quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Screvo Meu Livro à Beira-Mágoa - Fernando Pessoa - Mensagem

'Screvo meu livro à beira mágoa.
Meu coração não tem que ter.
Tenho meus olhos quentes de água.
Só tu, Senhor, me dás viver.

Só te sentir e te pensar
Meus dias vácuos enche e doura.
Mas quando quererás voltar?
Quando é o Rei? Quando é a Hora?

Quando virás a ser o Cristo
De a quem morreu o falso Deus,
E a despertar do mal que existo
A Nova Terra e os Novos Céus?

Quando virás, ó Encoberto,
Sonho das eras português,
Tornar-me mais que o sopro incerto
De um grande anseio que Deus fez?

Ah, quando quererás voltando,
Fazer minha esperança amor?
Da névoa e da saudade quando?
Quando, meu Sonho e meu Senhor?

Este poema é constituído por cinco estrofes (quadras) com versos de oito sílabas e rima cruzada (ABAB), sendo a maioria acentuados na 4.ª e 8.ª sílabas. Há ainda encavalgamento nos dois primeiros versos da segunda estrofe, nos primeiro e segundo e nos terceiro e quarto versos da terceira estrofe, em toda a quarta estrofe e nos primeiro e segundo versos da quinta estrofe.

Trata-se de um poema sebastianista, em que o poeta, nos limites da mágoa, apenas consegue preencher os seus dias no refúgio do mito dum Salvador Encoberto que há-de vir redimi-lo e realizar um sonho português de muitas eras. Estando embora ciente da sua existência, a ponto de o sentir e pensar, assalta-o a dúvida de saber quando a sua vinda (o regresso) se irá processar.

O poema divide-se em duas partes:
  • a primeira parte é constituída pelos seis primeiros versos: o poeta fala-nos da sua tristeza (três primeiros versos) e do único lenitivo para a sua dor - a crença num "senhor" que é a única entidade capaz de lhe devolver a confiança no futuro e preencher seus "dias vácuos" (4.º, 5.º e 6.º versos).
  • A segunda parte inicia-se com a conjunção "Mas" (7.º verso) e é constituída por uma série de perguntas introduzidas por "Quando" e dirigidas a essa entidade mítica que toma vários nomes (Rei, Hora, Cristo, Encoberto, Sonho, Senhor), apelando para a sua vinda rápida, única forma de materializar sonhos centenários e de o poeta se libertar do contingente, do incerto, e de alcançar uma "Nova Terra" e "Novos Céus".
Na primeira parte predomina o presente do indicativo, para traduzir a permanência (a situação actual do poeta vem-se arrastando desde o passado e tem todas as probabilidades de se continuar no futuro). As frases são do tipo declarativo. De realçar ainda a maiúscula utilizada na palavra "Senhor", a relação eu / tu e a existência de dois adjectivos bastante expressivos e de certo modo relacionados: "dias vácuos" e "olhos quentes de água".
A segunda parte é um conjunto de interrogativas introduzidas por "quando", em que o poeta interroga ansiosamente o seu presumível interlocutor sobre a Hora da sua vinda, apostrofando-o, agora, como o "Encoberto", e usando várias vezes a perífrase para o designar ou descrever:

"... o Cristo
De a quem morreu o falso Deus,"
"Sonho das eras português," (verso em que as necessidades de rima e ritmo - acentuação na 4,ª - impõem a anástrofe);
"meu Sonho e meu Senhor"

O que o poeta pode fazer resume-se a estes pedidos: o seu coração "não tem que ter", resta-lhe o mito, o sentir e o pensar. Não é de estranhar, portanto, que, nesta segunda parte, predominem os verbos no futuro, porque é só nele que o velho sonho do poeta poderá vir a tornar-se realidade.

A nível semântico, podemos salientar:
- A utilização da maiúsculas como forma de abstractização e sugestão sebastianista.

- A repetição da partícula interrogativa "quando" (oito vezes) que nos dá conta da inquietação, mesmo da angústia do poeta, que vê num futuro e numa personagem místicos a possibilidade de ultrapassar as contingências do passado e as frustrações e o tédio ("mágoa") do presente.

- A anástrofe (deslocação de elementos próximos na frase): "sonho das eras português".

- O hipérbato, na 3.º estrofe, terceiro e quarto versos.

- A interrogação que empresta ao poema uma grande expressividade e dramatismo.

- A personificação do mito, que aparece sob várias designações ou perífrases e a quem se trata por tu:
"... quando quererás voltar?"
"Quando, meu sonho e meu Senhor?" etc.

- A supressão da forma verbal "virás" nos dois últimos versos:
"Da névoa e da saudade quando?
Quando, meu sonho e meu Senhor?"
que, pela sua omissão, vem tornar o final do poema mais conciso, vivo e vigoroso.

- A expressividade e a força do final do poema deriva ainda do aproveitamento da troca de posição da partícula interrogativa "quando" do penúltimo verso (hipérbato) que, com este artifício, fica apenas separada por uma pausa do fim do verso da mesma palavra que inicia o último verso.

- A metáfora, tomada como uma ultrapassagem do sentido real das palavras para lhes emprestar um sentido imaginário, abunda no texto:
"Meus dias vácuos enche e doura"
"... o sopro incerto
De um grande anseio que Deus fez?"

3 comentários:

Mel de Carvalho disse...

Da análise poética nada sei - apenas dela, da poesia, os rudimentos que, quiçá de uma memória colectiva, transborda na noite pálida dos meus sentidos. por isso escrevo. sem pretensão e na consciência plena, uma vez mais, de que a escrita e a leitura, nos torna mais ricos.
Obrigada pela sua análise, pelas dicas de leitura e por tudo o mais.

Abraço amigo
Mel

Mena disse...

Olá, Mel!

Vou visitar-te agorinha mesmo!

Bj

Beatriz Maia disse...

Uau muito util! Obrigada!