sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

Cesário Verde - Deambulismo - Cristalizações


Cristalizações recria o quadro do trabalho dos calceteiros a que o sujeito poético assiste. O título do poema está relacionado com o brilho da luz nos charcos, cujos reflexos parecem cristais.
O título deste poema poderia ser "Num Bairro Proletário", como contraponto a "Num Bairro Moderno". Enquanto neste último o sujeito poético nos conduz através de um bairro burguês com as suas casas apalaçadas e os seus mordomos, em "Cristalizações", deambulamos por entre "Uns barracões de gente pobrezita / E uns quintalórios velhos com parreiras" que se situam nuns "sítios suburbanos, reles!"
Porém, não é apenas este aspecto que aproxima dois poemas que retratam espaços citadinos tão diametralmente opostos. Também a oposição real / fuga imaginativa está presente nos dois textos.
Tendo em conta esta oposição, é possível delimitar em "Cristalizações" dois níveis narrativos diferentes:
  • o do real (estrofes 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9, 10, 11, 12, 13, 14, 15, 16, 17, 18, 19, 20);
  • o da imaginação (estrofes 7 - versos 2, 3, 4 - 13).
No domínio do real, pontuam diversas personagens - os calceteiros, as varinas e a "actrizita" -, assumindo os calceteiros o estatuto de personagem principal
Com efeito, todo o poema é um hino a estes trabalhadores que abandonaram as lezírias, os montados, as planícies, as montanhas para com "os grossos maços" partirem a pedra "com que outros" fazem a calçada. Trata-se de um trabalho duro, moroso, ininterrupto - "(...) E os rapagões morosos, duros, baços, / Cuja coluna nunca se endireita"; "Homens de carga! Assim as bestas vão curvadas! / Que vida tão custosa!") - realizado ao frio, "nesse rude mês, que não consente as flores", nesse "Dezembro enérgico, sucinto".
De repente, cortando o ritmo de trabalho daqueles homens fortes, rudes - "bovinos, másculos, ossudos" - e brutos - "Como animais comuns", surge uma actrizita com "pezinhos de cabra" cuja presença desassossega aqueles trabalhadores que a encaram "sanguínea, brutamente".
No entanto, "O demonico arrisca-se, atravessa /Covas, entulhos, lamaçais depressa", continuando o seu caminho.
O posicionamento do sujeito poético face aos calceteiros, embora lhes reconheça aspectos quase que animalescos, é de uma empenhada solidariedade bem patente, quando na estrofe 13, transforma as nódoas de vinho em medalhas, as camisas em bandeiras e os suspensórios numa cruz - metáfora do sofrimento de Cristo, na cruz.
Este poema é talvez aquele em que a descrição sensorial do real se torna mais evidente, através do uso de:
  • sinestesias - "Vibra uma imensa claridade crua"
  • sensações visuais - "E as poças de água, como em chão vidrento, / reflectem a molhada casaria"
  • sensações auditivas - "Disseminadas, gritam as peixeiras", "E o ferro e a pedra - que união sonora!"
  • sensações tácteis - "Faz frio"
  • sensações olfactivas "Cheira-me a fogo, a sílex, a ferrugem"
  • sensações gustativas - "Sabe-me a campo, a lenha, a agricultura"
  • vocabulário expressivo - "O céu renova a tinta corredia"
  • metáforas - "E os charcos brilham tanto, que eu diria / Ter ante mim lagoas de brilhantes!"
O próprio sujeito poético reitera esse carácter sensorial do texto ao afirmar "Lavo, refresco, limpo os meus sentidos. / E tangem-me excitados, sacudidos, / O tacto, a vista, o ouvido, o gosto, o olfacto!"

in Colecção Resumos da Porto Editora



Cesário Verde - Deambulismo - "De Verão" e "Nós"




Paralelamente ao deambulismo citadino, Cesário Verde passeia o seu olhar também pelo campo, como atestam os poemas: "De Verão" e "Nós".


