domingo, 8 de janeiro de 2017

Cesário Verde - Deambulismo - O Sentimento dum Ocidental



O Sentimento de um Ocidental é um poema dividido em quatro momentos: Ave-Marias, Noite Fechada, Ao Gás, Horas Mortas. Trata-se da reconstituição de um passeio solitário que o sujeito poético faz num sábado de lazer, descrevendo, ao longo do seu passeio, tudo o que vai observando, em especial as pessoas e os espaços em que elas se movimentam.
Este poema, considerado como uma "epopeia às avessas", dá-nos uma visão da cidade como metáfora do Ocidente, paradigma de um pretenso progresso e desenvolvimento.


Ave-Marias


A primeira parte do poema situa-se ao fim da tarde ("ao anoitecer"), à hora em que os sinos das igrejas chamam para a oração vespertina - a ave-maria.
O sujeito poético, à medida que deambula pelas ruas junto ao Tejo, descreve vários espaços citadinos - edifícios em construção, "boqueirões", "becos", "varandas", "arsenais", "oficinas", "hotéis da moda" -, referindo as "personagens urbanas" que neles se movimentam - "carpinteiros", "calafates", "dentistas", "obreiras", "varinas", "um trôpego arlequim", "os querubins do lar", "os logistas". Em relação ao grupo de personagens descrito, é evidente a simpatia solidária que o sujeito poético revela para com as personagens populares, com destaque especial para as varinas que "... embalam nas canastras / Os filhos que depois naufragam nas tormentas" e que trabalham "(...) Nas descargas do carvão, / Desde manhã à noite, (...) / E apinham-se num bairro aonde miam gatas, / E o peixe podre gera os focos de infecção!" A impressão geral que decorre desta primeira descrição da cidade é de que se trata de um espaço soturno e melancólico, pouco luminoso, que apresenta uma "cor monótona e londrina", despertando no "eu" sentimentos contraditórios - "E o fim da tarde inspira-me; e incomoda!"
Nesta primeira parte do poema, é também nítida a oposição entre o real e a fantasia. Na verdade, face a uma realidade que lhe desperta "um desejo absurdo de sofrer", o sujeito poético anseia partir para outras dimensões, e exprime o seu desejo de evasão:
  • para outros espaços reais: "Levando à via-férrea os que se vão. Felizes! / Ocorrem-me em revista exposições, países: /Madrid, Paris, Berlim, S. Petersburgo, o mundo!";
  • para outros tempos, outras glórias - "Evoco, então, as crónicas navais: / Mouros, baixéis, heróis, tudo ressuscitado! / Luta Camões no Sul, salvando um livro a nado! / Singram soberbas naus que eu não verei jamais!".
Esta evocação das grandezas passadas aparece logo seguida da referência ao "couraçado inglês" que, no Tejo, ocupa agora o lugar das naus de quinhentos (Cesário Verde era um republicano convicto que via de forma muito crítica a ingerência inglesa na política, sobretudo a colonial, portuguesa. O Ultimatum Inglês data de 1890).


Noite Fechada

O sujeito poético continua o seu percurso, observando a realidade que o rodeia, enumerando os novos espaços que observa:
  • as cadeias
  • o Aljube
  • a "velha Sé"
  • os andares
  • as tascas
  • os cafés
  • as tendas
  • os estancos
  • as igrejas
  • "as íngremes subidas"
  • "o recinto público e vulgar"
  • "um palácio em face de um casebre"
  • os quartéis
  • as "montras dos ourives"
  • os magasins
  • a brasserie
Destes espaços mórbidos, pouco iluminados, desprende-se uma sensação de enclausuramento, de solidão, de pessimismo progressivo - "E eu desconfio, até, de um aneurisma / Tão mórbido me sinto, ao acender das luzes", "Chora-me o coração que se enche e que se abisma.", "E eu sonho o Cólera, imagino a Febre", "Triste cidade! Eu temo que me avives / Uma paixão defunta!".
Surgem, então, novas figuras citadinas, a que o sujeito poético se refere como "uma acumulação de corpos enfezados" - presos, velhinhas, crianças, soldados, as elegantes, as costureiras, as floristas ("E muitas delas são comparsas ou coristas") e os emigrados que jogam dominó.
O tom melancólico e disfórico presente na descrição da cidade não nasce apenas do relato dos espaços e das personagens que neles evoluem, mas também do tipo de sensações empregues pelo sujeito poético para concretizar essa mesma descrição:
  • auditivas - "Toca-se as grades, nas cadeias. Som / Que mortifica e deixa umas loucuras mansas!", "E os sinos dum tanger monástico e devoto.", "... ao riso...";
  • visuais - "... ao acender das luzes", "à crua luz";
  • térmicas - "Derramam-se por toda a capital, que esfria".
Nesta segunda parte, face à desolação e à soturnidade do presente, o sujeito poético também evoca o passado ("Assim que pela História eu me aventuro e alargo") através do "severo inquisidor", do "épico de outrora" e da Idade Média.


