segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Sem papas na língua


Jesus estaria contra esta política de soutien


Frei Fernando Ventura, que se tornou uma estrela do Youtube, não tem papas na língua. Este franciscano capuchinho «saiu da clausura» através da internet e não poupa críticas violentas aos políticos nem à Igreja. Considera que a revolta de Jesus, hoje, seria contra «aqueles que mamam à conta da res publica»

Onde andava o frei Fernando Ventura antes de se tornar um fenómeno na internet?

Ando aqui no mundo há 51 anos. Nasci em Matosinhos, na Senhora da Hora, e tenho vivido como emigrante praticamente desde os 17 anos. Com essa idade, fui para França estudar Medicina. Passado um ano voltei e fui para o seminário. A minha vida tem sido muito mais no estrangeiro que cá. Sou biblista, faço tradução simultânea, trabalho para a Ordem dos Capuchinhos, para a Ordem Terceira, para a Federação Bíblica Mundial. No ano passado, o sítio onde estive mais tempo seguido foi no Peru, durante três semanas. Fiquei conhecido por ter comentado, na SIC, o livro de Saramago, Caim, que gerou alguma polémica. O que está por detrás da riqueza dos conceitos de Caim e Abel é alguma coisa de fabuloso. E criou-me estranheza que um homem que se dizia de esquerda não fosse capaz de ver que o que está ali é a maior denúncia da injustiça social. Partindo da etimologia, Caim é o que possui; Abel é o que não é nada.


Quais são as situações que mais o revoltam?

Revolto-me muito. Tenho mau feitio. Vivo mais em Itália que em Portugal e cada vez vejo mais Portugal parecido com a Itália.

No que diz respeito à corrupção?

No que diz respeito à corrupção, à Máfia, à Maçonaria desviada, aos jogos de poder. Temos uma estrutura social e política montada no penacho, no compadrio, na corrupção legal. Não temos partidos com linhas políticas, temos partidos com gatafunhos ideológicos. Isto dói-me muito. A política não pode ser profissão, tem de ser serviço.

Profissão e trampolim?

Sim, sim. A pisar os outros e a passar uma mensagem negativa para o resto do mundo. No ensino não lembra a ninguém inteligente o que está a acontecer em Portugal com o Magalhães, que é simples manobra de propaganda política, é pó-de-arroz do primeiro-ministro, que bem precisa, coitado! Precisa de lifting, de peeling, de tudo. Parece que está tudo maluco. Costumo dizer que metade do mundo está maluco e a outra metade toma pastilhas. Tenho andado, nestes últimos tempos, a tratar de arranjar dinheiro para abrir poços em Timor-este. Quando chego a Portugal e ouço o Presidente da República de um país - para o qual ando a pedir dinheiro para fazer poços, para dar água às pessoas - dizer que vem comprar a dívida do meu país, alguém está a brincar com a minha cara. Ou então estão a brincar com os timorenses! Eu não podia acreditar. Este homem [Ramos-Horta] não é Presidente de Timor, de certeza. Eu ando a ver se lhe arranjo dinheiro para lhe abrir um poço, na terra dele. E ele vem tentar tapar o poço económico do meu país. Fantástico!

A democracia vive das estruturas partidárias.

Infelizmente.

Se as pessoas deixarem de acreditar nos partidos, a que se vão agarrar?

Já deixaram de acreditar.

Que reforma é que se pode fazer?

Nenhuma, porque é isso que interessa ao poder. Ter uma sociedade de gente que pensa é muito perigoso. Ter uma sociedade de gente que pensa que pensa é fantástico. Temos aí as Novas Oportunidades para isso. Nós andamos sempre à procura do pai e à espera que este nos pegue ao colo. Se alguém fizer aquilo que me cabe a mim fazer, bato palmas e fico contente.


Não lhe parece que isso que acaba de dizer pode virar-se contra a própria Igreja? Afinal, a Igreja aparece como uma entidade que oferece colo a quem se sente desprotegido.

A Igreja, nesta altura, está a ser a única voz de esperança em Portugal. Há algum tipo de pastoral que dá razão ao Freud, que dizia que a religião é uma neurose colectiva , ou ao Marx, que dizia que a Igreja é o ópio do povo . Mas lamento profundamente. Se alguma coisa a Igreja deve ser, e não pode demitir-se de ser, é uma promotora da consciência de comunidade, independentemente das opções religiosas, políticas, sexuais. Há um colo, mas um colo responsável. Agora, existem, de facto, opções pastorais que levam as pessoas de carrinho [risos], e de que maneira! Pegam naquilo que a Igreja tem de pior, que é o transformar alguém em alguém que tem uma religião. A coisa pior que lhe pode acontecer a si, ou a mim, é termos uma religião. Eu não tenho uma religião; a religião é que me tem a mim.


Então, eu não deveria ter começado por chamar-lhe frei Fernando Ventura, mas simplesmente Fernando Ventura.

Foi o nome que me puseram de baptismo. Mas frei só quer dizer irmão, não quer dizer mais nada. Este desafio de construção de fraternidade, quero reclamá-lo para mim e para toda a gente. E se eu tenho um partido, deixo de ser livre. Sou formatado para o disparate, como a quantidade de deputados que temos na Assembleia da República, que não servem para nada. Da segunda fila para trás podiam ir todos embora. Não temos dinheiro para alimentar aquela gente toda.


A Sociedade Bíblica anunciou que iria oferecer exemplares da Bíblia a todos os deputados. Enquanto especialista em assuntos bíblicos, que leituras da Bíblia lhes recomendaria?

