sexta-feira, 9 de maio de 2008

A Princesa Europa

9 de Maio – DIA DA EUROPA


Foi no dia 9 de Maio de 1950, que Robert Schuman, Ministro Francês dos Negócios Estrangeiros, apresentou uma proposta para a criação de uma Europa unida.

Em 1951, a Alemanha, a França, a Itália, a Bélgica, os Países Baixos e o Luxemburgo, assinaram o Tratado de Paris que estabeleceu a Comunidade Europeia do Carvão e do Aço.
A 25 de Março de 1957,
assinatura em Roma dos Tratados que instituem a Comunidade Económica Europeia (CEE) e a Comunidade Europeia da Energia Atómica (Euratom), entrando em vigor em 1 de Janeiro de 1958.
A 1 de Janeiro de 1973, a Dinamarca, a Irlanda e o Reino Unido aderem à CEE que passa a ter nove Estados-Membros.
Em 1981 é a vez da Grécia.
Seguem-se Portugal e Espanha em Janeiro de 1986.
17 e 28 de Fevereiro - É assinado no Luxemburgo e em Haia o Acto Único Europeu, entrando em vigor em 1 de Julho de 1987, com vista a relançar a integração europeia e a realizar o mercado único europeu até 1993.
9 de Novembro de 1989 - Queda do muro de Berlim.
3 de Outubro de 1990 - Reunificação da Alemanha.
(A queda do Muro de Berlim em 1989 e o início do desmoronamento do comunismo na Europa Central e Oriental mudam por completo o cenário político da Europa.)
7 de Fevereiro 1992 - É assinado em Maastricht o Tratado da União Europeia, que entra em vigor em 1 de Novembro de 1993. O Tratado da União Europeia estabelece as bases para uma política externa e de segurança comum, uma cooperação mais estreita nos domínios da justiça e dos assuntos internos e a criação de uma união económica e monetária, incluindo uma moeda única – O Euro -
que entraria em funcionamento a 1 de Janeiro de 2002 (em 12 dos 15 países membros da EU). A CEE muda a sua designação para «Comunidade Europeia» (CE).
A Áustria, a Finlândia e a Suécia tinham entretanto aderido à EU em Janeiro de 1995.
Em 1997, começam as longas negociações para o alargamento da Europa aos países de Leste. O Tratado de Nice, em 2000, cria as regras que permitem a adesão destes futuros Estados-membros.
1 de Maio de 2004 - Chipre e Malta, bem como oito países da Europa Central e Oriental (Estónia, Eslováquia, Eslovénia, Hungria, Letónia, Lituânia, Polónia e República Checa) tornam-se membros da EU. Estava assim terminada a divisão da Europa, assinada em Yalta 60 anos antes.
Os então 25 Países membros assinam, em 2004, um tratado que estabelece uma Constituição para a Europa, tendo como principais objectivos simplificar e melhorar o funcionamento da União Europeia.
Mas este Tratado só poderá entrar em vigor depois de ratificado pelos 25 Estados‑Membros. No entanto, chamados a pronunciar-se através de referendos, a França e os Países Baixos escolheram a não ratificação, pelo que o processo ficou adiado.
1 de Janeiro de 2007 - Adesão da Bulgária e da Roménia à União Europeia e adesão da Eslovénia à Zona Euro.
1 de Julho a 31 de Dezembro - Presidência Portuguesa do Conselho da União Europeia.
12 de Dezembro - Assinatura da Carta dos Direitos Fundamentais da EU.
13 de Dezembro - Assinatura do Tratado de Lisboa (Tratado Reformador da UE)
1 de Janeiro de 2008 - Adesão do Chipre e de Malta à Zona Euro.
Hoje, 51 anos depois da Declaração de Schuman, a União Europeia conta com 27 Países membros. Mas a EU ainda não parou de crescer, pois existem mais três países candidatos.

A EU deixou de ser apenas um “mercado único” para se tornar numa verdadeira União de Países Europeus, com cerca de 450 milhões de habitantes. Com valores comuns como a Democracia, a Liberdade e a Justiça Social, com instituições comuns como o Parlamento, o Conselho ou a Comissão, que decidem e regem alguns dos principais aspectos das nossas vidas, os Países Membros mantêm, no entanto, a sua soberania (tenho algumas dúvidas quanto à manutenção da soberania... os países mais pequenos estão completamente subjugados aos grandes... esta é a minha opinião...) bem como as suas culturas, tradições e línguas tão diversas.

Por isso mesmo o lema da UE é, desde meados de 2000, “Unida na Diversidade”.

Lenda da Europa

Há muitos, muitos, mas mesmo muitos anos, havia uma linda princesa fenícia que se chamava Europa, que vivia na Ásia no seu belo palácio com os pais.
Um dia, o pai dos deuses, Zeus, viu-a a apanhar flores no campo, de manhãzinha. Ficou deslumbrado com a sua beleza e apaixonou-se perdidamente por ela, decidindo logo raptá-la.
Com medo de Hera, a sua irascível e ciumenta mulher, Zeus decidiu transformar-se num lindo touro castanho com um círculo prateado na testa para conseguir aproximar-se de Europa.
Ao ver o belo animal, a princesa ficou maravilhada e foi logo fazer uma grinalda de flores para o coroar.
Ele aproximou-se, muito manso, muito meigo. A princesa afagou-o e, na ideia de ir dar um passeio, sentou-se-lhe no dorso.
Nesse momento, Zeus disparou a voar por cima do Oceano em busca de uma ilha sossegada para viver o seu romance de amor.
Assim, deixaram a Ásia e passaram ao continente vizinho que naquela altura ainda não tinha nome. Veio a chamar-se Europa, por causa da princesa.