Ao Gás

O deambular progressivo do sujeito poético permite-lhe completar o quadro citadino. Novos espaços e personagens são referidos:

Espaços
  • os "passeios de lajedo"
  • os "moles hospitais"
  • as "lojas tépidas"
  • a "catedral de um comprimento imenso"
  • o "cutileiro"
  • a "padaria"
  • as "casas de confecções e modas", com longos balcões de mogno
  • as "longas descidas" e as esquinas
Personagens
  • "as impuras"
  • as "burguesinhas do Catolicismo"
  • "o forjador"
  • um "ratoneiro imberbe"
  • "a lúbrica pessoa"
  • uma "velha, de bandós!"
  • "os caixeiros"
  • "um cauteleiro rouco"
  • o "velho professor (...) de latim"
Esta longa enumeração, para além de pormenorizar o retrato da cidade, reitera alguns dos aspectos característicos da poesia de Cesário Verde, como:
  • a valorização do campo, presente na única nota eufórica desta parte - o "cheiro salutar e honesto a pão no forno" que sai de uma padaria;
  • a presença de uma figura feminina que subverte os cânones poéticos da época - "as impuras";
  • o anticlericalismo presente na referência ao histerismo das freiras;
  • a solidariedade social presente na referência ao facto de o seu "velho professor (...) de Latim" estar transformado num pedinte.
Tal como nas duas primeiras partes, o sujeito poético descreve a cidade de modo sensorial, recorrendo a:
  • sensações tácteis - "(...) A noite pesa, esmaga. (...) / Um sopro que arrepia os ombros quase nus";
  • olfactivas - "Um cheiro salutar e honesto a pão no forno";
  • visuais - "E a vossa palidez romântica e lunar!";
  • auditivas - "Da solidão regouga um cauteleiro rouco".
O sujeito poético sublinha que o real é motivo de inspiração poética - "E eu que medito um livro que exacerbe. / Quisera que o real e a análise mo dessem".


Horas Mortas

A quarta parte do poema corresponde ao momento final do percurso do sujeito poético, percurso esse que se vai progressivamente tornando mais angustiante e fechado.
Assim, estamos no domínio total da noite, as estrelas brilham no céu - "Vêm lágrimas de luz dos astros com olheiras" - e "os guardas, que revistam as escadas, / caminham de lanterna (...)".
Este é também o momento em que as personagens marginais dominam a cidade: as "imorais", os assassinos, os "tristes bebedores", os "dúbios caminhantes" e até os cães, que se transformam em lobos - "E sujos, sem ladrar, ósseos, febris, errantes, / Amareladamente, os cães parecem lobos".
É também o momento em que o espaço se torna agressivo para o sujeito poético, essa agressividade está presente:
  • no colocar dos taipais e no ranger das fechaduras;
  • na consciência de que a cidade é uma prisão, uma antecâmara da morte - "Mas se vivemos, os emparedados. / Sem árvores, no vale escuro das muralhas!..."; "prédios sepulcrais";
  • no sentir de um nojo físico pela cidade - "Nauseiam-me (...) os ventres das tabernas".
Face a esta cidade opressiva, o sujeito poético apenas pode:
  • evocar a beleza e a serenidade do campo - "Pois sobem, no silêncio, infaustas e trinadas, / As notas pastoris de uma longínqua flauta";
  • expressar desejos impossíveis ou de difícil realização - "Se eu não morresse, nunca! E eternamente / Buscasse e conseguisse a perfeição das cousas!";
  • esperar o regresso da grandeza perdida - "Nós vamos explorar todos os continentes / E pelas vastidões aquáticas seguir!"
O poema conclui com uma nota claramente disfórica: a cidade é, inevitavelmente, o espaço onde "A Dor humana busca os amplos horizontes, / E tem marés, de fel, como um sinistro mar!".



"O "Sentimento dum Ocidental" é a investigação definitiva de Cesário Verde sobre a cidade. O poema regista as percepções e as impressões de um observador caminhando nas ruas nocturnas da cidade, um narrador que descreve um passeio solitário que não é apenas um movimento no espaço das ruas da cidade; é também um processo no tempo, uma viagem para dentro da noite durante a qual o narrador penetra e confronta o mundo simbólico de sombras reais que é a cidade nocturna. A cidade é Lisboa; o sentimento do título é o do narrador, natural do extremo ocidental da Europa, um português. Mas a cidade também representa o todo da civilização ocidental a que Portugal pertence; e o sentimento que ela provoca é ao mesmo tempo um produto dessa civilização e um protesto contra ela."

Hélder Macedo, "Nós" - Uma Leitura de Cesário Verde

in Colecção Resumos da Porto Editora

Dúvidas: Avé-Maria ou Ave-Maria?

Embora a expressão “Avé Maria” exprima melhor a forma como as pessoas a pronunciam, há que salientar que a expressão, de origem latina, é Ave, com o sentido de salve, saúde. Por isso, deve escrever-se sem o acento. A propósito ainda desta expressão, deve referir-se que quando serve para designar a oração correspondente, aconselha-se a que esta seja distinguida com hífen (ave-maria) para permitir o uso do plural.
Por exemplo: “Ave Maria cheia de graça”, "Vou rezar uma ave-maria" e “Já rezei três ave-marias.”


quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

A Joana



A Joana. Há muito que não via a Joana. Vi-a. Não, não a vi. Se ela não me chamasse, não a teria reconhecido. A voz. Foi a voz. Nunca vou esquecer a sua voz...

