domingo, 13 de junho de 2010

Manhã africana





A Biblioteca para receber o escritor moçambicano Augusto Carlos vestiu-se a rigor com as cores e elementos dessa terra longínqua e imensa.
Augusto Carlos nasceu em Gaza em 1955. Formado em Engenharia, frequentou um curso de Filosofia, iniciando um processo de reflexão que o levaria à escrita.


À conversa com...

O escritor conversou e respondeu às muitas questões dos nossos alunos. Contou como surgiu a escrita na sua vida, revelou os seus sonhos realizados e por realizar... Explicou que sempre gostou de estudar e de ler, que foi uma criança muito curiosa e que buscava nos livros as respostas para as suas muitas dúvidas, para a sua sede de conhecimento. Filho de um pedreiro, que "fazia as casas muito direitinhas e bonitas para todos os que solicitavam o seu trabalho", o escritor, ainda criança, tinha muitas vezes de ajudar a carregar tijolos, tarefa não muito do seu agrado. Assim, começou por inventar longos trabalhos de casa, longas redacções para se escusar a tão árduo trabalho, "a escrita deixava menos marcas nas mãos do que os tijolos". O seu primeiro sonho foi construir "uma casa (para si) com as paredes muito direitinhas e bonitas", pois "Em casa de ferreiro espeto de pau", a sua casa de infância construida pelo seu pai tinha as paredes todas tortas. Tinha então de estudar, porque não queria ser pedreiro e à pergunta "Que gostarias de ser quando fores grande?", respondia: Engenheiro. Como era pobre, as vizinhas olhavam-no desconfiadas e diziam ironicamente "engenheiro das obras feitas!" Estas respostas tortas deram-lhe força e esse foi o seu primeiro sonho concretizado, tornar-se Engenheiro e "construir uma casa com piscina com paredes direitinhas e bonitas". Como o Homem não pára de sonhar e o "sonho comanda a vida", comprou um carro desportivo, o seu segundo sonho de infância. Muitos outros sonhos foram concretizados e muitos outros serão, mas o próximo é "poder escrever a tempo inteiro". Levantar-se e escrever sem ter de dar atenção ao relógio que lhe diz a todo o momento que são horas de ir para o trabalho. A inspiração vem da sua infância, das histórias da sua terra e das suas gentes, das várias experiências vividas, das muitas viagens realizadas (outro sonho de infância) e das personagens com quem se vai cruzando.
O escritor terminou a sua conversa, apelando para que não deixemos de sonhar, apontando os estudos como uma porta aberta para a concretização de muitos sonhos. "Sejam curiosos, procurem respostas para as vossas dúvidas e anseios, trabalhem, estudem e sonhem, sonhem muito!"



REGRESSO

Regresso às fragas de onde me roubaram.
Ah! Minha serra, minha dura infância!
Como os rijos carvalhos me acenaram,
Mal eu surgi, cansado, na distância!


Cantava cada fonte à sua porta:
O poeta voltou!
Atrás ia ficando a terra morta
Dos versos que o desterro esfarelou.


Depois o céu abriu-se num sorriso,
E eu deitei-me no colo dos penedos
A contar aventuras e segredos
Aos deuses do meu velho paraíso.



Miguel Torga



O poema "Regresso" é composto por três momentos essenciais:

- Regresso à terra natal – os dois primeiros versos.

- Narração da forma acolhedora como a natureza recebeu o sujeito poético – os versos três e quatro e a segunda estrofe.

- Entrega total do sujeito poético à natureza que o acolhe – a última estrofe.

No poema existem os 5 elementos naturais que caracterizam o meio rural para onde o sujeito poético regressa: fragas, serra, carvalhos, céu, penedos.

O poema “Regresso” tem uma estrutura narrativa, daí o predomínio do pretérito perfeito do indicativo (“roubaram”, “acenaram”, “surgi”, “voltou”, “esfarelou”, abriu-se”, “deitei-me”), tempo verbal típico da narração e o uso de marcadores temporais (“de onde”, “depois”).

O poema é composto por três quadras, versos decassilábicos, excepto o segundo verso da segunda estofe. O esquema rimático é abab (rima cruzada) nas duas primeiras estrofes e abba (rima interpolada e emparelhada) na terceira estrofe.
O sujeito poético regressa à serra, à infância, à idade de ouro, à inocência, ao paraíso perdido. Os elementos naturais têm uma atitude de celebração, celebram a chegada do sujeito lírico (personificação): "os rijos carvalhos me acenaram", "Cantava cada fonte", "o céu abriu-se num sorriso", "deitei-me no colo dos penedos".
Na segunda parte, o sujeito poético diz-nos que deixava a vida que viveu longe da sua terra, assim como os versos escritos durante o exílio: "Atrás ia ficando a terra morta / Dos versos que o desterro esfarelou." O "desterro" foi um tempo roubado à sua essência, à sua verdade. Na terceira parte, o sujeito lírico entrega-se completamente à natureza que o acolhe no seu colo: "deitei-me no colo dos penedos", encarando-a como sua confidente: "A contar aventuras e segredos /Aos deuses do meu velho paraíso."
Existe, neste poema, o binómio passado / presente através dos verbos conjugados no presente do indicativo ("regresso") em oposição ao predomínio do pretérito perfeito do indicativo ("surgiu", "voltou", "deitei"...), sugerindo uma acção totalmente realizada, o sujeito lírico terá regressado de vez para a sua serra, o seu paraíso, e o pretérito imperfeito ("cantava"), acção a decorrer no passado, cada fonte cantava o regresso do eu lírico. De salientar a expressividade do verbo cantar, as fontes não informaram apenas que o sujeito poético havia regressado, fizeram-no cantando, é um acontecimento feliz que deve ser transmitido como um cântico.
Os recursos estilísticos presentes são:
- personificação: "Como os rijos carvalhos me acenaram", "Cantava cada fonte à sua porta", "o céu abriu-se num sorriso", "E eu deitei-me no colo dos penedos". Estas personificações acentuam os sentimentos de intimidade, protecção e alegria pelo reencontro.
- metáfora: "a terra morta / Dos versos", o sujeito poético desvaloriza os versos escritos durante o tempo em que esteve ausente, evidenciando a sua efemeridade.



Trabalhinho:

Écharpe

3 comentários:

~*Rebeca e Jota Cê*~ disse...

Lições bem recebidas de fato, Mena.

Bom começo de semana e até mais.

Jota Cê

artes_romao disse...

boa noite,td bem?
adorei a manã africana...uma partilha fantástica.
e a écharpe está lindíssima;)
fica bem,jinhos***

Abelha Maia disse...

Olá
Sabes eu nasci em Moçambique.
Obrigado pela partilha.
bjsss

http://acolmeiadaabelha.blogs.sapo.pt/