quinta-feira, 20 de outubro de 2011

O espaço e o tempo do debate político estão a mudar

Algo de muito novo está a acontecer na esfera do debate político em Portugal. Não é ainda possível descrever a dimensão e as consequências do fenómeno. Mas, não tenho dúvidas de que é muito poderoso. Para ilustrar o que digo, recorro a um exemplo. Ontem, acordámos com a notícia de que as subvenções dos políticos não seriam abrangidas pelo corte das remunerações da função pública. A notícia propagou-se nas edições online dos jornais. As caixas de comentários rebentaram de indignação. Esta multiplicou-se na rede (blogues, twitter, fbook) dando origem a novas ondas de choque. A rede da informalidade política fervilhava. Enquanto isso, no espaço político formal, o que faziam os partidos da oposição? Seguro estremeceu ligeiramente, entreabriu a pestana e retomou de seguida o sono reparador que iniciou logo que foi eleito Secretário-Geral. Jerónimo estava algures na baixa de Lisboa numa iniciativa de protesto e indignação. Ou não sei quê. Louçã dividia-se entre a procura das caixas negras dos desastres eleitorais recentes e a escolha da melhor piada para ilustrar os cartazes que um dia destes serão colocados num outdoor perto de si. A meio da tarde, o Ministro das Finanças esclareceu que seria encontrada uma solução para incluir as subvenções no sacrifício. A quem respondeu? Exactamente. Respondeu a quem fez barulho. Isto é, à rede informal de intervenção política que se criou online e em real time. Isto enquanto os actores políticos encartados continuavam no seu espaço tradicional (Jerónimo na rua, Seguro no sofá e Louçã nos panfletos e cartazes) e no seu ritmo pachorrento. Isto é, completamente fora do tempo e do espaço reais de debate. Tiro daqui duas conclusões. A intensidade do tráfego de comunicação política está a aumentar na via que liga os que ocupam o poder e os que têm intervenção política informal (os cidadãos com acesso à rede, se quisermos). Em contrapartida, a oposição organizada está a ser ultrapassada e a tornar-se irrelevante. O mesmo se diga para as instituições em que está representada, com especial destaque, no nosso sistema político, para o parlamento. Por outro lado, constata-se a existência de uma assimetria nos meios de comunicação utilizados. O poder comunica ainda, e sobretudo, através dos canais tradicionais, com prevalência para a televisão. O feedback recebe-o cada vez mais através da rede.

Rui Rocha

Trouxe daqui!

3 comentários:

mfc disse...

Chama-se-lhe o que quiserem, mas é um novo PODER POPULAR que renasce.
E ainda bem!
É a forma de vergarmos o Poder.

Mona Lisa disse...

Olá

O povo saiu "à rua"...virtual!

Haverá mudança?!

Não creio!

Bjs.

Mena disse...

Era bom que houvesse mudança, era! E que o povo voltasse a ter algum poder...

Bj