quarta-feira, 6 de junho de 2012

Insensato, ponto, Crato




1. A Unicef divulgou o relatório “Medir a Pobreza Infantil”, considerando crianças até aos 16 anos e dados de 2009. Num universo de 29 países estudados, Portugal está na 25ª posição. Atrás de nós só Letónia, Hungria, Bulgária e Roménia. Quase um terço das crianças portuguesas está em carência económica (o critério é o não cumprimento de dois ou mais dos 14 requisitos considerados). Essa carência dispara para 46,5 por cento se o universo for o das famílias monoparentais ou 73,6 por cento se ambos os progenitores estiverem no desemprego. Há crianças (14,7 por cento) que vivem em famílias cujo rendimento não ultrapassa os 200 euros mensais. A desatenção que as autoridades portuguesas dão às nossas crianças está bem patente quando verificamos que a taxa das que sofrem privações é três vezes superior à dos países com idêntico rendimento per capita. Sendo certo que os efeitos da presente crise ainda não se manifestavam em 2009, imagine-se a brutalidade dos números se fossem reportados à actualidade. É insensato fingir que esta realidade não existe.
2. O teste intermédio de Matemática do 9º ano, da responsabilidade do Gabinete de Avaliação Educacional, teve resultados alarmantes. Houve turmas com uma só nota positiva. Nas escolas de topo dos habituais rankings verificaram-se quebras de 30 por cento. Foram vários os professores da disciplina que consideraram o teste com grandes lacunas de validade relativamente ao programa em vigor na maioria das escolas do país. Recorde-se que estão vigentes dois programas, sendo um deles aplicado apenas em escolas-piloto. Recorde-se, também, que isto sucede a um dos maiores investimentos feito nos últimos anos no que toca ao ensino da Matemática e à formação dos respectivos professores. O exame a sério está marcado para 21 deste mês. Ficarei surpreendido se não se traduzir numa catastrófica razia. Foi insensato falar da implosão daquela coisa.
3. Pertenço aos que mais criticaram o programa “Novas Oportunidades”: pelo oportunismo a que deu lugar; pelo dinheiro gasto sem critério; pela falta de rigor de muitos dos seus centros, que reduziram a exigência mínima ao ridículo máximo. Estou por isso à vontade para criticar, agora, a maneira como este Governo lhe pôs fim, escudando-se na avaliação produzida pelo Instituto Superior Técnico, que concluiu que o programa não produziu … aquilo para que não foi criado. Voltamos ao ensino recorrente, posto de lado por ter uma taxa de abandonos enorme e um custo por aluno inaceitável. É insensato continuarmos em ciclos de pára, arranca, determinados pelo “achismo” dos ministros, gastando e deitando fora.
4. O flagelo do desemprego tem os professores como representantes destacados: entre Abril de 2011 e Abril de 2012, mais que duplicou o seu número. O futuro próximo (alterações curriculares, aumento do número de alunos por turma e giga agrupamentos de escolas) ampliará o quadro. Apressadamente, chegam às instituições de formação instruções para reduzir em 20 por cento as vagas de acesso aos respectivos cursos. Portugal tem professores a mais? É insensato responder levianamente à pergunta.
5. As matrizes curriculares dos ensinos básico e secundário, recentemente conhecidas, já mudaram várias vezes no espaço de uma semana. São patentes a inconstância e a insensatez ministeriais. Há incoerência entre o que o ministro disse em Março e o que agora se vai conhecendo. A duração dos tempos lectivos, sujeita à opção das escolas, pode transformar-se numa dissimulada forma de reduzir cargas disciplinares. No caso da Educação Física, cujo tempo vigente já é insuficiente face às recomendações internacionais, verifica-se, por referência à segunda versão matricial, uma redução de 16 aulas anuais no ensino secundário. Em contraciclo com a recomendação da Assembleia da República, que reconheceu a necessidade de reforçar a actividade física dos jovens, e ao arrepio de termos a segunda maior taxa de obesidade da Europa. É insensato poupar no farelo para gastar na farinha.
6. Sete ministros e nove secretários de Estado imitaram Sócrates no seu melhor. Foram a outras tantas escolas, não entregar diplomas do “Novas Oportunidades” ou distribuir “Magalhães”, mas “promover o voluntariado” e “incentivar as novas gerações”, no mesmo dia em que as mentiras de Relvas eram debatidas no parlamento. As televisões tiveram que escolher entre esta farsa e aquelas palhaçadas. O relógio de sol, de Nuno Crato, e a aula de canto, de Passos Coelho, ganharam. Perdeu a dignidade do Governo. Foi insensato fazer das escolas palco de uma saloia alienação.
7. Crato faz a 21 deste mês um ano de “casa”. De uma casa para cuja mesa nunca convidou os professores. Nem os pais. Nem os cidadãos. Para comemorar a efeméride, proponho que lhe mudemos o e-mail para insensato, ponto, Crato.


