sábado, 8 de dezembro de 2012

És água, nuvem, vapor, fumo...




Dormia. Um anjo acercou-se, sussurrou
O teu nome. Acordei. Olhei para o céu
Nuvens brancas e mansas passavam
E a tua imagem surgiu leve e alva
Como uma manhã branda e azul.

Vou ao teu encontro, diáfana
Estendo os braços para te envolver
Mas desfazes-te nas minhas mãos
Escorres-me por entre os dedos
És água, nuvem, vapor, fumo...

Deito-me. Rezo. E numa prece peço
Tempo para te ter, tempo para te amar
Fecho os olhos. E sonho. E percebo
Que amalgamado, atado a mim
Tenho mais do que resquícios de ti 

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Testemunho de uma ex-aluna de um colégio do grupo GPS


Mensagem de uma ex-aluna de um professor da Escola Raul Proença, a Leonor (que hoje está no segundo ano da Faculdade, no Porto). O testemunho que nos dá é significativo:

"Professor,
antes de mais, fico feliz por saber que conseguiu ter horário na Raul Proença, por outro fico triste que essa questão se coloque!

Pude hoje ver a reportagem feita pela TVI e posso-lhe dizer que nunca senti tanta vergonha!

Eu própria fui aluna do grupo GPS, eu própria passei anos numa escola sem aquecimento, tendo que assistir às minhas aulas encasacada, enrolada em mantas, eu própria fiquei fechada meses a fio juntamente com uma outra centena de alunos num recreio com pouco mais de 30 metros quadrados durante 5 a 6 meses, também fui vendo os meus professores a trabalharem com o desespero bem expresso porque tinham os seus empregos sempre em jogo.

Eu vi sempre nisto uma normalidade, para mim, ingénua, era quase uma brincadeira dizer que o grupo GPS funcionava mal, para mim, boa aluna, era até bom ver as minhas notas serem constantemente aumentadas, os testes facilitados enquanto, ao mesmo tempo, ia vendo os meus colegas mais fracos sendo atrasados pelas negativas surpreendentes que tiravam sem razão aparente!

Cheguei a achar (o quanto me envergonho disso agora) que tudo isto era normal, que eu, enquanto boa aluna, merecia melhores notas e os meus colegas, que pouco se esforçavam, mereciam essas negativas. Não me apercebendo que também não me esforçava, que surgiam Bons e Muito Bons na minha pauta em testes para os quais eu não tinha sequer estudado... Quando cheguei à Raul Proença, aí sim, dei pela diferença... Aí sim, percebi que tinha capacidade para ser boa aluna, mas não da maneira como tinha sido habituada, não pensando que as notas altas eram algo garantido, que precisaria somente de escrever tudo com matéria bonitinha.

Fui mantendo contacto com professores do CFC (Colégio Frei Cristóvão) que entretanto eram despedidos e só aí comecei a perceber realmente o que eles eram obrigados a passar.

Envergonho-me por ter feito parte disto, envergonho-me por não ter feito nada, envergonho-me por não ter visto o que se passava bem na minha frente!
Professor, isto tudo para dizer que, eu já nem sou aluna de uma escola do Oeste, já nem sou aluna do ensino obrigatório e estou longe, bem longe! Mas que esta mensagem sirva para oferecer a minha ajuda em tudo o que seja possível fazer para tentar melhorar as condições daqueles que ainda são alunos da Raul Proença, da Bordalo e de tantas outras.
Naquilo que precisar, terá a minha ajuda. Sei que poderá não ser muita, mas é verdadeira!"

Acordo Tortográfico


O Acordo Ortográfico


Dantes, cada país exercia o direito inalienável de escrever a língua portuguesa como queria. As variações ortográficas tinham graça e ajudavam a estabelecer a identidade cultural de cada país. Agora, com o Acordo Tortográfico, a diferença está em serem os Portugueses a escreverem como todos os outros países querem.

