terça-feira, 11 de dezembro de 2012

A propósito do "adiamento" da aplicação do AO no Brasil


1. Quanto ao Brasil

O adiamento de aplicação do AO no Brasil dever-se-á a pressões da sociedade civil, designadamente do Movimento "Acordar melhor", do Prof. Ernani Pimentel. Este Professor intentou uma acção judicial ("acção popular") contra o "Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa" (VOLP, 5.ª ed., de 2009), feito pela Academia Brasileira de Letras, devido a este "Vocabulário" violar ostensivamente várias normas do AO.

Como se refere na petição inicial, essa acção popular foi intentada “em razão de dano expressivo ao patrimônio cultural brasileiro por via de ilegalidades na execução do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa,  na medida em que impuseram alterações ortográficas unilateralmente concebidas pela Academia Brasileira de Letras, ora extrapolando ora contrariando pontos acordados com os demais países signatários do Acordo de 1990, e sem que  tais alterações tenham sido submetidas à aprovação do Congresso Nacional, contrariando assim o artigo 2º do Decreto nº 6.584, de 29 de Setembro de 2008”.
O VOLP desrespeita e altera o conteúdo original do AO:

i) Por exemplo, no uso dos prefixos 'a', 'an', 'co', 're', 'pré', 'pró', que não está no Acordo, mas está no VOLP (um exemplo: “co-herdeiro”, definido desta forma no AO, foi alterado para "coerdeiro", com a justificação de “o prefixo "co" não pertencer ao grupo maioritário de prefixos que recebem hífen diante da vogal idêntica à sua vogal final e do "h"”);
ii) Na eliminação de várias reticências que o Acordo tem e o VOLP elimina. Na inclusão dos conceitos de produtos afins numa regra das espécies bio-sociológicas (F), que, no Acordo, não tem, e, no VOLP, tem (Professor ERNANI PIMENTEL) (para mais desenvolvimentos, cfr.http://blogue.priberam.pt/2009/09/do-acordo-ortografico-e-da-academia.html?spref=fb).

A agenda do Movimento "Acordar Melhor" pretende transformar a ortografia do "português" numa escrita puramente fonética, sem (quase) nenhum respeito pela etimologia das palavras, na linha já iniciada pelo Brasil há muito tempo. 

2. O português do Brasil e o português de Portugal

O português do Brasil cede muito menos no AO do que o português europeu.
Ironia das ironias, é o Estado brasileiro - e não o português - que, agora, recua na aplicação do Acordo Ortográfico.

Em gíria comum, isto é uma "pantufada" nos acólitos acordistas portugueses. O Brasil, afinal, é que "adia" o AO, quando tem muito menos a ceder em termos linguísticos.
Parece que já só existe um país obscuro que se mantém fiel aos invertebrados do Acordo...

O Brasil, mesmo perdendo muito pouco, não quer que a sua identidade linguístico-cultural seja minimamente beliscada.
Os nossos governantes (o Governo anterior; os Deputados da legislatura de 2005-2009, que, vergonhosamente, votaram o 2.º Protocolo adicional ao AO, em 2008, com o beneplácito do Presidente da República; o Governo entre 2009 e 2011, que emitiu a Resolução do Conselho de Ministros n.º 8/2011; e o actual Governo, que continuou a aplicar essa Resolução) venderam a nossa herança cultural, a troco de "El Dorados" e pensando levianamente que, com o AO, haveria negócios chorudos.
Isto lembra a história de alguém que está disposto a tudo para vender a sua alma ao diabo. Só que nem ao próprio diabo certas almas interessam...

O comportamento de subserviência da generalidade dos políticos portugueses é um reflexo da falta de dignidade e de respeito pela cultura da variante do nossa variante do português europeu; e da ampla crise moral que grassa nas esferas políticas. 

As alegadas vantagens económicas e políticas que estão, de resto, por provar, tendo em conta o seguinte: 
i) As "facultatividades" do AO não unificam a língua, nem sequer parte da língua - a ortografia -; antes aumentam a diversidade (o próprio Preâmbulo do AO reconhece expressamente que a unificação ortográfica não é possível na sua plenitude);
ii) Outras componentes da língua, como o léxico (exemplo: “pastelaria” / “lanchonete”), a sintaxe (exemplo: 2.ª pessoa do singular: “tu”; ao passo que, no Brasil, se utiliza o “você”, conjugado com a 3.ª pessoa do singular) e a semântica (exemplo: “putos”, “rapariga”, palavras idênticas que têm conotações completamente díspares), mantêm-se inalteradas e, por conseguinte, diferentes. 

