domingo, 26 de setembro de 2010

Isto


Dizem que finjo ou minto
Tudo que escrevo. Não.
Eu simplesmente sinto
Com a imaginação.
Não uso o coração.

Tudo o que sonho ou passo,
O que me falha ou finda,
É como que um terraço
Sobre outra coisa ainda.
Essa coisa é que é linda.

Por isso escrevo em meio
Do que não está ao pé,
Livre do meu enleio,
Sério do que não é.
Sentir? Sinta quem lê!


Fernando Pessoa


O texto é constituído por três quintilhas de hexassílabos.

A estrutura do texto é de cunho racionalizado, com um fio lógico: apresenta-se uma tese, discute-se essa tese e apresenta-se uma conclusão.

1.ª parte - 1.ª e 2.ª estrofes: O poeta nega que finja, o que faz é racionalizar os sentimentos (sente com a imaginação) não usa o coração (depreende-se que para sentir). Sente-se possuído pela sina de procurar sempre uma coisa que é inatingível.

O poeta justifica porque não mente ao escrever: sente com a imaginação e possui o condão de procurar sempre.

2.ª parte - 3.ª estrofe: Por isso se quer libertar do imediato, das sensações. Ao escrever distancia-se delas.

Significado dos dois primeiros versos da segunda estrofe: sonho = anseios; passo = vivências; falha = insucesso; finda = fugacidade.

O poeta procura constantemente nunca se satisfazendo com o que procura, mas vendo sempre naquilo com que se depara um terraço que esconde mais.

Relacionar essa procura com o facto de o poeta se querer libertar do imediato, das sensações (3ª. estrofe) - ao escrever distancia-se delas.

Ao escrever, o poeta coloca-se ao nível do fingimento, do pensamento, da racionalidade, livre da confusão dos sentidos, acreditando sincero, na esfera do que não é o que parece, do inteligível.

Usa a ironia ao rematar o texto remetendo o sentimento para a pessoa do leitor.

O poeta conclui que é da sua competência a racionalização, ficando o sentimento a cargo de quem lê.

O título significa que o poeta explica algo "Isto" e designa também aquilo que está para além do terraço e o carácter insatisfeito do poeta que procura mas não encontra, está perto mas não abrange.


- Estamos perante um texto em que se explana uma teoria poética: o fingimento, expondo-se a aparente antítese: sentimento (coração) – pensamento (razão) e ganha contornos nítidos a dialéctica incompleta de Fernando Pessoa. Com efeito, a antítese só seria dialecticamente válida, se conduzisse a uma síntese, a uma conclusão, a uma “coisa linda” conseguida e não apenas pressentida, abstracta, com fundamentos evidentes na concepção platónica dos arquétipos e da divisão dos mundos em sensível e inteligível.

- E quem pode contemplar essa coisa encoberta pelo “terraço” de sonho, da dor, da frustração? Só o poeta, porque é capaz de se libertar do enleio do mundo e escrever “em meio do que não está ao pé”, isto é, usando a imaginação/razão, em busca do que é e apenas seguro “do que não é”.

- Estamos perante o pressentimento “do que não é” e a sugestão de que aquilo que “não é” é que, verdadeiramente, “é”. A tarefa do poeta é, portanto, essa viagem imaginária, esse pressentir do ser, da “coisa linda” e não sentir (“Sentir? Sinta quem lê!”), o que não deixa de indiciar uma concepção de certo modo elitista do poeta.

- Ao nível semântico, deve mencionar-se, em primeiro lugar, a linguagem simples, mas seleccionada, típica de Pessoa ortónimo. Não se traduz, no entanto, tal simplicidade em pobreza excessiva, uma vez que bastariam a musicalidade, o ritmo, as sonoridades bem conseguidas e situadas, para emprestar ao texto toda a força que um leitor, mesmo desprevenido, nele encontra. Mas há ainda o facto de, a cada passo, depararmos com a utilização de palavras com matizes significativos inesperados e originais, que nos colocam no limiar, ou mesmo nos domínios da metáfora:

. “Sinto com a imaginação” (o verbo sentir com significado diferente do habitual);

. “Não uso o coração” (o inesperado de o poeta não usar o coração, como se se tratasse de algo semelhante a qualquer utensílio dispensável ou substituível);

. “Tudo o que sonho… é… um terraço” (uma divisão, uma separação imaginária);

. “Essa coisa é que é linda” (o adjectivo “linda” aplicado a algo que está sob um terraço imaginário, e que, portanto, só metaforicamente existe).