Os Portugueses, no fundo, assinaram um Pacto Ortográfico que soube a Pato. Ninguém imagina os Espanhóis, os Franceses ou os Ingleses a lançarem-se em acordos tortográficos, a torto e a direito, como os Portugueses. Cada país – seja Timor, seja o Brasil, seja Portugal – tem o direito e o dever de deixar desenvolver um idioma próprio, Portugal já tem uma língua e uma ortografia próprias. Há já bastante tempo. O Brasil, por sua vez, tem conseguido criar um idioma de base portuguesa que é riquíssimo e que se acrescenta ao nosso. Os países africanos que foram colónias nossas avançam pelo mesmo caminho. Tentar «uniformizar» a ortografia, em culturas tão diversas, por decretos aleatórios que ousam passar por cima dos misteriosos mecanismos da língua, traduz um insuportável colonialismo às avessas, um imperialismo envergonhado e bajulador que não dignifica nenhuma das várias pátrias envolvidas. É uma subtracção totalitária.

A ortografia brasileira tem a sua razão de ser, e a sua identidade própria. Quando lemos um livro brasileiro, desde um «Pato Donald» ao Guimarães Rosa, essas variações são perfeitamente compreensíveis. Até achamos graça, como os Brasileiros acham graça à nossa. Tentar «uniformizar» artificialmente a ortografia, para além das bases mínimas da Convenção de 1945, é da mesma ordem de estupidez que pretender que todos aqueles que falam português falem com a pronúncia de Celorico ou de Salvador da Bahia. É ridículo, é anticultural e é humilhante para todos nós. Se não tivessem já gozado, era caso para mandá-los gozar com o Camões.

As línguas são indissociáveis das culturas e das histórias nacionais, e elas são diferentes em todos os países que hoje falam português à maneira deles. A maneira deles é a maneira deles, e a nossa é a nossa. A única diferença é que Portugal já há muito achou a sua própria maneira, tanto mais que a pôde ensinar a outros povos, e é um ultraje e um desrespeito pretender que passemos a escrever como os Moçambicanos ou como os Brasileiros. Eles são países novinhos. Nós somos velhinhos. E não faz sentido ensinar os velhinhos a dizer gugudadá, só para que possam «falar a mesma língua» que as criancinhas.

Dizem que é «mais conveniente». Mais conveniente ainda era falarmos todos inglês, que dá muito mais jeito. Ou esperanto. Dizem que a informática não tem acentos. É mentira. Basta um esforçozinho de nada, como já provaram os Franceses e já vão provando alguns programadores portugueses. Dizem que é mais racional. Mas não é racional andar a brincar com coisas sérias. A nossa língua e a nossa ortografia são das poucas coisas realmente sérias que Portugal ainda tem. É irracional querer misturar a política da língua com a língua da política.

O que vale é que, neste mesmo momento, muitos Portugueses – escritores, jornalistas e outros utentes da nossa língua – estão a organizar-se para combater esta inestética monstruosidade. Que graça tinha se se fizesse um Acordo Ortográfico e nenhum português, brasileiro ou cabo-verdiano o obedecesse. Isso sim, seria um acordo inteligente. Concordar em discordar é a verdadeira prova de civilização.