Nunca se deve abdicar do nosso património cultural imaterial, que é o da língua portuguesa e, em especial, do português europeu.

Com efeito, desde a génese do AO, ao desprezo consciente de todos os pareceres qualificados por parte do poder político, ao malfadado processo de implementação em Portugal, à desastrada aplicação das novas regras em Portugal a todos os níveis (governo, Diário da República, Universidades, escolas, órgãos de comunicação social, etc.), tudo se combina para demonstrar que qualquer tentativa de acordo entre as ortografias portuguesa e brasileira, face à divergência histórica das duas variantes da língua será uma tarefa votada ao fracasso.
Basta recordar alguns factos:
i) Em 1919, o Brasil enjeitou a ortografia da Reforma de 1911; 
ii) O primeiro Acordo Ortográfico entre Portugal e Brasil, de 1931 (elaborado pela Academia Brasileira de Letras e aprovado pela Academia das Ciências de Lisboa), acabou por ser revogado em 1934, durante o Governo de GETÚLIO VARGAS; não tendo, pois, produzido o efeito da almejada unificação;
iii) A Convenção de 1943 deparou-se com parcos resultados práticos, devido às divergências que persistiram nos “Vocabulários” entretanto publicados pela Academia Brasileira de Letras, em 1940, e pela Academia das Ciências, em 1943 (“o Formulário Ortográfico de 1943”);
iv) O Governo do Brasil aprovou a Convenção Luso-Brasileira de 1945, através do Decreto-Lei 8.286, de 5 de Dezembro de 1945. Todavia, a Convenção não foi ratificada pelo Congresso Nacional. Por fim, ao fim de 10 anos, até 1955, o Decreto-Lei foi revogado, tendo-se o Brasil desvinculado unilateralmente. 

Agora, é novamente o Brasil que se prepara para recuar.

Está provado que as reformas ortográficas aludidas nunca surtiram efeitos no Brasil e que, consequentemente, as reformas ortográficas legiferadas só contribuíram para afastar, ainda mais, o português europeu relativamente ao português do Brasil;
Essas reformas só foram adoptadas por Portugal, quando tinha o Império Colonial, a custo.
Ou seja, essas reformas nunca foram aplicadas no Brasil, mas apenas no português europeu, devido à imposição do Estado, na Metrópole e nas então Colónias.
Nós, portugueses, não aprendemos nada com a História?


3. Não obstante as deficiências e clamorosas científicas do AO, os governantes tentaram impô-lo a todo o custo aos portugueses

O AO tem uma total falta de bases científicas credíveis, em termos linguísticos.

O Acordo Ortográfico é puramente político, não se baseia na ciência linguística, nem em pareceres técnicos.
Pelo contrário, os pareceres pedidos a especialistas, quer antes da ratificação, em 1990, quer em 2005-2008, aquando da ratificação do 2.º Protocolo adicional, foram todos contrários ao AO. Não houve um único parecer favorável (com excepção da "Nota Explicativa" (Anexo II do AO, o único "estudo conhecido sobre o impacto do AO, e do parecer de Malaca Casteleiro, assinado em 2005, em nome a Academia de Ciências de Lisboa, em causa própria, pois foi um dos autores materiais do AO...). 
Entre os pareceres negativos, contam-se os emitidos por várias instituições, como a Comissão Nacional da Língua Portuguesa, o Departamento de Linguística Geral e Românica da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, a Comissão Nacional da Língua Portuguesa, a Direcção-Geral do Ensino Básico e Secundário, a Associação Portuguesa de Linguística e a Associação Portuguesa de Editores e Livreiros.
Os pareceres dos Professores ÓSCAR LOPES, VÍTOR AGUIAR E SILVA, de 20 especialistas da Universidade de Lisboa e da Associação Portuguesa de Linguistas foram “arrasadores".
Não houve um único linguista ou instituição que tivesse dado um parecer favorável ao Acordo Ortográfico. 
O AO não assenta em nenhum consenso científico: não houve nenhuma discussão: não há actas publicadas de encontros científicos (colóquios promovidos pelo Estado ou pela Academia das Ciências de Lisboa; não se conhecem quaisquer relatórios elaborados e publicados pela Academia ou por qualquer dos negociadores portugueses dos Acordos Ortográficos de 1986 e 1990 (A. Emiliano). 

Ora, o artigo 43.º, n.º 2, da Constituição proíbe o dirigismo estadual da cultura e da educação; pelo que o AO e a Resolução do Conselho de Ministros n.º 8/2011 é clamorosamente inconstitucional. 