De Verão

Este poema inicia-se com uma confissão, já antes pressentida, por parte do sujeito poético: é ao campo que ele vai buscar a sua inspiração - "No campo; eu acho nele a musa que me anima: / A claridade, a robustez, a acção."
Logo após esta confissão, o sujeito poético introduz uma personagem feminina, a prima, com quem vai deambular pelo campo, ao mesmo tempo que conversam sobre temas banais e do quotidiano.
Assim, ao longo do poema, é possível detectar três vectores estruturantes:
  • um constituído pela relação que se estabelece entre a prima séria e educada, que, pela sua beleza e naturalidade, está em sintonia com o espaço campestre em que se move - uma "criança encantadora", de "olhos castos", "Exótica", austera, gentil, inteligente, com "chapéu de palha", "As saias curtas, frescas, engomadas", "os cabelos muito loiros" - e o sujeito poético, caracteristicamente citadino - "E ria-me, eu ocioso, inútil, fraco. / Eu de jasmim na casa do casaco / E de óculo deitado a tiracolo!" - e que fuma cachimbo;
  • outro constituído pelos espaços - "a velha ermida", "as leiras", "a ribeira", os "olivais escuros", as pastagens, os milhos, a "colina azul", "o lugar caiado", a azinhaga, as vinhas, os celeiros, os pinheiros, a campina e personagens do campo - os que "andam cantando aos bois", "os saloios vivos, corpulentos", os pastores que fazem regressar os rebanhos - que compõem um quadro que transmite energia e saúde - "(...) Que aldeias tão lavadas / Bons ares! Boa luz! Bons alimentos!";
  • e, finalmente, um outro constituído pela conversa entre as duas personagens principais - a propósito de um carreiro de formigas - "No atalho enxuto (...) / Esguio e a negrejar em um cortejo, / Destaca-se um carreiro de formigas." - que o sujeito poético tem vontade de esmagar - "As ladras da colheita! Eu se trouxesse agora / Um sublimado corrosivo, uns pós / De solimão, eu, sem maior demora, / Envenená-las-ia!". A prima tece, então, uma série de considerações, em que, implicitamente, acusa a cidade, simbolizada na figura do primo, de ser uma entidade ociosa que vive à custa do campo - "Estas mineiras negras, incansáveis, / São mais economistas, mais notáveis. / E mais trabalhadoras que o senhor."
De referir que, também neste poema, estão presentes aspectos característicos da poética de Cesário Verde:
  • a afirmação da objectividade na apreensão do real - "Não pinto a velha ermida com seu adro; / Sei só desenho de compasso e esquadro, / Respiro indústria, paz, salubridade";
  • o impressionismo descritivo - "O sol abrasa (...) / E alvejam-te, na sombra dos pinheiros, / (...) As saias curtas";
  • a sinestesia - "Na natureza trémula de sede";
  • o predomínio das sensações visuais - "(...) Os teus cabelos muito loiros / Luziam, com doçura (...)"; auditivas - "Vibravam, na campina, as chocas da manada".

Nós

Do conjunto da obra poética de Cesário Verde, este poema é o que apresenta um carácter claramente biográfico, pelas informações relativas às suas vivências pessoais e familiares:
  • a ida da família da cidade para o campo, tentando fugir à epidemia da cólera;
  • as estadas sazonais no campo, que se tornaram um hábito da família Verde;
  • a actividade agrícola do chefe da família;
  • as preocupações do pai com a saúde e bem-estar dos filhos;
  • a doença de um dos irmãos e a sua posterior morte.
O poema está organizado em três partes (I, II, III), que correspondem a três momentos da evocação do sujeito poético dos espaços cidade e campo.
Assim, na primeira parte, o sujeito poético refere o ambiente de doença que domina a cidade - "a Febre / E o Cólera também andaram na cidade" - e que teve como consequências:
  • a fuga dos habitantes da cidade - "esta população, com um terror de lebre, / Fugiu da capital como da tempestade";
  • a decisão da família Verde em mudar-se para o campo - "Ora, meu pai, depois das nossas vidas salvas / (...) Tanto nos viu crescer entre uns montões de malvas"; "Por isso, o chefe antigo e bom da nossa casa / (...) Não quis voltar senão depois das grandes chuvas";
  • o pânico e a actividade de controlo da epidemia - "E os médicos, ao pé dos padres e coveiros, / Os últimos fiéis, tremiam dos enfermos!"; "Barricas de alcatrão ardiam";
  • a morte - "Mesmo no nosso prédio, os outros inquilinos / Morreram todos";
Nesta primeira parte, a oposição cidade/campo é uma constante, pelo significado que uma e outra adquirem para o sujeito poético e sua família: a cidade perspectivada como "Um lívido flagelo e uma moléstia horrenda!" e o campo como "um salutar refúgio".

Na segunda parte, o campo é caracterizado, através da experiência pessoal do sujeito poético, como espaço de:
  • beleza natural e sadia - "Que de fruta! E que fresca e temporã / Nas duas boas quintas"; "O laranjal de folhas negrejantes";
  • fertilidade - "As ricas primeurs da nossa terra"; "Abundâncias felizes que eu recordo!"; "Pradarias de um verde ilimitado!";
e torna-se motivo de inveja dos países industrializados do norte da Europa - "Anglo-Saxónios, tendes que invejar! / Ricos suicidas comparai convosco! / (...) Oponde às regiões que dão os vinhos / Vossos montes de escórias inda quentes!"

Na terceira parte, o sujeito poético retoma o tom autobiográfico do poema e justifica o título do mesmo - "Nós".
De regresso à cidade "Tínhamos nós voltado à capital maldita" - o sujeito lírico recorda um acontecimento dramático - "nos sucedeu uma cruel desdita".
A doença e morte de um dos irmãos é então evocada de forma realista - "Uma tuberculose abria-lhe cavernas!" / (...) Não sei dum infortúnio imenso como o seu!" / "E, sem querer, aflito e atónito, morreu!"
Esta morte prematura desencadeia no sujeito poético sentimentos dolorosos e contraditórios:
  • revolta contra as injustiças;
  • vingança concretizada no seu trabalho poético - "Se ainda trabalho é como os presos no degredo, / Com planos de vingança e ideias insubmissas";
  • "desdém pela literatura";
  • desprezo pelos seus "amados versos".
in Colecção Resumos da Porto Editora

