quinta-feira, 14 de abril de 2011

Os Maias - acção (Episódios da Vida Romântica)

13.


Episódios da Vida Romântica

N’ Os Maias, a par da história da família Maia, encontramos episódios que funcionam como uma caracterização crítica e satírica da sociedade portuguesa do século XIX, em forma de crónica de costumes.

· O jantar no Hotel Central

Episódio que aborda a crítica literária e a literatura, a situação financeira do país e a mentalidade limitada e retrógrada dos portugueses.

Aí se retrata a polémica que marcou a Questão Coimbrã, na discussão de Ega e Alencar defensores, respectivamente, do Realismo/Naturalismo e da moral do Ultra-romantismo.

O jantar no Hotel Central, em que Ega pretende homenagear Cohen (marido de Raquel, sua amante), proporciona o primeiro encontro de Carlos da Maia com Maria Eduarda e permite também que este contacte, pela primeira vez, com a elite lisboeta. O episódio abre com o tema da literatura. Polémica relativamente a diferentes movimentos literários:

- Romantismo e Ultra-romantismo

- Realismo e Naturalismo.

Posição de Ega, Carlos, Craft e Alencar relativamente ao Realismo/ Naturalismo:

Carlos da Maia - Considera exagerado o cientifismo na literatura.

Craft - Critica a forma crua como se apresenta a realidade nos livros.

Alencar - Compara o Realismo/ Naturalismo a excremento.

Ega - Defende o Realismo/ Naturalismo de forma exagerada, inclusivamente o cientifismo na literatura.

Apesar de nesta passagem, Carlos e Craft criticarem o Naturalismo. Ambos recusam o Ultra-romantismo de Alencar e o exagero de Ega. Estas personagens apresentam-se como apologistas da moderação, recusando o exagero das correntes.

Outro assunto focado neste jantar foi as finanças do país:

“O Cohen colocou uma pitada de sal à beira do prato, e respondeu, com autoridade, que o empréstimo tinha de se realizar absolutamente. Os empréstimos em Portugal constituíam hoje uma das fontes de receita, tão regular, tão indispensável, tão sabida como o imposto. A única ocupação mesmo dos ministérios era esta — cobrar o imposto e fazer o empréstimo. E assim se havia de continuar...

Carlos não entendia de finanças: mas parecia-lhe que, desse modo, o país ia alegremente e lindamente para a bancarrota.

— Num galopezinho muito seguro e muito a direito — disse o Cohen, sorrindo. — Ah! sobre isso, ninguém tem ilusões, meu caro senhor. Nem os próprios ministros da Fazenda!... A bancarrota é inevitável; é como quem faz uma soma...

Ega mostrou-se impressionado. Olha que brincadeira, hem! E todos escutavam o Cohen. Ega, depois de lhe encher o cálice de novo, fincara os cotovelos na mesa para lhe beber melhor as palavras.

A bancarrota é tão certa, as coisas estão tão dispostas para ela — continuava o Cohen — que seria mesmo fácil a qualquer, em dois ou três anos, fazer falir o país.”

O assunto do estado deplorável das finanças públicas e do endividamento do país é tratado despreocupadamente nesta conversa, durante a qual sobressai o cinismo de Cohen e a sua falta de responsabilidade ao exprimir, calmamente, que os empréstimos são a principal e indispensável fonte de receitas do país.

De salientar os advérbios de predicado com valor modal (a vermelho), de carácter irónico, que acentuam a crítica ao estado deplorável das finanças de Portugal, e a forma verbal que se encontra no gerúndio (a azul) e que explicita a despreocupação do banqueiro Cohen relativamente à situação financeira do país.

Neste episódio o tema da política é tratado de forma superficial.

O discurso demolidor de Ega serve a intenção crítica de Eça que pretende atingir as instituições públicas e os valores da época.

Repara neste excerto que se segue à solução pouco séria de Ega para a decadência do país: a invasão espanhola e o afastamento violento da Monarquia.

