quinta-feira, 21 de julho de 2011

Filhos





“Filho é um ser que nos emprestaram para um curso intensivo de como amar alguém além de nós mesmos, de como mudar nossos piores defeitos para darmos os melhores exemplos e de aprendermos a ter coragem.
Isso mesmo!
Ser pai ou mãe é o maior acto de coragem que alguém pode ter, porque é se expor a todo tipo de dor, principalmente da incerteza de estar agindo correctamente e do medo de perder algo tão amado.
Perder? Como?
Não é nosso, recordam-se?
Foi apenas um empréstimo!"

José Saramago



O meu pai estudou num seminário, queria ser padre. Depois conheceu a minha mãe e já não quis ser padre. Nunca ouvi o meu pai a dizer um palavrão. À minha mãe ouvi algumas vezes, quando as coisas não lhe corriam de feição, lá lhe saía um (pequenino!). O meu pai lançava-lhe logo um olhar reprovador e ela encolhia os ombros. Nem “gaita” o meu pai diz e “porra” muito menos, para não falar daqueles palavrões mais cabeludos. E não, ele nunca disse um palavrão à minha frente, à frente dos filhos. Tenho de perguntar à minha mãe se ela ouviu alguma vez o meu pai a dizer palavrões! Acho que a resposta vai ser não!

Agora reparem na seguinte situação:

O meu filho tinha quatro anos. Andava na pré-escola com mais uma série de garotinhos, todos mais ou menos da mesma idade. O Zé Maria tinha cinco anitos bem rechonchudos e era o rufia lá do sítio, um verdadeiro terrorista. As educadoras andavam sempre numa roda-viva com ele. Ele virava tudo do avesso. E quando as coisas lhe corriam mal, era um chorrilho de asneiras, daquelas completamente impensadas na boca de um ser tão pequeno. Fora isso, batia a todo o mundo e era pontapé de três em pipa nuns e noutros e nas pobres educadoras que traziam sempre as pernas cheias de nódoas negras. Ao meu filho, ele não batia, ou seja bateu-lhe uma única vez. Cheguei-me ao pé do garoto, ferrei-lhe as unhas no braço e disse-lhe, se bates outra vez no Luís, faço-te isto na pila. Olhou para mim aterrorizado e fugiu a sete pés.

Um dia, ao almoço, em casa dos meus pais, o meu filho perguntou de repente:

- Avó, o macaco tem caralh…?

Eu fiquei aflita e olhei para o meu pai que se engasgou com a pergunta do neto.

A minha mãe, calmamente, disse que sim, para ver se a conversa acabava por ali.

E a criança, inocente, ainda não satisfeita com a resposta, voltou à carga:

- Ó avó, e o leão também tem caralh…? E o porco? E o camelo?

O meu pai, vermelho como um pimentão, tossia, completamente sufocado e eu reprimia a custo uma vontade de rir de todo o tamanho.

E a minha mãe:

- Ó Luisinho, que perguntas são estas agora?

- Ó avó, o Zé Maria diz que o cavalo tem c…, O boi tem c…, o cão tem c… e eu queria saber se o leão tem c…, se o porco tem c… e se o camelo também tem c…

E repetia, repetia e repetia a palavra proibida!

Eu já não podia mais! Desatei a rir. A minha mãe assentiu primeiro, respondendo ao neto e, depois, desmanchou-se a rir. O meu pai continuava sisudo, vermelho e meio engasgado, mas eu acho que no fundo, no fundo… também lhe apetecia soltar uma boa gargalhada!


4 comentários:

Mona Lisa disse...

Olá Mena

Quem a soltou fui eu!

Saramago tem razão!

Bjs.

mfc disse...

São a nossa vida eterna!

Mena disse...

Pois é, Elisa, por muito que nos custe, temos de os deixar voar!
Bj

Mena disse...

mfc, mais uma vez tens razão!
Bj