Europa significa "poente, ocidente".

Hino da União Europeia, o Hino da Alegria de Beethoven.

Mimo

Olhem só o que eu trouxe do blogue da minha amiga sweetie Mafalda, um anjo da guarda!

Ofereço a todas as minhas amigas que me deixam sempre palavras tão queridas quando me visitam. Muito obrigada a todas e beijocas grandes!

Trabalhitos:





quarta-feira, 7 de maio de 2008

O outro caminho

Proponho-vos um conto de Sophia de Mello Breyner: História da Gata Borralheira. Aqui fica o resumo que vos preparei para aguçar o apetite!

História da Gata Borralheira

Este conto fala do primeiro baile de uma rapariga de dezoito anos, Lúcia. Esta foi ao baile com a tia, que era sua madrinha, numa mansão cor-de-rosa, na primeira noite de Junho. Apresentou-se com um vestido de seda lilás, muito feio e uns sapatos largos, fora de moda e em mau estado, com o forro azul roto nas biqueiras e com manchas de bolor. Durante a festa, sentiu-se como uma intrusa. Na sala de baile, voltou-se para o espelho e sentiu-se "afogada boiando numa água sinistra": o espelho era antigo, estava embaciado, manchado e verde. Estava pálida, precisava de um pouco de rouge, resolveu, então, ir ao quarto de vestir. Aí, encontrou uma rapariga que lhe disse que aquele género de espelhos era como as pessoas más, que não diziam a verdade. Lúcia não percebeu o que a rapariga queria dizer, aquela simpatia e aquela conversa irritaram-na, ficou desconfiada. Dirigiu-se para a sala e sentou-se numa cadeira ao pé da janela, semi-escondida atrás da cortina. A filha da dona da casa dançava com um rapaz alto, bonito e moreno. Quando a música acabou, a moça apresentou Lúcia ao rapaz. Depois de conversarem um bocado sobre aquela noite mágica, o rapaz, um tanto misterioso, lunático até, disse que noites como aquelas escondiam uma "angústia" por entre os brilhos, cores e perfumes... Seguidamente, convidou Lúcia para dançar e foi durante a dança que um dos sapatos velhos lhe caiu do pé. Ela olhou e viu o sapato no meio da sala, mas não foi capaz de dizer que o sapato lhe pertencia, continuou a dançar com o pé descalço, encoberto pelo vestido comprido e quando a música acabou, sentaram-se ambos num sofá, ficando o sapato esfarrapado no chão polido. Enquanto o rapaz foi buscar uma bebida para Lúcia, esta levantou-se e saiu da sala, refugiando-se numa pequena sala vazia toda forrada de espelho. Nesse espelho ela via-se toda, pálida e o vestido detestado até aos pés. Tentou fugir do seu reflexo, mas em todo o lado o espelho a via. Reparou que havia ali uma porta que dava para a varanda, foi aí que se escondeu e foi aí que decidiu o caminho que deveria escolher: iria viver com a sua madrinha e um dia havia de voltar ali com um vestido maravilhoso e com uns sapatos bordados de brilhantes.
Lúcia foi viver com a tia, deixando para sempre o pai e os irmãos, que eram pobres, porque como dissera a tia – viver é escolher - e passou a ter tudo o que antes não tinha, tudo lhe vinha parar às mãos sem esforço. Casou com um homem rico que se tornou ainda mais rico depois de casar com ela.
Passaram vinte anos. E nesse vigésimo ano, ela recebeu um convite para um baile no primeiro dia de Junho, na mesma casa rica e bonita, onde ela tinha ido com um vestido lilás feio e fora de moda. Aquele convite parecia um encontro marcado pelo destino. Quando Lúcia entrou na sala de baile, ninguém queria acreditar no que via. O vestido de Lúcia deixava ver uns sapatos bordados de brilhantes. Na sua dança, Lúcia espalhava círculos de mil luzes, fogo, brilho. Todos a olhavam e ela rodopiava vendo-se de espelho em espelho. Para relembrar o passado, decidiu voltar à tal sala de espelhos, onde se escondeu com vergonha do seu reflexo. Tudo estava igual, a sala vazia, o espelho, mas também a sua imagem lá estava ainda reflectida. O vestido lilás enchia toda a sala, ela queria gritar, mas o grito estava preso, não saía. O espelho rodou, a porta abriu-se, entrou um homem na sala que lhe disse: “Há vinte anos, aqui, nesta varanda escolheste o outro caminho. Eu sou o outro caminho". E, como pagamento, o homem exigiu-lhe o sapato do pé esquerdo que, desta vez, era forrado a diamantes. Ele, em troca, entregou-lhe o antigo sapato forrado de seda azul, velho e roto. Ela quis fugir, mas não conseguiu mover-se. O homem tirou-lhe o sapato de brilhantes e calçou-lhe o sapato esfarrapado.
Na manhã seguinte, Lúcia foi encontrada morta na varanda. Nunca ninguém conseguiu explicar o facto de Lúcia ter calçado no pé esquerdo um sapato velho, roto e com manchas de bolor
Esta História da Gata Borralheira diz-nos que nem sempre a riqueza é o melhor caminho.

