quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

Menino Feliz





Fui directora de uma turma com dois alunos especiais. No fundo, no fundo, toda a turma era especial, devido à sua heterogeneidade. Mas estes meninos, uma menina e um menino, eram de facto especiais. Especiais no seu sorriso tímido e único, na sua extrema bondade, no seu modo bom de nos olhar. A menina, muito tímida, sempre de olhos baixos. O menino, frágil e doce, mas sempre pronto a abraçar qualquer desafio.
É bem verdade que nós, docentes e discentes, não estamos preparados para receber determinados alunos! E esta turma era um pouco problemática, cheia de alunos com histórias de vida algo complicadas e não aceitaram muito bem estes meninos especiais. 
Era uma turma complicadinha! Raramente se tratavam pelo nome. Todos tinham nomes, quanto a mim, pouco próprios. E as primeiras aulas foram uma luta constante: cada um tem um nome e só esse; somos todos iguais e todos diferentes... Não sei quantas vezes reuni com os alunos para lhes explicar as razões porque tínhamos na turma aqueles meninos; não sei quantas vezes lhes disse que todos temos os mesmos direitos; não sei quantos filmes passei sobre pessoas "diferentes". Mas venci e ganhámos todos. De repente, depois de muito ralhar, de lhes mostrar a minha desilusão, de pensar que todo o trabalho estava a ser em vão... As horas a pesquisar sobre as patologias daqueles dois seres, a procurar filmes que ilustrassem de alguma maneira a vida de pessoas como as que conviviam agora diariamente connosco... De repente, como disse, chegou toda a turma à aula, com os dois colegas. Vinham todos muito felizes! Fizeram um esquema para saberem quem ia buscar ou levar o Menino Feliz ao elevador. Decidiram quem é que ficava ao lado destes alunos nas várias aulas: tinha de ficar um bom aluno ao pé deles para os ajudar. Passaram a trazer "a tiracolo" os colegas... 
E era ver a felicidade destes dois, quando eram rodeados pelos colegas. E era ver a sua satisfação quando eram escolhidos para os vários grupos de trabalho. O Menino Feliz nunca desistia, quis sempre participar em todas as actividades... Vi-o a fazer canoagem. Vi a sua alegria por poder participar com os colegas em algumas modalidades desportivas. (Obrigada, professora Sandra, por seres quem és e por não desistires nunca de ajudares a concretizar sonhos...). Vi-o a conviver com os colegas... E vi e vejo sempre aquele grande sorriso cada vez que passava por mim nos corredores e nas aulas a que assistia.
Por vezes, o Menino Feliz faltava e o silêncio na sala de aula doía e os olhos caíam e caíam naquele lugar vago. E todos tinham medo de perguntar fosse o que fosse sobre o Menino Feliz. Mas os olhos inquiridores caíam-me em cima como facas afiadas e eu ficava, de algum modo, aflita. E de voz trémula: se tivesse acontecido algo, nós já saberíamos. "Pois é, professora, as notícias más sabem-se logo! Foi fazer algum exame ou constipou-se, está muito frio". E apareciam logo uma série de desculpas para a ausência do Menino Feliz. 
Todos sabíamos desde o primeiro dia em que o conhecemos, que um dia o Menino Feliz iria para o céu ser uma criança igualzinha a todas as outras, mas todos temíamos a chegada desse dia!
Aconteceu! Nunca estamos preparados para nos despedirmos para sempre de ninguém, muito menos de uma criança, muito menos de um Menino Feliz apesar de todas as suas limitações. A nossa consolação é, talvez, sabermos que aquele menino foi feliz enquanto esteve entre nós. Lembro-me sempre de o ver sorrir, recordo as gargalhadas que dava ao ver os filmes das aulas em que motivava os colegas para a aceitação das diferenças... 
À pergunta: estás bem? A resposta que recebi foi sempre um largo sorriso a acompanhar o sim. Daí, dar-lhe o nome de Menino Feliz.
Até um dia!

3 comentários:

Bruna Rosário disse...

Um Menino Feliz que sempre foi um doce de pessoa, um Menino que ficará no coração de todos nós! Resta-nos agradecer a força de vontade de sempre teve e que sempre transmitiu! ��
Será a nossa estrelinha! Que descanse em paz e agora possa ter uma vida serena sem todas estas complicações ������ Estará sempre nos nossos corações ����������

Prof Sofia disse...

Tive o privilégio de ter sido professora do Menino Feliz e devo dizer que o revejo nas suas palavras. Depois de um dia difícil, em que tive de me despedir dele, um colega em comum propôs-me que lesse o seu texto e ainda bem que o fiz pois transportou-me de volta à memória que tenho dele: as suas gargalhadas bem vividas, o sorriso cativante e contagiante, a sua ânsia de viver e de explorar, a sinceridade nas palavras e na amizade. Obrigada pelas suas palavras.

CRTIC das Caldas da Rainha disse...

O carlitos nunca desista de nada...tinha uma determinação avassaladora e comovente... respirava vida por todos os poros e deixou-nos a grande lição de vida de que com esforço, coragem e alegria conseguimos atingir os nossos sonhos! Obrigada meu amigo por teres cruzado a minha vida.
Prof. Ana Paula António