O AO terá extensionalmente um impacto tremendo, que ninguém se deu ao trabalho de prever, avaliar, explicar (Prof. António Emiliano).
Ora, não é possível que uma reforma empreendida pelo Estado, de alcance muito lato, não seja acompanhado de estudos minuciosos sobre o impacto do AO (designadamente sobre as terminologias médicas; veja-se, por exemplo, a confusão entre "óptico" - relativo ao olho - e "ótico" - relativo ao ouvido, no caso de "óPtico" perder a consoante; o que se repercute nas palavras conexas, ordenadas por famílias).

4. O "Lince" e o "Vocabulário Ortográfico Português" violam o próprio AO 

Sendo baseado no princípio fonético, várias das normas do AO são de quase impossível aplicação prática. 
O “Lince” e os correctores ortográficos, na esteira do AO, obrigam a um exercício grosseiro, de a pessoa ter de pronunciar a palavra, para saber se não pronuncia ou se, pelo contrário, pronuncia invariavelmente a consoante “c” ou “p”.
Ora, a pronúncia varia de pessoa para pessoa (é contingencial), de região para região e de país para país. Teremos de averiguar o modo como uma palavra é pronunciada no Brasil ou noutros Estados de língua portuguesa, para sabermos como haveremos de grafar uma palavra?
Isso afigura-se inconstitucional, por ser violador do princípio da independência nacional.

A Nota Explicativa do AO remete o alcance geográfico da dupla grafia (Base IV, n.º 1, alíneas c) e d), e n.º 2) para “[o]s dicionários da língua portuguesa”; estes dicionários, “que passarão a registar as duas formas em todos os casos de dupla grafia, esclarecerão, tanto quanto possível, sobre o alcance geográfico e social desta oscilação de pronúncia” (Anexo II do AO, 4.4).
Regista-se aqui uma óbvia violação do artigo 112.º, n.º 5, 2.ª parte, da CRP. 

Existem contradições entre o "Lince" e o "Vocabulário Ortográfico Português" (elaborados pelo ILTEC, e, pelo menos, análogos a regulamentos administrativos) com normas do AO; ou seja, uma contradição com um tratado internacional (ilegalidade "sui generis").
Por outro lado, existe inconstitucionalidade, devido a instrumento similar a um regulamento interpretar autenticamente uma norma do AO, violando o artigo 112.º, n.º 5, 2.ª parte, da Constituição.

Basta fazer o exercício de confrontar os preceitos do AO com a acção do "Lince", para verificar que ocorrem vários erros:
Na Base IV, n.º 1, alínea c), o Lince não deixa escolher entre as facultatividades elencadas na enumeração exemplificativa: formas correctas segundo o AO são, pura e simplesmente, suprimidas, eliminando a consoante “c”:
“aspecto” é convertido para “aspeto”; “cacto” para “cato”; “caracteres” para “carateres”; “sector” para “setor”; “concepção” para “conceção”; “recepção” para “receção”. 
Ora, todas estas expressões são "facultatividades", segundo letra expressa da Base IV, n.º 1, alínea c), do AO. Por isso, a ortografia desses vocábulos nunca poderia ser alterada.
Mas há mais: casos existem em que, em rigor, cabem numa zona de transição; ou seja, deveriam ser subsumidos na Base IV, n.º 1, alínea c). Por exemplo, nas palavras "céPtico" ou “espeCtador” ou até mesmo "Egito" -, a consoante "c", alegadamente "muda", tanto pode ser pronunciada, como não pronunciada.
Ora, o "Lince" e os correctores, em lugar de subsumirem esses vocábulos na Base IV, n. 1, al. c), do AO, pura e simplesmente eliminam a consoante.
O que se afigura ser uma violação do próprio Acordo Ortográfico.
Na falência desta Base IV, n.º 1, estão as fragilidades científicas das bases em que o Acordo Ortográfico de 1990 assenta, em particular, o (erradamente) chamado princípio fonético, estando ambos completamente ultrapassados na ciência linguística.


4.1. Um exemplo paradigmático: o conversor “Lince”corrige os nomes dos Autores, ao arrepio da Base XXI, 1.º parágrafo, do AO, que os ressalva, mencionando: “Para ressalva de direitos, cada qual poderá manter a escrita que, por costume ou registo legal, ado[p]te na assinatura do seu nome.”
Por exemplo, BaPtista é "corrigido" para "Batista" (sem "p").
Os próprios títulos de obras ou de artigos, grafados em português europeu, em itálico, são "acordizados" (por exemplo, grafando "Actas", é corrigido para "Atas"), em desrespeito à citação original, com violação manifesta de regras elementares de citação e de fidelidade às fontes do conhecimento.