O conto tradicional "A Gata Borralheira" era uma das histórias mais contadas às crianças em sessões que animavam os serões de outros tempos. Ainda me lembro de quando era miúda: juntavam-se lá em casa todas as crianças do bairro (eu e os meus irmãos, os filhos dos vizinhos e as minhas primas). Sentávamo-nos todos à volta da minha mãe ou da minha avó e ficávamos totalmente dependentes, rendidos às palavras, aos vários tons de voz e aos sons emitidos. Factores como o ritmo atribuído às palavras, ou a ênfase dada aos excertos capazes de suscitar o medo, ou o riso captavam a nossa atenção.
É inegável a presença dos contos nas nossas vidas. Seja através da transmissão oral ou através da leitura.

O conto tradicional conta-nos a história de uma rapariga pobre e maltratada pela madrasta. Esta obrigava a pobre moça a fazer todas as tarefas domésticas, enquanto ela e as filhas descansavam e se divertiam. A rapariga vestia-se pobremente, enquanto as filhas da madrasta se vestiam com aprumo e algum luxo. Deparamo-nos, igualmente, com um elemento sobrenatural: a fada. A fada encanta-a, oferecendo-lhe um vestido de baile lindíssimo, um par de sapatos de cristal e uma carruagem para que se pudesse deslocar ao castelo sem correr perigos. Avisa-a, no entanto, que o encanto acabará à meia-noite. No baile, a rapariga dança com o príncipe que fica encantado com a sua beleza.
O tempo passa rapidamente e quando ela se apercebe que é quase meia-noite sai rapidamente do baile e perde um sapato na escadaria do palácio.
O Príncipe recolhe o sapato e como não havia esquecido os encantos da rapariga, convida todas as jovens do reino a dirigirem-se ao palácio para experimentarem o sapato que havia encontrado.
A madrasta e as suas filhas gozam com a pobre coitada e obrigam-na a ficar em casa, enquanto elas se dirigem ao Palácio para calçarem o sapato.
O Príncipe fica desiludido por nenhuma das jovens conseguir calçar o sapato e ordena que todas as raparigas do reino venham ao Palácio para experimentarem o pequeno e belo sapato de cristal.
Ao ver a Gata Borralheira calçar o sapato, o príncipe fica felicíssimo por ter encontrado, finalmente, a sua amada e pede-a em casamento.
A madrasta e as filhas ficam furiosas e não compreendem como pode ser a Gata Borralheira a dona de tão belo sapatinho e agora também dona do coração do príncipe.
O bem vence o mal no final da narrativa o que é, aliás, usual na literatura tradicional. Assistimos, assim, à heroína sofredora pelos maus-tratos da madrasta e das filhas, acabar por ser recompensada. Acontecendo precisamente o contrário com as personagens malvadas que acabam exemplarmente castigadas.
O elemento sobrenatural, a fada, surge no conto com o intuito de ajudar a rapariga trabalhadora e mal tratada. Surge para restabelecer a justiça.


No conto "A Gata Borralheira" de Sophia de Mello Breyner Andresen, começa-se por enunciar a existência de dois caminhos possíveis para a personagem. Aludindo, deste modo, ao livre arbítrio do ser humano: "Viver é escolher", o ser humano é o único responsável pelo seu destino. A Gata borralheira de Sophia tem de decidir entre uma vida com o pai falido e os irmãos, existência feliz, mas modesta, uma juventude sossegada, sem vida social ou viver em casa da madrinha e ter acesso a um mundo a que sempre sonhou pertencer. O primeiro contacto que teve com esse universo foi num baile. Foi com um vestido emprestado e uns sapatos rotos. Apercebeu-se que não pertencia àquele mundo. Foi gozada e humilhada. A sua escolha foi feita nessa altura: “Tenho de escolher outro caminho. Um dia hei-de voltar aqui com um vestido maravilhoso e com sapatos bordados de brilhantes."
Na verdade, a sua vida mudou irreversivelmente a partir do momento em que decidiu ir viver com a tia. Casou com um homem abastado, o tempo parecia não a afectar já que não envelhecia e até parecia estar cada vez mais bela.
As amizades eram cada vez mais e tinha sucesso em tudo o que fazia.
Haviam passado vinte anos desde que havia decidido não continuar a ser humilhada. Recebeu um convite para um baile precisamente na mesma casa e na mesma primeira noite de Junho. Aceitou o convite e resolveu apagar com a riqueza que possuía agora toda a humilhação por que passara. Encomendou uns sapatos forrados de brilhantes verdadeiros (os sapatos tinham sido a principal causa da humilhação sofrida). Na noite do baile, todas as atenções se viraram para ela. Voltou à sala onde se havia refugiado há vinte anos e do espelho saiu um homem. Também ele "ostentava inteligência, poder, pose e domínio". Pediu-lhe de imediato o sapato do pé esquerdo e ela não lho quis dar. Perante a sua recusa, apresentou-se como sendo "o outro caminho" o que ela havia escolhido há vinte anos, lembrou-lhe também que há vinte anos que ela só conhecia a glória e o sucesso, enquanto os outros haviam conhecido humilhações e outras espécies de privações. Razão pela qual queria o sapato do pé esquerdo dela e concluiu com uma expressão enigmática " é o preço do mundo".
De manhã, ela foi encontrada morta, Ficando implícito que o preço do mundo que este ser sobrenatural lhe pede, será uma alusão à expressão "vender a alma ao Diabo?" Haveria uma espécie de pacto com as forças do mal em que se daria a alma em troca de uma vida de sonho?

