domingo, 30 de outubro de 2011

Fernando Pessoa - A fragmentação do eu / o tédio emocional


A tendência constante para a intelectualização conduz Pessoa a um permanente processo de auto-análise. A dúvida e indefinição relativamente à sua identidade, a angústia do auto-desconhecimento - "Por isso, alheio, vou lendo / Como páginas meu ser" - levam o ortónimo a ser incapaz de viver a vida, mergulhando no tédio e angústia existenciais, no desalento e no cepticismo mais profundos.
Vários acontecimentos na sua vida acentuam esse desencanto. A notícia da morte do seu grande amigo Sá-Carneiro em Paris, em Abril de 1916, por exemplo, abala-o profundamente, deprimindo-o ainda mais.
No entanto, Pessoa perseguiu insistentemente a felicidade que nunca atingiu, ou porque não encontrou quem o entendesse, ou porque ele próprio não foi capaz de sair do turbilhão em que se enredou e de se relacionar com os outros, de quem se sente irremediavelmente separado.
Insatisfeito com o presente e incapaz de o viver em plenitude, porque a fragmentação se instalou, Pessoa anseia por vivências, estados de ilusão, sonhos que possibilitem "coisas impossíveis". O desejo de viajar, de ser o que não é, reflecte a sua insatisfação permanente. Mesmo aquilo que está próximo é sentido como longínquo. Vejamos os poemas:

"Viajar! Perder países!" - A permanente fragmentação do eu é reforçada pela metáfora que inicia o poema:
  • a constante despersonalização;
  • a inexistência de motivos para viver a vida;
  • a solidão e a melancolia do sujeito poético.
"A aranha do meu destino" - Consciente de existir, o sujeito poético sente-se como uma presa de si próprio:
  • a metáfora da teia de aranha, como expressão do seu aprisionamento;
  • o desconhecimento de si próprio;
  • a consciência excessiva.
"Náusea. Vontade de nada." - O sujeito poético exprime:
  • a desistência da vida;
  • a incapacidade de agir;
  • a imagem de um eu "espectador" da vida;
  • o tédio de tudo.
"Tudo o que faço ou medito" - O sujeito poético confessa:
  • a frustração resultante da dualidade "querer" / "fazer";
  • o sentimento de náusea diante do que realiza;
  • a contradição, o conflito interior entre a alma e o ser;
  • a impossibilidade de concretizar os seus anseios.
Na poesia de Pessoa ortónimo proliferam, ainda, momentos em que o sujeito poético se assume como um ser fragmentado - "Não sei quantas almas tenho. / Cada momento mudei. / Continuamente me estranho." - um ser que se estranha a si próprio, contemplando-se de fora.

3 comentários:

Nilson Barcelli disse...

Apesar disso tudo, ou talvez por isso, a obra de Pessoa é excelente.
E é o meu poeta preferido...
Querida amiga Mena, tem um bom resto de Domingo e uma boa semana.
Beijos.

Mena disse...

Também é um dos meus preferidos!

alexandra disse...

Fernando Pessoa é, também, o meu poeta preferido.