terça-feira, 10 de Janeiro de 2012

O Mostrengo - Fernando Pessoa - Mensagem


O Mostrengo


O mostrengo que está no fim do mar
Na noite de breu ergueu-se a voar;
A roda da nau voou três vezes,
Voou três vezes a chiar,
E disse: «Quem é que ousou entrar
Nas minhas cavernas que não desvendo,
Meus tectos negros do fim do mundo?»
E o homem do leme disse, tremendo:
«El-Rei D. João Segundo!»


«De quem são as velas onde me roço?
De quem as quilhas que vejo e ouço?»
Disse o mostrengo, e rodou três vezes,
Três vezes rodou imundo e grosso.
«Quem vem poder o que só eu posso,
Que moro onde nunca ninguém me visse
E escorro os medos do mar sem fundo?»
E o homem do leme tremeu, e disse:
«El-Rei D. João Segundo!»


Três vezes do leme as mãos ergueu,
Três vezes ao leme as reprendeu,
E disse no fim de tremer três vezes:
«Aqui ao leme sou mais do que eu:
Sou um povo que quer o mar que é teu;
E mais que o mostrengo, que me a alma teme
E roda nas trevas do fim do mundo,
Manda a vontade, que me ata ao leme,
De El-Rei D. João Segundo!»


O poema é composto por três estrofes, seguidas de refrão. Há uma grande irregularidade métrica e rimática. Assim, ao lado de um grande grupo de versos decassilábicos, há versos mais curtos, sendo o refrão hexassilábico. A rima apresenta também algumas irregularidades, seguindo o esquema AABAACDCD, havendo rima emparelhada e cruzada e a particularidade de, em cada estrofe, o terceiro verso (B) não rimar com nenhum outro.
No refrão "El-rei D. João Segundo", com a variante final "De El-rei D. João Segundo", há uma ressonância conseguida, sobretudo, pela utilização de sons nasais (ão e un) que têm o seu correspondente nas conotações de força e vontade indomável inerentes à figura do Príncipe Perfeito. De notar ainda, ao longo de todo o poema, a ocorrência de outros sons nasais (em, por exemplo) e fechados (ê e ô) que lhe emprestam a profundidade e amplitude que se pressentem após a leitura.
É importante também verificar o uso cabalístico do número três e seus múltiplos: três estrofes, com nove (múltiplo de três) versos cada, tendo o refrão seis sílabas (múltiplo de três); o Mostrengo e o homem do leme falam três vezes; o Mostrengo "voou três vezes" e "rodou três vezes"; o homem do leme tremeu três vezes, ergueu as mãos do leme três vezes e "Três vezes as reprendeu".
De referir ainda a frequência de sons sibilantes (s, ch, z), que sugerem o ruído do voo do Mostrengo.
Neste poema, opõe-se dramaticamente a decisão do marinheiro português, instrumento inflexível e heróico da vontade do rei, à indignação do ser "imundo e grosso" que sai, escorrendo medos, das profundezas do mar: "Aqui ao leme sou mais do que eu:/ Sou um povo que quer o mar que é teu!".
Este facto é suficiente para que possa ser apresentado como exemplo de intertextualidade entre Pessoa e Camões. Este mostrengo tem muito a ver com o gigante Adamastor do canto V de Os Lusíadas, mas aparece, agora, apresentado de um modo mais verosímil, perseguindo a frota de Bartolomeu Dias quando, pela primeira vez, foi dobrado o Cabo da Boa Esperança. O célebre episódio do poema de Camões tem duas partes - uma profética e uma lírica - enquanto este texto da "Mensagem" é mais épico, na medida em que nos dá conta da maneira como um marinheiro português, interpelado pelo agressivo monstro voador, começa por tremer, sem deixar o leme, para acabar, na última estrofe, por emprestar à sua réplica tímida no início toda a força da determinação de um rei e de um povo firmemente decididos na sua marcha imparável para a descoberta do mundo.
A leitura do poema deixa-nos uma sensação de gravidade e mau presságio que é conseguida pela utilização de sons nasais e fechados (já referidos), e ainda pelos aspectos seguintes:
- A relação eu/tu, geradora de um clima de sem-cerimónia e agressividade entre os interlocutores (o mostrengo e o marinheiro).
- A abundância de formas verbais que sugerem movimento: ergueu, voou, tremer, rodou, poder, reprendeu, ata, etc..
- As sensações visuais que carregam o ambiente de tons tenebrosos: "noite de breu", "tecidos negros", "trevas do fim do mundo", "as quilhas que vejo".
- As sensações auditivas que, inseridas num ambiente tenebroso, vêm acentuar o carácter horrível do quadro: "voou três vezes a chiar", "as quilhas que (...) ouço".
- A localização espácio-temporal: "à roda da nau", "no fim do mar", "nas minhas cavernas que não desvendo, / Meus tectos negros do fim do mundo!", "onde nunca ninguém me visse", "mar sem fundo".
- Os movimentos circulares, sitiantes e ameaçadores, do mostrengo: "à roda da nau voou três vezes...". "... rodou três vezes, / Três vezes rodou...".
De salientar neste poema é o contraste entre o tom ameaçador das quatro perguntas do mostrengo e as respostas receosas e breves do homem do leme, nas duas primeiras estrofes (apenas o refrão "El-rei D. João segundo"), para, na última estrofe, o vermos mobilizar todas as energias e dar uma resposta relativamente longa (seis últimos versos) e conclusiva, impondo a sua vontade, que é a vontade de um povo, à arrogância inconsistente do monstro.