segunda-feira, 14 de novembro de 2016

Cesário Verde - O aspecto pictórico


Em 1874, iniciam-se, em Paris, as exposições impressionistas, mas do Grupo do Leão é precisamente Cesário Verde, que nada tem a ver com a pintura, quem antecipa o impressionismo em Portugal.
Em literatura, o impressionismo manifesta-se pelo processo de atribuir à linguagem, às palavras, o mesmo efeito que as pinceladas de cor imprimem à tela, ou seja, o importante é exprimir as impressões que a observação do real suscita e não a figuração do real. Deste modo, para Cesário, importa mais a impressão que o objecto causa do que a enumeração pormenorizada de detalhes.
O poema De Tarde ilustra bem esta técnica impressionista e é, por muitos críticos, considerado equivalente a uma tela de Manet, particularmente a sua obra "Le déjeuner sur l'herbe":

Naquele “pic-nic” de burguesas,
Houve uma coisa simplesmente bela,
E que, sem ter história nem grandezas,
Em todo o caso dava uma aguarela.

Foi quando tu, descendo do burrico,
Foste colher, sem imposturas tolas,
A um granzoal azul de grão de bico
Um ramalhete rubro de papoulas.

Pouco depois, em cima duns penhascos,
Nós acampámos, indo o sol se via;
E houve talhadas de melão, damascos
E pão de ló molhado em malvasia.

Mas, todo púrpuro, a sair da renda
Dos teus dois seios como duas rolas,
Era o supremo encanto da merenda

O ramalhete rubro das papoulas!

Temos neste poema:
  • a captação de um flagrante do quotidiano burguês: uma determinada imagem, um instante que o sujeito poético surpreende - "Houve uma coisa simplesmente bela";
  • as sugestões cromáticas, de que a visão é a principal responsável: "azul", "rubro", "púrpuro";
  • a sugestão da luz - "inda o sol se via";
  • as sugestões gustativas: "talhadas de melão, damascos / E pão-de-ló molhado em malvasia".
O que o sujeito poético nos oferece deste quadro é, acima de tudo, as suas impressões, ou seja, as sensações através das quais essa realidade chega até nós, leitores. Essa dimensão impressionista é conseguida, a nível linguístico, fundamentalmente, através da anteposição do adjectivo em relação ao nome e da utilização do assíndeto.
O próprio poeta refere, no poema, a possibilidade de equivalência com uma pintura, quando diz tratar-se de "(...) uma coisa simplesmente bela / E que, sem ter história nem grandezas, / Em todo o caso dava uma aguarela".
É, assim, notória a preferência pelo acontecimento simples e prosaico, que nada tem de grandioso, o que, efectivamente, se assemelha às tendências estéticas dos meados do séc. XIX.

Podemos detectar esse carácter impressionista da linguagem de Cesário, nos quais se identifica esse modo de apreender o real através de impressões: cor, luz, movimento...

E o sol estende, pelas frontarias,
Seus raios de laranja destilada.


Num Bairro Moderno

Pinto quadros por letra, por sinais,
Tão luminosos como os do Levante,


Nós

Reluz, viscoso, o rio, apressam-se as obreiras;
E num cardume negro, hercúleas, galhofeiras,
Correndo com firmeza, assomam as varinas.

O Sentimento dum Ocidental

in Colecção Resumos da Porto Editora

Cesário Verde - A evasão do real e a pretensa objectividade


Apesar da poesia de Cesário Verde se alicerçar no real objectivo, é possível verificar que a imaginação transfiguradora interfere, frequentemente, na visão objectiva que o sujeito poético tem da realidade.
Segundo Jacinto do Prado Coelho, "artista (...) não é o que se limita a copiar o real, é o homem de imaginação privilegiada que dá um sentido às coisas e cria, a partir do concreto, uma super-realidade". É frequente encontrarmos nos poemas de Cesário Verde outras realidades que estão para além da realidade primeira, imediata, observável, e que surgem por meio da imaginação criadora e transfiguradora, possibilitando ao sujeito poético a fuga, a evasão do real.
Detectamos essa evasão do real em poemas como:
  • "Num Bairro Moderno" - a visão do cesto de vegetais da hortaliceira é transfigurada e dá lugar à visão de um corpo humano - "Há colos, ombros, boca, um semblante / Nas posições de certos frutos. (...) surge um melão que me lembrou um ventre."
  • "O Sentimento dum Ocidental" - a deambulação do sujeito poético pelos cais da cidade suscita-lhe imagens de um passado longínquo - "Luta Camões no sul, salvando um livro a nado! / Singram soberbas naus que eu não verei jamais!"
  • "Cristalizações" - a visão das "árvores despidas", realidade imediata, transforma-se em outras imagens que vão para além desse imediato - "Mastros, enxárcias, vergas!"
Constatamos na poesia de Cesário Verde um modo especial de ver a realidade, que cede lugar ao subjectivismo de um sujeito poético que sabe poetizar a realidade concreta.

in Colecção Resumos da Porto Editora

quarta-feira, 22 de junho de 2016

Meu

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quarta-feira, 4 de maio de 2016