quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Os Lusíadas - Reflexões do poeta



Considerações do Poeta - críticas e conselhos aos Portugueses

Os Lusíadas são uma epopeia na qual se reflecte o optimismo do Renascimento, crente nas capacidades do Homem. Por isso, o herói liberta-se da sua pequenez humana de "bicho da Terra" e, através da ousadia e da coragem, ascende a um estádio superior, digno dos deuses.
No entanto, não é apenas esta visão optimista do Homem  aquela que está patente na obra. A verdade é que, a par da glorificação dos heróis que fizeram grande a Pátria e o Homem e devem , por isso, servir de exemplo, está presente um desencanto e um pessimismo do poeta que olha para o Portugal seu contemporâneo com tristeza, nostalgia e desalento. Não podemos esquecer que Camões publicou Os Lusíadas, 74 anos depois da viagem de Vasco da Gama, num momento em que o império português estava já em decadência e um futuro negro se pressentia.
Esse pessimismo está patente sobretudo nas reflexões do final dos Cantos.
O poeta apresenta-se, nas suas reflexões, como guerreiro e poeta a quem não "falta na vida honesto estudo; com longa experiência misturado" (C. X, 154). Um poeta que, ainda que perseguido pela sorte e desprezado pelos seus contemporâneos, assume o papel humanista de intervir, de forma pedagógica, na vida contemporânea. Por isso:
  • critica a ignorância e o desprezo pela cultura revelados pelos homens de armas (C. V);
  • denuncia o desprezo pelo bem comum, a ambição desmedida, o poder exercido com tirania, a hipocrisia dos aduladores do Rei, a exploração do povo (C. VII);
  • denuncia o poder corruptor do ouro (C. VIII);
  • propõe um modelo humano ideal de "Heróis esclarecidos" que terão ganhado o direito de ser na "Ilha de Vénus recebidos" (C. IX, 95);
  • ergue-se contra o adormecimento da Pátria, metida "No gosto da cobiça e na rudeza / Duma austera, apagada e vil tristeza". (C. X, 145).
Mas, o poema, acima de tudo, evidencia a grandeza do passado de Portugal: um pequeno povo que cumpriu, ao longo da sua História, a missão de dilatar a Cristandade, que abriu novos rumos ao conhecimento, que mostrou a capacidade do Homem de concretizar o sonho.
Ao cantar o heroísmo do passado, o poeta pretende mostrar aos seus contemporâneos a falta de grandeza do Portugal presente, e incentivar o Rei a conduzir os Portugueses para um futuro de novo glorioso, para uma nova era de orgulho nacional.


Canto I - Reflexão sobre a fragilidade da condição humana

As traições e perigos a que os navegadores estão sujeitos justificam o desabafo do poeta sobre a fragilidade da condição humana, que submete o Homem a inúmeros e permanentes perigos.
Não será por acaso que esta reflexão surge no final do Canto I, quando o herói ainda tem um longo e penoso caminho a percorrer. Ver-se-á, no Canto X, até onde a ousadia, a coragem e o desejo de ir sempre mais além podem levar o "bicho da terra tão pequeno", tão dependente da fragilidade da sua condição humana.


Canto V - Crítica à falta de cultura e de apreço pelos poetas que os Portugueses revelam

O poeta começa por mostrar como o canto e o louvor incitam à realização dos feitos heróicos; dá em seguida exemplos do apreço que os antigos heróis gregos e romanos tinham pelos seus poetas e da importância que davam ao conhecimento e à cultura, conciliando as armas com o saber.
Não é, infelizmente, o que se passa com os portugueses, que não dão valor aos seus poetas, porque não têm cultura para os conhecer. Ora, não se pode amar o que não se conhece, e a falta de cultura dos heróis nacionais é responsável pela indiferença que manifestam pela divulgação dos seus feitos, e, se não tiverem poetas que os cantem, serão esquecidos. Apesar disso, o poeta, movido pelo amor da Pátria, reitera o seu propósito de continuar a engrandecer, com os seus versos, as "grandes obras" realizadas.
Manifesta, desta forma, a vertente crítica e pedagógica da sua epopeia, na defesa da realização plena do Homem, em todas as suas capacidades.


Canto VI - Reflexão sobre o verdadeiro e árduo caminho da fama e da glória

Continuando a exercer a sua função pedagógica, o poeta defende um novo conceito de nobreza, espelho do modelo da virtude renascentista. Segundo este modelo, a fama e a imortalidade, o prestígio e o poder adquirem-se pelo esforço - na batalha ou enfrentando os elementos, sacrificando o corpo e sofrendo pela perda dos companheiros. Não se é nobre por herança, permanecendo no luxo e na ociosidade, nem pela concessão de favores se deve alcançar lugar de relevo.


Canto VII - Elogio ao espírito de cruzada dos portugueses / crítica aos outros povos

Percorrido tão longo e difícil caminho, é momento para que, na chegada a Calecut (est. 3-7), o poeta faça novo louvor aos portugueses. Exalta então o seu espírito de cruzada, a incansável divulgação da fé, por África, Ásia, América, "E, se mais mundos houvera, lá chegara", assim inserindo a viagem à Índia na missão transcendente que assumiram, e que é marca da sua identidade nacional.
Por oposição, critica duramente as outras nações europeias - os "Alemães, soberbo gado", o "duro inglês, o "Galo indigno", os italianos que, "em delícias, / Que o vil ócio no mundo traz consigo, / Gastam as vidas" - por não seguirem o seu exemplo, no combate aos infiéis...