Conheci a Joana, quando "herdei" uma turma de uma colega que foi colocada algures, depois de uns bons anos na minha escola. Coisas incompreensíveis! 
A Joana chegou à primeira aula e sentou-se do outro lado da sala, no lugar oposto à minha secretária, perto da porta, como se quisesse fugir dali o mais depressa possível. Estava vestida de preto. Acho que nunca a vi vestida de cores claras. Também nunca a vi de calças! Era bem constituída, bonita, sorridente.
- Por que razão não é a professora R. a nossa professora? - perguntou, um tanto zangada.
Encolhi os ombros, não estava com vontade de dar explicações, de falar de  assuntos que não eram meus...
- Para mim, a professora R. é a melhor professora que eu já tive! Ah, e vai continuar a sê-lo.
- Não sejas parva, Joana, ainda não conheces a professora! Pode ser tão boa como a prof do ano passado ou até melhor!...
- E pior não pode ser? Se temos uma professora ou professor de que gostamos, não deviam mudar...
- Pronto, Joana, já todos percebemos a tua revolta, mas não podemos fazer nada. Eu vou ser tua professora, tu vais ser minha aluna. É só um ano, não é uma vida...
Foi a vez da Joana encolher os ombros e de fazer um sorriso meio amarelo, muito contrariado.
A Joana era boa aluna e fazia questão de fazer saber que esta ou aquela matéria lhe tinha sido ensinada pela professora R. Entretanto, acabaram as revisões, surgiram novos conteúdos e a Joana quis mudar de lugar. Pretendia sentar-se mesmo à minha frente. A meio do primeiro período, já ninguém queria trocar de lugar! Todos se sentiam bem onde estavam, menos a Joana que insistia e insistia em vir para perto da minha secretária. 
- Não querias ver a professora nem pintada e agora queres que eu saia do meu lugar para te sentares mesmo à frente da prof!...
Todos os dias, a Joana pedia para mudar de lugar, e a insistência foi tal, que tive de colocar mais uma mesa na fila da frente para a instalar. E houve ainda outro colega que lucrou com a situação e que se apoderou logo da segunda vaga.
- Se eu mandasse, mandava pôr só mesas à frente!
Resolvida esta questão, as aulas decorreram sempre muito bem. A turma era óptima! Os melhores alunos faziam questão de ajudar os mais fracos...
No final do ano, a Joana veio pedir-me desculpa. A sua animosidade não era contra mim, era contra o sistema que estava sempre a mudar as regras a meio do jogo...
- A professora é óptima! É uma óptima professora, óptima pessoa, óptima ouvinte, óptima conselheira... Dificilmente encontrarei outra professora assim. Gostei muito de ser sua aluna e, já agora, agradeço ao sistema por me ter dado a oportunidade de a conhecer e de a ter como professora.

Esta turma foi um presente que eu tive nesse ano. Fomos ao teatro, fomos ao cinema, participámos em mil actividades. Estes alunos estavam sempre disponíveis a abraçar qualquer projecto. A Joana ganhou as Olimpíadas da Leitura do 9.º ano, a Ana Beatriz do 7.º ano, do 8.º não me lembro da aluna. Eu só tinha sétimos e nonos, a Joana e a Ana eram minhas alunas. 
A final do concurso foi na Nazaré. De manhã, fizeram-se as provas. Eu e a I., a professora bibliotecária, esperámos pelas nossas meninas. Depois, fomos almoçar todas. A I. teve de acompanhar a menina do oitavo ano e eu fiquei com as minhas alunas. Tínhamos duas ou três horas. Decidimos ir passear, ir até à praia. Estava muito vento e o frio também não era pouco. O vento levantava a areia e cegava-nos. Desatámos a correr e a rir até à marginal. Fomos ver as montras das lojas de roupa, sapatos, malas... Numa montra estava já a colecção de Primavera/Verão. As cores claras aqueciam aquele tempo fresquinho de mais para o nosso gosto. A Ana teve a ideia de entrarmos na loja. A Joana concordou logo! Entrámos, fomos vendo as sandálias, as malas, as écharpes... Comentávamos este ou aquele acessório. Ríamos. Experimentámos chapéus!
- Professora, estas sandálias são mesmo a sua cara!
- A senhora é a professora destas meninas? - perguntou a funcionária.
Assenti.
- Sério?
- É a nossa professora de português.
A rapariga ficou de boca aberta a olhar-nos e nós olhámos umas para as outras e desatámos a rir.
- Professora, experimente estas sandálias - insistia a Ana.
- Esta mala fica bem com as sandálias... - reforçava a Joana.
- Por acaso, gosto das vossas propostas, são realmente a minha cara.
- Vai usar-se muito o salmão... - acrescentou a funcionária.
E ali estivemos um pedaço de tempo as três a experimentar sandálias, chapéus, luvas... Fizemos o nosso desfile!
- Professora, compre alguma coisa de que goste para se lembrar para sempre desta tarde e de nós.
E comprei as sandálias que a Ana escolheu e a mala que a Joana aprovou. Ainda hoje tenho ambas as peças que me recordam uma tarde fria, ventosa, mas quente de emoções e de carinho.
No outro dia toda a escola soube o que tinha acontecido na Nazaré.

Encontrei, então, a Joana!... Melhor, a Joana encontrou-me. Reconheci-a pela voz! Estava muito diferente, mais magra, menos sorridente. Só a roupa era igual, preta.  Estava decepcionada com a sua escola actual, com os professores, com tudo. Não se conseguia identificar com a nova realidade. 
- E as notas, Joana!
- Nada de especial, professora. Podiam ser melhores! Eu sei! Mas custa-me tanto levantar-me todos os dias para ir para a escola. Sabe que no princípio das aulas, por duas ou três vezes, me enganei e só já bem perto da nossa escolinha é que vi que não era para ali que eu tinha de ir...
Às vezes, nas aulas, só me lembro de si, do seu sorriso, da sua voz e das suas aulas "tão limpas, tão leves". Só me lembro de todos os professores da nossa escolinha, dos funcionários... Nada é igual! São todos tão pouco simpáticos, são todos tão "doutores"... 
Suspirou. Respirou fundo e prosseguiu:
- São só nossos professores e nada mais! Na rua não nos cumprimentam, somos invisíveis... 
Sabe, estou a pensar mudar de curso, mas o que eu gostava mais era de mudar de escola. A maior parte das aulas são uma seca! O que interessa é termos boas notas! Anda toda a gente ou quase toda na explicação porque o que conta são as notas, são os números... Mas, em primeiro lugar, o que devia contar em primeiro lugar eram as pessoas! Era o que a professora dizia! Eu lembro-me muito bem de tudo o que a professora nos dizia... E tenho saudades! Há uma expressão sua de que nunca vou esquecer: "É melhor aprenderem com os erros dos outros, dói menos!" 