No texto tradicional recompensa-se a personagem sacrificada pelos maus-tratos que recebeu. O bem vence o mal. No conto de Sophia Mello Breyner, assistimos a um percurso interior da personagem mais complexo. A menina pobre é seduzida por um mundo aliciante pelo qual se sente atraída. Recusa uma vida modesta com o pai e os irmãos. Deslumbra-se com o brilho, com a riqueza e escolhe esta segunda opção. Durante vinte anos vive confortável, ostentando riqueza e poder, mas necessitava sempre de olhar o vestido que guardava da noite em que havia sido humilhada. Talvez numa tentativa de encontrar forças para se manter fiel à opção que havia tomado.
O sucesso foi-lhe cobrado e no auge da glória, pagou-o com a própria vida. A autora finaliza o seu conto castigando a personagem que optou pelo materialismo em detrimento do valor da família. Mas antes, tinha dado a liberdade de escolha à personagem que construiu, mostrando-nos que não podermos escapar às consequências de determinadas opções que fazemos.


Trabalhitos:






Boas leituras!

segunda-feira, 5 de maio de 2008

A cor do coração

"Maio Mês do Coração"

É uma iniciativa que pretende sensibilizar as pessoas para a importância de medir com regularidade a tensão arterial.
É preciso ter em atenção que a hipertensão é o principal factor de risco da doença cardiovascular e representa um dos maiores problemas de saúde pública em Portugal: 40 por cento dos portugueses adultos são hipertensos, mais de 50 por cento não têm a doença diagnosticada e apenas 11 por cento dos doentes estão controlados.
"Por si e por quem gosta de si, meça regularmente a tensão arterial" é a divisa da campanha de sensibilização. Durante o mês de Maio, esta campanha estará presente em “spots” televisivos e de rádio, na imprensa e em painéis publicitários nos diversos transportes públicos, nos Centros de Saúde e nos "mupis" (espaços publicitários electrónicos) de todas as cidades do país.
Esta campanha visa alertar os portugueses para a importância de medir a tensão arterial de forma regular e registá-la, bem como consciencializar as pessoas de que existem medidas não farmacológicas ao alcance de todos para prevenir o aparecimento precoce deste factor de risco.

Que tal fazermos uma alimentação equilibrada e um pouco de exercício? Não custa nada, não é? Agora, o tempo está óptimo, poderemos dar passeios à beira-mar, pelas matas ou pinhais. As flores acabaram de despontar, tingindo os campos de mil cores e espalhando aromas, os pássaros animam-nos com os seus chilreios. Estas são algumas razões (mais do que suficientes) para sairmos de casa e comungarmos com a natureza, não esquecendo nunca que é tudo por um coração mais saudável…


O Coração e os Poetas

Eu tenho ideias e razões,
Conheço a cor dos argumentos
E nunca chego aos corações.

(Fernando Pessoa)

O que me dói não é
O que há no coração
Mas essas coisas lindas
Que nunca existirão...

São as formas sem forma
Que passam sem que a dor
As possa conhecer
Ou as sonhar o amor.

São como se a tristeza
Fosse árvore e, uma a uma,
Caíssem suas folhas
Entre o vestígio e a bruma.

Fernando Pessoa

Dizem que finjo ou minto
Tudo o que escrevo. Não.
Eu simplesmente sinto
Com a imaginação.
Não uso o coração.

Tudo o que sonho ou passo,
O que me falha ou finda,
É como que um terraço
Sobre outra coisa ainda.
Essa coisa é que é linda.

Por isso escrevo em meio
Do que não está ao pé,
Livre do meu enleio,
Sério do que não é.
Sentir? Sinta quem lê!

Fernando Pessoa

Quem tem dois corações
Me faça presente de um
Que eu já fui dono de dois
E já não tenho nenhum

Dá-me beijos dá-me tantos
Que enleado em teus encantos
Preso nos abraços teus
Eu não sinta a própria vida
Nem minh'alma ave perdida
No azul amor dos teus céus

Botão de rosa menina
Carinhosa, pequenina
Corpinho de tentação
Vem morar na minha vida
Dá em ti terna guarida
Ao meu pobre coração.
Quando passo um dia inteiro
Sem ver o meu amorzinho
Cobre-me um frio de Janeiro
No Junho do meu carinho.

