terça-feira, 31 de agosto de 2010

Sou lúcido!


Cruzou por mim, veio ter comigo, numa rua da Baixa

(...)

De que serve uma sensação se há uma razão exterior a ela?

Sim, ser vadio e pedinte, como eu sou,
Não é ser vadio e pedinte, o que é corrente:
É ser isolado na alma, e isso é que é ser vadio,
É ter que pedir aos dias que passem, e nos deixem, e isso é que é ser pedinte.

Tudo o mais é estúpido como um Dostoiewski ou um Gorki.
Tudo o mais é ter fome ou não ter o que vestir.
E, mesmo que isso aconteça, isso acontece a tanta gente
Que nem vale a pena ter pena da gente a quem isso acontece.

Sou vadio e pedinte a valer, isto é, no sentido translato,
E estou-me rebolando numa grande caridade por mim.

Coitado do Álvaro de Campos!
Tão isolado na vida! Tão deprimido nas sensações!
Coitado dele, enfiado na poltrona da sua melancolia!
Coitado dele, que com lágrimas (autênticas) nos olhos,
Deu hoje, num gesto largo, liberal e moscovita,
Tudo quanto tinha, na algibeira em que tinha olhos tristes por profissão

Coitado do Álvaro de Campos, com quem ninguém se importa!
Coitado dele que tem tanta pena de si mesmo!

E, sim, coitado dele!
Mais coitado dele que de muitos que são vadios e vadiam,
Que são pedintes e pedem,
Porque a alma humana é um abismo.

Eu é que sei. Coitado dele!
Que bom poder-me revoltar num comício dentro de minha alma!

Mas até nem parvo sou!
Nem tenho a defesa de poder ter opiniões sociais.
Não tenho, mesmo, defesa nenhuma: sou lúcido.

Não me queiram converter a convicção: sou lúcido!

Já disse: sou lúcido.
Nada de estéticas com coração: sou lúcido.
Merda! Sou lúcido.


Álvaro de Campos

Podemos constatar que este poema pertence à terceira fase de Álvaro de Campos - a intimista - , visto que o sujeito poético manifesta uma revolta interior, contrariamente à revolta exterior da fase futurista-sensacionista. Assim, ele questiona "De que serve uma sensação se há uma razão exterior para ela?", afirmando até "Que bom poder-me revoltar num comício dentro da minha alma", pois sente-se "Tão deprimido nas sensações!".
O sensacionismo whitmaniano dá lugar a uma fase de introspecção, que culmina na comparação do estado de espírito do sujeito lírico com um pedinte. Neste poema, já não se verifica o êxtase provocado pela força da máquina, mas sim a tentativa de explicação do ser que se sente só ("Tão isolado na vida!") e vive "enfiado na poltrona da sua melancolia!"

A figura do pedinte surge no poema como elemento comparativo do estado de espírito do sujeito lírico.
Inicialmente, identifica-se com um "vadio e pedinte!, contudo, não no sentido usual da expressão, mas sim "isolado na alma".
O seu estado é ainda mais deplorável do que o de um pedinte, pois, enquanto este provoca pena nos que o observam, ele sente, ele sente pena de si próprio, visto que a sua pobreza não é visível pelos outros. Trata-se de um vazio interior só vivido por ele, o que o leva a exclamar "Coitado do Álvaro de Campos, com quem ninguém se importa! / Coitado dele que tem tanta pena de si mesmo!".

As frase exclamativas presentes neste poema estão ao serviço da função emotiva da linguagem. Traduzem a expressão de sentimentos de pena e de revolta, ora quando o sujeito poético assume a função de "eu" ("Sou vadio e pedinte... / E estou-me rebolando numa grande caridade por mim") ora quando assume a função de "ele" ("Coitado do Álvaro de Campos! / Tão isolado na vida! Tão deprimido nas sensações! / Coitado dele, enfiado na poltrona da sua melancolia!").
As exclamações traduzem o tumulto que vai no íntimo do poeta. A tristeza, a melancolia, o abatimento preenchem a sua alma. Sente-se um marginal, um incompreendido, pois não recebe "esmola" de ninguém, a não ser dele próprio. A própria passagem da figura de Álvaro de Campos de primeira para terceira pessoa (gramatical) será talvez estratégia do poeta para se sentir acarinhado por alguém. Curioso é que esse alguém é ele próprio.

Álvaro de Campos exprime-se em verso livre e longo, onde abundam frases exclamativas e anáforas ("Tudo mais é... / Tudo mais é..."; "Coitado dele... / Coitado dele..."). Além da comparação, surge a metáfora ("... enfiado na poltrona da sua melancolia!") a fim de intensificar o estado melancólico do poeta. Ressaltam, ainda, as antíteses ("Sim, ser vadio e pedinte, como eu sou, / Não é ser vadio e pedinte..."); ("Coitado dele que tem tanta pena de si mesmo! / Nada de estéticas com coração..."), que apontam para uma contradição de sentimentos, reflexo do estado mórbido em que se encontra o sujeito poético.






Trabalhinho:



A Mena na cozinha

Salada fresca

2 latas de atum
2 ovos cozidos
2 laranjas
duas maçãs
2 chávenas de feijão frade cozido
1 limão
sal
pimenta

Descasque a fruta e corte-a aos pedaços.

Junte o feijão, o atum e os ovos cozidos partidos aos bocadinhos.

Tempere com sal, pimenta e sumo de limão e envolva tudo muito bem.
Bom apetite!

3 comentários:

Mona Lisa disse...

Olá Mena

Adorei!

Sim, ser vadio e pedinte, como eu sou,
Não é ser vadio e pedinte, o que é corrente:
É ser isolado na alma, e isso é que é ser vadio,
É ter que pedir aos dias que passem, e nos deixem, e isso é que é ser pedinte.

Já não jantei! É tarde!

Gostei imenso do colar.

Bjs.

pursuit of happiness disse...

Olá :) ajudaou-me imenso num tpc que tinha de português. mil beijos e parabéns pelo seu blog.

Rafael Fernandes disse...

Ajudou-me bastante numa apresentação de português. Obrigado