. A recuperação para a poesia, de palavras tão prosaicas como “coisa” (“Sobre outra coisa ainda/Essa coisa é que é linda”), utilizada em versos consecutivos, para designar algo que está muito para além do Universo sensível a que, normalmente, se refere.

. O sentido da palavra “sério” no penúltimo verso, que nos parece um vestígio da formação anglo-saxónica do autor (significa “certo” ou “seguro”).

. A diferença de significado entre o verbo sentir usado na primeira quintilha (“Sinto/Com a imaginação”) e no último verso (“Sentir? Sinta quem lê!”), assumindo, neste caso, um conotação pejorativa, que não existe no primeiro.

- É ainda importante realçar a felicidade e a originalidade do símbolo “terraço”, como qualquer coisa que nos divide de algo que está sob os nossos pés e nunca conseguimos agarrar com as mãos.

- É também semanticamente importante o facto de o poeta dizer que escreve “… em meio/Do que não está ao pé”, imagem paradoxal, deliberadamente perturbadora e expressiva da imaterialidade dos domínios em que se movimenta. E não deixa de ter cabimento aqui uma nova referência à interrogação e exclamação finais, apoiadas numa repetição do verbo sentir, que vêm emprestar ao final do poema uma grande vivacidade expressiva.

Recursos expressivos:

- aliteração:

. Em “s”: “Eu simplesmente sinto/Com a imaginação/Não uso o coração”;

. Em “f”: “O que me falha ou finda”;

. Em “l”: “Livre do meu enleio”.

- O poeta utiliza muitas vezes o encavalgamento.

- De realçar o recurso a sons fechados, sobretudo, à nasalação, na primeira estrofe, havendo rimas em “in” e em “ão”. Na segunda estrofe, há uma alternância entre “a” e “in” e na terceira, praticamente, desaparecem os sons nasais e as rimas são em “é/ê” e em “ei”. Semanticamente, isto parece corresponder à passagem de uma situação de arrastamento, ou tensão, para um estádio de clarividência ou convicção.

- A comparação que engloba os três primeiros versos da 2ª estrofe. Esta comparação constitui o cerne do poema, aquele momento em que o autor define o universo em que se move, para, logo de seguida, ficarmos a saber o que procura.





A Mena na cozinha

Carne de alecrim com massa de orégãos

Carne de porco ou de vaca
1 cebola
2 dentes de alho
azeite
sal
1 malagueta grande
1 dl de vinho branco
1 dl de caldo de carne
alecrim
salsa
pimenta
3 colheres de sopa de polpa de tomate
1 colher de sopa de orégãos
massa

Pique a cebola e os alhos e leve a alourar com azeite. Junte a malagueta cortada aos pedacinhos.

Corte a carne aos cubos e adicione ao preparado anterior, acrescente também a polpa de tomate e deixe alourar um pouco.

Junte o vinho branco, deixe apurar um pouco. Tempere com sal e pimenta. Acrescente o caldo de carne, o alecrim e a salsa e deixe cozinhar 20 minutos.


À parte, leve uma panela ao lume com água temperada com sal e com um fiozinho de azeite. Quando estiver a ferver, junte a massa e os orégãos. Deixe cozer 10 minutos. A meio da cozedura (depois de 5 minutos), junte o preparado da carne e deixe acabar de cozinhar.

Sirva com uma boa salada.
Bom apetite!





Trabalhinho:


1 comentário:

soli-arte disse...

e aqui temos mais um dos teus dotes, a culinária. Deve ter ficado mesmo bom.
E quanto ás camarinhas fizeram lembrar a m inha infância, quando ia para esses lados à apanha delas.Adoro camarinhas, é pena que aqui para o norte, só mesmo na zona de Ovar se consegue encontrar, mas nunca com o tamanho dessas.
Beijos e tem um optimo domingo