Fernando Pessoa



As
cores
do coração


A cor com que representamos o coração é o vermelho. Por razões de associação ao sangue e também por razões políticas.

O coração que Fafá de Belém canta no disco pássaro sonhador é vermelho.




VERMELHO
(Chico da Silva)

A cor do meu batuque
Tem o toque, tem o som da minha voz
Vermelho, vermelhaço
Vermelhusco, vermelhante, vermelhão

O velho comunista se aliançou
Ao rubro do rubor do meu amor
O brilho do meu canto tem o tom
E a expressão da minha cor "vermelho"

Meu coração é vermelho
Ei, ei, ei
De vermelho vive o coração
Ê, ô, ê, ô
Tudo é garantido após a rosa avermelhar
Tudo é garantido após o sol vermelhecer

Vermelhou no curral
A ideologia do folclore avermelhou
Vermelhou a paixão
O fogo-de-artifício da vitória avermelhou.


Mas o coração também é às cores. O de Camões era verde, melhor, eram verdes os olhos do seu coração (da sua amada).


CANTIGA

Verdes são os campos
Da cor do limão:
Assi são os olhos
Do meu coração
.

Campo, que te estendes
Com verdura bela;
Ovelhas, que nela
Vosso pasto tendes;
De ervas vos mantendes
Que traz o Verão,
E eu das lembranças
Do meu coração.

Gados, que pasceis,
Com contentamento
Vosso mantimento
Não no entendeis;
Isso que comeis
Não são ervas, não:
São graças dos olhos
Do meu coração.


Vilancete

Se Helena apartar
Do campo seus olhos,
Nascerão abrolhos...

A verdura amena,
Gados que pasceis,
Sabei que a deveis
Aos olhos de Helena.
Os ventos serena,
Faz flores de abrolhos
O ar de seus olhos.

Faz serras floridas,
Faz claras as fontes...
Se isto faz nos montes,
Que fará nas vidas?
Trá-las suspendidas,
Como ervas em molhos,
Na luz de seus olhos.

Os corações prende
Com graça inumana;
De cada pestana
Üa alma lhe pende.
Amor se lhe rende
E, posto em giolhos,
Pasma nos seus olhos.


Luís de Camões

Desafio

Este desafio foi enviado pela amiga: Nea

Obrigada, amiga!

Regras do Desafio:

1 - Colocar o Link da pessoa que nos marcou.

2 - Colocar as regras no Blog.

3 - Partilhar 6 coisas sem importância para nós.

4 - 6 coisas que mais gosta.

5 - Repassar para seis pessoas.

6 - Avisar essas pessoas, deixando um comentário nos seus blogues

Não me importo:
-de passear

-de me levantar cedo

-de estar na cama a ouvir a chuva

-de olhar o céu

-de colher flores

-de me deitar na relva, olhar as nuvens e sonhar

Gosto:
-dos meus filhos

-do meu marido

-dos meus pais

-da minha profissão

-das minhas amigas (das virtuais também)

-da minha casa, o meu refúgio.

Agora passo com muito carinho para as meninas:

Isa - isaliamspires.blogspot.com

Daniela Tavares – graficospontodecruz.blogspot.com

Daniela Veiga – caprichosdaagulha.blogspot.com

Diana - avidaefeitadeporques.blogspot.com

Habiba – ponto-cruz-habiba.blogspot.com

Maiu – manchinhadavaca.blogspot.com

Trabalhinhos antigos: estes dois entremeios de lençol foram feitos por mim, quando era ainda uma criança inconsciente. Foram os meus primeiros trabalhos em crochet!


Este trabalho foi feito na escola, devia ter uns doze anos.

Este travessão foi a minha filhota que fez para oferecer a uma amiga. Ficou lindo!

Foi feito com feltro rosa claro e verde, borboleta em Fimo, botões de várias cores e tamanhos, missangas e canutilhos.

Então, atenção ao coração, meninas! Amem muito, é o melhor!

sábado, 3 de maio de 2008

Mãe

4 de Maio
Dia da Mãe

As mais antigas celebrações do Dia da Mãe remontam às comemorações primaveris da Grécia Antiga em honra de Rhea, mulher de Cronos e mãe dos deuses. Em Roma, 250 anos antes do nascimento de Cristo, as festas comemorativas do Dia da Mãe eram dedicadas a Cybele, a mãe dos deuses romanos.
Durante o século XVII, a Inglaterra celebrava no 4º Domingo da Quaresma (40 dias antes da Páscoa) um dia chamado “Domingo da Mãe”, que pretendia homenagear todas as mães inglesas. Neste período, a maior parte da classe baixa inglesa trabalhava longe de casa e vivia com os patrões. No Domingo da Mãe, os servos folgavam e eram encorajados a regressar a casa para passarem esse dia com a sua mãe.

À medida que o Cristianismo se espalhou pela Europa, passou a homenagear-se a “Igreja Mãe” – a força espiritual - que lhes dava vida e os protegia do mal. Ao longo dos tempos, a festa da Igreja foi-se confundindo com a celebração do Domingo da Mãe. As pessoas começaram a homenagear tanto as suas mães como a Igreja.