“E no silêncio que se fez, Dâmaso, que desde as informações sobre a rapariga do Ermidinha emudecera, ocupado a observar Carlos com religião, ergueu a voz pausadamente, disse, com ar de bom senso e de finura:

— Se as coisas chegassem a esse ponto, se se pusessem assim feias, eu cá, à cautela, ia-me raspando para Paris...

Ega triunfou, pulou de gosto na cadeira. Eis ali, no lábio sintético de Dâmaso, o grito espontâneo e genuíno do brio português!

Raspar-se, pirar-se!... Era assim que de alto a baixo pensava a sociedade de Lisboa, a malta constitucional, desde el-rei nosso senhor até aos cretinos de secretaria!...

— Meninos, ao primeiro soldado espanhol que apareça à fronteira, o país em massa foge como uma lebre! Vai ser uma debandada única na história! (…)”

O advérbio de predicado com valor modal (a azul) exprime a calma e a despreocupação de Dâmaso perante os problemas do país; sublinhado a verde temos a reacção cobarde que Dâmaso teria caso Portugal atravessasse uma crise grave; a frase irónica que Ega profere ao caracterizar a atitude de Dâmaso (a rosa).

Dâmaso está mais preocupado em seguir os passos de Carlos com religião, isto é, com uma veneração profunda do que com a situação grave do país.

“Houve uma indignação, Alencar gritou:

— Abaixo o traidor!

Cohen interveio, declarou que o soldado português era valente, à maneira dos turcos — sem disciplina, mas teso. O próprio Carlos disse, muito sério:

— Não senhor... Ninguém há-de fugir, e há-de-se morrer bem. Ega rugiu. Para que estavam eles fazendo essa pose heróica?

Então ignoravam que esta raça, depois de cinquenta anos de constitucionalismo, criada por esses saguões da Baixa, educada na piolhice dos liceus, roída de sífilis, apodrecida no bolor das secretarias, arejada apenas ao domingo pela poeira do

Passeio, perdera o músculo como perdera o carácter, e era a mais fraca, a mais cobarde raça da Europa?...”

O discurso de Ega serve a intenção crítica de Eça:

- a inércia das instituições;

- a depravação dos costumes da época;

- a cobardia da sociedade portuguesa.

A literatura é o tema que abre e fecha este episódio. Repara nos recursos expressivos que sugerem o desajuste entre as atitudes exageradas de Ega e Alencar e o espaço social em que decorre este acontecimento:

- Verbos expressivos que nos permitem imaginar a violência dos seus gestos e atitudes: “incendiavam-lhe”, “berrava”, gritou-lhe”, “esborrachava”, “esmurrar”.

- Vocábulos de carácter depreciativo e insultuoso: “excremento”, “vómito”, “versalhada”, “pus”.

- Diminutivo com sentido depreciativo, adquirindo um carácter insultuoso: “Craveirote”.

- Expressões que remetem para um registo de língua popular, desadequado ao espaço social: “atirar patadas”, “passam-me pelos pés como um enxurro de cloaca”, “arregaçar as calças”.

- Interjeição que exprime indignação: “Irra”.

- Neologismo que sugere desprezo: “lambisgonhice”.

A discussão literária entre Alencar e Ega cai nos ataques pessoais que culminam numa cena de pancadaria. O desajuste entre as suas atitudes e o espaço social em que se encontram, acaba por fazer estalar o verniz da alta sociedade lisboeta que tenta apresentar-se como civilizada.

· As corridas de cavalos

Episódio que satiriza a tendência dos portugueses de imitar aquilo que se faz no estrangeiro. As corridas no hipódromo permitem, igualmente, apreciar de forma irónica e caricatural a sociedade burguesa lisboeta do século XIX que vive de aparências, onde é nítido o contraste entre o ser e o parecer. Mas, como refere Afonso da Maia, Portugal estava habituado a touradas e não a corridas de cavalos.