Canto VII - Crítica aos contemporâneos ambiciosos que exploram e oprimem o povo

Numa reflexão de tom marcadamente autobiográfico, o poeta exprime um estado de espírito bem diferente do que caracterizava, no Canto I, a Invocação às Tágides. Agora percorre um caminho - "árduo, longo e vário", e precisa de auxílio, porque teme não chegar a bom porto. De uma vida cheia de adversidades, enumera a pobreza, a desilusão, os perigos do mar e da guerra, "Nua mão sempre a espada e noutra a pena".
Denuncia que, como paga do seu labor, recebe novas contrariedades, e desta forma apresenta, uma vez mais, a crítica aos contemporâneos, deixando o alerta: em consequência de tais maus exemplos de ingratidão deixarão de aparecer outros poetas que cantem a pátria. E a crítica aumenta de tom na parte final, quando enumera aqueles que nunca cantará e que, implicitamente, denuncia abundarem no seu tempo: os ambiciosos que sobrepõem os seus interesses aos do "bem comum e do seu Rei", os dissimulados, os exploradores do povo, que não defendem "que se pague o suor da servil gente".
No final, retoma a definição do seu herói - o que arrisca a vida "por seu Deus, por seu Rei".


Canto VIII - Crítica ao poder do dinheiro

O poeta enumera os efeitos perniciosos do ouro que provoca derrotas, faz dos amigos traidores, mancha o que há de mais puro, deturpa o conhecimento e a consciência, condiciona as leis, dá origem a difamações e à tirania dos reis, corrompe até os sacerdotes, sob a aparência da virtude. Retomando a função pedagógica do seu canto, o poeta aponta o dedo à sociedade sua contemporânea, orientada por valores materialistas.


Canto IX - Reflexões sobre o caminho para merecer a fama

Na sequência da cerimónia simbólica de entrega das coroas de louros aos marinheiros e a Vasco da Gama, o poeta dirige-se àqueles que desejam ser famosos, aconselhando-os sobre o caminho a seguir. Na verdade, é também aos seus contemporâneos que Camões se dirige, exortando-os a despertar do adormecimento e do ócio, a pôr de lado a cobiça e a tirania, a serem justos e a lutarem pela Pátria e pelo rei. Só assim serão eternizados como os marinheiros, e serão também "nesta ilha de Vénus recebidos."


Canto X - Crítica aos Portugueses seus contemporâneos / Apelo ao Rei

Os últimos versos de Os Lusíadas revelam sentimentos contraditórios: desalento, orgulho, esperança. "No mais, Musa, no mais..." pede o poeta, recusando continuar o seu canto, não por cansaço, mas por desânimo. O seu desalento advém de constatar que canta para "gente surda e endurecida", mergulhada "no gosto da cobiça e na rudeza / duma austera, apagada e vil tristeza". É a imagem do Portugal do seu tempo.
Por contraste, o poeta tem orgulho nos que estão dispostos a reavivar a grandeza do passado, evidenciando ainda a esperança de que o Rei os estimule para dar continuidade à glorificação do "peito ilustre lusitano" e dar matéria a novo canto. O poema encerra, pois, com uma mensagem que abarca o passado, o presente e o futuro. A glória do passado deverá ser encarada como exemplo presente para construir um futuro grandioso.


Velho do Restelo - um episódio em final de canto
(Canto IV, est. 94-104)

Situado no final do Canto IV, este episódio insere-se na narrativa feita por Vasco da Gama ao rei de Melinde. De certa forma, estabelece a ponte entre o plano da História de Portugal e o plano da Viagem.
No momento em que a armada está prestes a partir, uma figura destaca-se da multidão e levanta a voz, condenando a viagem. A caracterização sublinha a idade )"velho"), o aspecto respeitável ("aspeito venerando"), a atitude de descontentamento ("meneando / três vezes a cabeça, descontente"). a voz solene e audível ("A voz pesada um pouco alevantando"), e a sabedoria resultante da experiência de vida ("Cum saber só de experiências feito"; "experto peito"). De facto, a figura do Velho do Restelo impõe uma autoridade  e respeitabilidade que lhe permitem falar e ser ouvido sem contestação. As suas palavras têm o peso da idade e da experiência que daí resulta e a autoridade provém, exactamente, dessa vivida e longa experiência.
Naturalmente, o "Velho do Restelo" não é uma personagem histórica, mas uma criação de Camões com um profundo significado simbólico.
Numa análise superficial e meramente historicista, o Velho representa a corrente de opinião que via com desagrado a expansão para o Oriente, preferindo as conquistas militares no Norte de África.
Mas o Velho do Restelo representa muito mais. Ele é a representação daqueles que condenam a ousadia do Homem, o impulso do ser para transcender tudo o que o limita, o sonho de ir mais além.
Opositor de toda a forma de ambição humana, vê no progresso a fonte de todos os males. Nesse sentido, o Velho do Restelo é um conservador que se opõe ao juvenil impulso criador r transformador daqueles que não se contentam nem conformam com o já adquirido e já vivido.
Por outro lado ainda, podemos ver o Velho como símbolo dos que, em nome do bom senso, recusam a aventura, defendendo que é preferível a tranquilidade duma vida mediana à promessa de riquezas que, frequentemente, se traduzem em desgraças. Encontramos aqui um eco de uma ideia humanista: a nostalgia da Idade do Ouro, tempo de paz e tranquilidade de que o Homem se viu afastado e a que pode voltar, reduzindo a sua ambição a uma sábia mediania ("aurea mediocritas"), já que foi a ambição que lançou o ser humano na Idade do Ferro, em que vive (est. 98). Neste sentido, o episódio pode ser entendido como a manifestação do espírito humanista, favorável à paz e tranquilidade, contrário ao espírito guerreiro da Idade Média.

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