Nos Estados Unidos, a comemoração de um dia dedicado às mães foi sugerida pela primeira vez em 1872 por Julia Ward Howe e algumas apoiantes que se uniram contra a crueldade da guerra e lutavam, principalmente, por um dia dedicado à paz.

A ideia de se criar um Dia da Mãe partiu de Anna Jarvis em 1904, quando a sua mãe morreu. Três anos depois, a 10 de Maio de 1907, foi celebrado o primeiro Dia da Mãe, na igreja de Grafton, onde se reuniu a família e os amigos. Nessa ocasião, a Sra. Jarvis enviou para a igreja 500 cravos brancos que deviam ser usados por todos. Estes simbolizavam as virtudes da maternidade. Ao longo dos anos, enviou mais de 10.000 cravos para a igreja de Grafton – encarnados para as mães ainda vivas e brancos para as já desaparecidas – e que são hoje considerados mundialmente com símbolos de pureza, força e resistência das mães.

Segundo Anna Jarvis, o objectivo deste dia seria tomarmos medidas para um pensamento mais activo sobre as nossas mães. Através de palavras, presentes, actos de afecto deveríamos proporcionar-lhe prazer e trazer felicidade ao seu coração todos os dias, mantendo sempre na lembrança o Dia da Mãe.

Face à aceitação geral, a Sra. Jarvis e os seus apoiantes começaram a escrever a pessoas influentes, como ministros, homens de negócios e políticos no intuito de se celebrar um Dia da Mãe a nível nacional, o que daria às mães o justo estatuto de suporte da família e da nação.

A campanha foi de tal forma bem sucedida que em 1911 era celebrado em praticamente todos os estados. Em 1914, o Presidente Woodrow Wilson declarou oficialmente e a nível nacional o 2º Domingo de Maio como o Dia da Mãe.

Hoje em dia, muitos de nós celebram o Dia da Mãe com pouco conhecimento de como tudo começou. No entanto, podemos identificar-nos com o respeito, o amor e a honra demonstrados por Anna Jarvis.

Apesar de ter passado um século, o amor que foi oficialmente reconhecido em 1907 é o mesmo amor que é celebrado hoje e, à nossa maneira, podemos fazer deste um dia muito especial.

E é o que fazem praticamente todos os países, apesar de cada um escolher diferentes datas ao longo do ano para homenagear aquela que nos põe no mundo.

Em Portugal, até há alguns anos atrás, o dia da mãe era comemorado a 8 de Dezembro, mas actualmente o Dia da Mãe é no 1º Domingo de Maio, em homenagem a Maria, Mãe de Cristo.

O Dia da mãe pelo mundo

2º Domingo de Maio – Estados Unidos, Brasil, Dinamarca, Finlândia, Japão, Turquia, Itália, Austrália e Bélgica

2º Domingo de Fevereiro – Noruega

2º Domingo de Outubro – Argentina

2º dia da Primavera – Líbano

1º Domingo de Maio - Portugal

10 de Maio – México

8 de Dezembro – Espanha

Último domingo de Maio – Suécia

4º Domingo da Quaresma – Inglaterra

Poema à Mãe

No mais fundo de ti,
eu sei que traí, mãe.
Tudo porque já não sou
o menino adormecido
no fundo dos teus olhos.

Tudo porque tu ignoras
que há leitos onde o frio não se demora
e noites rumorosas de águas matinais.
Por isso, às vezes, as palavras que te digo
são duras, mãe,
e o nosso amor é infeliz.

Tudo porque perdi as rosas brancas
que apertava junto ao coração
no retrato da moldura.

Se soubesses como ainda amo as rosas,
talvez não enchesses as horas de pesadelos.

Mas tu esqueceste muita coisa;
esqueceste que as minhas pernas cresceram,
que todo o meu corpo cresceu,
e até o meu coração
ficou enorme, mãe!

Olha - queres ouvir-me? -
às vezes ainda sou o menino
que adormeceu nos teus olhos;
ainda aperto contra o coração
rosas tão brancas
como as que tens na moldura;
ainda oiço a tua voz:

Era uma vez uma princesa
no meio de um laranjal...

Mas - tu sabes - a noite é enorme,
e todo o meu corpo cresceu.

Eu saí da moldura,
dei às aves os meus olhos a beber.

Não me esqueci de nada, mãe.
Guardo a tua voz dentro de mim.

E deixo-te as rosas.
Boa noite. Eu vou com as aves.

Eugénio de Andrade


Profissão Mãe


Uma mulher foi renovar a sua carta de condução.
Perguntaram-lhe qual era a sua profissão.
Ela hesitou, sem saber bem como se classificar.
"O que eu pergunto é se tem um trabalho", insistiu o funcionário.
"Claro que tenho um trabalho", exclamou.
"Sou mãe".
"Nós não consideramos "mãe" um trabalho.
Vou colocar "Dona de casa", disse o funcionário friamente.


Não voltei a lembrar-me desta história
até ao dia em que me encontrei numa situação idêntica.