5. O "acordês" aplicado em Portugal divide a ortografia de várias palavras, que, anteriormente, tinham a mesma ortografia em Portugal e no Brasil

Devido à sua falta de cientificidade, o “Lince”, o "Vocabulário Ortográfico Português" e correctores privados retiram certas consoantes em palavras que, em português europeu e em português do Brasil, têm uma ortografia exactamente igual.
Regista-se, pois, mesmo casos em que palavras cuja ortografia era a mesma, em Portugal e no Brasil, com a aplicação do “acordês”, passa a haver duas ortografias distintas: a título de exemplo, a palavra "percepção" não sofre qualquer alteração na norma brasileira, mas passa a “perceção” em Portugal e noutros países que têm a norma lusitana como padrão.
O mesmo sucede com “recepção”: no Brasil, é grafada com “p”; o “Lince” retira o “p”; aliás, ilegalmente, foi se trata expressamente de uma facultatividade (tanto se pode escrever com “p” ou sem “p”), nos termos da Base IV, n.º 1, alínea c)).
Segundo o AO, os brasileiros podem continuar a escrever (como sempre escreveram, segundo o Prontuário ortográfico brasileiro de 1943), por exemplo: acepção, aspecto, conjectura, perspectiva, concepção, decepção, detectar, excepcional, tactear, retrospectiva, percepção, intersectar, imperceptível, respectivo, recepção, susceptível, táctico, direção, correto, eletricidade, aspecto, perspectiva, concepção, respectivo, recepção, conjectura, etc.
Em Portugal, com o mesmo tratado internacional, seremos obrigados a escrever: aceção, aspeto, conjetura, perspetiva, deceção, detetar, excecional, tatear, retrospetiva, perceção, intersetar, conceção, impercetível, respetivo, receção, suscetível, tático.
Ou seja, ironia das ironias, o “Lince” e o "acordês" desfazem a convergência ortográfica que existia, à partida, na ortografia de várias palavras, contribuindo, ao invés, para desunificar a ortografia luso-brasileira.

Há uma extensa lista de palavras que, antes do AO, tinham uma ortografia idêntica em Portugal e no Brasil e, que, com o AO, passam a ter ortografias diferentes. Isso é exactamente o contrário do (alegado) objectivo de "unificação ortográfica". 

6. Os correctores ortográficos privados em "acordês" não coincidem quanto à ortografia de várias palavras

Os correctores ortográficos privados existentes também contêm discrepâncias entre si. Isto porque é muito difícil aplicar o referido "princípio fonético"

7. Conclusão:

O prestígio internacional de uma língua “não se faz nem por facilitações ortográficas bebidas em critérios fonéticos em detrimento de critérios etimológicos nem por unificações ortográficas estabelecidas por decreto, como as línguas inglesa ou francesa abundantemente revelam, mas sim pelos conteúdos que for capaz de veicular (através da literatura, da música, enfim da cultura)” (ISABEL PIRES DE LIMA).

O futuro e o progresso de Portugal, enquanto país europeu desenvolvido, passam pela qualificação técnica, pela existência de um padrão de excelência na investigação científica (ANTÓNIO EMILIANO).

Como cidadão, espero, patriótica e sinceramente, que os governantes portugueses reflictam seriamente sobre o enorme disparate que é, o de mandar aplicar o AO e/ou o "acordês" (pois ficou demonstrado que não são coincidentes).

8 de Dezembro de 2012
Ivo Miguel Barroso



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Eis as palavras que o "Vocabulário Ortográfico Português" acordiza, mudando a ortografia, de molde a que essas palavras - antes, com ortografia igual - ficam com ortografia diferente, em Portugal e no Brasil (lista elaborada por ANTÓNIO DE MACEDO):