Miguel Esteves Cardoso

Para recordar - Pastelinhos de Belém




quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

O número um e o número dois são zeros - Santana Castilho


1. A história da política é também a história de muitas ideias falsas. Com dolo ou sem ele, é sempre condenável que se apresente o que não é factual e não pode ser demonstrado como algo sem apelo nem alternativa. Este é o pecado de ambos: do número um, ignorante convencido, e do número dois, taliban assumido. Ambos são responsáveis por sofrimento que derrota e por desesperança que deprime. Dizem as estatísticas que dois milhões e 600 mil portugueses vivem abaixo do limiar da pobreza, que três milhões vivem com 16 euros por dia e dois milhões com 14, que 21 por cento dos velhos são pobres, que um milhão e 400 mil não têm trabalho e, destes, um milhão e 30 mil não recebem subsídio de desemprego. E dizem eles, o número um e o número dois, que temos que empobrecer, porque vivemos acima das nossas possibilidades? Que desígnios guardam para o povo? Desemprego eterno? Estrangeiro para os novos e caridade para os velhos? Retorno aos bairros de lata e à miséria honrada de Salazar? Ambos rejeitaram a obrigação nobre de gerar e redistribuir riqueza e abraçaram a missão abjecta de generalizar a pobreza. Saibam lá no inferno que, quem assim governa e refunda são zeros! 
2. O orçamento de Estado para 2013 é uma mentira. A última avaliação da Troika sobre o programa de ajustamento, cujos perigos foram postos em relevo pelo FMI logo a seguir, é outra. E Passos, o pai delas todas, é agora servo de três senhores: Hayek para consumo interno, Keynes para serviço externo e Gaspar para sempre. Com o cheque de mil e cem milhões de euros passado a Jardim, para garantir o voto dos quatro deputados da Madeira, retomou a ética política que presidiu ao episódio do queijo Limiano. Alterou à pressa a Lei das Finanças Regionais e consagrou a coisa na segunda rectificação do Orçamento de Estado de 2012. E, com cara de pau, um comissário político veio jurar que o Governo sabe bem o que é a ética na austeridade. A mesma que lhe permite passear-se em peso em carros de luxo, porque são “peanuts” no orçamento e nada se corrigia se deles abdicasse. Que financia o golfe dos deputados retirados, enquanto encolhe os subsídios de desemprego, doença, nascimento e funeral dos outros. Que cilindra grosseiramente os artigos 13º e 104º da Constituição da República, quando esmifra mais os reformados que os activos com igual salário e remete às malvas a progressividade do imposto pessoal. Que recusa aplicar uma taxa adicional de 10 por cento a rendimentos superiores a 40 mil euros mensais, por excessiva, enquanto a aplica aos funcionários públicos e reformados, gradualmente, a partir de mil e 500 euros de salário. 
3. Em entrevista à TVI, num dia, o número um, um Passos impreparado, (veja-se a ignorância vergonhosa que exibiu quando, para justificar a trapalhice inicial, disse que “o ensino secundário praticamente desapareceu, na medida em que o ensino obrigatório foi estendido até ao 12.º ano”) deixou implícito que estaria em risco a gratuidade da escolaridade obrigatória, ao aludir à diferente lógica constitucional de financiamento entre os sectores da Saúde e da Educação e ao considerar um financiamento partilhado entre Estado e cidadãos. No dia seguinte, o número não sei quantos, Crato, desmentiu o número um, dizendo o contrário. Como a palavra de um e do outro valem o que sabemos, preparemo-nos, pelo menos, para o fim de várias ofertas formativas complementares, nova varrida na educação especial, eventual aumento do horário de trabalho dos professores e consequente diminuição do seu número, a que se somará o despedimento dos que ficaram sem horário e dos que sobrarão dos jogos de cintura em curso com o IEFP. Acabará por ser essa a retaliação à existência das alíneas a) e e) do nº2 do Artº 74º da Constituição, que Passos gostaria de eliminar. 
4. Na segunda-feira passada, a jornalista Ana Leal, da TVI, e o jornalista desta casa, José António Cerejo, assinaram serviços cívicos de um género em vias de extinção: jornalismo de investigação. José António Cerejo contou mais uma longa história, em que Passos foi protagonista. Se a juntarmos ao episódio da putativa formação de centenas de técnicos para aeródromos que apenas tinham 10 funcionários, temos mais elementos para perceber o carácter e as tendências comportamentais de quem viria a ser primeiro-ministro de Portugal. Ana Leal, com a coragem própria e a de entrevistados que ouviu, denunciou o escândalo de um mau ensino privado**, que tem que ter consequências. Que já teve consequências. Ficou patente, por omissão de intervenção, pelo menos, a conivência de alguns, com nome: ministro da Educação e Ciência, secretário de Estado da Administração Escolar e inspector-geral da Educação e Ciência. Se não fossem incompetentes, já teriam cerceado a sujeira que Ana Leal denunciou. 