A pessoa que me atendeu era obviamente uma funcionária de carreira,
segura, eficiente, dona da situação
e perguntou: qual é a sua ocupação?

Não sei o que me fez dizer isto,
as palavras simplesmente saltaram-me da
boca para fora
"Sou Doutora em Desenvolvimento Infantil e em Relações Humanas."
A funcionária fez uma pausa,
a caneta de tinta permanente a apontar para o ar
e olhou-me como quem dizia que não ouviu bem.

Eu repeti pausadamente, enfatizando as palavras mais significativas.
Então reparei, maravilhada, como ela ia escrevendo,
com tinta preta, no questionário oficial.
Posso perguntar, disse-me ela com novo interesse,
o que faz exactamente?

Calmamente, sem qualquer traço de agitação na voz,
ouvi-me responder:
"Desenvolvo um programa a longo prazo (qualquer mãe faz isso), em
laboratório e no campo experimental (normalmente eu teria dito dentro e
fora de casa). Sou responsável por uma equipe (minha família),
e já recebi quatro projectos (todas meninas).
Trabalho em regime de dedicação exclusiva (alguma mulher discorda?),
o grau de exigência é em nível de 14 horas por dia (para não dizer 24 horas).
Houve um crescente tom de respeito na voz da funcionária que acabou de
preencher o formulário, se levantou e, pessoalmente me abriu a porta.

Quando cheguei em casa, com o título da minha carteira erguido,
fui recebida pela minha equipe:
uma com 13 anos, outra com 7 e outra com 3 anos.
Do andar de cima,
pude ouvir o meu novo rebento (um bebé de seis meses),
testando uma nova tonalidade de voz.
Senti-me triunfante!

Maternidade... que carreira gloriosa!

Assim, as avós deviam ser chamadas
"Doutora-Sénior em Desenvolvimento Infantil e em Relações Humanas".

As bisavós:
"Doutora-Executiva-Sénior".

E as tias:
"Doutora - Assistente".

Uma homenagem carinhosa a todas as mulheres,
mães, esposas, amigas, companheiras.

Doutoras na Arte de fazer a vida melhor!


Autora desconhecida


Vários presentinhos que a minha filha fez para me oferecer no Dia da Mãe.


Num deles escreveu, quando tinha quatro anos:

A Mãe

"A minha mãe faz doces e papa, os restos da comida dá-os ao cão, ao Gil.
Ela gosta de passear.
A minha mãe já não tritura a sopa, porque eu já como a sopa de outra maneira.
Eu gosto da minha mãe, porque é minha mãe. Ela é muito minha amiga.
A minha mãe faz muitos trabalhos para a escola.
Ela é bonita, tem olhos brilhantes e é um bocadinho pequenina, ao pé do meu pai. Eu gosto muito dela."


A minha filhota escreveu este texto, ou seja, ditou-o à educadora e salientou aquilo que mais me preocupava: a dificuldade que eu tinha para lhe dar as refeições. Ela nasceu com um problema que fazia com que vomitasse constantemente após as refeições. Esteve internada várias vezes, porque não aumentava de peso. Até aos seis anos, foi uma preocupação constante, era muito magrinha, muito frágil, estava sempre doente. Foi um período muito difícil. Quando era bebé, depois de tentarmos tudo e mais alguma coisa para ver se o leite se mantinha no estômago, a pediatra aconselhou-me, depois de vários internamentos, a dar-lhe um bocadinho de leite de hora a hora. Era um leite mais espesso do que o normal, mas mesmo assim ela vomitava tudo. Então a solução foi dar-lho a pouco e pouco, mantendo-a levantada durante um certo tempo, debruçada sobre o nosso ombro, para que não vomitasse. Foi horrível: preparava os biberões todos para a noite e de hora a hora lá estava eu a dar-lho. Escusado será dizer que houve momentos que eu já não sabia se lho tinha dado ou não, então contava os biberões para ver se não me tinha esquecido de nenhum. E foi assim durante um mês, depois passou a ser de hora e meia em hora e meia, de duas em duas horas. De dia e de noite. Quando passou a comer papa e sopa, pensámos que iria melhorar, mas não! Vomitava na mesma, tinha de comer pouco de cada vez, várias vezes ao dia. Comeu a sopa triturada até aos cinco anos e foi nesta altura que começou a pouco e pouco a comer "a sopa de outra maneira", como ela diz. Hoje, é uma menina saudável. Graças a Deus!

Noutro postalinho escreveu o seu primeiro poema:

Mãezinha

Mãe, mãezinha, tu és muito minha
Mãe, mãezinha, é contigo que eu vou estudar
Mãe, mãezinha, tu és só minha
Mãe, mãezinha, é contigo que eu vou passear.


Presentes para a melhor mãe do mundo, a minha mãe:

Postais




Um tabuleiro Primavera: aqui antes de levar o vidro frio.