Descrição do espaço em que decorre este acontecimento, o Hipódromo: o espaço em que decorrem as corridas é degradado, o recinto parece uma quintarola, as bancadas são improvisadas e besuntadas de tinta.

Expressões ou vocábulos que sublinham o seu estado degradado: “por pintar”, “mal pregadas”.

Expressões, de carácter depreciativo, que remetem para o mau gosto com que estava decorado: “de arraial”, “besuntada”.

O comportamento da assistência é ridicularizado a partir da descrição pejorativa das vestimentas requintadas que não se adequam ao evento desportivo.

- as roupas quentes, impróprias para usar no Verão - "(...) com jaquetões claros (...)"; "(...) de sobrecasaca (...)".

- as roupas exageradamente requintadas - "(...) vestidos sérios de missa (...)"; "(...) chapéus emplumados à Gainsborough (...)".

- a falta de entusiasmo pelo acontecimento - "(...) sem um rumor, numa pasmaceira tristonha (...)".

- a falta de à-vontade das pessoas - "(...) pareciam embaraçados e quase arrependidos do seu chique.".

O episódio das Corridas de Cavalos retrata aquilo que há de fútil e postiço na alta sociedade lisboeta do século XIX. A tentativa falhada de imitar o que há no estrangeiro culmina com a desordem final deste evento que denuncia, mais uma vez, a oposição entre o ser e o parecer.

“O desejo de Carlos agora era achar Dâmaso, saber porque falhara a visita aos Olivais — e depois ir-se embora para o Ramalhete, esconder aquela melancolia que o enevoava, estranha e pueril, misturada de irritabilidade, fazendo-lhe detestar as vozes que lhe falavam, o ratatã da música, até a beleza calma da tarde... Mas ao dobrar a esquina da tribuna, topou com Craft, que o deteve, o apresentou a um rapaz loiro e forte com quem estava falando alegremente. Era o famoso Clifford, o grande sportman de Córdova. Em redor sujeitos tinham parado, embasbacados para aquele inglês legendário em Lisboa, dono de cavalos de corridas, amigo do rei de Espanha, homem de todos os chiques. Ele, muito à vontade, um pouco poseur, com um simples veston de flanela azul como no campo, ria alto com o Craft do tempo em que tinham estado no colégio de Rugby. Depois pareceu-lhe reconhecer Carlos, amavelmente.

Não se tinham encontrado havia quase um ano, em Madrid, num jantar, em casa de Pancho Calderón? E assim era. O aperto de mão que repetiram foi mais íntimo — e Craft quis que fossem regar aquela flor de amizade com uma garrafa de mau champanhe. Em roda crescera a pasmaceira.”

Carlos, Craft e Clifford, representantes da educação inglesa, contrastam com a uniforme sociedade portuguesa do século XIX: repara no nome (a laranja) que descreve o ambiente que se vivia; na expressão (a verde) que denuncia o mau gosto musical; nas expressões (a azul) que remetem para o à-vontade e boa-disposição de Cliffort e Craft, ambos de educação britânica.

· O jantar em casa do Conde de Gouvarinho

Neste espaço social, as falas das personagens permitem observar a degradação dos valores sociais, o atraso intelectual do país, a mediocridade mental de algumas figuras da alta burguesia e da aristocracia. No jantar, podemos apreciar duas concepções opostas sobre a educação das mulheres, a superficialidade das opiniões de Sousa Neto (o representante da administração pública) e o fascínio pelo que é estrangeiro.

· Episódios dos jornais

Episódios que retratam a parcialidade, decadência e corrupção do jornalismo da época.

· O sarau literário do Teatro da Trindade

Episódio que serve para criticar a superficialidade dos temas de conversa, a insensibilidade artística, a ignorância dos dirigentes, a oratória oca dos políticos e os excessos do Ultra-romantismo.

14.


1 comentário:

Rodrigo oliveira disse...

obrigado por estes resumos stora.
ASS: rodrigo oliveira (antigo aluno)