Santana Castilho 

Colégios GPS - A saga continua!


Texto retirado do blogue do meu amigo Paulo Prudêncio (onde aparece como "comentário"):




O que mais me estarreceu foi a IGNORÂNCIA do Agostinho Ribeiro. Pelo que disse, pelo que felizmente não disse e pelo que não conhece, pelo que não sabe sobre uma escola que está sob a sua alçada. Fui professora no CSA e é verdade que as notas, antes de saírem nas pautas, antes de serem levadas a conselho de turma, ou mesmo depois do conselho de turma, têm que ser aprovadas pela direcção pedagógica (as princesas Marta Brás e Ana Rodrigues) e pelas sumidades dos coordenadores de ano (a muito inteligente psicóloga Cátia Filipe e os old English Sheepdog Helena Silva e o Helder Gomes, o delfim da Marta Brás). São indivíduos que não são professores das turmas em causa,
 mas que decidem a nota que o professor da disciplina propõe (trata-se obviamente de uma mera proposta, uma sugestãozinha, sem valor definitivo). Ouvia-se no final do ano lectivo, de dentro da sala da Direcção Pedagógica, a Dra. Marta Brás a gritar que ela é que decidia as notas! O Agostinho Ribeiro, como passa o seu precioso tempo em caçadas, ou a pensar no texto para a próxima faixa a comemorar a posição do colégio no ranking, à custa do trabalho escravo de todos os professores, IGNORA o que o principado faz. E depois faz esta figura de urso. Na última reunião geral, convocada sem a antecedência legal, e depois de ter sido “comido” pela jornalista Ana Leal, perguntou irritado, muito irritado, se era verdade que as notas eram alteradas pela Direcção Pedagógica. Os professores olharam uns para os outros e concluíram o indesmentível: este ignorante não sabe o que se passa no Colégio Santo André. Sabe apenas o que a alcateia lhe conta, apenas o que interessa contar. Ele que chame os professores, um a um, sem a alcateia estar presente, e vai ter muitas surpresas sobre o que se passa na toca. Há por aqui uns comentários a defender um grupo empresarial que funciona como um talho de família… só quem vive diariamente com esta gente pode saber o que é verdade e mentira. E tudo o que foi dito naquela reportagem é verdade. TUDO VERDADE."

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Colégios privados GPS: uma história exemplar