 Santana Castilho

Today's look


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Meias - Calzedonia


terça-feira, 5 de junho de 2012

AO


Vale a pena ouvir Vasco Graça Moura aqui a falar-nos sobre o AO...

O Tesouro – Eça de Queirós




O conto pertence ao modo narrativo e envolve:
·      um narrador, entidade responsável por contar a história;
·      a narração de acção que, geralmente se concentra num único tema ou episódio;
·      um número restrito de personagens;
·      um enquadramento espacial, geralmente concentrado;
·      um enquadramento temporal, geralmente correspondente a curtos períodos.


Dá-se o nome de acção ao conjunto de acontecimentos que constituem uma narrativa e que são relatados.
Como é evidente, as várias acções que surgem numa narrativa não estão desligadas umas das outras mas relacionam-se entre si.


Síntese da acção

Rui, Guanes e Rostabal, fidalgos arruinados, eram irmãos e viviam nos Paços de Medranhos, no Reino das Astúrias. Encontraram, na mata de Roquelanes, um tesouro, um cofre cheio de moedas de ouro, e decidiram dividi-lo. Como o cofre tinha três chaves ficou cada um com a sua. Guanes foi incumbido de ir comprar comida em Retortilho e partiu. Durante a sua ausência, Rui convenceu Rostabal a matá-lo, assim que regressasse. Após a emboscada e morte de Guanes, Rui assassinou Rostabal, à traição. Quando se preparava para regressar a Medranhos, deu-lhe a fome, comeu o capão e bebeu o vinho que Guanes trouxera da vila, apercebendo-se pouco depois que tinha sido envenenado.
“O tesouro ainda lá está, na mata de Roquelanes.”


Estrutura da acção

Introdução/ situação inicial:  dois primeiros parágrafos -  apresentação das personagens, tempo e ambiente - Rui, Guanes e Rostabal, irmãos e fidalgos arruinados que viviam no Paço de Medranhos, no Reino das Astúrias.
Desenvolvimento (peripécias/indícios trágicos): do 3º até ao antepenúltimo parágrafo – descoberta do cofre, decisão de o dividir pelos três , emboscada e assassinato de Guanes, assassinato de Rostabal e envenenamento de Rui. 
Conclusão/desenlace: dois últimos parágrafos – situação final - descrição do espaço onde Rui e Rostabal estão mortos e onde o tesouro permanece.


No manual, o conto surge dividido em três partes:
·      1.ª parte – Apresentação dos irmãos de Medranhos e do seu modo de vida até à descoberta do tesouro.
·      2.ª parte – Os assassinatos de Guanes e de Rostabal como consequência da ganância pela posse exclusiva do tesouro.
·      3.ª parte – Morte de Rui e permanência do tesouro na mata de Roquelanes.


Numa narrativa, as várias acções relacionam-se entre si de diferentes maneiras:
- por encadeamento: quando as acções sucedem por ordem temporal e em que o final de uma acção se encadeia com o início da seguinte.
- por alternância: quando as acções se desenrolam separada e alternadamente, podendo fundir-se em determinado ponto da história.
- por encaixe, isto é, quando se introduz uma acção noutra.


Organização/articulação das sequências narrativas de “O Tesouro”: encadeamento – ordenadas cronologicamente.


Sequências narrativas:
·      Os irmãos de Medranhos descobrem o tesouro na mata de Roquelanes.
·      Rui afirma que o tesouro deve ser dividido pelos três em partes iguais.
·      Cada um dos irmãos guarda a chave correspondente a uma das três fechaduras do tesouro.
·      Guanes parte para Retortilho para comprar sacos e comida.
·      Rui argumenta de forma a voltar Rostabal contra Guanes.
·      Rostabal propõe a morte de Guanes.
·      Guanes regressa de Retortilho.
·      Rostabal mata Guanes.
·      Rostabal lava-se.
·      Rui mata Rostabal.
·      Rui morre envenenado.
·      O tesouro permanece na mata de Roquelanes.