Exemplos destas palavras que, antes do AO, tinham a mesma ortografia (ou seja, eram grafadas da mesma maneira em Portugal e no Brasil) e que, com a aplicação do critério da pronúncia, constante do AO, passam a ser palavras com ortografia diferente: ou seja, na versão brasileira, mantêm a mesma grafia; ao passo que, em Portugal perdem o “c” ou o “p”, considerados “mudos”, ficando violentamente desfiguradas na aplicação do AO ao português europeu, são os seguintes (a lista é da autoria do Professor universitário e ex-cineasta ANTÓNIO DE MACEDO, A falsa uniformização, gentilmente cedida pelo Autor, disponível no “site” da ILC-AO):
acepção, aceptor
abjecção, abjeccionista, abjecto
acatalecto
acatéctico
adopcionismo, adoptação
angiectático
anoréctico
anticepticismo
antipráctico
apercepção, aperceptivo
apocalipticismo
aposséptico
arctícola
táctica
asséptico, antisséptico
aurifactório
aspecto, aspectual
correctismo
correctivamente
conspecção
conjectura, conjecturar
confecção, confeccionar
concepção, concepcional, conceptivo, conceptual
contracepção, contraceptivo
coáctil
cinoréctico
cardiorréctico
cacto
detecção
defecção, defectiível, defectivo, defectório, defectuoso
decepção, decepcionar, deceptivo
extractiforme
fotelectrão
flictena
filocacto
heterosséptico
hematosséptico
iridorréctico
intuscepção
interruptor
intercepção, interceptar, interceptador
indetectável
indefectível
imperceptível
multinfecção
miopráctico
metrorréctico
metamorfóptico
metapectina
objectar
olfacção
pseudorréctico
prospecção
preconcepção, preconceptivo
precptivo, preceptor
poliplectro
plasmorréctico
perfectibilista, perfectível, perfectivo
peremptório
percepção, percepcionar, perceptível
perecptivo, percepto, perceptual
penatissecto
paralacticamente
pára-choques (em Portugal passa a ser “para-choques”)
recepção, recepcionar, recepcionista, receptação, receptáculo, receptador, receptar, receptivo,
refectivo
refectório
recolecção
respectivo
radiorreceptor
ruptura
suscepção
subacepção
séptico
táctica
tactear
telerreceptor
teledetecção, teledetectar
telespectador
transceptor.

O exposto revela uma grave contradição teleológica entre o objectivo de (pretensa) uniformização, por parte do “Acordo Ortográfico de Língua Portuguesa”, por um lado, e os resultados práticos, em múltiplas palavras. É caso para dizer que “a emenda foi muito pior do que o soneto”.


domingo, 9 de dezembro de 2012

A culpa é do polvo!



16 Outubro 2012 - 01h17
A ideia de que os portugueses são responsáveis pela crise, porque andaram a viver acima das suas possibilidades, é um enorme embuste. Esta mentira só é ultrapassada por uma outra. A de que não há alternativa à austeridade, apresentada como um castigo justo, face a hábitos de consumo exagerados. Colossais fraudes. Nem os portugueses merecem castigo, nem a austeridade é inevitável.
Quem viveu muito acima das suas possibilidades nas últimas décadas foi a classe política e os muitos que se alimentaram da enorme manjedoura que é o orçamento do estado. A administração central e local enxameou-se de milhares de "boys", criaram-se institutos inúteis, fundações fraudulentas e empresas municipais fantasma. A este regabofe juntou-se uma epidemia fatal que é a corrupção. Os exemplos sucederam-se. A Expo 98 transformou uma zona degradada numa nova cidade, gerou mais-valias urbanísticas milionárias, mas no fim deu prejuízo. Foi ainda o Euro 2004, e a compra dos submarinos, com pagamento de luvas e corrupção provada, mas só na Alemanha. E foram as vigarices de Isaltino Morais, que nunca mais é preso. A que se juntam os casos de Duarte Lima, do BPN e do BPP, as parcerias público-privadas e mais um rol interminável de crimes que depauperaram o erário público. Todos estes negócios e privilégios concedidos a um polvo que, com os seus tentáculos, se alimenta do dinheiro do povo têm responsáveis conhecidos. E têm como consequência os sacrifícios por que hoje passamos.
Enquanto isto, os portugueses têm vivido muito abaixo do nível médio do europeu, não acima das suas possibilidades. Não devemos pois, como um  povo, ter remorsos pelo estado das contas públicas. Devemos antes sentir raiva e exigir a eliminação dos privilégios que nos arruínam. Há que renegociar as parcerias público--privadas, rever os juros da dívida pública, extinguir organismos... Restaure-se um mínimo de seriedade e poupar-se-ão milhões. Sem penalizar os cidadãos.
Não é, assim, culpando e castigando o povo pelos erros da sua classe política que se resolve a crise. Resolve-se combatendo as suas causas, o regabofe e a corrupção. Esta sim, é a única alternativa séria à austeridade a que nos querem condenar e ao assalto fiscal que se anuncia.

Paulo Morais, Professor universitário

Aristides de Sousa Mendes - O filme deste fim-de-semana


Aristides de Sousa Mendes do Amaral e Abranches nasceu, a 19 de Julho de 1885, em Cabanas de Viriato (Carregal do Sal) a cerca de 20km de Viseu. Pertencia a uma família aristocrática e católica da Beira-Alta. O pai, José de Sousa Mendes, era juiz tendo terminado a sua carreira no Tribunal da Relação de Coimbra. A mãe, Maria Angelina do Amaral e Abranches, era também da região e descendia da “Casa de Midões”, uma Casa com tradições “Liberais”. Aristides de Sousa Mendes foi um de três irmãos, sendo gémeo de um deles. 