A história que aqui vos conto, e que muitos dos leitores terão tido a oportunidade de ver na TVI (http://www.tvi.iol.pt/videos/13754874), é a de um grupo privado que nasceu à sombra da influência do poder político. E que, na área da educação, cresceu à custa de contratos de associação que desviam alunos das escolas públicas para colégios privados. Sem que tal seja necessário ou corresponda a qualquer benefício para os cidadãos.
Nas escolas públicas Raul Proença e Rafael Bordalo Pinheiro, nas Caldas da Rainha, há lugares vagos. Mas construíram-se dois colégios privados, do influente grupo GPS: Frei Cristóvão e Rainha Dona Leonor. Concorrência? Nem por isso. Os colégios recebem alunos que são integralmente pagos pelo Estado. Porque as escolas públicas do concelho estão sobrelotadas? Não. Porque não têm condições? Pelo contrário. As públicas pedem mais turmas e isso é-lhes recusado. As privadas crescem e recebem, por decisão da DREL, muito mais turmas do que as escolas do Estado. Os alunos são desviados do público para o privado. E o Estado paga.
No últimos cinco anos a escola pública, nas Caldas da Rainha, perdeu 519 alunos. Os colégios com contratos de associação (financiados pelos dinheiros públicos) ganharam 514. Não por escolha dos pais, mas por escolha do Ministério da Educação. A Bordalo Pinheiro, que tem condições invejáveis, resultado de um investimento de 10 milhões de euros, poderia ter 45 turmas. Tem 39. Os alunos em falta vão para escolas privadas, pagos por nós, com piores condições.
Enquanto nas escolas públicas vizinhas há professores com horário zero, os professores dos colégios do grupo GPS são intimidados para assinar declarações que os obrigam a cargas horárias ilegais. Dão aulas a 300 ou 400 alunos. Há professores com todos os alunos do segundo ciclo na sua disciplina. Tudo com o devido conhecimento da Associação de Estabelecimentos do Ensino Particular e Cooperativo (AEEP).
Para além das aulas, há, casos de professores a servirem almoços e cafés, a pintarem as instalações, a fazerem limpezas, arrumações e trabalho de secretaria e contabilidade. Isto nas várias escolas do grupo GPS, espalhadas pelo País. As inspeções do ministério a estas escolas, testemunha um professor, têm aviso prévio. Isto, enquanto, só no concelho das Caldas da Rainha, 140 professores das escolas do Estado chegaram a estar sem horário por falta de alunos.
As condições das escolas do grupo privado pago quase integralmente com dinheiros do Estado deixam muito a desejar. Portas de emergência fechadas a cadeado, falta permanente de material indispensável, cursos financiadas PRODEP sem as instalações para o efeito e aulas a temperaturas negativas.
Falta de dinheiro? Não parece. Manuel António Madama, diretor da Escola de São Mamede, também do grupo, é proprietário de uma invejável frota de 80 carros. Só este ano, o grupo GPS recebeu do Estado 25 milhões de euros. Cada turma das várias escolas do grupo recebe do Estado 85 mil euros. Dos 3 milhões de euros vindos dos cofres públicos para, por exemplo, a escola de Santo André, só 1,3 milhão é que foram para pagar professores. A quando das manifestações contra a redução dos contratos de associação, decidida por José Sócrates e que Nuno Crato anulou (enquanto fazia cortes brutais na escola pública), a presidente da Associação de Pais quis saber para onde ia o dinheiro que sobrava. Ficou na ignorância.
A pressão para dar negativa a alunos que poderiam ter positiva mas, não sendo excelentes, poderiam baixar a média nos exames que contam para o ranking, são enormes. Até ao despedimento de professores e à alteração administrativa das notas. Os maus alunos, mesmo em escolas privadas pagas com dinheiros públicos, são para ir para as escolas do Estado. No agrupamento de Escolas Raul Proença há cem alunos com necessidades educativas especiais. No colégio vizinho da GPS, o Dona Leonor, com contrato de associação, quantos alunos destes, pagos pelo Estado, existem? Nenhum. Dão demasiado trabalho, exigem investimento e baixam a escola no ranking.
Como se explica o absurdo duplicar custos quando as escolas do Estado chegam e sobram para os alunos disponíveis? De ter escolas do Estado em excelentes condições, onde foi feito um enorme investimento, semivazias e com professores com horário zero, enquanto nestas escolas privadas se amontoam alunos pagos pelos contribuintes, sem condições e com os professores a serem explorados? A TVI contou, numa inatacável reportagem de Ana Leal, documentada até ao último pormenor e com inúmeros testemunhos, a razão deste mistério.
A GPS é um poderoso grupo. 26 escolas de norte a sul do País, invariavelmente ao lado de escolas públicas e com contratos de associação com o Estado. Em 10 anos criou mais de 50 empresas em várias áreas, do turismo às telecomunicações, do ensino ao imobiliário. António Calvete, presidente do grupo GPS, foi deputado do PS no tempo de Guterres e membro da Comissão parlamentar de Educação. Para o acompanhar nesta aventura empresarial chamou antigos ministros, deputados, diretores regionais de educação. Do PS e do PSD: Domingos Fernandes, secretário de Estado da Administração Educativa de António Guterres, Paulo Pereira Coelho, secretário de Estado da Administração Interna de Santana Lopes e secretário de Estado da Administração Local de Durão Barroso, José Junqueiro, deputado do PS. Todos foram consultores do grupo GPS.
Mas entre os políticos recrutados pela GPS estão as duas principais figuras desta história: José Manuel Canavarro, secretário de Estado da Administração Educativa de Santana Lopes, e José Almeida, diretor Regional de Educação de Lisboa do mesmo governo. Foram eles que, em 2005, assinaram o despacho que licenciava a construção de quatro escolas do grupo GPS com contratos de associação para receberem alunos do Estado com financiamento público. Ainda não tinham instalações e já tinham garantido o financiamento público dos contratos de associação. Ou seja, havia contratos de associação com escolas que ainda não tinham existência legal. Um despacho assinado por um governo de gestão, a cinco dias das eleições que ditariam o fim político de Santana Lopes. Depois de saírem dos cargos públicos foram trabalhar, como consultores, para a GPS. E nem um despacho do novo secretário de Estado, Waler Lemos, a propor a não celebração de contratos de associação com aquelas escolas conseguiu travar o processo.
Alguns estudos recentes falam dos custos por aluno para o Estado das escolas públicas e privadas. Esta reportagem explica muitas coisas que os números escondem. Como se subaproveita as capacidades da rede escolar do Estado e se selecionam estudantes, aumentando assim os custos por aluno, para desviar dinheiro do Estado para negócios privados. E como esses negócios se fazem. Quem ganha com eles e quem os ajuda a fazer. Como se desperdiça dinheiro público e se mexem influências.
A reportagem da TVI não poderia ter sido mais oportuna. Quando vier de novo a lenga-lenga da "liberdade de escolha", das vantagens das parcerias com os privados, dos co-pagamentos, da insustentabilidade de continuar a garantir a Escola Pública, do parque escolar público ser de luxo... vale a pena rever este trabalho jornalístico. Está lá tudo. O resumo de um poder político que serve os interesses privados e depois nos vende a indispensável "refundação do Estado".