Personagens

No início do conto são-nos apresentadas três personagens Rui, Guanes e Rostabal.
Para além dos nomes, ficamos a saber o seu estatuto social e a sua situação económica: trata-se de três nobres falidos (caracterização social).
Inicialmente, os três irmãos encontram-se na sua propriedade (Paços de Medranhos), uma casa muito degradada.
As personagens vivem em condições precárias, acentuadas pela estação focada – o Inverno.
A frase “E a miséria tornara estes senhores mais bravios que lobos.” Estabelece uma relação entre as condições de vida das personagens e a sua forma de ser...

Relevo

Os três irmãos são personagens principais.


Caracterização das personagens (física e psicológica) e processos de caracterização (directa e indirecta)

As características dos irmãos de Medranhos constituem factores determinantes para o desenrolar trágico da acção, quer as que são comuns aos três, quer as que os distinguem física e psicologicamente.
Para dar a conhecer as personagens, o narrador dispõe de dois processos de caracterização distintos: a caracterização directa e a caracterização indirecta.

Para além das expressões que apontam directamente para determinadas características das personagens, as suas atitudes, afirmações e comportamentos permitem-nos também conhecê-las e caracterizá-las.

Caracterização directa dos irmãos – “os fidalgos mais famintos e os mais remendados”; “mais bravios que lobos”.

Caracterização indirecta – “recuaram (...) numa desconfiança tão desabrida...”; “E cada um (...) cerrou a sua fechadura com força”...

Características físicas e psicológicas dos irmãos – pobres, desconfiados, violentos.


Caracterização directa de Rui – “Gordo e ruivo e o mais avisado”; “fala avisada e mansa”...
Caracterização indirecta – “começou por decidir que o tesouro (...) pertencia aos três”; “Se Guanes, (...), tivesse achado este ouro, não dividia connosco”...
Características físicas e psicológicas de Rui – gordo, ruivo, o mais esperto, líder, calculista, traiçoeiro (mata o irmão à traição)...

Caracterização directa de Guanes – “mais leve”; “enrugado”...
Caracterização indirecta – “a parte de Guanes seria em breve dissipada com rufiões, aos dados, pelas tavernas”; “Ao redor da palha  em que dorme, todo o chão está negro do sangue que escarra!”; “correra (...) a comprar (...) o veneno que, misturado ao vinho, o tornaria (...) dono de todo o tesouro.”...
Características físicas e psicológicas de Guanes – leve, enrugado, desconfiado, pele negra, bruto, desanuviado, enfermo, esbanjador, jogador, estragado, ganancioso, sôfrego, traiçoeiro, calculista...

Caracterização directa de Rostabal – “homem mais alto que um pinheiro, de longa guedelha”; “barbas negras”; “longas barbas”; “olhos raiados de sangue”; “pele negra”; “pescoço de grou”.
Caracterização indirecta – “como compete a quem é, como tu, o mais velho dos de Medranhos”; “és o mais forte e o mais destro”; “Guanes te tratava de cerdo e de torpe, por não saberes a letra nem os números”...
Características físicas e psicológicas de Rostabal – alto, cabelos compridos, longa barba negra, o mais velho, robusto, analfabeto, ingénuo, impulsivo...

Predomina o processo de caracterização directa, visto que a maior parte das informações são-nos dadas pelo narrador.

No entanto, os traços de traição e premeditação de Rui e Guanes são deduzidos a partir do seu comportamento (caracterização indirecta).


Concepção/ composição

–      personagens planas.
–      A personagem mais modelada é Rui, porque foi dele que surgiram as reacções mais inesperadas e individualizadas.