Eu também tenho saudades da "velha" Joana, da nossa escolinha e das pessoas dessa "velha escolinha".

Sei, Joana, que já encontraste o teu caminho. Quero voltar a encontrar-te com aquele grande sorriso a enfeitar a tua cara bonita.


segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

Sentires





Quem não se sente não é filho de boa gente, diz o povo.

Sempre pautei a minha vida por valores que me foram transmitidos pelos meus pais. Os meus pais são as pessoas mais honestas que eu já conheci. Nunca ouvi o meu pai dizer uma palavra menos correcta. É a pessoa mais íntegra que conheço, de uma rectidão a toda a prova. É incapaz de prejudicar alguém. Ele, por outro lado, durante toda a sua vida, tem sido muitas vezes prejudicado. Não se revolta, no entanto! 
A minha mãe é mais intempestiva, age mais sem pensar, parece que tem sempre a resposta certa na ponta da língua e, por vezes, aquela resposta, aquelas palavras que saem, sem pedir licença, da sua boca, magoam, ferem. Depois arrepende-se. Pede desculpa facilmente. Entristece-se consigo. Chora. Dá os abraços mais afáveis e reconfortantes do mundo. São tão bons os abraços da minha mãe! Do meu pai, é o colo que é imensamente bom. Adoro sentar-me no colo do meu pai. Agora, finjo que me sento, fico meio no ar, não quero pesar-lhe. Fechando este parênteses e de volta à minha mãe: A minha mãe é doce como o açúcar a derreter no pão acabado de sair do forno, mas não é tão ponderada como o meu pai! Tem o coração ao pé da boca e dispara logo. Só depois é que olha para os estilhaços, para os cacos... E é vê-la a colar cada pedacinho para que tudo volte à forma inicial. Será que volta tudo à forma inicial? Volta, porque o sorriso que nos oferece, meigo, terno, cheio de esperança, o brilho nos olhos esverdeados desarma-nos a todos, apazigua-nos. Já sabemos que a mãe só pensa, na maior parte das vezes, depois de ter dito, de lhe terem saído cobras e lagartos por entre os dentes, outrora certinhos e branquíssimos. A minha mãe, que sempre nos disse para não falarmos antes de pensar, para mordermos sempre a língua três vezes antes de dizermos algo que depois nos possamos arrepender... Bem prega Frei Tomás... Mas a lição ficou aprendida, bem aprendida, penso bastante antes de dizer algo que possa magoar alguém e fico triste, quando, a maior parte das pessoas não o fazem em relação a mim, quando tecem considerações e juízos de valor completamente falsos... Bem, não me quero dispersar!... 
O meu pai, quando tem de dar uma resposta, quando tem de fazer algum reparo, pára, mede a pessoa de alto a baixo, pensa e, depois, calmamente, muito calmamente, sem alterar o tom de voz, responde, diz da sua justiça, sem utilizar palavras menos próprias. O meu pai mede as palavras tal como mede as pessoas a quem as vai dizer. As palavras proferidas pelo meu pai são cuidadosamente escolhidas e são, sem tirar nem pôr, aquilo que aquela pessoa deve ouvir, quer goste ou não. O seu olhar fica preso ao do seu interlocutor de tal forma que dói, que incomoda. Eu quando era jovem dizia que preferia que o meu pai me desse uma bofetada do que me olhasse "daquela maneira" e me dissesse determinadas palavras. Doíam mais as suas palavras, doía mais o seu olhar de desilusão, pesava mais o seu silêncio e o seu ar decepcionado...
Nunca quis desiludir os meus pais. Nunca quis decepcionar o meu pai. Eu era capaz de fazer tudo para agradar ao meu pai! No entanto, como todos os jovens, fiz muitos disparates! E, lembro-me, que a última coisa que queria era que os meus pais soubessem desta ou daquela tolice. Eu não podia sequer imaginar o desapontamento dos meus pais. E isso travou-me muitas vezes, e não, não fiz muitas asneiras! Não fiz nada que os pudesse envergonhar nem do que me viesse a envergonhar algum dia. Nunca fui mal educada para ninguém. Tento sempre ajudar os que de mim precisam.
O meu pai, um dia, disse-nos, a mim e aos meus irmãos, que esperava que fôssemos íntegros, honestos, e de uma verticalidade irrepreensível. Também nos incutiu outros valores!...
O meu pai estudou num seminário e teve um pai, o meu avô, que impunha respeito só de olhar para ele. O meu avô era alto, bastante alto. Eu achava que ele era muito alto, talvez por eu ser pequena. Mas, a verdade é que eu considerava o meu avô alguém completamente inatingível, até mesmo algo austero. E olhando para trás, o meu pai, a sua maneira de ser, de actuar, de se expressar, o seu olhar, o seu modo ponderado de falar, pausado, com palavras medidas milimetricamente... Ele e tudo nele tem o dedo do meu avô e, possivelmente, do seminário que frequentou. Consequentemente, eu sou o produto de uma educação rigorosa incutida pelos meus pais e é, por isso, que há coisas que vejo, que oiço que não consigo compreender! Cada vez mais, as pessoas me desiludem, e as ferroadas surgem de quem menos esperamos. Quantos sorrisos, quantas palavras gentis recebemos a toda a hora...  Quanta falsidade! Pois! Afinal, desenganem-se, há sempre algo por detrás... A traição é o pior de tudo e vem tão bem mascarada e enfeitada! É tão fácil culpar os outros do nosso insucesso! 
Vivemos num mundo conturbado, pisa-se este e aquele para assegurarmos o nosso lugar, mesmo imerecido. Dizemos mal deste e daquele para ficarmos bem-vistos, caluniamos, inventamos histórias...
Eu sou eu, despida de preconceitos. Podem perguntar-me o que acho desta ou daquela pessoa... se não tiver nada de bom para dizer, não digo nada e, mesmo que tenha, também nada digo, acho que quem quer saber isto ou aquilo sobre alguém, deve ir ter com essa pessoa e esclarecer as suas dúvidas.
A vida é tão curta que não vale a pena andarmos com quezílias. A vida, ela própria, encarregar-se-á de castigar os prevaricadores, os delatores, os mentirosos, os caluniadores... por isso, estou tranquila! Recebi uma herança valiosíssima, em vida, dos meus pais, e não quero nem vou nunca desiludi-los nem vou decepcionar-me a mim própria. Eu tenho consciência! Não preciso, não sou capaz de rebaixar ninguém para atingir o céu. Eu tenho muitas valências! Obrigada J. por me dizer o que sei, o que muita gente sabe e do que muita gente tem medo e inveja!
Mas voltando a heranças boas, é esta herança de grande valor que recebi dos meus pais, que eles receberam dos seus pais... que venho passando com sucesso aos meus filhos. Tenho um grande orgulho nos meus filhos! Eles sabem...