Ler mais: http://expresso.sapo.pt/colegios-privados-gps-uma-historia-exemplar=f771463#ixzz2EDWC3lwv

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

A CHOLDRA ORTOGRÁFICA EM PORTUGAL



Acordo à força!




A estrutura da Língua Portuguesa, por ser muito complexa, exige normas que esclareçam dúvidas e uniformizem o ensino, quanto aos acentos gráficos, quanto às concordâncias, flexão verbal, distinção entre ch e x, etc. etc.. Em inglês, por exemplo, as concordâncias e as flexões verbais são mesmo muito simples, e em inglês como já disse ao leitor, nem sequer existem os acentos gráficos. Quando se quer estabelecer normas ortográficas, umas vezes deve ser observada a etimologia, outras vezes a ortoépia, mas em qualquer das opções pode haver dificuldades. O povo que faz a língua com espontaneidade e até com ingenuidade, é aí o grande Mestre.

Pessoalmente, acho caricato ou mesmo ridículo que um Acordo estabeleça uma doutrina como bom Português, e anos depois um novo Acordo venha estabelecer como bom Português doutrina contrária. É o que este Acordo faz em alguns pontos. Vejamos. Como já referi nestas linhas a velha tentativa de uniformizar a língua portuguesa em Portugal e no Brasil, tem dado origem a muitas conferências, a muitas resoluções, a muitos diplomas, etc. O texto que serve de preâmbulo à apresentação das normas do Acordo Ortográfico de 1945, texto que expõe as “conclusões complementares do Acordo de 1931”, diz no seu III parágrafo: Não se consentem grafias duplas ou facultativas. Cada palavra da língua portuguesa terá uma grafia única. Não se consideram grafias duplas as variantes fonéticas e morfológicas de uma mesma palavra.  Estava consagrada expressamente no anterior Acordo de 1945 (BASE XXXI) a manutenção das formas hei-de, hás-de, há-de, etc., agora abolidas por este Acordo. Será que estas alterações eram mesmo necessárias para a modernização e prestígio da língua, como os autores delas dizem pretender? Será que essas alterações fazem parte da evolução real da língua e têm fortes raízes na tradição linguística? Não me parece.

