terça-feira, 9 de agosto de 2011

Quantos seremos?


Não sei quantos seremos, mas que importa?!
Um só que fosse, e já valia a pena
Aqui, no mundo, alguém que se condena
A não ser conivente
Na farsa do presente
Posta em cena!
Não podemos mudar a hora da chegada,
Nem talvez a mais certa,
A da partida.
Mas podemos fazer a descoberta
Do que presta
E não presta
Nesta vida.
E o que não presta é isto, esta mentira
Quotidiana.
Esta comédia desumana
E triste,
Que cobre de soturna maldição
A própria indignação
Que lhe resiste.

Miguel Torga


"Quem somos e o que queremos ser. Estas questões ganham maior expressão e materialidade em épocas de crise, obrigando-nos a fazer uma reflexão acerca da nossa simbologia. É neste contexto que, nos dias que correm, esta interrogação cada vez se faz mais, pois os ideários políticos da Democracia e as bases filosóficas diluem-se e a nossa essência, «aquilo que somos», é uma pergunta que escasseia, sendo posta à prova pelas leis das finanças." (...)

"Actualmente, por vivermos um momento de perplexidade e de mudança social (pois há um presente e um futuro incertos), a «identidade nacional» pretende superar a falta de memória das estruturas sociais contemporâneas." (...)

Os livros de Miguel Torga encaixam-se num paradigma literário associado à constituição de um modo de existir social, isto é, plasmam-se, porque o autor tematiza pela organicidade da comunicação; as imagens do mundo que nos delega são símbolos que testemunham a profundidade e a autenticidade do povo enraizado. Isto obriga-nos a olhar para a sua obra não só com uma arte centrada na angústia, mas também como um resíduo da experiência da universalidade. Diríamos que a sua escrita se funda sobre um mundo essencialmente rural, havendo uma abertura ontológica ao universo. Todavia, parece-nos demasiado fácil associar as obras de Torga a uma função meramente expressiva ou como decalque de qualquer «recado ideológico ou social», quando a literatura é antes de mais espaço de criação, de reinvenção e que, como tal, não pode ser reduzida a um determinismo vivencial. Esta é uma perspectiva castradora do processo de escrita; se há essa tensão entre a escrita e a consciência do escritor e do lugar, também é muito importante que vejamos cada escrito a partir daquilo a que Jean-Paul Sartre defendeu: a unidade («Chaque tableau, chaque livre est une récupération de la totalité de l'être»). Só assim poderemos interpretar o fulgor de uma escrita que deixa transpirar a carne das coisas, que é sensível ao travejamento de uma herança que, tal bicho, se enreda na palavra; a experiência humana é um retrato plasmado de confronto linguagem-realidade.

A literatura é um dos modos privilegiados da expressão da cultura e poderá constituir uma consciência do povo; porém, trata-se de uma autoconsciência reflexa na medida em que, enquanto povo, temos algo que nos distingue. Este estado de consciência baseia-se numa cultura própria que, pelas suas peculiaridades e traços caracteristicamente identificáveis pelo imaginário colectivo, é diferente de outras culturas. O seu pessoalíssimo Diário é, nesta ordem de pensamento, um misto de crítica social, de apreciações culturais e de reflexões moralistas, de um amor enternecido pelas criaturas, de uma viril e vertical busca pela essência das coisas.

Miguel Torga, poeta das coisas elementares, da terra firme e do mar que seduz, transfigura transcendentalmente essas mesmas coisas. Não é, pois, de ignorar essa intimidade com as forças elementares: a terra, o sol, o vento e a água como se desejasse uma explicação órfica da terra. O poeta é, neste contexto, um ser social, de raízes bem presas à terra, ao mesmo tempo que, numa afirmação prometaica, revolta-se contra as amarras que o prendem, numa exigência incondicional de liberdade. Nele o Homem emerge das profundezas da terra, de um remoto mundo virgem dos clãs de pastores e agricultores: há uma consciência de missão de artista que exalta as potencialidades telúricas, traduzindo esse sentimento numa escrita coberta de palavras-chave.

Todavia, sente-se insatisfeito e asfixiado, pois «não posso andar no céu/ de pés colados no chão». Daí o seu lamento, resultante da luta da vida humana com a Transcendência, testemunho da redutora condição do ser humano, perseguido pelo Pecado Original. Nesta linha, partilha da posição de José Régio ao se não conformar com a vida tal como ela foi criada. É de notar que em Alguns Poemas Ibéricos Miguel Torga apresenta-nos uma «típica concepção antropológica da Ibéria, em cujas gentes descobre seiva anímica(...)». Rejeitando qualquer transcendência à vida, a voz de Miguel Torga é uma voz que se insurge contra a mentira, a doença e a velhice; é uma obra de um humanitarismo evidente e o Diário dá-nos «depoimentos» sobre cenas da vida portuguesa.

Usando um verbo da autoria de Manuel Alegre, procuraremos demonstrar que Torga «escrevive» para acordar este país da espera, para abolir esta lei da descaracterização que ameaça a profundidade das nossas consciências e os nossos vínculos culturais: «As pátrias são espelhos gigantescos onde se reflecte a pequenez dos filhos. À nossa medida, herdamos-lhe a dimensão»[1]. E continuamos a adiar a sementeira, esquecemo-nos quase de nos inquietarmos porque não temos coragem de nos olharmos de frente, a frio: minimizamo-nos seduzidos pelos intumescimentos retóricos de uma Europa que sempre nos foi marginal, que nunca acompanhamos nos seus desenvolvimentos técnicos, mas que, melhor do que ela, soubemos arredondar o mundo e comprometer o valor da vida.


[1] Miguel Torga, Diário XV, p. 121.

José António Garcia de Chaves

2 comentários:

mfc disse...

Torga sabia viajar interiormente como poucos!

Mena disse...

Torga consegue dizer como ninguém o que nos vai na alma!

Bj