Cesário Verde - Deambulismo - Num Bairro Moderno



Para Cesário Verde, ver é perceber o que se esconde na realidade, é captar as impressões que as coisas lhe deixam e, por isso, o poeta percepciona o real minuciosamente através dos sentidos. Ou seja, andando pela cidade, deambulando por espaços físicos vários, o real exterior é apreendido pelo mundo interior do sujeito poético que o interpreta e recria com grande nitidez, numa atitude de captação do real pelos sentidos, dando predominância aos dados obtidos pela visão: cor, luz, recorte, formas, movimento.
A errância pelos espaços da cidade é motivação para escrever.
Os poemas de Cesário que melhor ilustram esta deambulação, esta errância por uma cidade que é sua são:


Num Bairro Moderno

Trata-se da reconstituição do percurso que sujeito poético habitualmente faz para o emprego, para a loja de ferragens do pai.
Este poema de Cesário Verde pode ser considerado uma espécie de paradigma da totalidade da sua produção poética, uma vez que, de uma forma mais ou menos desenvolvida, todos os aspectos essenciais da sua poesia estão nele presentes.
Analisemos este poema, então, começando por fazer referência às duas realidades presentes no texto:
  • a objectiva, construída através da descrição do bairro e das personagens que nele se movimentam: estrofes 1, 2, 3, 4, 5, 6, 13, 14, 15, 16, 17, 18 e 19;
  • a subjectiva, a fuga imaginativa levada a cabo pela visão pessoal do "eu" que vagueia, que deambula pelo bairro: 7, 8, 9, 10, 11, 12 e 20.
A coexistência destas duas realidades prefigura a poetização do real, uma vez que o sujeito poético se deixa levar pela sua imaginação, construindo um corpo feminino (símbolo de saúde, de fertilidade, mas também de sensualidade) a partir da giga de legumes e frutos, vendo estrelas nas gotas de água que caem do ralo de regador, ou transformando a visão final da hotaliceira e do seu cesto à cabeça numas "grossas pernas dum gigante /Sem tronco, mas atléticas, inteiras".
Esta poetização do real, construída pela imaginação do sujeito poético, inviabiliza algumas teorias segundo as quais Cesário Verde seria um poeta realista. Cesário é, sim, contemporâneo do realismo, sofre influências desse movimento, mas vai além dele. É quase um surrealista antes do tempo, pela dimensão que o imaginário e a transformação poética assumem na sua poesia.

Relativamente à realidade objectiva, assinale-se:

a) o carácter deambulatório (o "eu" descreve o que vê à medida que passeia pelo bairro), cinético e visual da poesia de Cesário:
  • a focagem do plano geral (o bairro);
  • a passagem para a cena particular (o episódio da hortaliceira).

b) a presença do quotidiano visível nas características narrativas do poema:
- tempo: "Dez horas da manhã" (estrofe 1); "ao calor de Agosto" (estrofe 16);
- espaço: "larga rua macadamizada" enquadrada por casas apalaçadas com quartos estucados, paredes de papéis pintados, mesas com porcelanas, jardins com nascentes - bairro burguês (estrofes 1 e2);
- personagens:
  • sujeito poético - frágil, doente. "Com as tonturas de uma apoplexia" (estrofe 3);
  • a hortaliceira: mulher do povo, esguedelhada, magra, feia, doente, enfezadita (est. 5, 6 e 19). A mulher do povo apresentada de uma forma realista, não sujeita a uma metamorfose poética, constitui uma inovação da poesia deste poeta. Esta mulher pobre, feia, "sem quadris", esmagada pelo peso da giga, simboliza também as preocupações sociais presentes na poesia de Cesário Verde, aspectos completamente "revolucionários" para a época;
  • o criado;
  • o pequerrucho;
  • os padeiros;
  • as ménages.
-acção:
  • o deambular do sujeito poético pelo bairro, o encontro com a hortaliceira e a fuga imaginativa a partir da giga. Esta fuga imaginativa é uma micro-narrativa encaixada na narrativa de primeiro grau;
  • o retomar do passeio e a visão final.