(Continua)

segunda-feira, 4 de junho de 2012

Não


É possível que o Presidente da República não tivesse outro remédio formal que não fosse o de ratificar o segundo protocolo modificativo do Acordo Ortográfico.
Mas acontece que o Presidente da República é hoje o único alto responsável político português que tem plena consciência de que o Acordo Ortográfico é um deprimente chorrilho de asneiras. E de que a sua adopção introduzirá um cancro incurável na ortografia da língua portuguesa.
O Presidente da República está ciente de tudo isso por ter mandado estudar a abundante documentação que lhe foi entregue oportunamente, coisa que, de resto, o Governo não fez e devia ter feito.
Sendo que todas as análises especializadas produzidas sobre o Acordo são profundamente negativas, criar condições para que ele entre em vigor, sem se promover uma sua revisão de fundo, gera uma gravíssima responsabilidade jurídica, moral, política, cívica e cultural que não pode ser escamoteada por ninguém e a que o Presidente da República não pode fugir.
A ratificação vai ainda tornar possível a sequência delirante e já anunciada pelo ministro da Cultura de ser promovida a aplicação do Acordo em Portugal, independentemente do que resolverem Angola, Moçambique e a Guiné--Bissau, mais uma vez contra o parecer dos especialistas mais abalizados.
Decorridos 18 anos sobre a enormidade e, entre o desuso, o desinteresse, a obsolescência e a verificação gritante da péssima qualidade do Acordo, não há razão nenhuma para acelerações e muito menos para o Governo português decidir aplicá-lo antes de Angola, Moçambique e a Guiné-Bissau o terem ratificado, o que, aliás, oxalá não façam nunca...
Ao contrário do que diz o ministro da Cultura, não é o Governo que decide quando o aplica em Portugal, dado o contexto em que toda a questão se coloca. Toda a lógica da situação obriga a que Portugal não se comporte com voluntarismos caprichosos de dono pesporrente da língua. E recomendaria a qualquer decisor político de boa-fé se aproveitasse o tempo ainda disponível para se promover uma revisão imprescindível.
Mas entretanto, o Governo tentará comprometer pessoalmente o Presidente da República com toda esta situação vergonhosa, já que o Acordo Ortográfico foi subscrito em 1990 quando o prof. Cavaco Silva era primeiro-ministro. Simplesmente, há indícios de a chefia do Governo da época ter sido grosseiramente manipulada.
António Emiliano acaba de publicar na Guimarães Editores o livro O Fim da Ortografia - Comentário Razoado dos Fundamentos Técnicos do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa (1990).
Aí afirma, quanto à Nota Explicativa, única peça oficial em que se fundamenta o Acordo, que "com documento tão desconchavado, tão imperfeito e tão lacunar, nenhum decisor político está ou esteve em condições de apreciar verdadeiramente o teor e as consequências da reforma".
E acrescenta: "É meu parecer profissional que o texto da Nota Explicativa peca não apenas por conter erros grosseiros de análise linguística e de apreciação da estrutura, natureza e funcionamento de um sistema ortográfico, mas também por induzir deliberadamente em erro os decisores políticos quanto à verdadeira extensão das mudanças ortográficas propostas."
De resto, António Emiliano não se limita a demonstrar que o Acordo Ortográfico é um conjunto calamitoso de erros inaceitáveis.
Indo mais longe do que quaisquer outros estudos academicamente qualificados que já aqui citei mais do que uma vez, este livro demolidor interpela o sentido de responsabilidade de todo e qualquer falante do português euro-afro-asiático-oceânico.
Da sua análise implacável resulta que se está perante um verdadeiro crime contra a língua portuguesa.
Ante todo este escândalo, a sociedade civil não pode cruzar os braços. Tem de insistir no seu protesto. Tem de engrossar o caudal das suas tomadas de posição. Tem de assinar maciçamente a petição/manifesto que corre na Internet. Tem de começar a enviar sms para todos os lados, dizendo que o Acordo Ortográfico é uma vergonha nacional. Tem de provocar a revisão dessa enormidade. Tem de afirmar em todas as ocasiões que não o aceita e se recusa a dar-lhe cumprimento.

Vasco Graça Moura (23 de Julho de 2008)


O AO é um escândalo,  não podemos cruzar os braços. Temos de lutar pela nossa língua. Temos de insistir e insistir e insistir no nosso protesto. Temos de assinar maciçamente o ILC . Temos de começar a enviar mensagens para todos os lados, para toda a gente, dizendo que o Acordo Ortográfico é uma vergonha nacional, um atentado à cultura e identidade portuguesas. Temos de provocar a revisão desta enormidade. Temos de afirmar em todas as ocasiões que não o aceitamos e nos recusamos a aplicá-lo.




