliz, aquela em que ele tinha uma família e era visto por esta como alguém que merecia atenção.
Assim, o passado é associado à vida e o presente é conotado negativamente, correspondendo à morte; ao primeiro momento associa-se uma inconsciência feliz, que se opõe à consciência do horror do presente.

Infância / Passado = Vida = Inconsciência ("Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma")
Versus

Idade adulta / Presente = Morte = Consciência ("O que eu sou hoje é como a humidade no corredor do fim da casa"; "É estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio..."

O corredor simboliza a perda no tempo - este espaço é uma metáfora do próprio tempo, que se associa ao mito de Cronos, o deus que devora os próprios filhos, ou seja, aquele que os aniquila.
A antítese entre o Passado e o Presente pode ser clarificada através das seguintes linhas isotópicas:

casa -> saúde -> família -> serões -> mesa / loiça / copo -> aparador / doces / frutas = Infância - Passado

humidade do corredor / grelado das paredes (metonimicamente ligado à casa) -> lágrimas -> fósforo (frio) -> fome = Idade adulta - Presente 

Infância - Passado ---------------- Idade adulta - Presente
=
Distância > Perda do amor e do ser:
"A que distância!... (...) O tempo em que
festejavam o dia dos meus anos!"
=
"Desejo físico da alma de se encontrar ali outra vez,
Por uma viagem metafísica e carnal"

A passagem do tempo significa, para o sujeito poético, a perda do seu próprio ser, enquanto pessoa.

"Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo!"

Num plano simbólico, a angústia do sujeito lírico, motivada pela perda, faz ecoar um tempo recuado, um momento de felicidade absoluta, em que, afinal, a sua identidade só existia, porque construída pela vontade e pelas esperanças dos outros, o que lhe conferia um poder messiânico, porque ele era, para eles, uma promessa.

"Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos"

e

"Eu tinha a grande saúde (...)
De ser inteligente para entre a família,
E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim."

O amor era dado ao poeta de forma espontânea, como uma crença.

"E a alegria de todos, e a minha, estava certa como uma religião qualquer."

A idade adulta significa ausência de amor, metaforizado no pão (o corpo de Cristo a que se alia, obviamente, uma dimensão espiritual e metafísica - comer o pão significa, na liturgia cristã, absorver o Amor de Jesus).

"Desejo físico da alma de se encontrar ali outra vez,

Por uma viagem metafísica e carnal.
(...)
Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes!"

A "manteiga" associa-se metonimicamente ao leite, símbolo materno; por isso, igualmente situado na constelação semântica dos vocábulos que aglutinam a ideia de amor.

A casa, metáfora do paraíso, o primeiro espaço que, segundo o livro de Génesis, foi habitado pelo Homem, é destruída pelas lágrimas do sujeito poético, ou seja, a sua perda motiva essas lágrimas, mas a sua destruição acontece na interioridade da sua alma.

"(...) (e a casa dos que me amaram treme através das minhas lágrimas)"


A expulsão do éden equipara-se, no poema, à perda do amor (ainda segundo o episódio bíblico, o sofrimento humano surge após essa expulsão, ou seja, se, por um lado, o sofrimento do sujeito lírico aponta para a nostalgia profunda que este sente por ter deixado de ser menino, o facto de ele conferir à infância a qualidade da Perfeição remete o leitor para as estruturas simbólicas do imaginário da nossa espécie, enraizadas, como é óbvio, na nossa tradição cultural, marcada pela religião.

No final do poema, o sujeito poético opõe os órgãos "coração" e "cabeça", ligados, respectivamente, ao sentimento e à razão.

"Pára, meu coração!

Não penses! Deixa o pensar na cabeça!
Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus!"

E é a "algibeira" que, para o sujeito lírico, significa a impossibilidade de unificar sentimento e razão, isto é, o amor e a racionalidade, porque ele ficou estagnado nas dobras de um destino que é, afinal, o destino humano.


"Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira!...

O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!..."

O sujeito poético exprime, com revolta e amargura, a consciência do niilismo (a consciência do nada) que marca o Homem do século XX.

A desilusão perante a existência, a absorção do indivíduo no anonimato das massas é aqui apresentada como o contraponto de uma época associada à infância (do indivíduo ou da espécie) em que o sujeito lírico acredita ter sido feliz.

Ao nível estilístico, a comparação funciona como tradução de uma dor que trespassa a alma do sujeito lírico e o esmaga contra as suas recordações.


"O que eu sou hoje é como a humidade no corredor do fim da casa"

"É estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio..."
"Comer o passado como pão de fome (...)"

A anáfora traduz a saudade imensa de um passado que o sujeito poético não pôde roubar e o desespero que essa incapacidade lhe causa.


"O que fui de coração e parentesco,

O que fui de serões de meia-província,
O que fui de amarem-me e eu ser menino,
O que fui - ai, meu Deus! (...)"

A anáfora enfatiza igualmente a constatação amarga do desencanto posterior a esse tempo.


"Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças.

Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida."

Os adjectivos sugerem quer a alegria da infância remota, perdida num tempo recuado, primordial, quer a distância infinita que separa o "eu" poético dessa época.


"Eu era feliz e ninguém estava morto"

"Na casa antiga (...)
"Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma"
"De ser inteligente para entre a família"

Ao nível do léxico, encontramos vocábulos que se ligam a um mesmo núcleo semântico, a casa, e que apresentam, materializando a dicotomia Passado / Presente, conotações semelhantes. A casa sugere uma simbologia de intimidade, de refúgio, associando-se, por esse facto, à protecção materna, pelo que aparece como metáfora do ventre materno (a fase de ligação à mãe através do cordão umbilical significa, ao nível do inconsciente antropológico, a impossibilidade de estar sujeito às agressões exteriores):


"Na casa antiga (...)"

"A mesa posta com mais lugares (...)"
"O aparador com muitas coisas - doces, frutas (...)"

O verso "O que sou hoje é terem vendido a casa" enfatiza as ideias anteriormente expressas.


No âmbito da pontuação, há a salientar o ponto de exclamação e as reticências que evocam uma infância feliz e também a sua perda irremediável.


"O que fui - ai, meu Deus!, o que só hoje sei que fui..."

"O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!"
"Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que há aqui..."

O "refrão", a repetição, ao longo do poema, do verso "O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!" funciona como uma espécie de refrão e atroa como um esgar nostálgico, retumbando sempre, traduzindo a revolta, a não aceitação do irremediável, a saudade profunda de um tempo perfeito.


Ao nível das sonoridades, predominam, ao longo do poema, os sons fechados e nasais, e numa expressão da melancolia perante a perda do passado.


Sons nasais - tempo, ninguém, antiga, uma, grande, inteligente, esperanças, mim, vim, serões, província, distância, vendido, sobrevivente, viagem, pão, manteiga.


Sons fechados - dia, feliz, antiga, tradição, séculos, religião, tinha, nenhuma, quando, fui, frio, vida, ali, metafísica.


A vogal aberta (a) enfatiza o valor de determinados vocábulos-chave, ao nível semântico, pela intensidade da sua sonoridade (casa; humidade; nada; raiva; roubado).