Aristides cursou Direito na Universidade de Coimbra. De facto, num estudo realizado nesta Universidade, surge entre os seis melhores estudantes do seu curso. Depois de se licenciar, em 1907, com 22 anos, fez o estágio de advocacia, tendo defendido alguns casos no início da sua carreira. 



Em 1910, ainda em monarquia, Aristides e o irmão gémeo César, ingressaram na Carreira Consular. Aristides exerceu funções como Cônsul de Carreira na Guiana Britânica, em Zanzibar, no Brasil (Curitiba e Porto Alegre), nos Estados Unidos, (S. Francisco e Bóston), em Espanha (Vigo - Galiza), na Bélgica e no Luxemburgo e, finalmente, em França (Bordéus). 



A par da carreira consular a família de Aristides de Sousa Mendes foi crescendo. Assim, quatro dos seus filhos nasceram em Zanzibar, duas no Brasil, dois nos Estados Unidos, um em Espanha, dois na Bélgica e os três que perfazem o total de 14, em Portugal. Valorizando a presença da família, Aristides de Sousa Mendes, optou por nunca dela se separar, assegurando a educação dos seus filhos por todos os países por onde passou. Assim, para além da educação académica, todos tiveram acesso a aulas de pintura, desenho e música. “Lá em casa, havia uma verdadeira orquestra de câmara e, regularmente, convidavam-se pessoas para assistir a concertos. Tocava-se Chopin, Mozart, Bach, Beethoven, etc. “



Detentor de uma grande cultura geral, era uma pessoa com muita delicadeza e “savoir-faire”. Facilmente fazia amigos. Em Zanzibar, por exemplo, o Sultão foi padrinho de dois dos seus filhos… o Rei Leopoldo da Bélgica, terá dito uma vez em público: “ah, voilà mon ami, le Consul Général du Portugal!”… Sobretudo durante os 9 anos em que viveu na Bélgica, Aristides de Sousa Mendes conviveu com o dramaturgo Maeterlinck, Prémio Nobel da Literatura, assim como Albert Einstein, que “lá foi a casa”, em 1935, quando deixou a Alemanha.



A vida de Aristides assume, no entanto, uma dimensão inesperada em Bordéus, França, um posto que, do ponto de vista da Carreira Consular, não lhe trazia nada de novo. Aristides vai para Bordéus em Agosto de 1938, contrariado…não entendendo por que razão, Salazar o não promove para um posto no Extremo Oriente, como ele tinha pedido.



Em Setembro de 1939, começa a Segunda Guerra Mundial, e logo em Novembro desse ano, Salazar, de forma clara, alinha-se ao lado do mais forte, Hitler, para poupar certamente Portugal a uma hipotética invasão nazi…esse alinhamento traduz-se nomeadamente pela adopção de uma circular, “ a famosa Circular 14”, pela qual, Salazar proíbe aos judeus, asilo em Portugal. Na prática, nenhum diplomata português está autorizado a passar vistos de entrada em Portugal a judeus….nenhum diplomata português poderá salvar pessoas de campos de morte….



Aristides é formalmente avisado por Salazar para não dar vistos a judeus, no início de 1940, “se o fizer, ficará sujeito a procedimento disciplinar”. 



Só que Paris cai nas mãos de Hitler, a 14 de Junho e no dia seguinte, Bordéus está submergida de refugiados, é o salve-se quem puder! Bordéus, uma cidade para 200.000 pessoas passa a ter um milhão! É o pânico generalizado…”dir-se-ia o fim do mundo”, como escreveu trinta anos mais tarde nas suas “Memórias”, Pedro Teotónio Pereira principal acusador do Cônsul.



A 16 de Junho, Aristides de Sousa Mendes abre as portas do Consulado, a milhares de pessoas concedendo-lhes vistos indiscriminada e gratuitamente. A autora de “Vidas Poupadas – a acção de três diplomatas portugueses na II Guerra Mundial”, Dr.ª Manuela Franco, menciona um telegrama de 21 de Junho enviado por Aristides de Sousa Mendes ao Ministério dos Negócios Estrangeiros, onde este confirma ter ordenado que se passassem vistos “indiscriminadamente e de graça”. O historiador Yehuda Bauer, no seu livro “A History of the Holocaust”, escreve: “ o Cônsul português em Bordéus, Aristides de Sousa Mendes, concede vistos de trânsito a milhares de judeus refugiados, em transgressão das regras do seu governo. Talvez a maior acção de salvamento feita por uma só pessoa durante o holocausto”.