A nível morfo-sintáctico, há a salientar:
  • A grande quantidade de verbos (vinte e três) sugestivos de movimento, emprestando ao poema todo o seu dinamismo. Os tempos verbais mais frequentes são o pretérito perfeito, predominante na parte narrativa, e o presente do indicativo, que é quase exclusivamente utilizado no discurso directo do mostrengo e do marinheiro. Este último facto vem emprestar uma grande força e vivacidade ao poema, conferindo-lhe o tom épico, que tem o seu ponto máximo na última fala do marinheiro.
  • A fraca incidência da adjectivação (apenas três adjectivos: "negros", "imundo" e "grosso") e a grande quantidade de nomes.
  • O poema apresenta três tipos de frases: o declarativo, na parte narrativa; o interrogativo, no discurso do mostrengo; e o exclamativo, no discurso do marinheiro (refrão da primeira e segunda estrofes e seis últimos versos da terceira).
  • O poeta recorre várias vezes ao hipérbato: "três vezes rodou imundo e grosso", "três vezes do leme as mãos ergueu", "três vezes ao leme as reprendeu", "E mais que o mostrengo, que me a alma teme / E roda nas trevas do fim do mundo, / Manda a vontade, que me ata ao leme, / De El-rei D. João Segundo!".
  • A ligação das frases faz-se por coordenação (sindética e assindética) e por subordinação, sendo de salientar a frequência com que é utilizada a coordenativa "e".
A nível semântico, é um texto bastante rico:
- A animação conferida a um ser desconhecido, o mostrengo voador, que chia, vê, ouve e fala ameaçadoramente e assume a dimensão simbólica do Adamastor que corporiza todos os perigos da navegação em mares desconhecidos.
- A exclamação no refrão das duas primeiras estrofes e no final do poema, culminando a última fala do marinheiro, e em que este mobiliza todas as suas forças para dar uma resposta cabal ao monstro.
- A interrogação, utilizada quatro vezes pelo mostrengo, nas primeira e segunda estrofes, e que vem potenciar o seu tom agressivo, conseguindo-se assim que a intervenção final do marinheiro assuma um carácter mais determinante e imperativo.
- A metáfora, usada várias vezes: "Quem é que ousou entrar nas minhas cavernas (...) meus tectos negros; "E escorro os medos"; "A vontade que me ata ao leme".
- A repetição insistente de certas palavras e expressões: "Três vezes" (sete vezes) que pretende explorar o significado cabalístico do número três que, mesmo na tradição popular, assume as conotações de um triângulo ou ciclo que se fecha.
- A anáfora, nos dois primeiros versos das segunda e terceira estrofes.
- A supressão do verbo - elipse - que se subentendeu no segundo verso da segunda estrofe "de quem (são) as quilhas que vejo e ouço?".

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