Há dias assim!...



De loucos. Às vezes acontecem coisas do arco da velha. Vejamos:

1.    Acordo bastante cedo, arranjo-me, tomo o pequeno-almoço na varanda. Um dia esplêndido! Óptimo, a filhota anda desde Abril a tentar fazer uma festinha convívio com os colegas e, chove, não chove, venta, não venta, faz frio, não faz frio, há sol, não há sol... No mesmo dia sucedem-se as quatro estações... Hoje, pelo menos, logo às 7h e 30m está um sol quentinho, a água brilha lá em baixo e reflecte-se aqui em cima no tecto da varanda, espalhando-se através da janela pela cozinha, fazendo ondinhas brilhantes. Muito bem, hoje vão poder passar o dia estiraçados ao sol entre mergulhos e risadas... Estava tão absorvida nestes pensamentos e a contemplar a natureza que me brinda todas as manhãs com uma vista soberba do mar, de um lado, e, do outro, da cidade, com os mil passarinhos que se passeiam na varanda e no relvado do jardim, com a voltejar das borboletas que pousavam aqui e ali sobre as muitas flores que, quando acordei, reparei que já estava atrasada para a aula de pilates. Depus a tijela e o copo do sumo sobre o lava-louça, galguei as escadas a dizer, estou atrasada! Atirei um beijo ao maridão que o apanhou meio no ar, com um vai com calma!

2.    Cheguei mesmo atrasada, já estava toda a gente, com as bolas, a fazer exercícios, não tive lugar lá atrás e tive de ficar mesmo ao pé da professora. Que chatice! Ela vai aperceber-se de todas as minhas falhas! As bolas já estavam muito escolhidas, fiquei com uma enorme e vi-me aflita para fazer os exercícios, perdia o equilíbrio, ora caía para um lado, ora escorregava para o outro; depressa cheguei à conclusão que a culpa era da bola... Mas não desisti... E, lá fiz os exercícios como pude, com algumas gargalhadas à mistura... Enfim, devo ser a pessoa mais bem-disposta da turma, chego a rir, rio durante a aula e saio a rir. Viva a boa-disposição!

3.    Regresso a casa, tomo um duche, visto-me... como uma banana, pego na filhota e ala que se faz tarde; deixo a filhota na escola dela e rumo à minha; estaciono; entro; o funcionário pede-me que vá à secretaria com urgência; digo-lhe que vou depois da aula. Os alunos fazem teste, fazem as perguntas mais mirabolantes, mesmo depois de lhes ler as questões e de lhes perguntar se têm dúvidas. Vou à secretaria, a funcionária, com ar de profeta da desgraça, diz-me que tem muita pena, mas  que tenho um tempo injustificado... Atónita, perguntei porquê. Não avisara que ia fazer análises com não sei quantos dias de antecedência... Ter tido falta a este tempo já é mais que caricato: os alunos do apoio (dois alunos) estavam numa quermesse e eu tive falta por não ter alunos... Como não tinha alunos, aproveitei e fui fazer análises... mas, pelos vistos, deveria ter ficado na sala a olhar para as paredes ou a pregar para os peixes...

4.    Recebo um telefonema com uma notícia completamente do outro mundo, oh! Deixa lá isso, há mais marés que marinheiros, fecha-se uma porta, abre-se outra, tudo na vida tem remédio..., tens saúde, isso é que é importante... Um sem número de palavras de incentivo, mas o coração tão apertadinho e a gritar, que grande injustiça, em que raio de país é que vivemos, mas isto é de gente...

5.    Mais uma aula, os alunos sem vontade nenhuma de trabalhar, um empurrãozinho daqui, outro dali, lá consegui que fizessem alguma coisita...
       Finalmente, hora de saída...

7.    Apanhei os garotos todos e levei-os para casa, puseram música no jardim, estenderam mantas e toalhas... Enquanto preparei o almoço, ouvia-os às gargalhadas e a cantarem... E, eis que chegam os jardineiros, com todo um arsenal, para cortarem a relva... Entre cortamos, não cortamos, ficamos, não ficamos... decidiram deixar os jovens em paz e voltar noutra altura... O pior é que a relva precisa e muito de ser cortada...