Aqui já com o vidro, é pena não se conseguir ver o brilho intenso com que ficou. Ficou lindo!Uma moldura


O saquinho para colocar tudo.
Feliz dia da mãe para todas as mães do mundo!

quinta-feira, 1 de maio de 2008

Dia do trabalhador

1 de Maio

Dia do Trabalhador

No dia 1 de Maio, comemora-se, em todo o mundo, o Dia do Trabalhador.
A história deste dia começa no séc. XIX.
Nessa época, os trabalhadores chegavam a trabalhar entre 12 e 18 horas por dia. Os reformadores sociais consideravam um exagero este número de horas de trabalho e um atentado à saúde dos trabalhadores que não tinham tempo para fazer mais nada. Eles defendiam que o ideal era dividir o dia em três períodos: 8 horas para trabalhar, 8 horas para dormir e 8 horas para o lazer, para estar com a família...
Foi com o objectivo de lutar pelas 8 horas de trabalho diárias que, no dia
1 de Maio de 1886, teve início uma greve geral com a adesão de mais de 1 milhão de trabalhadores em todo o território norte-americano. A reacção das forças policiais a esta paralisação foi violenta, havendo, por isso, feridos e mortos. Foi na cidade de Chicago que a repressão policial foi mais dura. O nome de os “Mártires de Chicago" surgiu por causa das pessoas que foram feridas e mortas só por estarem a lutar pelos seus direitos.
No quarto dia de manifestação (dia 4 de Maio) explodiu uma bomba entre a multidão, matando dezenas de trabalhadores e alguns polícias. Deste incidente resultou a prisão de oito pessoas: quatro foram condenadas à forca e as outras à prisão perpétua.
Como o povo estava cada vez mais revoltado, estas condenações só serviram para "atiçar mais a fogueira" e despertar a atenção de todo o mundo para aquela luta.
Em 1888, dois anos depois destes acontecimentos, um júri reconheceu que os trabalhadores feitos prisioneiros estavam inocentes e mandou libertá-los.
Em 1889, a Segunda Internacional Socialista, em Paris, decidiu que o dia 1 de Maio passaria a ser o Dia do Trabalhador, em homenagem aos "mártires de Chicago". Mas só em 1890, os trabalhadores americanos conseguiram que o horário de trabalho se fixasse nas 8 horas diárias.
Em Portugal só a partir de Maio de 1974 (o ano da revolução do
25 de Abril) é que se passou a comemorar publicamente o Primeiro de Maio. E só a partir de Maio de 1996 é que os trabalhadores portugueses passaram a trabalhar 8 horas por dia.


O primeiro Dia do Trabalhador celebrado em Portugal, uma semana depois do 25 de Abril, foi a maior manifestação alguma vez organizada no país. Só em Lisboa juntaram-se mais de meio milhão de pessoas.

LIBERDADE

Sobre esta página escrevo
teu nome que no peito trago escrito
laranja verde limão
amargo e doce o teu nome.

Sobre esta página escrevo
o teu nome de muitos nomes feito água e fogo lenha vento
primavera pátria exílio.

Teu nome onde exilado habito e canto mais do que nome: navio
onde já fui marinheiro
naufragado no teu nome.

Sobre esta página escrevo o teu nome: tempestade.
E mais do que nome: sangue. Amor e morte. Navio.

Esta chama ateada no meu peito
por quem morro por quem vivo este nome rosa e cardo
por quem livre sou cativo.

Sobre esta página escrevo o
teu nome: liberdade.

Manuel Alegre


«Trova do Vento que Passa»

Pergunto ao vento que passa
notícias do meu país
e o vento cala a desgraça
o vento nada me diz.

Pergunto aos rios que levam
tanto sonho à flor das águas
e os rios não me sossegam
levam sonhos deixam mágoas.

Levam sonhos deixam mágoas
ai rios do meu país
minha pátria à flor das águas
para onde vais? Ninguém diz.

Se o verde trevo desfolhas
pede notícias e diz
ao trevo de quatro folhas
que morro por meu país.

Pergunto à gente que passa
por que vai de olhos no chão.
Silêncio -- é tudo o que tem
quem vive na servidão.

Vi florir os verdes ramos
direitos e ao céu voltados.
E a quem gosta de ter amos
vi sempre os ombros curvados.

E o vento não me diz nada
ninguém diz nada de novo.
Vi minha pátria pregada
nos braços em cruz do povo.

Vi minha pátria na margem
dos rios que vão pró mar
como quem ama a viagem
mas tem sempre de ficar.

Vi navios a partir
(minha pátria à flor das águas)
vi minha pátria florir
(verdes folhas verdes mágoas).

Há quem te queira ignorada
e fale pátria em teu nome.
Eu vi-te crucificada
nos braços negros da fome.

E o vento não me diz nada
só o silêncio persiste.
Vi minha pátria parada
à beira de um rio triste.

Ninguém diz nada de novo
se notícias vou pedindo
nas mãos vazias do povo
vi minha pátria florindo.

E a noite cresce por dentro
dos homens do meu país.
Peço notícias ao vento
e o vento nada me diz.

Mas há sempre uma candeia
dentro da própria desgraça
há sempre alguém que semeia
canções no vento que passa.

Mesmo na noite mais triste
em tempo de servidão
há sempre alguém que resiste
há sempre alguém que diz não.

Manuel Alegre

E agora: outros poemas, outras artes!