A 19 de Junho, Aristides segue para Bayonne e depois para Hendaye/Irun. Durante dias e dias anda de um lado para o outro, salvando pessoas nas estradas do sul de França, nas estações de caminhos-de-ferro, conduzindo mesmo um grupo de centenas de refugiados através dos Pirenéus, a pé e de automóvel.



Segundo os registos da Pide (PVDE) entraram em Portugal só nos dias 17, 18 e 19 de Junho de 1940, cerca de 18000 pessoas com vistos assinados pelo “Cônsul desobediente”…” os guardas da fronteira de Vilar Formoso não se lembram de ter visto tanto movimento”… O “Alto Comissariado para os Refugiados da Sociedade das Nações” calculou que nesse verão tenham entrado em Portugal 40000 refugiados. Esse número é confirmado pela organização judaica “Joint.” Na sua casa em Cabanas de Viriato, ele recebeu dezenas de refugiados, sobretudo no verão de 1940, nomeadamente as famílias do Ministros belga no exílio, Albert de Vleeshchouwer e Van Zealand, um alto responsável das finanças belga, assim como muitas freiras e outros religiosos conhecidos do seu tempo de Louvain. 



Aristides de Sousa Mendes é, consequentemente, afastado da Carreira Diplomática por Salazar e afastado de qualquer actividade profissional, sendo ostracizado pelos seus pares, familiares e amigos. Os filhos, perseguidos e não podendo encontrar trabalho em Portugal, são obrigados a emigrar. Dois deles, logo em 1943, juntam-se ao exército americano e até participam na invasão da Normandia a 6 de Junho de 1944.



Entre 1940 e 1954, Aristides entra num processo de “decadência”, perdendo, mesmo, a titularidade do seu gesto salvador…pois, Salazar apropria-se desse acto. Através da propaganda do Estado Novo, os jornais do regime louvam Salazar: “Portugal sempre foi um país cristão” é o título de um Editorial do Diário de Notícias do mês de Agosto de 1940, em que Salazar é louvado por ter salvo refugiados no Sul de França. Até Teotónio Pereira, refere, nas suas “Memórias”, a acção de Aristides de Sousa Mendes como sendo de sua autoria! O cônsul morre em 3 de Abril de 1954.



Em 1972, em Portugal, já ninguém se lembra quem foi Aristides de Sousa Mendes!!!





Não deixem de ver o filme!


sábado, 8 de dezembro de 2012

Grupo GPS: colégios receberam 81 milhões

Veja este vídeo fantástico do MSN - Grupo GPS: colégios receberam 81 milhões

Quando o ensino vira negócio - ainda o grupo GPS


O POVO VIVEU ACIMA DAS SUAS POSSIBILIDADES?




Não me fecundem... porque f-----s andamos nós!