8.    Recebo uma mensagem no telemóvel, do estrangeiro, não reconheço o número, dizia: “Olá, a menina está boa?” Pensei em não responder, mas, de repente, lembrei-me da Anabela, só pode ser dela e respondi: “Sempre.” Passados um segundos, recebo como resposta: “Sempre é muito vago, uma vez que desconheço o remetente.” Bem, desconhece o remetente e envia-me uma mensagem, esta gente está toda doida, só pode! Pronto, pelo menos sei que não foi a Anabela... Não respondi.

9.    Como ainda falta muito para o fim do dia, que coisas parvas me irão ainda acontecer?


domingo, 3 de junho de 2012

A Mena na cozinha



Legumes salteados com arroz da avó

1 beringela
1 curgete
1 pimento vermelho
1 pimento verde
1 cebola 
2 dentes de alho
2 tomates maduros
1 embalagem de rebentos de soja
cogumelos laminados
azeite
sal
pimenta
milho


Corte a cebola e os alhos às rodelas e aloure em azeite. Corte o resto dos legumes aos cubos, o tomate às rodelas. Quando a cebola estiver transparente, misture os legumes todos, menos o tomate. Salteie. Tempere a gosto. No fim, adicione o tomate e deixe apurar um pouco (para o tomate não se desfazer. Sirva com arroz branco da avó.
Bom apetite!

sexta-feira, 1 de junho de 2012

as meninas






as minhas filhas nadam. a mais nova 
leva nos braços bóias pequeninas, 
a outra dá um salto e põe à prova 
o corpo esguio, as longas pernas finas: 

entre risadas como serpentinas, 
vai como a formosinha numa trova, 
salta a pés juntos, dedos nas narinas, 
e emerge ao sol que o seu cabelo escova. 

a água tem a pele azul-turquesa 
e brilhos e salpicos, e mergulham 
feitas pura alegria incandescente. 

e ficam, de ternura e de surpresa, 
nas toalhas de cor em que se embrulham, 
ninfinhas sobre a relva, de repente. 




Vasco Graça Moura








Feliz Dia da Criança!

Bocas roxas de vinho - Ricardo Reis







Bocas roxas de vinho,
Testas brancas sob rosas,
Nus, brancos antebraços
Deixados sobre a mesa;


Tal seja, Lídia, o quadro
Em que fiquemos, mudos,
Eternamente inscritos
Na consciência dos deuses.


Antes isto que a vida
Como os homens a vivem
Cheia da negra poeira
Que erguem das estradas.


Só os deuses socorrem
Com seu exemplo aqueles
Que nada mais pretendem
Que ir no rio das coisas


Ricardo Reis 







Lídia, a companheira de "viagem" de Ricardo Reis é a destinatária deste poema, a quem o sujeito poético ensina a conter qualquer atitude emotiva - "fiquemos, mudos". Assim, a relação que o sujeito lírico estabelece com Lídia é pautada pela contenção, pela aceitação do destino inexorável - "Eternamente inscritos /Na consciência dos deuses." - deixando-se "ir no rio das coisas", ou seja, demitindo-se de qualquer vivência horaciana próxima do carpe diem, expressa em toda a primeira estrofe - um quadro que ele pinta com as tintas dos deuses.
A metáfora "negra poeira" encerra um sentido duplamente negativo: "negra", enquanto dolorosa, e "poeira", enquanto resíduo inútil. Deste modo, a "negra poeira" que os homens "erguem das estradas" simboliza a inutilidade de qualquer esforço humano no seu percurso existencial.
Na poética de Ricardo Reis, a relação com o tempo é definida pela consciência da precariedade e fugacidade da vida, o que o leva a deixar-se "ir no rio das coisas", sem nada mais exigir, seguindo o exemplo de "aqueles / Que nada mais pretendem".
O vocabulário empregue apela claramente às sensações - "bocas roxas", "cestas brancas", "Nus, brancos antebraços" - num convite a viver o momento como um "quadro" mudo, em que ambos se abandonam ao prazer comedido; esta ideia de abandono e contenção é expressa pelas formas verbais "Deixados" e "fiquemos".
Retomando tudo o que anteriormente foi referido, este poema é exemplo de uma filosofia de vida epicurista eivada de estoicismo: Ricardo Reis convida Lídia a gozar suavemente o presente - o momento - sem nada mais exigir que a sua fruição.