Do princípio ao fim. Desde logo, leria o texto dos vendilhões do templo. Há alguma perda do sentido do texto a partir das traduções que temos. A partir do original grego percebe-se que a grande fúria de Jesus é contra os vendedores de pombas. Porquê? As pombas eram o sacrifício, o gesto ritual litúrgico permitido aos mais pobres porque era o mais barato. Os muito ricos podiam oferecer uma vaca, os assim-assim podiam oferecer um carneiro ou uma cabra e os pobres uma pomba. A grande revolta está contra aqueles que, a partir da religião, oprimem os mais pobres. A revolta de Jesus hoje estaria, e está, contra aqueles que, tendo obrigação de cuidar da res publica, mamam à conta da res publica. Desculpe a vulgaridade, mas temos uma política de soutien: apoia a direita e a esquerda e mama das duas. Quem se lixa é o capim. Em África, há um ditado que diz que, quando os elefantes lutam, quem se lixa é o capim. E a todos os níveis nós estamos como capim: ora veja-se o elefante da senhora Merkel, coitadinha, que como pessoa me merece todo o respeito.


Se fosse político, como arrumava este país a que chamou de barraca com um submarino à porta ?

Para já, não tinha lá o submarino. A solução está em juntar o povo das barracas. Eu nasci no bairro operário da fábrica onde o meu pai trabalhou 52 anos, onde a minha mãe trabalhou 19 anos. E onde eu trabalhei ainda dois anos, no escritório. Na minha infância bebi a solidariedade. Não havia nada escrito, mas era assumido que se uma mulher adoecia, a vizinha do lado cuidava dela, ia às compras e tomava conta da canalha. O que faz falta é tirar o submarino da porta da barraca, abrir a janela e a porta para a barraca do outro lado. E eu, dentro da minha barraca, tenho de fazer perceber ao meu vizinho que estamos juntos, que vou fazer tudo aquilo que puder para que possamos puxar as barracas para a frente.


Numa conferência em Paços de Brandão referiu que não devemos ter vergonha de dizer gosto de ti. Foi mais longe e disse mesmo que o maior pecado que nos atormenta é o da negação do amor . Hoje em dia falar de amor é quase obsceno?

É obsceno, é pornográfico, porque as palavras estão mortas. Ao longo da história da humanidade, conseguimos criar formas de morte, umas até refinadas. O que nenhuma sociedade, antes da nossa, conseguiu fazer foi matar as palavras. Hoje estão mortas e é preciso ressuscitá-las.


Há quem, de facto, queira que as palavras estejam silenciadas. O Presidente da República disse que havia palavras a mais no espaço público e político. E aconselhou o silêncio como forma de não alimentar crises.

Por isso é que ele não fala e não se compromete. Sempre que se trata de defender a dignidade de quem quer que seja, estar calado é um crime. Ponto final.


Neste momento de crise deve romper-se o silêncio?

É preciso dar voz aos que não têm voz. O que se faz, infelizmente, é estar calado perante os poderosos. Esses silêncios são criminosos. Mas deixe-me voltar à questão das palavras mortas. Tenho escandalizado muitos católicos por dizer isto: enquanto cristão, se eu não percebo que sou desafiado por Deus, todos os dias, a fazer amor com toda a gente, e sem preservativo, não sei o o que estou cá a fazer. Na vida, usamos preservativos. E não falo dos das farmácias, que esses devem ser obrigatórios. Eu tenho medo é daqueles preservativos que usamos da cabeça aos pés, numa lógica de eu não te toco e tu não me tocas.


Para si, quais são os grandes desafios com que a Igreja se debate? Como encara a polémica da pedofilia e o casamento dos padres?

É uma vergonha para a Igreja a pedofilia, mas oxalá só os padres fossem pedófilos. A sociedade estaria melhor. Em relação ao casamento dos padres, é uma questão simplesmente de política de norma, que mudará com o tempo. Tudo isto são elementos de reflexão importantíssimos, mas não é por aí que temos de começar.


Então por onde é?

Tem de se começar por explicar a toda a gente da Igreja, sem excepção, a diferença entre poder e serviço. Em vários contextos, senti-me envergonhado de ser padre, diante da miséria e da prepotência de gente que tinha a obrigação de estar ao serviço dos pobres. Critico alguns senhores de cabeção e hábito de serem uns vaidosos insuportáveis. Parece que têm Deus na barriga. E andam a arrotar Deus por todos os lados. São pessoas que dão razão a Marx, que dizia que a religião é o ópio do povo. São pessoas que se aproveitam da fragilidade do povo para o apoiar, para lhe dar conselhos. E dar conselho a alguém, a não ser que seja mentalmente incapaz, é uma falta de respeito. Diante de alguém com um problema, a minha obrigação primeira é ouvir, filtrar a mensagem, mas dar ao outro a liberdade de ser gente.


Como vai ser o seu Natal?

Eu tenho a depressão da quinquilharia natalícia . Se pudesse, nestas alturas ia para um país árabe. Incomoda-me muito a quinquilharia de Natal. E chateia-me o bonzismo natalício, a ideia de que temos de ser muito bonzinhos no Natal. Tento passá-lo sempre com o meu pai. Enquanto frades, temos a obrigação de passar o Natal nas comunidades onde estamos. Estou aqui com os meus frades, na ceia de Natal e depois vou ter com o meu pai ao Norte.


Liliana Garcia

2 comentários:

~*Rebeca e Jota Cê*~ disse...

Ah se todos pensassem dessa maneira.

Beijo imenso, Mena.

Rebeca

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M. Céu Fernandes disse...

Olá Mena!
Passei para desejar uma boa semana!
bjs,
M. Céu