Em relação à realidade subjectiva que assume no poema o estatuto de uma narrativa de segundo grau, que integra a fuga imaginativa:
  • o carácter subjectivo / metamorfoseante e surrealista da descrição da giga (est. 7, 9, 10, 11, 12);
  • o simbolismo inerente a esta "fuga": a giga é "um retalho de horta" e, por isso, transmite força, vigor, saúde, vida, poder de transformação, por oposição à cidade, representada pelo sujeito poético e pela hortaliceira, conotada com dor, sofrimento, e, no limite, morte;
  • a presença dos binómios campo/cidade, vida/morte estruturantes da poesia de Cesário Verde e associados ao mio de Anteu. Só o contacto com o real, mas sobretudo com o campo, com a terra, confere ao homem força e vitalidade;
  • o visualismo (aspectos pictóricos) quer na descrição da rua, quer na descrição da giga, criado a partir das referências à:
  1. luz - "E fere a vista, com brancuras quentes, / A larga rua macadamizada.";
  2. cor - "Ou entre a rama dos papéis pintados";
  3. forma - "Achava os tons e as formas";
  4. movimento - "Sobem padeiros";
  • a presença dos principais aspectos do estilo poético de Cesário Verde:
  1. emprego de um vocabulário pragmático, preciso, concreto e corrente - "Se ela se curva, esguedelhada, feia";
  2. utilização inusitada do adjectivo - "Atira um cobre lívido, oxidado";
  3. emprego de sinestesias - "brancuras quentes";
  4. recurso a sensações / verbos sensitivos: visão ("matizam"); tacto ("fere"); olfacto ("Bóiam aromas, fumos de cozinha"), ("hortelã que cheira"); audição ("Toca, frenética, de vez em quando"); gosto ("Como de alguém que tudo aquilo jante");
  5. valor expressivo dos diminutivos - "pequenina", "bracinhos", "enfezadita";
  6. emprego de estrangeirismos - "rez-de-chaussée", "ménages".
in Colecção Resumos da Porto Editora

sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

Cesário Verde - Deambulismo - Cristalizações


Cristalizações recria o quadro do trabalho dos calceteiros a que o sujeito poético assiste. O título do poema está relacionado com o brilho da luz nos charcos, cujos reflexos parecem cristais.
O título deste poema poderia ser "Num Bairro Proletário", como contraponto a "Num Bairro Moderno". Enquanto neste último o sujeito poético nos conduz através de um bairro burguês com as suas casas apalaçadas e os seus mordomos, em "Cristalizações", deambulamos por entre "Uns barracões de gente pobrezita / E uns quintalórios velhos com parreiras" que se situam nuns "sítios suburbanos, reles!"
Porém, não é apenas este aspecto que aproxima dois poemas que retratam espaços citadinos tão diametralmente opostos. Também a oposição real / fuga imaginativa está presente nos dois textos.
Tendo em conta esta oposição, é possível delimitar em "Cristalizações" dois níveis narrativos diferentes:
  • o do real (estrofes 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9, 10, 11, 12, 13, 14, 15, 16, 17, 18, 19, 20);
  • o da imaginação (estrofes 7 - versos 2, 3, 4 - 13).
No domínio do real, pontuam diversas personagens - os calceteiros, as varinas e a "actrizita" -, assumindo os calceteiros o estatuto de personagem principal
Com efeito, todo o poema é um hino a estes trabalhadores que abandonaram as lezírias, os montados, as planícies, as montanhas para com "os grossos maços" partirem a pedra "com que outros" fazem a calçada. Trata-se de um trabalho duro, moroso, ininterrupto - "(...) E os rapagões morosos, duros, baços, / Cuja coluna nunca se endireita"; "Homens de carga! Assim as bestas vão curvadas! / Que vida tão custosa!") - realizado ao frio, "nesse rude mês, que não consente as flores", nesse "Dezembro enérgico, sucinto".
De repente, cortando o ritmo de trabalho daqueles homens fortes, rudes - "bovinos, másculos, ossudos" - e brutos - "Como animais comuns", surge uma actrizita com "pezinhos de cabra" cuja presença desassossega aqueles trabalhadores que a encaram "sanguínea, brutamente".
No entanto, "O demonico arrisca-se, atravessa /Covas, entulhos, lamaçais depressa", continuando o seu caminho.
O posicionamento do sujeito poético face aos calceteiros, embora lhes reconheça aspectos quase que animalescos, é de uma empenhada solidariedade bem patente, quando na estrofe 13, transforma as nódoas de vinho em medalhas, as camisas em bandeiras e os suspensórios numa cruz - metáfora do sofrimento de Cristo, na cruz.
Este poema é talvez aquele em que a descrição sensorial do real se torna mais evidente, através do uso de:
  • sinestesias - "Vibra uma imensa claridade crua"
  • sensações visuais - "E as poças de água, como em chão vidrento, / reflectem a molhada casaria"
  • sensações auditivas - "Disseminadas, gritam as peixeiras", "E o ferro e a pedra - que união sonora!"
  • sensações tácteis - "Faz frio"
  • sensações olfactivas "Cheira-me a fogo, a sílex, a ferrugem"
  • sensações gustativas - "Sabe-me a campo, a lenha, a agricultura"
  • vocabulário expressivo - "O céu renova a tinta corredia"
  • metáforas - "E os charcos brilham tanto, que eu diria / Ter ante mim lagoas de brilhantes!"
O próprio sujeito poético reitera esse carácter sensorial do texto ao afirmar "Lavo, refresco, limpo os meus sentidos. / E tangem-me excitados, sacudidos, / O tacto, a vista, o ouvido, o gosto, o olfacto!"

in Colecção Resumos da Porto Editora



Cesário Verde - Deambulismo - "De Verão" e "Nós"




Paralelamente ao deambulismo citadino, Cesário Verde passeia o seu olhar também pelo campo, como atestam os poemas: "De Verão" e "Nós".