Lamento que se tenha perdido tanto tempo e gasto tantas energias em pretensões de uniformização entre culturas diferentes, portuguesa, africana e brasileira, tão diferentes que uma prática de dezenas de anos, em dezenas de conferências, resoluções, diplomas, e acordos que nunca o chegaram a ser verdadeiramente, mostra ser perfeitamente utópica. Para além disso, a língua portuguesa enferma de mal gravíssimo, cuja cura devia ter prioridade sobre todas as questões de quaisquer reformas.

Os promotores e intelectuais do Acordo, que é Acordo à força, por um “inteligente e bem-aventurado” SEGUNDO PROTOCOLO MODIFICATIVO ter limitado a obrigatoriedade de assinatura aos três países que já o aceitaram, esses promotores e intelectuais deviam, antes de mais nada, procurar maneiras de evitar o aviltamento, o abastardamento da nossa língua, que desde há muito vem sofrendo, pela introdução de estrangeirismos, que se pode considerar infrene e estúpida por serem totalmente inúteis.

Agora, o meu escrito passa a ser uma diatribe indignada contra esses senhores que, muito contra, ou muito a favor, deste último Acordo, não se preocupam, não escrevem ou dizem uma palavra a combater, a propor soluções para regenerar a língua e a curar do cancro maligno do excesso de termos estrangeiros. Será que são muito usados só porque se tornou moda ou intelectualmente distinto aplicá-los? Será que os tais intelectuais do Acordo acham que a nossa língua vai ter mais prestígio e beleza para as gerações futuras e junto dos estrangeiros quando a maior parte do nosso vocabulário for mais deles do que nosso?

A televisão e a imprensa, que deviam ter uma grande função educativa, são, sobretudo neste campo, os maiores focos de deseducação. Os seus jornalistas, locutores e comentadores fazem gala de mostrar que são gente moderna e culta, e que sabem aplicar bem vocabulário estrangeiro técnico e não técnico, na devida altura.

A  RTP1 tem desde há muito no programa  da manhã um pequeno espaço dedicado ao BOM PORTUGUÊS. Nunca houve uma única palavra a recomendar o não uso dos estrangeirismo inúteis, porque pelos vistos não é mau português os seus jornalistas ou redactores desportivos falarem muito de derby, quando noticiam e querem entusiasmar os ouvintes para um PORTO-BENFICA. Desde há um tempo para cá, esse tal programa de BOM PORTUGUÊS passou a estar exclusivamente ao serviço do ACORDO: ter ou não ter c ou p, ter ou não ter acento, ter ou não hífen, ser com maiúscula ou com minúscula, são as observâncias a respeitar para termos BOM PORTUGÊS. Os inúmeros erros que dantes eram tratados e corrigidos, e que nós continuamos a ver em letreiros, em reclames, nas falas e escritos mesmo de quem tem responsabilidades intelectuais, deixaram de existir! O  BOM PORTUGUÊS resume-se à observância do Acordo!

Modernamente, há fanatismos para tudo. Um dos mais recentes, é a aplicação do Acordo. No moderno Dicionário da Academia diz-se : …, não tendo sido aprovado o novo acordo ortográfico por todos os países de língua portuguesa, foi respeitada, neste dicionário, a ortografia vigente. (Prefácio do Presidente da Academia, Dezembro de 2000). No entanto, tenho presente um livro datado de Outubro de 1999, que adverte mesmo o leitor: É aqui usada a ortografia estipulada pelo novo “Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa”. Numa altura em que praticamente muitíssimo poucos sabiam o que era isso do novo Acordo Ortográfico, o autor fez gala de o respeitar! Há 13 anos! Conheci o autor. Já faleceu. O seu “querido” acordo, verdadeiramente ainda não entrou em vigor, embora muitos lhe queiram dar um nascimento prematuro.

Laurentino Sabrosa

Anjinhos de Natal


Pronto, e lá foi o presente para "a minha anjinha de Natal", a Alice.