Zé do Tijolo resolveu fazer uma vivenda. Com as poupanças de uma vida de trabalho e uns dinheiritos que recebeu da herança dos seus sogros satisfez o sonho compartilhado com a mulher.
Pagou 23 % de IVA sobre os materiais, pagou as certidões das Finanças e da Conservatória, pagou o Imposto de Transacções, pagou o imposto de selo, pagou a Escritura e respectivo registo, pagou a ligação da água e da electricidade, pagou à Câmara as licenças, etc. etc. etc.
Apesar de ter perdido tanto tempo para pagar todos estes impostos ao Estado e de ter de pagar ainda durante toda a vida uma renda chamada IMI, ficou de sorriso rasgado ao olhar para a sua bela casinha. O seu esforço, os muitos sacrifícios e privações tinham valido a pena: tinha um tecto a que podia chamar seu...
Qual não é o seu espanto quando ouve um comentador de economia na TV, sujeito engravatado e bem falante, dizer o seguinte:
- o país está nesta grave crise porque os portugueses gastaram demais , construíram demasiadas moradias, por isso os sacrifícios impostos pela Troika , blá, blá, blá...
Zé do Tijolo sentiu-se um Zé do Calhau! Sempre tinha pensado que tinha feito a sua casinha com o seu próprio dinheiro e nem um tostão tinha pedido ao Estado! Era tão idiota, tão imbecil que chegara mesmo a pensar, dada a enorme panóplia de impostos que tinha liquidado ao Estado, que esse mesmo Estado devia estar agradecido pela sua contribuição.
Este importante catedrático de economia veio-lhe abrir os olhos. Afinal, o dinheiro que tinha penosamente poupado ao longo da vida não era seu... nem o dinheiro da herançazita... porque se fosse realmente seu como poderia ser responsável pela crise do país? Zé do Tijolo sentiu uma enorme vergonha e remorso por ter feito o imóvel e ter dado trabalho e dinheiro a ganhar a tantas artes, provocando, segundo a tal sumidade catedrática, a bancarrota do seu país adorado.
O sorriso rasgado do Zé do Tijolo transformou-se num esgar: era ladrão... tinha roubado a pátria lusa e vivido acima das suas possibilidades...!?!?
O Manel Fangio vestiu-se com primor. Pegou no filho de 18 meses ao colo e acompanhado da mulher dirigiu-se ao Stand no centro da cidade. Ia ansioso e não via a hora de sentar o seu fiofó naquele sonhado Renault Clio prateado. Deu um longo suspiro de satisfação. Não mais teria que conduzir a velha e ruidosa motorizada, com a proa empinada pelo peso dos nadegueiros roliços da companheira grávida, obrigando-o a um equilibrismo de artista circense. O pior era o Inverno, chuva e gelo , quando tinha de levar e trazer o rebento do infantário. Cortava-lhe o coração sujeitar o filho a tais condições e tremia de medo só de imaginar um acidente, que andava sempre à espreita. Águas passadas: agora tinha um popó que poderia chamar seu. Bem, não era mesmo seu porque pedira emprestado ao banco uma parte do dinheiro e só após 48 prestações mensais poderia ficar registado como sua propriedade.
Manel Fangio assinou ansioso os documentos: o ISV, o IVA, o IUC, o seguro e o registo provisório...
Agora era rodar a chave, parar na estação de serviço e abastecer de combustível. Ufa! Achou caro: o funcionário argumentou que sobre o preço do litro incidia um imposto para o Estado de 58 %, repartido pelo ISP e IVA.
Bem... não havia nada a fazer: era pagar e "não bufar" porque se bufasse estava sujeito a acelerar a evaporação do precioso líquido. Apanhou a SCUT e escutou nos pórticos um piar. Não, não era o chilrear de uma ave a repousar do voo. Era a electrónica a zelar pelo erário público...
Enfim, chegou a casa. Ligou a "caixa que mudou o mundo" e escuta o perorar papagueado de um anafado comentador político, que dizia:
- o país está na bancarrota porque o povo viveu acima das suas possibilidades reais , compraram-se muitas viaturas , agora é preciso pagar a factura e aceitar a austeridade , blá , blá , blá...
Manel Fangio escorregou do sofá. Tinha, de facto, pedido dinheiro ao banco para pagar o automóvel, tinha pagado do seu bolso todos os impostos inerentes ao Estado, nunca lhe passou pela "cachimónia", nem se lembrava, de ter pedido dinheiro ao dito Estado para comprar o veículo!!! Como poderia ser responsável pela crise do país?
Bem... este lustroso político, licenciado em economia ainda muito jovem, com apenas 37 anos, possuidor de uma retórica invejável não podia estar enganado... era um doutor...
O sorriso de satisfação do Manel Fangio murchou: era um corrécio... tinha esbulhado a ditosa pátria muito amada,  levando com o seu escandaloso dislate rodoviário o país à ruptura financeira...
Os pecados implicam penitências. Manel Fangio e sua família, incluindo o rebento e o que estava para rebentar, teriam que pagar durante décadas e com "língua de palmo" pelo crime da exuberância de ter passado da motorizada para o Clio.
como sou burro...
como sou jumento...
como sou asno...
como sou solípede...
como sou cavalgadura...
como sou asinino..
como sou jegue...
como sou azémola...
como sou alimária...
como sou tudo isso e muito mais...
e com a jeriquisse crónica de que sou feliz portador ou contemplado, pergunto:
O Zé do Tijolo e o Manel Fangio pediram algum dinheiro ao Estado?
Viveram acima das suas possibilidades ou viveram com as suas possibilidades?
Como podem ser criticados ou responsabilizados pelos medias ( apetecia-me dizer merdas...) pela crise que o país atravessa?
O dinheiro não era deles? E não podiam fazer com o seu dinheiro o que muito bem desejassem?
Não pagaram, para além disso, uma imensidade de impostos?
Em resumo: quando vejo os economistas residentes e afins a justificar a austeridade com o argumento de que o povo foi despesista (para branquear a corrupção endémica dos políticos)
Apetece-me mandá-los apanhar no subilatório... e só não mando porque não quero matar alguns com mimos...
Pensem nisto e deixem de me fecundar... porque fodidos andamos nós...!

 El Jerico assanhado

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