De Verão

Este poema inicia-se com uma confissão, já antes pressentida, por parte do sujeito poético: é ao campo que ele vai buscar a sua inspiração - "No campo; eu acho nele a musa que me anima: / A claridade, a robustez, a acção."
Logo após esta confissão, o sujeito poético introduz uma personagem feminina, a prima, com quem vai deambular pelo campo, ao mesmo tempo que conversam sobre temas banais e do quotidiano.
Assim, ao longo do poema, é possível detectar três vectores estruturantes:
  • um constituído pela relação que se estabelece entre a prima séria e educada, que, pela sua beleza e naturalidade, está em sintonia com o espaço campestre em que se move - uma "criança encantadora", de "olhos castos", "Exótica", austera, gentil, inteligente, com "chapéu de palha", "As saias curtas, frescas, engomadas", "os cabelos muito loiros" - e o sujeito poético, caracteristicamente citadino - "E ria-me, eu ocioso, inútil, fraco. / Eu de jasmim na casa do casaco / E de óculo deitado a tiracolo!" - e que fuma cachimbo;
  • outro constituído pelos espaços - "a velha ermida", "as leiras", "a ribeira", os "olivais escuros", as pastagens, os milhos, a "colina azul", "o lugar caiado", a azinhaga, as vinhas, os celeiros, os pinheiros, a campina e personagens do campo - os que "andam cantando aos bois", "os saloios vivos, corpulentos", os pastores que fazem regressar os rebanhos - que compõem um quadro que transmite energia e saúde - "(...) Que aldeias tão lavadas / Bons ares! Boa luz! Bons alimentos!";
  • e, finalmente, um outro constituído pela conversa entre as duas personagens principais - a propósito de um carreiro de formigas - "No atalho enxuto (...) / Esguio e a negrejar em um cortejo, / Destaca-se um carreiro de formigas." - que o sujeito poético tem vontade de esmagar - "As ladras da colheita! Eu se trouxesse agora / Um sublimado corrosivo, uns pós / De solimão, eu, sem maior demora, / Envenená-las-ia!". A prima tece, então, uma série de considerações, em que, implicitamente, acusa a cidade, simbolizada na figura do primo, de ser uma entidade ociosa que vive à custa do campo - "Estas mineiras negras, incansáveis, / São mais economistas, mais notáveis. / E mais trabalhadoras que o senhor."
De referir que, também neste poema, estão presentes aspectos característicos da poética de Cesário Verde:
  • a afirmação da objectividade na apreensão do real - "Não pinto a velha ermida com seu adro; / Sei só desenho de compasso e esquadro, / Respiro indústria, paz, salubridade";
  • o impressionismo descritivo - "O sol abrasa (...) / E alvejam-te, na sombra dos pinheiros, / (...) As saias curtas";
  • a sinestesia - "Na natureza trémula de sede";
  • o predomínio das sensações visuais - "(...) Os teus cabelos muito loiros / Luziam, com doçura (...)"; auditivas - "Vibravam, na campina, as chocas da manada".

Nós

Do conjunto da obra poética de Cesário Verde, este poema é o que apresenta um carácter claramente biográfico, pelas informações relativas às suas vivências pessoais e familiares:
  • a ida da família da cidade para o campo, tentando fugir à epidemia da cólera;
  • as estadas sazonais no campo, que se tornaram um hábito da família Verde;
  • a actividade agrícola do chefe da família;
  • as preocupações do pai com a saúde e bem-estar dos filhos;
  • a doença de um dos irmãos e a sua posterior morte.
O poema está organizado em três partes (I, II, III), que correspondem a três momentos da evocação do sujeito poético dos espaços cidade e campo.
Assim, na primeira parte, o sujeito poético refere o ambiente de doença que domina a cidade - "a Febre / E o Cólera também andaram na cidade" - e que teve como consequências:
  • a fuga dos habitantes da cidade - "esta população, com um terror de lebre, / Fugiu da capital como da tempestade";
  • a decisão da família Verde em mudar-se para o campo - "Ora, meu pai, depois das nossas vidas salvas / (...) Tanto nos viu crescer entre uns montões de malvas"; "Por isso, o chefe antigo e bom da nossa casa / (...) Não quis voltar senão depois das grandes chuvas";
  • o pânico e a actividade de controlo da epidemia - "E os médicos, ao pé dos padres e coveiros, / Os últimos fiéis, tremiam dos enfermos!"; "Barricas de alcatrão ardiam";
  • a morte - "Mesmo no nosso prédio, os outros inquilinos / Morreram todos";
Nesta primeira parte, a oposição cidade/campo é uma constante, pelo significado que uma e outra adquirem para o sujeito poético e sua família: a cidade perspectivada como "Um lívido flagelo e uma moléstia horrenda!" e o campo como "um salutar refúgio".

Na segunda parte, o campo é caracterizado, através da experiência pessoal do sujeito poético, como espaço de:
  • beleza natural e sadia - "Que de fruta! E que fresca e temporã / Nas duas boas quintas"; "O laranjal de folhas negrejantes";
  • fertilidade - "As ricas primeurs da nossa terra"; "Abundâncias felizes que eu recordo!"; "Pradarias de um verde ilimitado!";
e torna-se motivo de inveja dos países industrializados do norte da Europa - "Anglo-Saxónios, tendes que invejar! / Ricos suicidas comparai convosco! / (...) Oponde às regiões que dão os vinhos / Vossos montes de escórias inda quentes!"

Na terceira parte, o sujeito poético retoma o tom autobiográfico do poema e justifica o título do mesmo - "Nós".
De regresso à cidade "Tínhamos nós voltado à capital maldita" - o sujeito lírico recorda um acontecimento dramático - "nos sucedeu uma cruel desdita".
A doença e morte de um dos irmãos é então evocada de forma realista - "Uma tuberculose abria-lhe cavernas!" / (...) Não sei dum infortúnio imenso como o seu!" / "E, sem querer, aflito e atónito, morreu!"
Esta morte prematura desencadeia no sujeito poético sentimentos dolorosos e contraditórios:
  • revolta contra as injustiças;
  • vingança concretizada no seu trabalho poético - "Se ainda trabalho é como os presos no degredo, / Com planos de vingança e ideias insubmissas";
  • "desdém pela literatura";
  • desprezo pelos seus "amados versos".
in Colecção Resumos da Porto Editora

segunda-feira, 14 de novembro de 2016

Cesário Verde - O aspecto pictórico


Em 1874, iniciam-se, em Paris, as exposições impressionistas, mas do Grupo do Leão é precisamente Cesário Verde, que nada tem a ver com a pintura, quem antecipa o impressionismo em Portugal.
Em literatura, o impressionismo manifesta-se pelo processo de atribuir à linguagem, às palavras, o mesmo efeito que as pinceladas de cor imprimem à tela, ou seja, o importante é exprimir as impressões que a observação do real suscita e não a figuração do real. Deste modo, para Cesário, importa mais a impressão que o objecto causa do que a enumeração pormenorizada de detalhes.
O poema De Tarde ilustra bem esta técnica impressionista e é, por muitos críticos, considerado equivalente a uma tela de Manet, particularmente a sua obra "Le déjeuner sur l'herbe":

Naquele “pic-nic” de burguesas,
Houve uma coisa simplesmente bela,
E que, sem ter história nem grandezas,
Em todo o caso dava uma aguarela.

Foi quando tu, descendo do burrico,
Foste colher, sem imposturas tolas,
A um granzoal azul de grão de bico
Um ramalhete rubro de papoulas.

Pouco depois, em cima duns penhascos,
Nós acampámos, indo o sol se via;
E houve talhadas de melão, damascos
E pão de ló molhado em malvasia.

Mas, todo púrpuro, a sair da renda
Dos teus dois seios como duas rolas,
Era o supremo encanto da merenda

O ramalhete rubro das papoulas!

Temos neste poema:
  • a captação de um flagrante do quotidiano burguês: uma determinada imagem, um instante que o sujeito poético surpreende - "Houve uma coisa simplesmente bela";
  • as sugestões cromáticas, de que a visão é a principal responsável: "azul", "rubro", "púrpuro";
  • a sugestão da luz - "inda o sol se via";
  • as sugestões gustativas: "talhadas de melão, damascos / E pão-de-ló molhado em malvasia".
O que o sujeito poético nos oferece deste quadro é, acima de tudo, as suas impressões, ou seja, as sensações através das quais essa realidade chega até nós, leitores. Essa dimensão impressionista é conseguida, a nível linguístico, fundamentalmente, através da anteposição do adjectivo em relação ao nome e da utilização do assíndeto.
O próprio poeta refere, no poema, a possibilidade de equivalência com uma pintura, quando diz tratar-se de "(...) uma coisa simplesmente bela / E que, sem ter história nem grandezas, / Em todo o caso dava uma aguarela".
É, assim, notória a preferência pelo acontecimento simples e prosaico, que nada tem de grandioso, o que, efectivamente, se assemelha às tendências estéticas dos meados do séc. XIX.

Podemos detectar esse carácter impressionista da linguagem de Cesário, nos quais se identifica esse modo de apreender o real através de impressões: cor, luz, movimento...

E o sol estende, pelas frontarias,
Seus raios de laranja destilada.


Num Bairro Moderno

Pinto quadros por letra, por sinais,
Tão luminosos como os do Levante,


Nós

Reluz, viscoso, o rio, apressam-se as obreiras;
E num cardume negro, hercúleas, galhofeiras,
Correndo com firmeza, assomam as varinas.

O Sentimento dum Ocidental

in Colecção Resumos da Porto Editora

Cesário Verde - A evasão do real e a pretensa objectividade


Apesar da poesia de Cesário Verde se alicerçar no real objectivo, é possível verificar que a imaginação transfiguradora interfere, frequentemente, na visão objectiva que o sujeito poético tem da realidade.
Segundo Jacinto do Prado Coelho, "artista (...) não é o que se limita a copiar o real, é o homem de imaginação privilegiada que dá um sentido às coisas e cria, a partir do concreto, uma super-realidade". É frequente encontrarmos nos poemas de Cesário Verde outras realidades que estão para além da realidade primeira, imediata, observável, e que surgem por meio da imaginação criadora e transfiguradora, possibilitando ao sujeito poético a fuga, a evasão do real.
Detectamos essa evasão do real em poemas como:
  • "Num Bairro Moderno" - a visão do cesto de vegetais da hortaliceira é transfigurada e dá lugar à visão de um corpo humano - "Há colos, ombros, boca, um semblante / Nas posições de certos frutos. (...) surge um melão que me lembrou um ventre."
  • "O Sentimento dum Ocidental" - a deambulação do sujeito poético pelos cais da cidade suscita-lhe imagens de um passado longínquo - "Luta Camões no sul, salvando um livro a nado! / Singram soberbas naus que eu não verei jamais!"
  • "Cristalizações" - a visão das "árvores despidas", realidade imediata, transforma-se em outras imagens que vão para além desse imediato - "Mastros, enxárcias, vergas!"
Constatamos na poesia de Cesário Verde um modo especial de ver a realidade, que cede lugar ao subjectivismo de um sujeito poético que sabe poetizar a realidade concreta.

in Colecção Resumos da Porto Editora

quarta-feira, 22 de junho de 2016

Meu

http://lrwebtool.com/cristina-lp/?id=mena

sábado, 18 de junho de 2016